

Ttulo: Anglica e as perfdias da corte
Autor: Anne e Serge Golon
Ttulo original: 
Dados da Edio: Editora Nova Cultural 1989
Publicao original: 
Gnero: Romance Histrico
Digitalizao e correo: Nina
Estado da Obra: Corrigida

"Voc  to bela, to mulher!" sussurra o enamorado marqus. "Eu sou apenas um soldado!"
Anglica em Versalhes!
Depois de desposar o primo, o cruel Marqus Filipe du Plessis-Bellire, finalmente a ambiciosa Marquesa dos Anjos fora admitida na corte. Levada pela mo do prprio 
Lus XIV, sentara-se entre as princesas de sangue. Os cortesos inclinavam-se  sua passagem.
Contudo, apesar da euforia da vitria, Anglica no se esquecera do passado difcil, nem da promessa de que seus filhos nunca mais conheceriam a misria. Ela prpria 
voltaria a ser uma das mulheres mais prestigiadas do reino. 
A pedido do rei, tentaria apagar de seu corao qualquer trao de amargura. Muito embora soubesse que o fogo de verdadeiro amor - a paixo pelo infeliz Conde Joffrey 
Peyrac - jamais se extinguiria.
Se o destino queria que recuperasse as foras na embriaguez de seu xito e no triunfo de sua beleza, deixaria para mais tarde a retomada de seu caminho. Por ora, 
nada a intimidava: nem a clera de Filipe, nem os perigos ocultos. Afinal, o prprio rei era seu maior aliado... 
  Vero de 1668. Versalhes est em festa. Os maiores artistas da Frana, de Lully a Molire, devem dar ao espetculo um luxo sem igual. Lus XTV quer celebrar a 
gloriosa conquista de Flandres aos espanhis.
  A Europa, surpresa, volta os olhos para o jovem soberano, por muito tempo considerado um reizinho sem importncia. J ouviu falar de seu fausto. Agora descobre 
seu maquiavelismo poltico.
 Na corte, o favor do rei  a vida ou a morte. Por um duelo, a pena  a Bastilha. Lus XIV tudo quer saber e em tudo interfere pessoalmente. Sua curiosidade e ilimitada, 
assim como sua disposio. Entre os deslocamentos de um castelo a outro, at que Versalhes se consagre como residncia definitiva, o Rei-Sol, adorado como um deus, 
trabalha incansavelmente. 
 O rei tambm  um destemido, que vai pessoalmente ao campo de batalha. E caa, e joga, e se diverte, entregando-se s amantes com um vigor que se prolongar at 
o fim de seu longo reinado de 54 anos.
  nessa corte que Anglica se apresentar mais bela e singular que nunca, acumulando favores e honrarias. Enquanto as lnguas afiadas no chegam a um acordo sobre 
o nome da nova favorita do rei...

  Anglica e as perfdias da corte
  Anne e Serge Golon

Anglica atingira seu objetivo: era de novo uma grande dama, aceita na corte. Para tanto, tivera de chantagear o primo, obrigando-o a despos-la. O cobiado e cruel 
Marqus Filipe du Plessis-Bellire, em sua clera, seria capaz de tudo para vingar-se. A noite de npcias fora um verdadeiro tormento: o marido quase a matara a 
chicotadas! Contudo, nada mais importava. Anglica estava em Versalhes e podia circular entre as princesas de sangue e as favoritas do rei.

A CORTE

CAPTULO I

Rapto de Anglica

Anglica dormitava, tendo o esprito agitado por alegres proje-tos, como uma garotinha na vspera de Natal. Por duas vezes levantou-se, pegou de um isqueiro e acendeu 
uma vela para contemplar, dispostos sobfe poltronas perto da cama, os dois trajes que usaria no dia seguinte, durante a caada real e o baile que se seguiria. Estava 
bastante satisfeita com o traje de caa. Havia orientado o alfaiate para que este desse ao gibo de veludo cinza-prola um corte masculino que contrastasse com a 
delicadeza das formas da jovem mulher. O grande chapu mosqueteiro era de feltro branco, com uma alva cascata de plumas de avestruz. Mas o que mais agradava a Anglica 
era a gravata, um novo detalhe de vesturio com o qual contava bastante para atrair as atenes e espicaar a curiosidade das grandes damas da corte. Consistia em 
um grande lao, feito de uma faixa de cambraia engomada, delicadamente bordada com prolas minsculas, que, aps ter dado vrias voltas ao redor do pescoo, desabrochava 
em forma de borboleta. A ideia viera-lhe na vspera. Ela hesitara longamente diante do espelho, amarrotara pelo menos dez gravatas entre as mais belas que o merceeiro 
da Bote d'Or lhe havia enviado, e por fim decidira-se a amarrar a fita a la cavalire, porm num lao maior que aquele usado pelos homens. Em sua opinio, axolarinho 
rijo do gibo de caa no se adequava s feies femininas. Aquela brancura enevoada sob o queixo daria um toque de feminilidade ao traje.
 Anglica deitou-se, revirando-se na cama muitas vezes. Pensou em tocar uma sineta e pedir uma tisana de verbena a fim de poder conciliar o sono. Precisava dormir 
ao menos algumas horas, pois o dia seguinte seria cansativo. O encontro para a caada teria lugar no final da manh, nos bosques de Fausse-Repose. Anglica, como 
todos os convidados do rei que vinham de Paris, devia pr-se a caminho logo ao alvorecer, a fim de se encontrar  hora prevista, junto com as equipagens vindas de 
Versalhes, no Carrefour des Boeufs. Era ali, no corao da floresta, que ficavam as cavalarias para onde os privilegiados enviavam de antemo seus animais de sela, 
que estariam ento descansados quando chegasse o momento da caa ao cervo. Naquele mesmo dia, Anglica tivera o cuidado de para l enviar, acompanhada por dois lacaios, 
sua preciosa gua Ceres, puro-sangue da Esparlha pelo qual havia pago mil pistolas.
 Ela levantou-se e reacendeu a vela. Decididamente o traje de baile era o de melhor efeito. Em cetim rosa-fogo, com uma capa de um "aurora" mais intenso, e um plastro 
rebordado com delicadas flores de ncar rosa. Como adorno escolhera prolas rosa: em cachos para os brincos, em cordo de trs voltas para o pescoo e os ombros, 
em diadema sob a forma de meia-lua para os cabelos. Tinham sido adquiridas de um joalheiro a quem Anglica tinha afeio, porque ele lhe falava dos mares quentes 
de onde vinham aquelas prolas, das demoradas transaes, difceis avaliaes, e das longas viagens por elas feitas, escondidas em saches de seda que passavam pelas 
mos de mercadores rabes, gregos e venezianos. Aquele comerciante quintuplicava seu valor com a habilidade que possua de dar a cada prola o preo da raridade 
e a impresso de que fora roubada do jardim dos deuses. Apesar da fortuna que fora obrigada a despender para tornar-se sua proprietria, Anglica no remoa nenhum 
desses pensamentos atormentados que costumam seguir-se s transaes muito disparatadas. Contemplou as prolas com deslumbramento, em seus escrnios de veludo branco, 
sobre a mesa-de-cabeceira.
 Todos os objetos delicados e preciosos que a vida podia oferecer despertavam sua gula. Nesse apetite de posse figurava-se a desforra pelos anos de misria que conhecera. 
E por milagre ela no chegava muito tarde. Ainda estava em tempo de se adornar com os mais belos adereos, de vestir as roupas mais suntuosas e de se fazer rodear 
por mveis, tapearias e bibels sados das mos de afamados artesos.
 Tudo muito custoso, mas bem escolhido, com o gosto de uma mulher experimentada, porm no desiludida.
 Seu entusiasmo continuava intacto. Ela se maravilhava s vezes, e agradecia aos cus em segredo, por jamais ter sado amargurada de suas provaes. Ao contrrio, 
seu esprito permanecia juvenil.
 Possua mais experincia do que a maior parte das jovens mulheres de sua idade, e menos desiluses. Sua vida estava semeada de prazeres cultivados e maravilhosos, 
como os conhecem as crianas. Quem jamais conheceu a fome pode regozijar-se em morder um pedao de po quente? E quem caminhou de ps nus pelas ruas de Paris, e 
chegou um dia a possuir semelhantes prolas, no se deve acreditar a mulher mais feliz do mundo?
 Novamente assoprou a vela e, deitando-se entre os finos lenis que recendiam a ris, estirou-se pensando: "Como  bom ser rica, e bela, e jovem...!"
 No acrescentou "e desejvel", pois isso lembrou-lhe Filipe, e sua alegria apagou-se-como sob a passagem de uma nuvem sombria.
 Um profundo suspiro inflou-lhe o peito.
 "Filipe!"
 Que desprezo no lhe tinha ele! Rememorou os dois meses vividos depois de seu casamento com o Marqus du Plessis-Bellire, e a situao bizarra na qual se encontrara 
por sua prpria culpa. Com o retorno da corte a Saint-Germain, no dia seguinte quele em que Anglica fora recebida em Versalhes, ela prpria tivera que voltar a 
Paris. Deveria, evidentemente, instalar-se na manso de seu marido, no Faubourg Saint-Antoine, mas ao se dirigir para o local, depois de muita hesitao, encontrara 
a porta fechada. O suo dissera-lhe que seu mestre seguira com o rei e a corte, e que no havia ordens com relao a ela. A jovem fora obrigada a se reinstalar 
na Manso do Beautreillis, que tinha sido de sua propriedade. Ali vivia desde ento, esperando um novo convite do rei que lhe permitisse encontrar sua posio na 
corte. Mas nada havia chegado, e ela comeava a se sentir cada vez mais inquieta, quando um dia, encontrando na casa de Ninon a Sra. de Montespan, esta lhe dissera:        
 - Que se passa, minha cara, voc est perdendo a razo? E o terceiro convite do rei que negligencia. De uma feita voc tinha a febre ter, de outra, era o seu 
estmago que lhe dava vapores, ou ento um boto sobre o nariz prejudicava sua beleza e voc no ousava se apresentar. So desculpas mesquinhas, e que o rei no 
pode levar em considerao, pois tem horror s pessoas doentes. Voc acabar por aborrec-lo.
 Fora assim que Anglica tivera conhecimento de que seu rnari-do, instado pelo rei a lev-la a diferentes festas, no somente nada lhe dissera como ainda a ridicularizara 
diante do soberano.
 -        Em todo caso, previno-a - havia concludo a Sra. de Montespan - de que ouvi com meus prprios ouvidos Q rei manifestar ao Marqus du Plessis o desejo de 
v-l participar da caada de quarta-feira. "E cuide para que a sade da Sra. du Plessis-Bellire no a faa negligenciar mais uma vez nossas atenes, ou ento 
eu mesmo me encarregarei de aconselh-la por escrito a que retorne para sua provncia." Em suma, voc est  beira da desgraa.
 Aterrorizada, depois furiosa, Anglica no tardara a arquitetar um plano para reparar a situao comprometedora. Iria  caada e colocaria Filipe diante do fato 
consumado. E se o rei lhe fizesse perguntas, ento diria a verdade. Filipe, diante do rei, s poderia se curvar. Debaixo de grande mistrio havia feito seus trajes 
novos e preparado o envio da gua e sua partida em coche, no dia seguinte, ao alvorecer. Um alvorecer que no tardaria a chegar sem que tivesse podido fechar os 
olhos. Obrigou-se, ento, a cerrar as plpebras, a no pensar em mais nada, e pouco a pouco mergulhou docemente no sono.
 De repente, seu pequeno co griffon Arius, enrodilhado sob a colcha, estremeceu e, pondo-se em p bruscamente, comeou a esganiar. Anglica agarrou-o e enfiou-o 
sob as cobertas, junto dela, ordenando-lhe que ficasse quieto. O animalzinho continuou a resmungar, agitado. Consentiu em permanecer tranquilo por alguns instantes 
para novamente saltar, emitindo ganidos agudos.
 -        Que acontece, Arius? - perguntou a jovem agastada. - Que se passa? Est ouvindo ratazanas?
 Ela fechou-lhe a boca com a mo e aplicou o ouvido, tentando perceber o que agitava assim o griffon. Um rudo imperceptvel, que no pde precisar no momento, chegou 
at ela. Era como o deslizar de um objeto rgido sobre uma superfcie polida. Arius rosnava.
 -        Calma, Arius, calma!
 Assim jamais conseguiria dormir! Subitamente, por trs das plpebras fechadas, emergindo de longnquas lembranas, Anglica
 teve a viso daquelas mos escuras, sujas e rugosas dos ladres de Paris, que nas espessas trevas da noite se colam  superfcie das vidraas e fazem deslizar um 
cortante e invisvel diamante.
 Ela ergueu-se de um salto. Sim. Era isso. O barulho vinha do lado da janela. Ladres!...
 O corao pulsava-lhe to violentamente que ela nada mais ouvia alm de seu batimento surdo e acelerado. Arius libertou-se e ps-se a emitir latidos agudos. Anglica 
agarrou-o e quase o sufocou para faz-lo silenciar. Quando novamente conseguiu aplicar o ouvido, teve a impresso de que algum estava no quarto. Tinha ouvido a 
janela bater. "Eles" haviam entrado.
 -        Quem est a? - gritou, mais morta que viva.
Ningum respondeu, mas passos se aproximaram da alcova.
"Minhas prolas", lembrou-se.
 Estendeu a mo pra a frente e agarrou um punhado de prolas. Quase ao mesmo tempo, o choque amortecedor de uma coberta pesada abateu-se sobre. ela. Braos nodosos 
cingiram-na e paralisaram-na, enquanto tentavam at-la com uma corda. Ela debateu-se como uma enguia, lanando gritos atravs da espessura do tecido. Conseguiu desprender-se 
e recobrar o flego para gritar:
 -        Socorro! Soe...
 Dois grossos polegares pisaram-lhe a garganta, interceptando o grito de socorro. Sentiu-se sufocar. Parecia-lhe que clares vermelhos explodiam diante de seus olhos. 
Os ganidos histricos do griffon ficavam cada vez mais distantes...
 "Vou morrer", pensou, "estrangulada por um ladro!... Que coisa mais estpida!... Filipe!... Filipe!..."
 E tudo se apagou, por fim.
 Voltando a si, a jovem sentiu um objeto deslizar de seus dedos e cair sobre o lajedo com um barulho de bolas.
 "Minhas prolas!"
 Entorpecida, debruou-se sobre a borda da enxerga onde estava estendida e avistou o cordo de prolas rosa. Devia t-lo mantido no punho crispado, enquanto era 
levada at aquele local desconhecido. Os olhos assustados de Anglica percorreram a pea. Estava em uma espcie de cela, onde a bruma da alvorada penetrava lentamente 
por uma pequena janela ogival gradeada, lutando con-
 tra a luz amarela de um candeeiro a leo em um nicho. A moblia consistia em uma mesa grosseira e um escabelo de trs ps, alm da cama precria, feita de um plano 
de madeira e de uma enxerga de crina.
 "Onde estarei? Nas mos de quem? Que estaro querendo de mim?"
 Suas prolas no haviam sido roubadas. Os ns que a atavam tinham sido desfeitos, mas a coberta fora mantida sobre a leve camisola de seda rosa. Anglica debruou-se, 
apanhou o colar e colocou-o maquinalmente no pescoo. Depois, mudando de ideia, tirou-o e enfiou-o sob o travesseiro.
 L fora, um sino tilintou, argentino. Um outro soou em resposta. Anglica notou uma pequena cruz de madeira negra enfeitada com um ramo de buxo, presa  parede 
de cal.
 "Um convento! Estou em um convento..."
 Ao escutar com ateno, podia surpreender os ecos longnquos de um rgo e de vozes salmodiando cnticos.
 "Que significa isso? Ah! meu Deus, como me di a garganta!"
 Ela permaneceu ali por um momento, prostrada, os pensamentos em desordem, querendo persuadir-se de que estava vivendo um sonho mau e de que acabaria despertando 
daquele pesadelo absurdo.
 O ressoar de passos no corredor f-la reerguer-se. Passos de homem. Seu raptor, talvez! Ah! Ah! Ele no estaria livre de explicaes. Ela no temia bandidos e lhe 
lembraria, se necessrio fosse, que o rei dos malfeitores, Traseiro de Pau, era seu amigo.
 Haviam parado diante da porta. Chaves giraram na fechadura e algum entrou. Anglica permaneceu um instante estupefata,  vista daquele que se postava diante dela.
 -        Filipe!
 Estava a cem lguas de imaginar o aparecimento de seu marido, daquele Filipe que no se dignara visit-la ao menos uma vez nos dois meses que ela j estava em Paris, 
nem mesmo por polidez, e lembrar-se de que tinha uma mulher.
 -        Filipe! - repetiu. - Oh! Filipe, que felicidade! Voc veio em meu socorro?...
 No entanto, algo de glacial e inslito no rosto do gentil-homem sustou o arrebatamento que a atirava em sua direo.
 Ele permanecia diante da porta, esttico em suas longas botas de couro branco, magnfico em seu gibo de pele de gamo cinza, bordado com sutache prateado. Os anis 
da peruca loura caam, cuidadosamente dispostos, sobre a gola de renda em ponto vene-za. Seu chapu era de veludo cinza com plumas brancas.
 -        Como se sente, senhora? - perguntou. - Est bem de sade?
Dir-se-ia que a encontrava em um salo.
 - Eu... eu no sei o que me aconteceu, Filipe - balbuciou Anglica, totalmente confusa. --Fui atacada em meu quarto... Raptaram-me e trouxeram-me t aqui. Poderia 
explicar-me quem foi o miservel que cometeu esse crime?,
 - De bom grado! Foi La Violette, meu primeiro criado de quarto.
  - ...?
 -        Obedecendo a ordens minhas - completou obsequiosamente.
Anglica deu um salto. A verdade explodia.
 De camisola, com os ps nus sobre a laje fria, correu at a janela, agarrando-se s barras de ferro. O sol erguia-se sobre o belo dia de vero, que veria o rei 
e sua corte caarem o cervo nos bosques de Fausse-Regose. Mas a Sra. du Plessis-Bellire no estaria presente. Ela volto"u-se, fora de si.
 - Voc fez tudo isso para me impedir de comparecer  caada real!
 - Como voc  inteligente!
 - Sabia que Sua Majestade jamais me perdoar esta suprema indelicadeza, e que me enviar de volta  provncia?
 -  justamente esse o meu intento.
 - Oh! voc  um homem... diablico.
 - Realmente? Saiba que no  a primeira mulher a me fazer esse gracioso cumprimento.
 Filipe ria. A- clera de sua mulher parecia vencer a resistncia de seu carter taciturno.
 - No to diablico assim, todavia - retomou ele. - Eu a fao encerrar em um convento para que possa regenerar-se nas preces e nas mortificaes. Nem mesmo Deus 
teria o que censurar nisso.
 - E durante quanto tempo deverei permanecer em penitncia?
 - Veremos!... veremos. Alguns dias, ao menos.
 - Filipe, eu... eu creio que o odeia.
 Ele riu com vontade, os lbios arregaados sobre os dentes brancos e perfeitos, em um ricto cruel.
 - Voc reage maravilhosamente. Vale a pena contrari-la.
 - Contrariar-meL. Chama a isso contrariedade? Arrombamento!... Rapto! E pensar que foi voc quem invoquei em meu socorro quando aquele bruto tentou estrangular-me...
 Filipe cessou de rir e arqueou as sobrancelhas. Aproximou-se dela para examinar as manchas azuis que lhe marcavam o pescoo.
 - Criatura! O patife exagerou. Mas penso que voc lhe deu o que fazer e aquele rapaz s sabe acatar ordens. Eu lhe recomendei que efetuasse a operao com a mxima 
discrio possvel, a fim de no chamar a ateno do pessoal de sua casa. Ele introduziu-se pela porta dos fundos de seu laranjal. No importa, da prxima vez recomendar-lhe-ei 
menos violncia.
 - Pensa em uma "prxima vez"?
 - Enquanto no for domada, sim. E enquanto levantar sua fronte obstinada, respondendo-me com insolncia, e procurando desobedecer-me. Sou monteiro-mor do rei. Tenho 
o hbito de domar as cadelas ferozes. Elas sempre acabam por me lamber as mos.
 - Preferiria morrer - disse Anglica selvagemente. - Seria mais provvel que voc me matasse.
 - No. Prefiro submet-la.
 Ele mergulhou o olhar azul no dela, e ela acabou por desviar os olhos, oprimida. O duelo prometia tornar-se feroz, mas ela j vivera outras vezes a mesma situao 
e continuou a enfrent-lo:
 - E muito ambicioso, penso eu, senhor. Estou curiosa por saber o que pretende fazer para realizar seu intento.
 - Oh! tenho a escolha dos meios - disse ele com expresso de desdm. - Aprision-la, por exemplo. Que diria de prolongar um pouco sua estada neste lugar? Ou ento... 
Posso separ-la de seus filhos.
 - Voc no o faria.
 - Por que no? Posso tambm suspender seus vveres, reduzi-la a po e gua, constrang-la a me esmolar seu po...
 - Est dizendo tolices, meu caro. Tenho minha prpria fortuna.
 - Isso pode arranjar-se. Voc  minha mulher. Um marido tem plenos poderes. No sou to tolo que no possa encontrar um dia um meio de passar seu dinheiro para 
o meu nome.
 - Defender-me-ei.
 - Quem a ouvir? Voc teve a habilidade, eu o reconheo, de conquistar a indulgncia do rei. Mas, depois do impasse de hoje, temo que no possa mais contar com 
isso. E agora a deixo com suas meditaes, pois no posso perder a partida da matilha. Penso que voc no tem mais nada a me dizer.
 - Sim! Eu o detesto com toda a minha alma!
 - O que ainda no  nada! Um dia pedir  morte que a liberte de mim.
 - Que ganhar com isso?
 - O prazer da vingana. Voc me humilhou at o sangue, mas eu tambm a verei chorar, gritar por clemncia, esfarrapada, uma infeliz semilouca.
 Anglica deu de ombros.        
 - Que quadro! Sendo assim, por que no a sala de tortura, o ferro em brasa na planta dos ps, o cavalete, os membros quebrados...
 - No... No chegarei a tanto. Acontece que tenho uma certa inclinao pela beleza de seu corpo.
 - Realmente? Ningum duvidaria disso. Voc a manifesta com tanta frequncia!
 Filipe, que j se achava prximo da porta, voltou-se com os olhos semicerrados.        
 - Seria isso uma queixa, minha cara? Que feliz surpresa! Sentiu tanto assim a minjia falta? Acredita que no sacrifiquei o suficiente no altar dos seus encantos? 
No haveria ento um nmero suficiente de amantes para ali render homenagens, a ponto de voc reclamar as de um marido? Eu tivera no entanto a impresso de que voc 
se havia submetido com desagrado, mas talvez tenha me menospre...
 - Deixe-me, Filipe - disse Anglica com apreenso, ao v-lo aproximar-se.
 Sentia-se nua e desarmada em sua fina camisola.
 -        Quanto mais a contemplo, menos vontade tenho de deix-la - disse.
 Ele enlaou-a, apertando-a contra seu corpo. Ela estremecia, e uma vontade terrvel de explodir em soluos nervosos oprimia-lhe a garganta.
 - Deixe-me. Oh! eu lhe suplico, deixe-me.
 - Adoro ouvi-la suplicar.
 Ergueu-a como a um filete de palha e deixou-a cair sobre a enxerga monstica.        
 - Filipe, est lembrado de que estamos em um convento?
 - E ento? Acaso voc pensa que duas horas de estada neste piedoso local lhe permitem o benefcio do voto de castidade? Alis, pouco importa. Sempre tive grande 
prazer em violar as freiras.
 - Voc  a mais ignbil criatura que conheo.
 - Seu vocabulrio amoroso no  dos mais ternos - disse ele, desatando o boldri. - Voc ganharia em frequentar o salo da bela Ninon. Trgua dessas denguices, 
senhora. Voc m fez lembrar, felizmente, de que tinha deveres para consigo, e eu os cumprirei.
 Anglica fechou os olhos. Deixara de resistir, sabendo por experincia prpria o que aquilo poderia custar-lhe. Passiva e desdenhosa, suportou o penoso amplexo 
que ele lhe infligia como uma punio. S lhe restava imitar, pensou, as esposas malcasadas - e Deus sabe que formam uma legio - que se resignam, pensam em seus 
amantes ou dizem o tero, aceitando as homenagens do qiiinquagenrio panudo ao qual se vem ligadas pela vontade de um pai interesseiro. No era, evidentemente, 
o caso de Filipe. Ele no era nem qiiinquagenrio nem panudo, e fora Anglica quem quisera despos-lo. Mas agora podia arrepender-se  vontade. Era muito tarde. 
Devia aprender a conhecer o senhor que oferecera a si mesma. Um bruto, para quem a mulher no passava de um objeto por meio do qual empreendia sem nuana a busca 
de uma satisfao fsica. Mas era um bruto slido e flexvel, e em seus braos era difcil desviar o pensamento ou dizer padres-nssos. Ele conduzia a aventura a 
galope, como um guerreiro que, comandado pelo desejo, houvesse perdido, na exaltao e na violncia das noites de batalha, o hbito de reservar espao para o sentimento.
 No entanto, no momento de deix-la, ele teve um gesto delicado, que ela acreditou mais tarde ter sido apenas fruto de sua imaginao: pousando a mo no pescoo 
inclinado da jovem, no local onde os dedos grosseiros do criado haviam deixado marcas azuladas, ali demorou-se um instante, como numa imperceptvel carcia.
 Mas Filipe j se punha em p, cobrindo-a com um olhar perverso e zombeteiro.
 -        Bem, minha bela, creio que voc est mais bem-comportada.
Eu lhe disse. Breve voc rastejar. E, enquanto se espera, desejo-lhe uma agradvel estada nestes stios de paredes espessas. Voc poder chorar, gritar e praguejar 
 vontade. Ningum a ouvir. As religiosas tm ordens de lhe dar de comer, mas sem que voc arrede um passo fora daqui. Saiba que tm a reputao de se desincumbir 
bastante bem de seu papel de carcereiras. Voc no  a nica pensionista forada deste convento. Fique a gosto, senhora!  possvel que, ao anoitecer, escute as 
trompas da caada real. Farei com que toquem uma fanfarra em sua inteno.
 Ele saiu sob uma exploso de riso zombeteiro. Seu riso era detestvel. Ele s sabia rir por vingana.
 Depois que Filipe saiu, Anglica permaneceu por muito tempo imvel, envolta na grosseira coberta, onde se demorava um perfume de homem, composto de essncia de 
jasmim e de couro novo. Sentia-se lnguida e sem coragem. As angstias da noite, acrescidas  irritao causada pela discusso, fizeram com que se abandonasse com 
os nervos  flor da pele s exigncias de seu marido. Violentada, no tinha mais foras, e seu corpo mergulhara em um entorpecimento prximo do bem-estar. Uma nusea 
to sbita quanto inesperada subiu-lhe aos lbios e ela lutou por um momento, o suor nas tmporas, contra um incoercvel mal-estar. Caindo sobre a enxerga, sentiu-se 
mais deprimida do que nunca. Esse desfalecimento confirmava os sintomas que quisera subestimar havia um ms. Mas agora era preciso aceiar a evidncia. A horrvel 
noite de npcias que vivera no Plessis-Bellire, da qual no podia se lembrar sem enrubescer de vergonha, havia produzido seus frutos. Estava grvida. Esperava um 
filho de Filipe, desse homem que a odiava e que havia jurado vingar-se e atorment-la at a loucura.
 Por um momento Anglica sentiu-se esmagada e teve a tentao de se abandonar e renunciar  luta. O sono chegava. Dormir! Depois recobraria a coragem! Mas no era 
o momento de dormir. Ento seria muito tarde. Teria provocado a clera do rei e seria banida para sempre de Versalhes, e mesmo de Paris.
 Levantou-se, correu at a porta de espessa madeira, que martelou com os punhos at v-los esfolados, gritando, berrando:
 - Abram! Tirem-me daqui!
 Agora o sol penetrava em flocos na cela. Naquele momento as equipagens do rei se reuniam no ptio de honra, e as carruagens dos convidados parisienses franqueavam 
a Porte Saint-Honor. Somente Anglica faltaria ao encontro.
 'E preciso que esteja presente! E preciso que esteja presente! Se me incompatibilizar com o rei, estarei perdida. S o rei pode dominar Filipe.  preciso juntar-me 
 caada real custe o que custar!"
 "Filipe no falou das trompas da'caada real que seria possvel distinguir daqui? Estarei eu ento em um convento nos arredores de Versalhes? Oh!  absolutamente 
necessrio que consiga sair deste lugar.
 Mas dar voltas ao redor da cela no a levava a nenhuma soluo. Por fim, um rudo de pesados tamancos ressoou no corredor. Anglica imobilizou-se, cheia de esperana, 
e depois voltou ao catre, onde se estendeu com seu ar mais meigo. Uma grossa chave girou na fechadura e uma mulher apareceu. No era uma religiosa, mas uma criada 
em roupas de fusto e grande touca de percal, que entrou carregando uma bandeja.
 Ela resmungou um bom-dia rude e comeou a dispor sobre a mesa o contedo da bandeja, que parecia parco. Um frasco de gua, uma escudela de onde vinha um vago odor 
de lentilhas com toucinho, um po redondo.
 Anglica observou a criada com curiosidade. Talvez aquele fosse o nico contato com o exterior que teria durante o dia inteiro. Era preciso aproveitar a ocasio. 
A jovem no parecia ser uma daquelas pesadas camponesas que se encontram geralmente esfregando os claustros. Bela mesmo, com grandes olhos negros cheios de fogo 
e de rancor, e um meneio de quadris sob as saias de fusto que muito dizia sobre suas atividades passadas. O olho experimentado de Anglica no podia equivocar-se, 
e muito menos diante da espcie de injrias que a garota deixou escapar, quando derrubou por descuido a colher da bandeja. Era sem sombra de dvida um dos mais dedicados 
vassalos de Sua Majestade o Grande Cosre, rei dos malfeitores.
 -        Salve, frangine, companheira - disse Anglica, em gria.
A outra voltou-se de um golpe e seus olhos esbugalharam-se ao ver Anglica esboar o sinal de reconhecimento dos vagabundos de Paris.
 -        E essa, agora! - fez ela aps ter-se recobrado um pouco de sua estupefao. - E essa agora! Se eu soubesse... Disseram-me que
voc era uma verdadeira marquesa. Ento, minha pobre criana, voc tambm foi apanhada por esses sujos da Companhia do Sagrado Sacramento? Falta de sorte, hein! 
Com essas aves de mau agouro, no h mais como fazer o seu trabalho tranquilamente!
 Ela veio sentar-se aos ps da enxerga da prisioneira, cruzando sobre os seios provocantes o xale de l cinza.
 -        Faz seis meses que estou nesta casa. Pois sim que estou brincando!  uma coisa preciosa poder v-la. Isso vai me distrair um pouco. Em que bairro voc 
trabalhava? Anglica teve um gesto vago:
 - Um pouco em cada canto.
 - E quem  seu barbillon?
 - Traseiro de Pau.
 - O Grande Cosre! Com a breca, minha bela, voc est bem cuidada. Para uma novata, teve uma grande estreia. Pois  novata, est claro. Eu nunca a vi antes. Como 
se chama?
 - Bela Angela.
 - E eu, Domingo. Deram-me esse nome devido  minha especialidade. Eu s trabalhava no domingo. Uma ideia que me veio por acaso para no fazer como todo mundo, e 
uma boa ideia, pode acreditar. Tinha conseguido ajeitar bem o meu negcio. Bater perna, s diante das igrejas. E sabe, aqueles que no estavam muito decididos na 
entrada-, tinham tempo de refletir fazendo suas oraes. Uma bela garota <iepois de uma boa missa, por que no? Isso me dava,  sada, maislientes do que eu podia 
satisfazer. Mas que algazarra entre as beatas e os devotos! Podia dizer que toda Paris faltava  missa por minha causa! Ah! Eles tiveram trabalho para me prender! 
Foram at o Parlamento para pedir minha priso. Esses
 devotos so sditos do inferno, isso sim! Mas eles so fortes. E eis onde estou agora. Nas Agostinianas de Bellevue. Agora  minha vez de cantar as vsperas. E 
a voc, que lhe aconteceu?
 - Um protetor que queria me instalar por sua conta. Eu aproveitei como pude, fiz com que .me desse dinheiro, e depois... eu no quis mais saber. No gostava dele. 
S que ele decidiu vingar-se enviando-me a um convento, at que eu mude de opinio.
 - Existe realmente gente ruim no mundo - suspirou Domingo, levantando os olhos aos cus. - Sem contar que  um avarento esse seu amigo. Eu ouvi quando se discutia 
o preo para guard-la aqui, com a madre superiora. Vinte escudos, e s, como para mim. E o que paga a Companhia do Sagrado Sacramento para que eu seja guardada 
a ferrolhos. Sob esse regime voc s tem direito a ervilhas e favas.
 - Aquele sujo! - bradou Anglica, atingida duramente por esse ltimo detalhe.
 Seria possvel imaginar uma personagem mais repulsiva que aquele Filipe? E avaro, alm de tudo. Atmercadej-la ao preo de uma jovem da galanteria! Ela agarrou 
o punho de Domingo.
 -        Oua!  preciso que voc me tire daqui. Tenho uma ideia. Voc vai me emprestar suas roupas e me indicar por onde devo passar at encontrar uma porta que 
d para os campos.
 A outra se revoltou.
 - Era o que faltava! E como poderia ajud-la a sair de um lugar de onde eu mesma no pude sair?
 - No  a mesma coisa. Voc, as freiras j conhecem. Elas logo a descobririam. Mas a mim nenhuma viu ainda de perto, a no ser a madre superiora. E se elas me encontrarem 
nos corredores poderei lhes dizer qualquer coisa.
 - E verdade - reconheceu Domingo. - Voc chegou amarrada como um salsicho. Era plena noite. Fizeram-na subir direta-mente para c.
 - Voc v! Tenho boas chances de conseguir. Rpido, passe-me sua saia.
 - Calma, marquesa - resmungou a pequena com um olhar maldoso. - "Tudo para mim, nada para os outros" parece ser a sua divisa. E o que ganhar com isso a pobre Domingo, 
que todo mundo esquece atrs de suas grades? A mer... certamente, e talvez um fundo de fossa mais profundo ainda.
 - E isto - disse Anglica, trazendo  luz, com mo gil, o cordo de prolas rosa que estava sob o travesseiro.
 Diante daquele rorejar de esplendor cor de aurora, Domingo ficou to espantada que s conseguiu emitir um longo assobio de admirao.
 - Isso  falso, frangine - murmurou, aparvalhada.
 - No. Sopese-o. Tome.  seu se me ajudar.
 - Sem trapaa?
 - Palavra. Com isso, quando voc sair daqui poder se vestir como uma princesa e se instalar com suas coisas.
 Domingo passava entre as mos a jia principesca.
 - Ento, resolveu?
 - De acordo. Mas tenho uma ideia melhor que a sua. Espere. Voltarei.
 Ela deslizou o colar para dentro das saias e saiu. Sua ausncia prolongou-se por uma eternidade. Por fim apareceu arquejante, com um pacote de roupas sob um brao 
e um boio de cobre pendurado no outro.
 -        Foi a Madre Ivone, aquela peonhenta, que quis me fisgar, ufa! Consegui mand-la s favas. Rpido, porque a ordenha vai acabar logo. A essa hora as mulheres 
vm pegar o leite na fazenda do mosteiro. Voc vai colocar estas roupas de vaqueira, e pegar seu boio e sua almofada; descer pela escada do pombal, que lhe indicarei, 
e quando estiver no ptio voc se misturar com as outras e dar um jeito de sair com elas pelo trio. Mas tome cuidado para que o leite se equilibre bem sobre sua 
cabea.
 O plano de Domingo se realizou sem problemas. Menos de um quarto de hora mais tarde, a Sra. du Plessis-Bellire, com uma saia curta listrada de vermelho e branco, 
e o talhe cingido por um cor-selete negro, tendo numa das mos os sapatos, muito grandes, e na outra a ala do boio de cobre que oscilava perigosamente, se" encontrava 
na estrada empoeirada com a louvyel ambio de atingir Paris, que se divisava ao longe, no vale, atravs de uma bruma de sol.
 Ela havia chegado no fim da distribuio no ptio da fazenda, onde as irms conversas, aps terem ordenhado as vacas, distribuam o leite entre as Jnulheres encarregadas 
de lev-lo at Paris e seus arredores.
 Uma velha religiosa, que presidia a chamada, se perguntara de onde teria sado aquela recm-chegada; mas Anglica, com seu ar mais beato, respondera a todas as 
perguntas em seu pato do Poi-tou, e, como se obstinasse em estender-lhe alguns centavos - generosamente adiantados por Domingo -, havia sido servida, e deixaram-na 
partir.
 Agora era preciso se apressar. Estava a meio caminho entre Versalhes e Paris. Depois de refletir, havia chegado  concluso de que se dirigir diretamente para Versalhes 
era loucura. Poderia ela se apresentar diante do rei e sua corte em saias listradas de Margoton?
 Era melhor voltar a Paris, envergar seus adornos, tomar sua carruagem e juntar-se  caada a galope, atravs do bosque.
 Anglica caminhava depressa, mas tinha a impresso de no avanar. Os ps nus chocavam-se contra os pedregulhos agudos. Quando calava os grosseiros sapatos, ela 
os perdia e.tropeava. O leite marulhava, a almofada escorregava.
 Por fim, a carreta de um caldeireiro que ia para Paris alcanou-a. Ela acenou-lhe vigorosamente.
 - Poderia levar-me, amigo?
 - Com toda a vontade, minha bela. Em troca de uma beijoca eu a levo at Notre-Dame.
 - No conte com isso! Meus beijos, eu os guardo para meu prometido. Mas lhe darei este boio de leite para suas Crianas.
 - Aceito!  um ganho inesperado! Suba ento, pequena to bonita quanto esperta.
 O cavalo trotava bem. s dez horas estavam em Paris. O caldeireiro percorreu um bom pedao at o cais. Depois do qu, Anglica correu como um elfo at sua manso, 
onde o suo quase caiu de costas ao reconhecer sua senhora disfarada de camponesa dos arrabaldes.
 Desde o amanhecer, os empregados se interrogavam sobre os mistrios daquela casa. Ao pavor de haver constatado o desaparecimento de sua senhora se havia juntado 
o espanto ao ver o criado do Sr. du Plessis-Bellire, um homenzarro desajeitado, insolente e arrogante, apresentar-se para requisitar todos os cavalos e carruagens 
da Manso do Beautreillis.
 - Todos os meus cavalos! Minhas carruagens! - repetiu Anglica, petrificada.
 - Sim, senhora - confirmou o mordomo Rogrio, que viera at ali.
 Ele baixava os olhos, confuso por ver sua senhora em corselete e touca branca, como se a estivesse vendo completamente nua. Anglica reagiu valentemente.
 -        Pouco importa! Irei procurar a ajuda de uma amiga. Javotte, Teresa, apressem-se. Preciso de um banho. Preparem meu gibo de caa. E que me faam subir 
algo de comer, com um frasco de bom vinho.
 O timbre claro de um relgio soando as doze badaladas do meio-dia f-la sobressaltar-se.
 "Sabe Deus a desculpa que Filipe ter inventado para explicar minha ausncia a Sua Majestade! Que havia tomado um purgante e que estava de cama, contorcendo-me 
de enjoo...  bem capaz disso, aquele animal! E agora, sem minha carruagem, sem meus cavalos, conseguirei ao menos chegar antes do pr-do-sol? Maldito Filipe!"
 CAPITULO II
 
 A Srta. de Parajonc e sua velha carruagem
 
 "Maldito Filipe!", repetiu Anglica. Firmando-se na portinhola, ela olhava com apreenso o caminho escavado de carris por onde a miservel carruagem avanava precariamente.
 A floresta adensva-se. As razes dos enormes carvalhos sobressaam-se na lama como grossas serpentes verdes e se entrecruzavam at o meio da estrada. Mas poderia 
ser chamada de estrada aquela depresso lamacenta, lavrada pela passagem recente de inmeros carros e cavaleiros?
 -        Jamais chegaremos - gemeu a jovem, voltando-se para Lonide de Parajonc, sentada a seu lado.
 A velha preciosa restabeleceu com um golpe seco do leque o equilbrio da peruca, que um solavanco havia deslocado, e respondeu alegremente:
 - No se indisponha com o bom senso, minha bela. Sempre se acaba por chegar a algum lugar.
 - Depende da equipagem e ao fim de quanto tempo - retrucou Anglica? com os nervos  flor da pele. - E quando o objetivo da viagem  o de juntar-se  caada real, 
o que j devia ter sido feito h seis horas, e se corre o risco de faz-lo a p para ouvir o toque de retirada, motivos existem para se estar jenraivecida. Se o 
rei se deu conta de minha ausncia, jamais me perdoar esta nova descortesia...
 Um choque violento acompanhado de um estalido sinistro projetou-as uma contra a outra.  -
 -        Que a peste carregue com sua velha carroa! - gritou Anglia -, ela  menos segura que um barril de arenques. Bem no ponto para se fazer uma fogueira. 
Dessa vez a Srta. de Parajonc se sentiu vexada:
 -        Convenhamos que meu "gabinete" volante no tenha a qualidade das maravilhosas carruagens que se encontram em suas cavalarias, mas voc pareceu bastante 
contente por encontr-la  disposio, esta manh, j que o Sr. du Plessis-Bellire, seu marido, julgou apropriado e divertido fazer conduzir todos os seus cavalos 
disponveis a um lugar misterioso, somente dele conhecido...
 Anglica suspirou de novo.
 Onde estariam as gualdrapas cor de amaranto, bordadas a ouro e com franjas de seda vermelha, de sua equipagem particular? Ela que tanto se havia rejubilado por 
poder enfim assistir a uma caada real nos bosques de Versalhes!
 Anglica se imaginara chegando ao encontro dos convidados de honra com sua atrelagem de seis cavalos cor de bano, seus trs lacaios em libr azul e cor de junquilho 
brilhando de nova, o cocheiro e o postilho com botas de couro vermelho e chapus ornados de plumas. Cochichariam: "A quem pertence essa suntuosa equipagem? - A 
Marquesa du Plessis-Bellire. Vocs sabem, aquela que... Ela no  vista com frequncia. Seu marido a mantm escondida. E ciumento como um tigre... Mas parece que 
o rei perguntou por ela..."
 Anglica se havia preparado com o maior cuidado para esse dia decisivo. Estava resolvida a no mais permitir que a deixassem de lado. Assim que tivesse colocado 
um p na corte, colocaria o outro, e Filipe poderia maquinar  vontade seu afastamento! Ela atrairia os olhares por sua beleza, elegncia e originalidade. E se imporia, 
se fixaria, se incrustaria como todos os outros, parasitas e ambiciosos. Fora com a timidez e a discrio!
 A Srta. de Parajonc deu uma gargalhada maliciosa por trs do leque.
 -        Eu poderia dizer o que voc est pensando, mesmo sem ser grande adivinha. Reconheo sua expresso de luta. Que fortaleza se prepara para conquistar? O 
prprio rei... ou seu marido?
 Anglica deu de ombros.
 -        O rei? Ele j est provido e bem guardado. Uma mulher legtima: a rainha; uma amante oficial: a Srta. de La Vallire, e todas as outras. Quanto a meu marido, 
por que imagina que eu me interessaria por uma praa-forte que j foi ocupada? Seria congruente, para empregar uma de suas expresses, que diante do contrato firmado 
dois esposos continuassem a se interessar um pelo outro? Isso seria muito burgus! A solteirona cacarejou:
 -         minha opinio que esse atraente marqus continua, no entanto, a se interessar por voc de modo bastante curioso!
 Ela passou a lngua pelos lbios secos com voracidade.
 -        Conte-me mais um pouco, minha cara.  uma das histrias mais divertidas que j ouvi. Verdade, de fato? Nem mais um cavalo em suas cavalarias esta manh, 
quando quis tomar o caminho de Versalhes? E a metade de seus lacaios desaparecida! O Sr. duPlessis deve ter-se mostrado bastante generoso com seus serviais... E 
voc de nada desconfiou, nada percebeu...? Antigamente voc era mais astuciosa, minha amiga.
 Um novo choque sacudiu-as. Javotte, a pequena camareira, sentada diante delas, no desconfortvel assento de dobradias, foi pro-jetada para a frente e."acabou por 
esmagar o lao de tela de ouro com o qual Anglica prendia  cintura o rebenque de amazona. O lao ficou em farrapos e Anglica, em seu nervosismo, esbofeteou a 
garota, que retomou seu lugar choramingando. De bom grado teria completado a distribuio, aplicando energicamente a mo no rosto emplastrado de alvaiade de Lonide 
de Parajonc. Sabia que esta se rejubilava com seus dissabores. No entanto fora a ela,  velha preciosa, vizinha e semiconfidente-de seus sofrimentos, que Anglica 
se dirigira em seu desatino, quando diante do procedimento inqualificvel de Filipe no tivera outro recurso seno o de pedir emprestada uma carruagem a alguma amiga. 
A Sra. de Svign estava no campo. Ninon de Lenclos bem que a teria ajudado, mas sua reputao de grande cortes a mantinha afastada da corte e sua equipagem corria 
o risco de ser reconhecida. Quanto s outras relaes parisienses de Anglica, ou aquelas damas estavam, elas tambm, naquele dia, em Versalhes, ou no estavam, 
e ento nada se poderia esperar de seu ciumento rancor. Restava a Sita. de Parajonc.
 Mas Anglica, doente de impacincia, fora obrigada a esperar que a solteirona, muito excitada, colocasse seus mais belos adornos, de um grotesco fora de moda, que 
a criada desembaraasse os cabelos de sua mais bela peruca, que se tirasse a gordura da libr do cocheiro e lustrasse o verniz da precria carruagem.
 Por fim estavam a caminho. E que caminho!...
 - Esta estrada, esta estrada - gemeu, tentando mais uma vez divisar uma clareira em meio ao tnel intrincado de grandes rvores.
 - De nada lhe adianta inquietar-se - disse doutoralmente a Sita. de Parajonc. - S ir estragar sua pele, o que seria unia pena. Esta estrada  como deve ser. Voc 
devia se dirigir ao rei, pois  a ele que agrada nos mandar chafurdar em tais lugares. Ouvi dizer que, outrora, por aqui s passavam alguns comboios de bois trazidos 
da Normandia, de onde esse nome, Chemin des Boeufs. Nosso falecido Rei Lus XIII aqui vinha caar, mas no lhe teria vindo  ideia arrastar com ele toda a fina flor 
da corte. Lus, o Casto, era um homem equilibrado, simples e razovel.
 Ela foi interrompida por um estalido, seguido de solavancos incontrolveis.
 A carruagem pendeu para o lado, depois alguma coisa raspou com fora nas pedras do caminho, e por fim uma roda se desprendeu enquanto as trs viajantes caam umas 
sobre as outras.
 Anglica encontrava-se no fundo, do lado da roda quebrada, e pensava com desespero em sua bela vestimenta de amazona que suportava o peso duplo da Srta. de Parajonc 
e de Javotte. No ousava, no entanto, libertar-se, pois a vidraa se estilhaara contra o solo, e seria demais cortar-se e inundar-se de sangue!
 A outra portinhola abriu-se, e o pequeno lacaio Flipot inclinou para ela o rosto esperto.
 -        Vai mal a, marquesa? - perguntou, ofegante.
Anglica no estava em estado de cham-lo a uma linguagem mais correta.
 -        E a velha Bastilha, ainda resiste?
 -        Resiste - respondeu alegremente Lonide, a quem nada agradava tanto quanto as aventuras movimentadas. - Insolente, d-me sua mo e ajude-me a sair daqui.
 Flipot agarrou-a como pde. Com a ajuda do cocheiro, que havia conseguido acalmar os dois cavalos e desatrel-los, as duas mulheres e a criadinha logo se encontravam 
em p no caminho enlameado.
 Haviam se salvado sem um s arranho.
 Mas isso no tornava a situao menos lamentvel e desesperadora.
 Anglica desistiu de explodir em imprecaes. A clera de nada serviria. Estava tudo perdido! No somente no conseguiria juntar-se, naquele dia,  caada real, 
como jamais poderia retornar  corte. O rei no lhe perdoaria aquela nova ausncia. Deveria ela escrever-lhe ou jogar-se a seus ps, tentar fazer intervir a Sra. 
de Montespan ou o Duque de Lauzun? E o que alegaria?... Um acidente de carruagem? Era a verdade, afinal, mas, infelizmente, pareceria um pretexto um tanto equvoco. 
No era sempre um incidente com a carruagem que se invocava no caso de um atraso constrangedor? Ela sentou-se sobre um tronco cado, absorvida em reflexes to amargas 
que no se apercebeu da aproximao de uma pequena tropa de cavaleiros.
 -        Vem vindo gente - falou Flipot a meia voz.
 Fez-se um silncio atravs do qual s se ouvia o barulho dos cascos dos cavalos que vinham a passo. Ento a Srta. de Parajonc cochichou:
 -        Deus do cu, so bandidos! Estamos perdidos.
 
 CAPTULO III
 
 Anglica enfrenta o descontentamento do rei
 
 Anglica levantou a cabea. Na penumbra do caminho, os recm-chegados no tinham, em verdade, muito boa aparncia. Eram homens altos e magros, de tez bronzeada 
e olhos sombrios, com aqueles bigodes e barbichas negras que j estavam se tornando fora de moda h alguns anos e se perdera o hbito de ver em lie de Fran-ce. Vestiam 
um uniforme de um azul apagado, com aplicaes desbotadas ou arrancadas. As plumas dos chapus descorados eram ralas. Algumas casacas, esfarrapadas. No entanto, 
quase todos traziam uma espada. A frente, dois latages carregavam bandeiras ricamente decoradas, apesar de bastante rasgadas e esburacadas. Bandeiras que sem sombra 
de dvida haviam conhecido o vento quente das batalhas.
 Alguns homens da tropa que vinham a p, carregando lanas e mosquetes, passaram indiferentes diante da carruagem tombada. Mas o primeiro dos cavaleiros, que devia 
ser o comandante, parou diante do grupo formado pelas duas mulheres e seus serviais.
 - Irra, bela gente, o deus Mercrio, que protege os viajantes, parece ter tido a vilania de abandon-los!
 Ao contrrio de seus companheiros, era bem provido de carnes. No entanto, as dobras flutuantes de seu gibo mostravam que devia ter conhecido outrora uma compleio 
mais satisfatria. Ao tirar o chapu, mostrou uma fisionomia jovial e bronzeada.
 O falar cantado traa-lhe as origens. Anglica sorriu-lhe graciosamente e respondeu no mesmo tom:
 - Monseigneur  no mnimo da Gasconha!
 - Nada se pode esconder da mais bela das divindades destes bosques! Em que podemos ser-lhes teis?
 Ele inclinava-se um pouco em sua direo e ela teve a impresso de v-lo estremecer. Sbito veio-lhe a certeza de j ter encontrado aquele homem em alguma parte. 
Mas onde?-... Pensaria nisso mais tarde. Preocupada com o problema presente, disse com vivacidade:
 - Senhor, poderia oferecer-nqs a maior das ajudas. Devamos juntar-nos  caada real, mas sofremos um acidente. No h como recuperar de maneira rpida esta velha 
carruagem. Porm, se alguns dentre vocs nos levassem  garupa, a minha companheira e a mim, bem como  camareira, at o Carrefour des Boeufs, ns lhes seramos 
grandes devedoras.
 - Ao Carrefour des Boeufs? Pois se tambm vamos para l! Com a breca, isso vem a calhar!
 No foi necessrio rhais que um quarto de hora para que os cavaleiros que levavam s trs mulheres  garupa chegassem ao local do encontro.
 Ao p das colinas de Fausse-Repose, a clareira apareceu, atravancada de carruagens e de cavalos. Cocheiros e lacaios jogavam dados, enquanto aguardavam o retorno 
de seus senhores, ou bebiam na modesta estalagem florestal, que jamais conhecera lucro to inesperado.
 Anglica avistou seu palafreneiro. Saltou em terra, gritando:
 -        Janicou, traga-me Ceres!
 O homem correu para as cavalarias.
 Alguns segundos depois, Anglica estava sobre a sela. Ela guiou o animal para fora daquela confuso e picou com as esporas, atirando-se na direo da floresta.
 Ceres era um animal fino, elegante, cujo plo luzidio e dourado lhe valia a alcunha de Deusa do Vero. Anglica amava-a pelo luxo de sua beleza, pois tinha preocupaes 
em excesso para se apegar aos animais por amizade. Mas Ceres era bastante dcil, e Anglica montava-a com prazer. Ela obrigou-a a deixar a vereda e lanou-a pelo 
talude at a crista de uma colina. A gua escorregou no alto tapete de folhas mortas, depois recuperou-se e escalou a encosta. No topo, as rvores continuavam a 
esconder o horizonte. Anglica nada podia distinguir. A jovem aplicou o ouvido. Os latidos distantes da matilha chegaram-lhe pelo leste, seguidos pelo chamado de 
uma trompa, que outras retomaram em coro. Reconheceu o toque de "bat l'eau" e sorriu.
 - A caada no terminou. Ceres, minha bela, apressemo-nos. Talvez consigamos salvar nossa honra.
 Seguindo pela crista da colina, ela voltou a conduzir o animal a galope. Correu por entre as rvores cerradas de galhos nodosos e farta folhagem, atravs do profundo 
e selvagem daquela floresta, que permanecia desde tempos remotos quase inviolada, e que somente alguns caadores ou intrusos isolados, a besta ao ombro, ousavam 
percorrer, quando no bandidos procurando refgio. Lus XIII e Lus XIV haviam arrancado de seu sono secular os velhos carvalhos drudicos. O hlito da corte brilhante 
passava atravs de nevoeiros estagnados, e os perfumes das damas vinham misturar-se ao odor pronunciado das folhas e dos cogumelos.
 Os latidos aproximavam-se. O cervo perseguido devia ter conseguido atravessar o riacho. No se dava por vencido e prosseguia em sua corrida, com os ces em seu 
encalo. Vinha naquela dire-o. As trompas tocavam conduzindo a caada. Anglica voltou a cavalgar mais lentamente e depois parou de novo. O surdo galope dos cavalos 
se aproximava. Ela saiu do abrigo das rvores. Acima dela uma pequena extenso de verdura afundava suavemente, deixando entrever em seus baixios os reflexos de um 
pntano.
 A seu redor a floresta erguia uma barreira obscura, mas do outro lado percebia-se um cu riscado por longas nuvens encarvoadas, entre as quais um sol plido descia 
lentamente. A aproximao do crepsculo acolchoava de nevoeiro a paisagem, afogava os verdes e azuis profundos com os quais o vero enfeita as rvores. Mil riachos 
que desciam pela colina conservavam o frescor do pequeno vale.
 O latido compacto da matilha explodiu subitamente. Uma forma castanha irrompeu na orla do bosque. Era o cervo, um animal muito novo, cujos chifres mal despontavam. 
Seu galope fez com que a gua brotasse em jorros pelo pntano. Atrs dele a massa de ces desceu como um rio branco e avermelhado. Em seguida um cavalo emergiu da 
mata, montado por uma amazona de gibo vermelho. Quase ao mesmo tempo, e de todos os lados, cavaleiros desembocaram e desceram ao longo da inclinao relvada. Em 
um instante o tenro e buclico vale foi invadido por um tumulto brbaro onde se misturavam os latidos persistentes dos ces, os relinchos dos cavalos, as interpelaes 
dos caadores e a fanfarra estrondeante das trompas que acabavam de entoar o halali. No cenrio sombrio da floresta, as ricas vestimentas dos grandes senhores e 
nobres damas se espalharam em nuvens multicoloridas, e os ltimos raios de sol faziam faiscar, bordados, penachos e boldris.
 No entanto, o cervo, com um supremo esforo, havia conseguido romper o cerco infernal. Aproveitando uma abertura, voltava a precipitar-se na direo da ramagem 
protetora. Houve gritos de decepo. Os ces enlameados reagruparam-se antes de voltar a correr.
 Anglica conduziu Ceres lentamente para a frente e comeou tambm a descer. O momento parecia-lhe propcio para se juntar  multido.
 -        Intil prosseguir- disse uma voz atrs dela. - O animal s poder resistir por. mais alguns momentos; atravessar esses baixios s serviria para enlameada 
at os olhos. Se quer acreditar-me, bela desconhecida,  melhorTpermanecer aqui. Podemos apostar alto como os lacaios aproveitaro esta clareira para vir reagrupar 
os ces. E ns estaremos frescos e limpos para nos apresentarmos diante do rei...
 Anglica voltou-se. No conhecia o gentil-homem que acabava de surgir a alguns passos dela. Tinha um rosto agradvel sob a ampla peruca empoada. Seu traje era bastante 
refinado. Para saudar a jovem, tirou um chapu coberto de alvas plumas.
 - Que o diabo me carregue, senhora, se j tive ocasio de encontr-la. O que no  possvel, pois no teria podido esquecer seu rosto.
 - Na corte, talvez?
 - Na corte! - protestou, indignado. - Mas se ali vivo, senhora! No poderia ter passado despercebida aos meus olhos. No, minha cara, no procure me enganar. Voc 
jamais veio  corte.
 - Sim, senhor.
 Ela acrescentou depois de uma breve pausa:
 - Uma vez... Ele se ps a rir.
 - Uma vez? Que adorvel!        
 Ele franziu as sobrancelhas louras, refletindo.
 -        Quando, ento? No ltimo baile? No. Nenhuma lembrana. E alm disso... E inimaginvel, mas eu apostaria que voc no estava no local de encontro em Fausse-Repose, 
esta manh.
 - Parece que voc conhece a todos aqui...
 - A todos?  verdade! Minha boa colocao o permite, e sei que c preciso lembrar-se das pessoas para que se lembrem de ns. E um princpio que tenho procurado aplicar 
desde a, mais tenra juventude. Minha memria  imbatvel!
 - Bem, nesse caso, gostaria de ser meu cicerone nesta companhia que conheo to mal? Voc me daria os nomes. Por exemplo, estaria curiosa por saber quem  aquela 
amazona de vermelho que seguia os ces to de perto. Ela cavalga esplendidamente. Um homem no poderia ir mais depressa.
 - Isso vem a propsito - disse ele rindo. - E a Srta. de La Vallire.
 - A favorita?
 - Bem, sim! A favorita - aquiesceu, com um ar presunoso que ela no conseguiu compreender de imediato.
 - No pensava que fosse uma caadora to hbil.
 - Ela nasceu a cavalo. Na infncia, montava sem sela os cavalos mais fogosos. Partia a galope e era vista saltando sobre a montaria como uma bola.
 Anglica olhou-o, atnita.
 - Parece que voc conhece a Srta. de La Vallire de muito perto.
 - E minha irm.
 - Oh! - fez ela, sufocada. - Voc ...
 -        O Marqus de La Vallire para servi-la, bela desconhecida.
Ele tirou o chapu e acariciou-lhe zombeteiramente o nariz com a fmbria das plumas brancas.
 Ela afastou-se, um pouco vexada, conduzindo a cavalgadura para a parte baixa do vale, onde a bruma se adensava e escondia os charcos de gua estagnada. O Marqus 
de La Vallire seguiu-a.
 - Veja! Que lhe havia dito? - exclamou ele. - Esto dando o toque de retirada no longe daqui. A caada terminou. O Sr. du Plessis-Bellire deve ter usado seu grande 
cutelo e aberto com elegncia a goela do cervo. J viu alguma vez esse gentil-homem em suas supremas funes de monteiro-mor?... O espetculo vale a pena. Ele  
to belo, to elegante, to perfumado que mal o acreditariam capaz de se servir de um canivete... Pois bem! Ele maneja um cutelo como se houvesse sido criado em 
companhia daqueles senhores do Apport-Paris, os esfoladores.
 - Filipe j era clebre na juventude por matar lobos que perseguia sozinho na floresta de Nieul - disse Anglica com ingnuo orgulho. - As pessoas da regio chamavam-no 
"Fariboul Loupas", o que poderia ser traduzido aproximadamente como "o pequeno duende dos lobos".
 -  minha vez de dizer que voc parece conhecer bastante intimamente ao Sr. du Plessis.
 -  meu marido.
 - Oh! Por Santo Humberto,.a'coisa  divertida!
 Ele explodiu em risadas. Ria com vontade, por gosto e por clculo. Um corteso jovial  bem-vindo em toda parte. Devia ter estudado seu riso com tanto empenho quanto 
um ator do Hotel de Bourgogne.
 Mas logo se interrompeu e repetiu, preocupado:
 -        Seu marido?... Voc  ento a Marquesa du Plessis-Bellire?... Ah! Mas j ouvi falar a seu respeito. No foi voc... Por Deus, voc no incorreu no desagrado 
do rei?
 Olhava-a quase corn terror.
 -        Ah! eis Sua Majestade - exclamou ele, de repente.
Deixando-a bruscjhente, galopou ao encontro de um grupo que surgia na clareira. Entre os cortesos, Anglica logo reconheceu o rei.
 Seu trajar modesto contrastava com o dos outros senhores. Lus XIV gostava de se sentir  vontade em suas roupas, e comentava-se que, quando se via obrigado a envergar 
trajes aparatosos, ele os deixava apenas finda a cerimonia. Para a caa, muito mais do que em qualquer outra ocasio, recusava-se a embaraar-se com rendas e penduricalhos. 
Naquele dia trajava um casaco em tecido de l marrom, com discretos bordados em ouro nas botoeiras e na pala dos bolsos. Gom suas enormes botas de montaria, cujas 
abas envolviam-no em couro negro at a virilha, estava vestido com tanta simplicidade quanto um fidalgo de provncia.
 Mas sua aparncia no permitia que se o confundisse com ningum. A majestade dos gestos, aos quais sabia imprimir muita graa, comedimento e serenidade, conferia-lhe 
em todas as circunstncias um porte verdadeiramente real.
 Trazia na mo um basto de madeira leve que terminava em um p de javali. Esse basto lhe fora dado solenemente ao incio da caada, pelo monteiro-mor; era primitivamente 
destinado a afastar os galhos que pudessem importunar o soberano a sua passagem; representava tambm, h sculos, uma insgnia honorfica e desempenhava um papel 
importante no cerimonial da caada.
 Ao lado do rei estava a amazona de gibo vermelho. Animada pelo ardor da corrida, a fisionomia um pouco magra, e sem a verdadeira beleza da favorita, tingia-se 
de rosa. Anglica achou-lhe um encanto frgil que lhe despertou uma secreta piedade. Sem analisar especialmente de onde vinha esse sentimento, pareceu-lhe que a 
Srta. de La Vallire, embora guindada ao cume das honrarias, no fora talhada para se defender diante da corte. A sua volta, Anglica reconheceu o Prncipe de Conde, 
a Sra. de Montespan, Lau-zun, Louvois, Brienne, Humires, as senhoras de Roure e de Montausier, a Princesa de Armagnac, o Duque d'Enghien, e mais distante, Madame, 
a encantadora Princesa Henriqueta, e, naturalmente, Monsieur, o irmo do rei, tendo ao lado seu inseparvel favorito, o Cavaleiro de Lorena. E outros ainda a quem 
conhecia menos, mas que traziam a mesma marca de luxo, sade e avidez.
 O rei olhava com impacincia para uma pequena vereda entre as rvores. Dois cavaleiros por ali vinham a passo. Um deles era Filipe du Plessis-Bellire, trazendo 
igualmente um leve basto de madeira dourado, guarnecido com um p de cora. Suas vestes e sua peruca mal tinham sido deslocadas pela confuso da caada.
 O corao de Anglica confrangeu-se de clera e de remorso  vista de sua beleza. Qual seria a reao de Filipe quando a notasse, depois de t-la deixado ofegante, 
algumas horas antes, no fundo de um convento? Anglica agarrou as rdeas em um movimento resoluto. Ela o conhecia o suficiente para saber que diante do rei ele no 
arriscaria nenhuma espcie de arroubo. Mas, e depois?...
 Filipe continha a montaria, um cavalo branco, a fim de manter-se ao lado de seu companheiro.
 Este ltimo, um ancio de traos marcados e enrgicos, com o queixo relevado por uma mosca de fios grisalhos  moda antiga, no se apressava. Acentuava, mesmo, 
sua lentido, apesar da visvel expectativa do rei, enquanto se enxugava com um ar contrafeito.
 - O velho Salnove acredita que Sua Majestade mais uma vez o fez correr em demasia - disse algum perto de Anglica. - Ele se lamentava, outro dia, que no tempo 
do Rei Lus XIII no se atravancava a caada com tantos corredores inteis, que a dificultam e prolongam com sua presena.
 Com efeito, Salnove era o antigo monteiro-mor do falecido rei. Ele havia ensinado ao atual monarca os rudimentos dessa arte apaixonante e se ressentia por no v-lo 
manter as regras tradicionais. Fazer da caa um prazer da corte! Com efeito! O Rei Lus XIII no se atravancava com saias quando se lhe vinha o capricho de correr 
os bosques. O Sr. de Salnove no perdia uma ocasio de lembrar essa mxima a seu aluno. Ainda no compreendia muito bem que Lus XTV no era mais o garotinho bochechudo 
que iara outrora pela primeira vez sobre um cavalo, O rei, por seu turno, em sinal de cortesia e afeio, mantinha o velho servidor de seu pai em seu posto. Filipe 
du Plessis, monteiro-mor de fato no o era por ttulo. Foi o que mostrou quando, chegando a alguns passos do rei, devolveu ao Marqus de Salnove o basto de p de 
cora, insgnia de seu ttulo.
 Salnove tomou-o e, segundo o cerimonial, recebeu por seu turno, das mos do rei, o basto de p de javali que lhe dera na partida.
 A caada estava terminada. No entanto, o rei perguntou em tom seco:
 -        Salnove, os ces esto cansados?
 O velho marqus soprou ainda para recobrar o flego. Seu esgotamento no erisimulado. Todos os que haviam participado ativa-mente da caa, cortesos, fnonteiros 
e lacaios, estavam esfalfados.
 - Os ces? - fez Salnove com um levantar de ombros. - Sim, isto , nem tanto, sofrivelmente.
 - E os cavalos?
 - Greio que sim.
 - E tudo isso por dois cervos sem chifres - disse o rei com mau humor.
 Ele lanou um olhar ao redor, sobre a multido comprimida. Anglica teve a impresso de que aquele olhar impvido, onde nada se podia ler, passara por ela e a reconhecera. 
Ela encolheu-se um pouco.
 -        Est bem - disse o rei -, caaremos na quarta-feira.
Fez-se um silncio constrangido e como que aterrado. Algumas damas se perguntavam, apavoradas, como fariam para voltar  sela no dia marcado. O rei repetiu um pouco 
mais alto:
 - Caaremos depois de amanh, ouviu, Salnove? E dessa vez vamos querer um cervo de dez esgalhos.
 - Sim, sire, costumo entender da primeira vez - respondeu o velho marqus.        
 Ele inclinou-se profundamente, depois afastou-se, mas dizendo suficientemente alto para ser ouvido pelos convidados:
 -        O que me agasta  que sempre ouo perguntar se os ces e cavalos esto cansados e nunca os homens...
-        Sr. de Salnove! - chamou Lus XIV.
E quando o monteiro-mor colocou-se de novo diante dele:
 -        Saiba que em meus domnios os caadores nunca esto cansados... Ao menos assim o entendo.
Salnove voltou a inclinar-se.
 O rei ps-se em movimento, arrastando atrs de si a multido colorida dos cortesos, que no tinham outro recurso seno retesar valentemente a espinha.
Ao passar diante de Anglica, o rei parou por um momento.
 Seu olhar pesado e impenetrvel fixava-a e no entanto parecia no a ver. Anglica no abaixou a cabea. Dizia consigo mesma que sempre havia afrontado seu medo 
e que no seria aquele o dia em que perderia o controle. Olhou para o rei e depois sorriu-lhe com naturalidade. O soberano estremeceu como se tivesse sido picado 
por uma abelha, e suas faces se coloriram.
- Mas... no  a Sra. du Plessis-Bellire? - perguntou com altivez.
- Vossa Majestade tem a bondade de se lembrar de mim?
 - Certamente, e muito mais do que a senhora parece lembrar-se de ns - respondeu Lus XIV, tomando os que o acompanhavam como testemunhas de tanta inconscincia 
e ingratido. - Sua sade est enfim restabelecida, senhora?
 - Agradeo a Vossa Majestade, mas minha sade sempre foi muito boa.
 - Ento como se explica que por trs vezes tenha declinado de nossos convites?
- Sire, perdoe-me, mas eles jamais me foram comunicados.
 - A senhora me surpreende. Eu mesmo comuniquei ao Sr. du Plessis meu desejo de v-la participar das festas da corte. Duvido que ele tenha podido ser to distrado 
a ponto de esquec-lo.
 - Sire, meu marido talvez tenha julgado que o lugar apropriado para uma jovem senhora seja sua prpria casa, manejando a agulha em vez de ser desviada de seus austeros 
deveres pelo espe-tculo das maravilhas da corte.
 Em um s movimento, todos os chapus emplumados se voltaram, junto com o do rei, para Filipe, que, sobre seu cavalo branco, era a prpria esttua de uma raiva impotente 
e glacial. O rei compreendeu a situao. Tinha esprito e a arte de contornar com tato as situaes embaraosas. Estourou de rir.
-        Oh! Oh! marqus, ser possvel? Seu cime  to grande que no hesita diante de nenhum meio para subtrair aos nossos olhos o tesouro encantador do qual 
 proprietrio?  levar muito longe o esprito de avareza, pode crer. Perdo-lhe desta vez, mas condeno-o a fazer boa figura diante do sucesso da Sra. du Plessis. 
Quanto  senhora, no quero lev-la muito longe no caminho da insub-misso conjugal, felicitando-a por ter passado por sobre as decises de um esposo muito autoritrio. 
Mas seu esprito de independncia me agrada. Tome portanto parte, sem reticncias, naquilo que chamou as maravilhas da corte. Coloco-me como fiador de que o Sr. 
du Plessis no lhe far reprimendas.
 Filipe, com o chapu ao brao, inclinou-se profundamente, em um movimento amplo, quase exagerado, de submisso. A seu redor, Anglica no via seno sorrisos obsequiosos 
sobre mscaras que, trs segundos antes, s respiravam uma curiosidade vida em rasg-la em mil pedaos.
 - Felicitaes!-disse-lhe a Sra. de Montespan. - Voc tem a arte de se meter em situaes impossveis, mas tambm a de se sair  maravilha. Pareciam as hbeis manobras 
dos bufes do Pont Neuf. Diante da expresso do rei, pensei que voc teria toda a matilha em seu encalo. No instante seguinte voc fazia a vtima audaciosa que 
venceu mil obstculos, at as paredes de uma priso, para corresponder a todo custo ao convite do rei.
- Voc no sabe como o diz bem!
- Oh! Conte-me o que aconteceu.
- Talvez... um dia.
 - Conte-me. Esse Filipe  assim to assustador? Que pena! To bonito...
 Anglica afastou a conversa incitando a montaria ao galope. Por um caminho escavado, cavaleiros, ces e lacaios desciam a colina de Fausse-Repose, enquanto as trompas 
soavam na retaguarda para guiar os retardatrios. Breve, num claro da floresta, apareceu a encruzilhada atravancada pelas equipagens.
 A companhia de militares esfarrapados, cujo comandante havia socorrido Anglica e a Sita. de Parajonc, mantinha-se na orla do bosque. Quando o cortejo real apareceu, 
dois tocadores de pfaro e de tamboril que se mantinham  frente comearam a tocar uma marcha militar. Atrs deles, puseram-se em movimento os dois porta-bandeiras, 
depois o chefe, seguido de seus oficiais e suas pequenas tropas.
 - Poderosos deuses - disse uma voz de mulher -, quem so esses espantalhos em farrapos que ousam assim se apresentar diante do rei?
 - Agradea aos cus por no ter tido que tratar com os espantalhos de muito perto nestes ltimos anos! - exclamou um jovem senhor de tez de cor viva. - So os revoltosos 
do Languedoc!
Foi como se Anglica tivesse sido atingida por um raio.
 O nome! O nome que procurava desde que distinguira na penumbra das folhagens o rosto acutilado do gentil-homem gasco saltava-lhe ao esprito:
-        Andijos!
 Era Bernardo d'Andijos, o gentil-homem tolosano, o alegre papa-jantares do Gaia Cincia, sempre passeando sua pana satisfeita de uma partida de canes a uma partida 
de baile. E fora ele quem repentinamente galopara atravs do Languedoc semeando o fogo de uma das mais terrveis revoltas provinciais da poca!...
 Ela revia, na feia aurora de uma triste manh, aquele outro companheiro de dias felizes, o jovem Cerbalaud, meio bbado, desembainhando a espada e gritando:
 -        Irra! Vocs no conhecem os gasces. Escutem todos. Eu parto
em uma guerra contra o rei.
 Estaria ali tambm Cerbalaud, entre aqueles fantasmas emersos de uma outra poca, e que parecia a Anglica extremamente distante, embora somente sete anos se tivessem 
passado desde a condenao inqua do Conde de Peyrac e que estivera na origem de todos aqueles transtornos?
 - Os revoltosos do Languedoc - repetia perto dela a voz um pouco cantada da jovem. - Mas no  perigoso deix-los aproxi-marem-se do rei?
 - No, tranqiiilize-se - respondeu o gentil-homem de tez corada, que no era outro seno o jovem Louvos, ministro da Guerra. - Estes senhores vm prestar obedincia. 
Depois de seis anos de investidas, pilhagens e escaramuas contra as tropas reais, pode-se ter esperana de que nossa bela provncia do sudeste retorne ao seio da 
coroa. Mas fez-se necessria nem mais nem menos que uma campanha pessoal de Sua Majestade para fazer compreender a esse Sr. d'Andijos a inutilidade de sua rebelio. 
Nosso prncipe prometeu-lhe a vida e o esquecimento de seus erros passados. Em troca ele deve servir de mediador para acalmar os capitouls das grandes cidades do 
sul. Podemos apostar que Sua Majestade no ter a partir de agora sditos mais fiis.
 - No importa, eles me do medo! - disse a pequena dama com um calafrio.
 O rei apeara, no que fora imitado por todos os cavaleiros e amazonas de seu squito.
 Ao chegar a alguns metros do grupo, Andijos fez o mesmo. Suas roupas descoradas, as botas gastas, o. rosto riscado por uma cicatriz recente, tudo nele contrastava 
com a brilhante sociedade em direo  qual caminhava. Era a imagem do vencido, ao qual nada resta alm da honra, pois que mantinha os olhos firmes e a cabea altiva.
 Chegando diante do rei, desembainhou com vivacidade a espada. Houve uma movimentao entre os cortesos, que queriam se interpor. Mas o tolosano, tendo apoiado 
a arma no solo, partiu-a com um golpe seco e jogou os dois pedaos aos ps de Lus XIV. Depois, dando mais um passo  frente, ajoelhou-se e beijou a coxa do rei.
 - O passado  o passado, meu caro marqus - disse o rei, pousando levemente a mo no ombro do rebelde, em um gesto no desprovido de amizade. - A todos  dado cometer 
enganos, e os sditos tm mais inclinao para isso do que os reis. Estes receberam a investidura divina e podem, com maior clareza, guiar os povos. Mas no pense 
que esse direito esteja isento de deveres; ele inclui particularmente o de perdoar. Meus sditos rebeldes, quando tiveram a ousadia de pegar em armas contra mim, 
causaram-me talvez menos indignao do que aqueles que, permanecendo prximos de minha pessoa, prestavam-me servios e cuidados, enquanto eu sabia que ao mesmo tempo 
me traam e no tinham por mim nem verdadeiro respeito nem verdadeira afeio. Gosto da franqueza nas atitudes. Levante-se, pois, marqus. S lamento que tenha quebrado 
sua valorosa espada. Voc me obriga a lhe oferecer uma outra, pois o nomeio coronel e lhe confio quatro companhias de drages. Agora, acompanhe-me at minha carruagem. 
Ali tomar lugar, e o convido a ir a Versalhes.
 - Vossa Majestade me honra - disse o bravo Andijos, cuja voz tremia -, mas no estou em estado de apresentar-me a seu lado. Meu uniforme...
Pouco importa! Gosto de uma libr que cheira a poeira e a guerra. A sua  gloriosa. Eu a devolverei a voc. Trar nas prximas festas o mesmo gibo azul de bandas 
vermelhas, mas bordado a ouro em vez de esburacado por balas. O que me d uma ideia... Sabem, senhores - continuou Lus XIV, virando-se para seus ntimos -, que 
h muito tenho comigo a ideia de criar um casaco para aqueles que tiver em particular estima? Que dizem? A Ordem dos Gibes Azuis?... O Sr. d'Andijos seria seu primeiro 
cavaleiro.
 Os cortesos aplaudiram aquele achado. J se podia adivinhar que os gibes azuis seriam objeto de competies encarniadas...
Bernardo d'Andijos apresentou seus trs oficiais principais.
 -        Dei ordens para que sua companhia seja recebida cordialmente nesta noite e possa banquetear-se - disse o rei. - Sr. de Montausier, encarregue-se de todos 
estes bravos.
 Em seguida cada um correu para sua equipagem. Sedentos, os caadores chamavam os limonadeiros, pequenos comerciantes titulares da corte e que a seguiam nos mnimos 
deslocamentos. O tempo de virar uma caneca; era preciso partir. A noite caa. O rei estava impaciente para voltar a Versalhes. As lanternas e tochas se acenderam.
 Anglica, segurando Ceres pela rdea, no sabia que partido tomar. Ainda estava sob a emoo que lhe causara a apario de An-dijos e dos rebeldes do Languedoc. 
A voz da juventude, que tinha, s vezes, inflexes paternais, cara em seu corao assustado como um blsamo. Ela tomara para si algumas palavras.
 Dar-se-ia a conhecer a Andijos? Falar-lhe-ia? Que poderiam se dizer? Um nome estaria entre eles. Um nome que no ousariam pronunciar. E a grande sombra negra do 
supliciado planaria sobre eles, apagando o brilho dos lampies da festa...
Uma carruagem, fazendo a volta, passou por ela.
 - Que faz voc a? - gritou-lhe a Sra. de Montespan pela portinhola. - Onde est sua equipagem?
 - Para dizer a verdade, no a tenho mais. Meu carro tombou em um fosso.
- Suba, ento.
 Um pouco alm, elas recolheram a Srta. de Parajonc e Javotte, e todo mundo voltou para Versalhes.

CAPTULO IV ...

Filipe, o monteiro-mor

Naquele tempo, os bosques envolviam densamente o palcio. Quem desembocasse do cercado de rvores v-lo-ia muito prximo, sobre sua colinaj  noite, as altas janelas 
cintilavam invadidas pelas estrelas moventes dos archotes, em seu vaivm.
 A animao era grande. O rei expedira um comunicado, segundo o qual no voltaria  noite para Saint-Germain como previsto. Permaneceria por mais trs dias em Versalhes. 
Em vez de aprestar a bagagem, era necessrio prever o pernoite de Sua Majestade, da famlia real e dos convidados de honra, instalar o acantonamento dos cavalos 
e organizar as refeies.
 O ptio de entrada estava de tal modo atravancado por veculos, soldados e criados que a equipagem da Sra. de Montespan teve que fazer alto na praa. As damas desceram. 
Atenas logo foi arrebatada por um alegre grupo; Anglica deteve-se junto  Sita. de Parajonc.
 - Deve apressar-se para no perder a cerimonia do encarne - disse a Solteirona com ares de entendida.
- E quanto a voc? - perguntou Anglica.
 - Vou sentar-me neste marco da estrada. Vai ser o diabo se no conseguir avistar nenhum rosto conhecido entre aqueles que retornam a Paris. No sou convidada do 
rei. Apresse-se, minha bela. Tudo o que lhe peo  que venha fazer-me o relato dos encantamentos vividos sob a irradiao do astro.
 Anglica prometeu faz-lo, beijou-a e deixou-a ali, na noite brumosa, com sua capa e sua touca de fitas rosa de uma outra poca, seu rosto branco e velho, e sua 
ingnua alegria por ter chegado to prximo da corte, naquele dia memorvel.
 Quanto a Anglica, essa transpunha o crculo mgico e se elevava rumo aos eleitos.
  "Sob a irradiao do astro", repetiu, enquanto atingia, atravs do tumulto, o ponto de concentrao da multido.
 Era ao fundo, junto  edificao central do palcio, no terceiro dos pequenos ptios, chamado de Ptio dos Cervos. Sob a aparente desordem, a triagem das personalidades 
que deveriam acercar-se do rei durante o encarne era rigidamente fiscalizada. Anglica foi detida por um suo de alabarda, e um mestre-de-cerimnias inquiriu-a 
respeitosamente sobre seus ttulos. Assim que ela declinou o nome, ele deixou-a passar, guiando-a mesmo atravs das escadas e dos sales, at um dos balces do primeiro 
andar, que dava para o Ptio dos Cervos.
 Inmeros archotes iluminavam o local. A fachada de tijolos rosa do palcio, sobre a qual se moviam sombras empenachadas, estava como que incandescente, e os mil 
arabescos dos balces, goteiras e tocheiros folheados a ouro resplandeciam como cintilantes bordados sobre um fundo prpura.
As trompas estrondearam.
 O rei adiantou-se no balco central, tendo a rainha ao lado e,  volta, as princesas de sangue, os prncipes e os gentis-homens de primeira linhagem.
 Das profundezas da noite, subindo a colina, o latido da matilha se aproximava. Dois lacaios de ces emergiram das sombras, junto ao gradil do Ptio dos Cervos, 
e adentraram o crculo de claridade.
 Arrastavam uma espcie de fardo inqualificvel, de onde pingavam sangue e fragmentos de tripas; constituam a moue, composta pelas vsceras dos dois cervos mortos 
e transportada sobre a pele de um dos animais que acabava de ser esfolado. Atrs deles, outros monteiros em libr vermelha apareceram, tendo a seus calcanhares a 
matilha esfomeada, que controlavam com longos chicotes.
 Filipe du Plessis-Bellire desceu a escadaria a seu encontro, tendo na mo o basto de p de cora. Tivera tempo para vestir um uniforme reluzente, vermelho tambm, 
porm com quarenta botoeiras douradas, horizontais, e vinte verticais sobre os dois bolsos. Suas botas de couro amarelo tinham taces vermelhos, com esporas de prata 
dourada.
 _ Ele tem a perna to bem-feita quanto a do rei - comentou algum prximo de Anglica.
 -        Mas seu andar tem menos graa. Filipe du Plessis tem o ar de quem est sempre partindo para a guerra.
_ No nos esqueamos de que , tambm marechal.
 O rapaz, atento, tinha os olhos fixos no rei. Este lhe fez um sinal com seu basto pessoal.
 Filipe entregou sua insgnia ao pajem que o acompanhava. Caminhou em direo aos lacaios e tomou-lhes a carga pegajosa. Seu rico casaco de seda, com rendas e passamanarias, 
foi imediatamente inundado de sangue. Impassvel e magnfico, o gentil-homem levou a moue at o centro do ptio e colocou-a junto ao semicrculo formado pelos ces, 
cujos ganidos e latidos se multiplicavam, at se transformarem em roucos uivos. Os monteiros controlavam-nos a chicote, repetindo:
-        Para trs!... ces-Para trs!
 Por fim, a um outro sinal do rei, eles foram soltos. Comearam a devorar as vsceras com grunhidos ferozes. Seus dentes aguados brilhavam.
 Percebia-se que aqueles ces, treinados diariamente, alimentados com carne crua, eram verdadeiras feras. Seu adestramento e disciplina requeriam qualidades de domador. 
Filipe permanecia mais prximo que todos os outros do crculo selvagem, sem outra arma que um rebenque. De vez em quando fazia-o estalar com displicncia sobre os 
ces que, presas de disputa, estivessem prestes a se degolar.
 E os animais logo se separavam, grunhindo, mas submissos. A audcia e o sangue-frio do monteiro-mor, ali em p com suas sun-tuosas vestimentas ensanguentadas, a 
cabea desdenhosa e loura, com suas rendas e anis, acrescentavam um elemento estranho e sedutor ao selvagem espetculo.
 Anglica, dividida entre o desgosto e uma exaltao apaixonada, no podia desviar os olhos. Todos os circunstantes estavam, como ela, fascinados.
 -        Cspite! - resmungou perto dela uma voz de homem. - Quem o visse no o acreditaria capaz seno de trincar confeitos e fazer galanteios. Mas ora! Em minha 
vida jamais encontrei um caador que ousasse tomar parte no encarne to de perto sem correr o risco de ser atacado.
 - Disse bem, senhor - aprovou o Marqus de Roquelaure, que estava no mesmo balco. - Quando estiver um po'uco mais familiarizado com a corte, ouvir repetir com 
frequncia que nosso monteiro-mor  uma das personagens mais curiosas de toda a companhia.
 - E eu o creio totalmente, senhor - respondeu Bernardo d'Andijos.
 Ao fazer um movimento de saudao a seu interlocutor, notou o rosto de Anglica voltado para ele. Ao claro dos archotes, eles se reconheceram.
Anglica deu um sorrisinho triste.
 - Tu quoque Brute. At tu, Brutus - murmurou, citando a clebre frase de Csar ao se dar conta da traio de seu melhor amigo.
 - E voc mesma - disse ele com a voz abafada. - Na floresta, h pouco, eu hesitara. No acreditava em meus olhos. Voc aqui... na corte... Voc?
- Como voc tambm, Sr. d'Andijos.
 Ele quis dizer algo com uma nfase de protesto, mas calou-se. Os olhares de ambos voltaram-se para o Ptio dos Cervos, onde as duas carcaas acabavam de ser jogadas 
aos ces. Os ossos quebravam-se com estalidos secos. Prosseguindo o bale selvagem, os monteiros estalavam seus chicotes ao redor da matilha, gritando:
- Halali! Ces... Halali! Halali!
 - Lutamos - murmurou Andijos -, golpeamos, matamos... E como um fogo que nos devora... Por fim, a revolta... torna-se um hbito... no podemos mais conter o incndio... 
E um dia no sabemos mais por que odiamos, nem pelo que nos batemos... Ento chega o rei!
 Seis anos de guerrilhas sem piedade, sem esperana, haviam enchido de amargura sua alma jovial e ingnua. Seis anos levando uma vida de malfeitor, de caa perseguida 
atravs das terras ridas do Midi, onde o sangue derramado seca muito rpido, tornando-se negro.
 Encurralados, ele e seus partidrios, nas dunas arenosas dos Landes, afundando nas areias movedias, expulsos para o mar, haviam assistido  chegada desse rei cheio 
de clemncia, desse jovem rei implacvel, mas que lhes dizia: "Meus filhos..."
 _  um grande rei - disse Andijos em tom firme. - No h desonra em servi-lo.
 _ Voc fala de ouro, meu caro - aquiesceu atrs deles a voz do Marqus de Lauzun.
 Com uma das mos no ombro de Anglica e a outra no de Andijos, ele passou entre ambos seu rosto risonho, sempre esboando alguma travessura.
 - Reconhece a mim, Antonino Nompar de Gaumont de P-guilin de Lauzun?
 - Como poderia no reconhec-lo? - grunhiu Andijos. - Juntos cometemos nossas primeiras loucuras, fi no poucas mais. Da ltima vez em que nos vimos...
 - Sim... Hum! Hum! - tossiu levemente Pguilin. - Se bem me lembro, estvamos os trs no Louvre...
- E voc a cruzar ferros com Monsieur, irmo do rei...
- Que acabava de tentar assassinar a senhora aqui presente.
- Com a ajuda de^seu caro amigo, o Cavaleiro de Lorena.
- Minhas faanhas* valeram-me a Bastilha - disse Lauzun.
- E a mim, o tornar-me um fora-da-lei.
 - E quanto a voc, Anglica, meu anjo, que sorte lhe foi reservada aps aquela noite memorvel?
Interrogavam-na com o olhar, mas ela no respondeu, e eles compreenderam seu silncio. O Marqus d'Andijos deu um profundo suspiro.
 - Certamente eu no pensava que um dia nos encontraramos desta forma.
 - No vale mais nos revermos desta forma do que nunca mais nos revermos? - acentuou o amvel Pguilin. - A roda gira; Monsieur, o irmo do rei, est a alguns passos 
de ns, sempre ternamente apoiado no brao de seu favorito; quanto a ns, estamos bem vivos... e bem colocados, quero crer. Deixemos em paz o passado, como bem disse, 
hoje mesmo, Sua Majestade. E prudncia, meus cordeiros!... Cuidemos para que o olhar do mestre no pouse sobre nosso grupo, disposto a ver o germe de uma conspirao 
em potencial. Prudncia!... Eu os amo, mas fujo de vocs...   .
 Com um dedo sobre os lbios, como um valete de comdia, ele deixou-os, intrometendo-se na outra extremidade do balco.
 Sobre o lajedo do Ptio dos Cervos no restavam seno fragmentos das carcaas completamente limpas. O ltimo lacaio de ces enterrou seu forcado no forhu, constitudo 
pela pana diluda dos dois cervos, e, pondo-se a andar, chamou os cachorros:
-        Taiaut! Taiaut! - guiando-os na direo do canil.
 As trompas anunciavam a ltima fase do encarne. Depois fez-se ouvir o toque de retirada.
Os balces foram abandonados.
  entrada das salas iluminadas, o incorrigvel Pguilin de Lau-zun gesticulava, macaqueando feito um arengador de feira:
 -        Rejubilem-se, senhores e senhoras. Acabam de assistir ao espetculo mais extraordinrio que se viu at hoje: o Sr. Marqus du Plessis-Bellire em seu nmero 
de grande domador. Vocs fremiram, senhores. Vocs tremeram, senhoras. Desejariam ser lobas para poderem dobrar-se sob a frula de to bela mo. Agora as feras esto 
alimentadas, e os deuses, satisfeitos. Nada mais resta do cervo que, nesta manh, bramia gloriosamente no fundo dos bosques. Venham, senhoras e senhores. Vamos danar!...

CAPTULO V

Uma bofetada pelo PARA

No se danou, no entanto, visto que a msica do rei, com seus vinte e quatro violinos, ainda no chegara de Saint-Germain. Mas, em toda a volta do grande salo 
no rs-do-cho, latages tocavam em trombetas as fanfarras marciais destinadas a suscitar a emulao dos estmagos. Oficiais-de-boca comeavam a desfilar trazendo 
inmeras terrinas de fina prata, carregadas de guloseimas, perfumes e frutas. Sobre quatro grandes mesas cobertas com toalhas adamascadas j haviam sido dispostas 
travessas; algumas, cobertas com campnula? de ouro ou de prata dourada; outras, que se conservavam aquecidas sobre cubas de metal cheias de brasas; e outras ainda 
que expunham  cobia dos olhares perdizes em gelatina, macednia de faises, cabrito monts assado, pombos  cardeal, caarolas de arroz e presunto. No centro de 
cada mesa havia uma grande travessa contendo frutas de outono e a sua volta oito descansos de pratos guarnecidos com figos e meles.
 Anglica, que empregava um olhar profissional para as coisas gastronmicas, enumerou oito entradas nos espaos entre os assados, a par de quantidades de saladas. 
Admirou a beleza da roupa de mesa, perfumada com gua de nspera, e a arte das diversas formas em que foram dobrados os guardanapos. E tratava-se de uma "simples" 
colao!
 O rei sentou-se sozinho com a rainha, Madame e Monsieur. O Prncipe de Conde quis por todos os meios servi-los, com o guardanapo ao ombro, o que colocou o Sr. de 
Bouillon, camarista-mor encarregado daquelas funes, fora de si. Ele no ousou, porm, manifest-lo de forma muito evidente, visto o alto grau de parentesco do 
prncipe.
  parte desse incidente, todo mundo lambeu os beios com gosto. As tampas erguidas revelavam quatro cabeas de javali, enormes e negras, nadando em um ragu de trufas 
verdes e desprendendo um odor divino, tetrazes com suas plumas vermelhas e azuis, lebres recheadas com amndoas e funcho, e tantas sopas que seria impossvel degust-las 
todas. A elas preferiam-se os vinhos tintos escolhidos com prazer entre vinhos novos mas bem encorpados, e que se acabava de aquecer, mergulhando nas jarras barras 
de metal incandescente.
 Anglica regalou-se com uma perdiz frita e algumas saladas que o Marqus de La Vallire lhe passava, pressuroso. Ela bebeu um copo de vinho de framboesa. O marqus 
insistia para que provasse o rossoli, "o licor da diverso". Um pajem lhes levaria dois copos at um canto de janela e eles se divertiriam. Anglica esquivou-se.
 Com a curiosidade e a gula saciadas, voltou a lembrar-se da Srta. de Parajonc, sentada no marco da estrada, em meio  neblina que subia dos pntanos  noite. Furtar 
as sobras da mesa real para sua velha amiga seria o cmulo da vulgaridade; mas foi o que Anglica fez com destreza. Escondendo entre as amplas dobras do vestido 
um po doce de amndoas e duas belas peras, deslizou para fora da multido. Mal havia dado alguns passos no exterior, quando foi chamada por Flipot, que lhe trazia 
seu manto, uma pesada capa de cetim e veludo que ela havia deixado h pouco na carruagem de Lonide.
- Ento voc est a! O carro pde ser consertado?
 - Pois sim! Dali no se salva nada. Quando percebemos que anoitecia, ns dois, o cocheiro e eu, pegamos a estrada real e viemos at aqui no carro dos tanoeiros 
que subiam para Versalhes.
- Encontrou a Srta. de Parajonc?
 - L embaixo -- disse ele, indicando os baixios obscuros onde se agitavam lanternas. - Ela falava com uma outra das vossas amigas de Paris e a ouvi dizer que poderia 
lev-la em sua carruagem de aluguel.
 - Isso me alegra. Pobre Lonide! Ser preciso que lhe oferea uma nova equipagem.
 Por medida de segurana pediu que Flipot a conduzisse atravs da inacreditvel confuso de carros, cavalos e liteiras at o lugar onde ele vira a Srta. de Parajonc. 
Avistou-a a distncia e reconheceu na "outra amiga de Paris" a jovem Sra. Scarron, viva pobre e digna que vinha com frequncia  corte como solicitante, na esperana 
de um dia poder obter um emprego ou cargo modesto que a tirasse por fim de sua eterna misria.
 Elas estavam subindo em uma carruagem de aluguel j abarrotada, ocupada principalmente pelas pessoas mais simples, muitas das quais, tambm, solicitantes e que 
retornavam de mos vazias da sua estada em Versalhes. O rei havia feito divulgar que no receberia as peties naquele dia, mas no seguinte, aps a missa.
 Alguns pedinches ficaram, sjeitando-se a dormir a um canto de ptio ou cavalaria do vilarejo. Outros, retornando a Paris, pegariam de madrugada o carro de gua 
do Bois de Boulogne, e depois, cortando caminho atravs dos bosques, voltariam a se encontrar, tenazes, na antecmara do rei, com suas splicas na mo.
 O carro de aluguel j se punha em movimento quando Anglica o alcanou, e ela no pde se fazer ver por suas duas amigas. Estas partiam encantadas com seu dia na 
corte, onde conheciam a todos, embora ningum as conhecesse. Eram daquelas abelhas ativas que gravitam ao redor da colmeia soberana e fazem o mel do mnimo incidente'a 
seu alcance. "Sabiam" melhor a corte que muitas mulheres ali admitidas sem dificuldade por sua linhagem, mas inexperientes, ignorando os arcanos complicados da etiqueta, 
as prerrogativas que lhes eram facultadas por sua posio, mas frequentemente tambm pelo favoritismo, pela proteo do rei ou de algum poderoso.  -
 J estariam sem dvida a par da afronta que o Prncipe de Conde infligira ao Sr. de Bouillon, pegando o guardanapo para servir o rei. Pediria o Sr. de Bouillon 
uma reparao? Teria o prncipe o direito de fazer o que fez, visto seu ttulo e seu passado glorioso? Haveria longas discusses sobre o assunto na cidade e na corte. 
Lonide de Parajonc destrincharia depois de longos debates aquele caso espinhoso. A Sra. Scarron ouviria, refletiria, aprovaria ou ento no diria nada... Anglica 
prometeu a si mesma visit-las em breve. Necessitava de seus conselhos.
 Colocou o manto sobre os ombros e deu o po e as frutas que havia trazido ao pequeno lacaio.
 -  muito bonito aqui, marquesa - eochichou o garoto, com os olhos brilhando. - Chegamos com os tanoeiros pelo lado das cozinhas. A Boca do Rei,  como chamam aquilo. 
A Boca do Bom Deus,  o que se devia dizer. O paraso no seria melhor.  quente ali dentro, e o cheiro  bom. Tantas aves no espeto que a gente fica com comicho... 
A gente anda sobre penas at os joelhos... E todos aqueles cozinheiros preparando os molhos, com punhos de renda at as falanges, a espada ao lado, a grande faixa 
de no sei o qu sobre o ventre...
 No fosse sua posio de convidada do rei, Anglica teria de bom grado seguido o criadinho para desfrutar, por seu turno, do espe-tculo descrito. Ao se olhar para 
a ala direita do palcio, em cujo rs-do-cho estavam instaladas as cozinhas, podia-se adivinhar a animao pitoresca no flamejar de fornos e braseiros ao ar livre, 
que avanavam at a beira dos jardins do Midi.
 - Tambm vi Javotte por l - disse Flipot. - Ela subia para preparar os aposentos da senhora marquesa.
- Meus aposentos? - disse Anglica surpresa.
Ela ainda no havia pensado em que condies passaria ali a noite.
-        Parece que  l em cima.
 Com os grandes braos sempre descrevendo crculos ele apontava o cu completamente escuro, onde o cimo do palcio s era percebido atravs das fileiras de guas-furtadas 
iluminadas.
 -        Ali estava tambm La Violette, o criado de quarto do senhor marqus, dizendo que a cama de seu mestre j havia sido arrumada li em cima. Ento Javotte 
quis levar at l a sua trouxa. Tambm acho que ela queria ouvir uns galanteios de La Violette.
 Gritos e estalidos de chicote obrigaram-nos a encostar-se no parapeito que rodeava o grande ptio de entrada. Viram passar furges e vrios fiacres, e depois duas 
carruagens, das quais desceu uma nuvem de abades de peruca empoada, cabeo de rendas, sobrecasaca e meias negras, e sapatos com fivelas.
 Disseram que era a Capela do rei que chegava. Pouco depois vieram os msicos com seus instrumentos e os coristas, um grupo de adolescentes agasalhados at os olhos 
e que um homenzinho sanguneo e agitado perseguia com recomendaes rabugentas.
 -        No abram a boca enquanto no estiverem no coberto. Eu os amasso com bengaladas se respirarem aqui. Nada  mais perigoso para a voz do que a neblina deste 
maldito lugar.
 Anglica reconheceu o Sr. Lulli, chamado de o Bufo do Rei, e a quem assistira muitas vezes em Paris, regendo bales encantadores dos quais se pretendia o autor. 
Suspeitavam que ele fosse um impostor, tal a discrepncia entre seu carter execrvel e suas obras.
-        Veja se descobre Javotte - disse Anglica a Flipot -, e quando a tiver encontrado mande-a at aqui; ou melhor, volte voc mesmo para me guiar at o quarto 
que me foi reservado. Tenho medo de me perder.
- O senhor marqus no o mostrou?
 - Nem mesmo sei onde est o senhor marqus - replicou ela secamente.
 - Aquele tipo... - comeou Flipot, que tinha suas prprias opinies sobre o modo como o marqus tratava sua senhora.
 Ela o fez calar-se com um tabefe, e antes de deix-lo ir apalpou, por hbito, os bolsos de sua libr. Gostava de Flipot e de bom grado t-lo-ia feito seu pajem, 
se ele pudesse livrar-se daquele falar calo, do nariz ranhoso e da detestvel mania de "colher" a seu redor pequenos objetos que no lhe eram destinados. Mas cada 
qual sabe como  difcil livrar-se de uma primeira educao. Anglica encontrou em seus bolsos uma tabaqueira, um anel, dois colares de vidrilhos que estariam fazendo 
chorar naquele momento algumas jovens da cozinha, um leno de rendas.
 - Que seja, desta vez - disse-lhe com severidade. - Mas que eu nunca o pegue com ouro ou com relgios.
 - Relgios? Irra! - disse Flipot com um ar de asco. - Eu no gosto daqueles bichos, no. Aquilo olha a gente e tagarela como se estivesse vivo.
 Ela voltava para os sales, mas a animao do ambiente no podia mais distra-la de suas preocupaes. De um momento para outro teria que se encontrar diante de 
Filipe. No conseguia decidir que atitude tomar: furiosa? indiferente? conciliadora?
 De p na soleira das grandes salas iluminadas, procurou-o com os olhos, mas no o viu.
 Notou a uma das mesas a Sra. de Montausier e outras damas, entre as quais a Sra. du Roure, a quem conhecia, e ali foi sentar-se com a inteno de jogar um pouco. 
A Sra. de Montausier olhou-a com ar chocado e, levantando-se, disse-lhe que no poderia ali ficar, pois quela mesa s se sentavam as damas com direito a subir na 
carruagem da rainha e comer em sua companhia.
 A jovem desculpou-se. No ousou sentar-se a outra mesa, com medo de cometer novo equvoco, e resolveu procurar seu quarto por conta prpria.
 Nos primeiros andares no havia mais alojamentos para os cortesos. A exceo dos aposentos reais, imensos compartimentos de recepo estavam sendo arrumados. Em 
compensao, as guas-furtadas ofereciam mltiplas cmaras, grosseiramente vedadas e reservadas em princpio  criadagem, mas onde os mais importantes senhores estavam 
bastante satisfeitos por encontrar um refgio naquela noite. Ali reinava uma atividade de colmeia, cada qual se movimentando de clula em clula, em meio  desordem 
de cofres e guarda-roupas trazidos pelos criados, ao enervamento das damas com suas roupas, atormentando as criadas embaraadas com vestidos enormes, e  inquietao 
da maior parte dos convidados, que vasculhavam a esmo os corredores estreitos, em busca da "toca" que lhes fora reservada.
 Marechais de alojamento em uniforme azul, encarregados dessa tarefa, acabavam de escrever com giz nas portas os nomes dos ocupantes de cada quarto. Eram seguidos 
por grupos excitados em meio a murmrios de decepo ou gritos de satisfao.
Anglica foi chamada pelo esperto Flipot:
-        Psiu! por aqui, marquesa.
E acrescentou com desprezo:
 -        No  muito grande o seu "quadrado". Como  possvel se alojar desse jeito no palcio do rei?!
Todas as suas ideias sobre o fausto dos poderosos estavam transtornadas. Javotte apareceu; tinha as faces vermelhas e um ar agitado.
 -        Tenho comigo o seu estojo de viagem, senhora. E no o larguei de modo algum.
 Avanando um pouco mais, Anglica descobriu a causa daquela agitao. Era La Violette, primeiro criado de quarto de seu marido.
 Aquele slido latago s tinha de modesto o nome, La Violette. Era um gigante, jovial como um soldado, esperto como um parisiense, embora fosse do Poitou, e ruivo 
como um ingls; seus ancestrais deviam estar entre os que ocuparam a Aquitania nos sculos XIV e XV. Muito  vontade em sua libr e em seu papel de lacaio, apesar 
do talhe de estivador, ele era gil, alerta, industrioso, sempre bem informado e falastro.
 Mas sua loquacidade desapareceu de sbito ao ver Anglica, e ele encarou-a com a boca aberta como se fosse uma apario. Seria a mesma mulher a quem algumas horas 
antes havia enrolado como um salsicho e levado s boas irms do convento das Agos-tinianas de Bellevue?
 - Sim, sou eu mesma, seu patife! - gritou Anglica, rubra de clera. - Fora da minha vista imediatamente, miservel, que quase estrangulou a mulher de seu senhor!
 - Senhora... Senhora marquesa - balbuciou La Violette, voltando a usar, em sua confuso, um acento campons -, no foi minha culpa. Foi o senhor marqus que... 
que...
- Fora daqui, j lhe disse!
 Com o brao estendido, ela se'ps a descarregar sobre ele, no pato de sua infncia, todo o repertrio de insultos a sua disposio.
 Aquilo foi demais para La Violette, e ele desabou. Quase tremendo, com os ombros descados, passou diante dela e dirigiu-se para a porta. Na soleira, chocou-se 
com o marqus.
- Que est acontecendo? Anglica sabia enfrent-lo.
- Boa noite, Filipe - disse.
 Ele baixou sobre ela um olhar de cego. Mas sbito ela viu seu rosto se convulsionar, os olhos arregalaram-se com uma expresso de estupefata consternao, depois 
de terror, e aos poucos quase de desespero.
 Ela no pde se impedir de se voltar, convencida de que veria no mnimo o diabo atrs de si.
 Mas viu apenas a folha oscilante da porta, onde um dos furriis azuis havia escrito em branco o nome do marqus.
 - Eis o que lhe devo! - explodiu ele, golpeando a porta com repetidos socos. - Eis a afronta que lhe devo... A desconsiderao, o esquecimento, o abandono do rei... 
a desgraai...
 - Mas como? - disse ela, convicta de que ele estava ficando louco.
- Pois no v o que est escrito nessa porta?
- Claro... seu nome.
 - Sim, meu nome!  exatamente isso - escarneceu ele -, meu nome. E mais nada.
- Mas que queria voc que houvesse alm disso?
 - O que tenho visto h anos em todas as residncias aonde tenho acompanhado o rei, e o que sua estupidez, sua insolncia... sua imbecilidade me fazem ver hoje suprimido. 
O PARA... O PARA!
- O para...? Para qu?
- PARA o Sr. Marqus du Plessis-Bellire - volveu ele, com os dentes cerrados, lvido de raiva e de dor. - "PARA...", a palavra, o convite especial de Sua Majestade, 
com o qual o rei assinala sua amizade, como se ele mesmo o recebesse  soleira deste quarto. O gesto com o qual designava a estreita e atulhada mansarda devolveu 
a Anglica seu senso de humor:
 - Penso que voc se aflige em excesso pelo seu "PARA" - disse, controlando-se para no estourar de rir. - Deve ser um esquecimento de um dos furriis, Filipe. Sua 
Majestade o tem sempre na maior estima. No foi voc o encarregado de levar esta noite "o castial" para o aposento do rei?
 - Pois ento, no! - disse ele. - O que bem prova o descontentamento do rei em relao a mim. Essa insigne honra acaba de me ser retirada h apenas alguns instantes!
 Os gritos do rapaz haviam atrado para o corredor os ocupantes dos quartos vizinhos.
 - Sua mulher tem razo, marqus - interveio o Duque de Gra-mont. - Voc se aflige sem razo. Sua Majestade tomou a si prprio o encargo de comunicar-lhe que, se 
ele lhe pedia que renunciasse esta noite ao "castial", era para conceder essa honra ao Duque de Bouillon, que no se conformava de ter sido obrigado a ceder suas 
atribuies ao Sr. Prncipe, durante a colao.
 - Mas e o PARA? Por que no o PARA? - gritou Filipe, voltando a socar a porta com desespero. - E devido a essa rameira que vejo meu favor diminuir.
 - E qual a minha falta para com o seu sagrado PARA? - gritou, por sua vez, Anglica, encolerizada.
 - Voc desagradou ao rei por sua demora em responder a seus convites, por suas chegadas intempestivas...
Anglica sufocava.
 - Voc ousa censurar-me quando foi voc quem... quem... Todas as minhas carruagens, todos os meus cavalos ausentes.
- J basta - disse friamente Filipe.
 Ele ergueu a mo. A jovem sentiu a cabea explodir e viu tre-meluzirem as velas contra um fundo escuro. Ela levou a mo ao rosto.
 -        Vamos! Vamos, marqus! - disse o Duque de Gramont. -No seja brutal.
 Anglica tinha a sensao de jamais ter sofrido semelhante mortificao. Esbofeteada! Diante de seus criados e dos cortesos, durante uma srdida cena domstica!
 Rubra de vergonha, chamou Javotte e Flipot, que saram do quarto um tanto aturdidos, carregando seu "enxoval" e o manto.
 -  isso - disse Filipe -, v dormir onde quiser e com quem quiser.
 - Marqus! Marqus! No seja grosseiro - interveio outra vez o Duque de Gramont.
 - Monseigneur, "muito pode o galo no seu poleiro" - replicou o irascvel gentil-homem, batendo a porta no nariz do agrupamento.
 Anglica abriu o caminho e afastou-se sob comentrios falsamente apiedados e sorrisos irnicos. Um brao sado de uma porta a agarrou.
 -        Senhora - disse o Marqus de La Vllire -, no existe uma mulher em Versalhes que no desejasse obter de seu esposo a autorizao que recebeu. Tome ao 
p da letra essa grosseira personagem e aceite minha hospitalidade.
Ela desprendeu-sei com impacincia.
-        Por favor, senhor...
 Queria fugir o mais rpido possvel. Enquanto descia as largas escadas de mrmore, duas lgrimas de rancor brilharam em seus olhos.
 "E um idiota, um esprito masculino sob ares de grande senhor... Um idiota! Um idiota!"
 Mas era um idiota perigoso, e ela prpria forjara as cadeias que a ligavam a ele, dando-lhe direitos temveis, os de um esposo sobre sua esposa. Obstinado em vingar-se, 
ele no lhe concederia nenhum perdo. Ela adivinhava a tenacidade sorrateira e a satisfao com que ele perseguia o objetivo de submet-la, de humilh-la. S conhecia 
um defeito naquela armadura: o sentimento extraordinrio para com o rei, que no era medo nem afeio, mas uma fidelidade exclusiva, um devotamento insupervel. 
Era com esse sentimento que deveria jogar. Fazer do rei um aliado; obter dele um cargo permanente na corte, que obrigaria Filipe a se inclinar diante de suas obrigaes, 
e pouco a pouco colocar Filipe entre a alternativa de cair no desagrado do rei e a de renunciar a atormentar sua mulher. E a felicidade em tudo isso? Aquela felicidade 
com a qual, apesar de tudo, ela havia timidamente sonhado, quando uma noite, no silncio da floresta de Nieul, a lua se havia elevado, redonda, sobre as torrinhas 
do pequeno castelo renascena, para celebrar sua noite de npcias... Amarga derrota! Amarga recordao! Ao lado dele tudo havia fracassado.
 Ela duvidou de seus encantos e de sua beleza. Uma mulher que no se sente amada acaba por no mais se sentir digna de amor. Conseguiria prosseguir no combate em 
que se havia engajado? Conhecia suas prprias fraquezas: am-lo e t-lo feito sofrer. Em sua desmedida ambio, ela o havia constrangido, acuado, colocando-lhe nas 
mos a escolha entre despos-la ou lanar seu nome e o de seu pai diante da clera do rei. Ele preferira despos-la, mas no a perdoara. Por culpa de Anglica, a 
fonte sobre a qual eles poderiam debruar-se estava poluda; a mo que ela teria podido lhe estender causava-lhe horror. Anglica olhou suas mos brancas, abertas 
diante de si, com de-salento e tristeza.
 -        Que ndoa voc no pode apagar,  encantadora Lady Macbeth? - perguntou a seu lado a voz do Marqus de Lauzun.
 Ele se inclinou.
 - Onde est o sangue de seu crime?... Mas suas mozinhas esto geladas, minha bela. Que faz voc nesta escada entre as correntes de ar?
 - Eu no sei.
 -        Sozinha?... Com to belos olhos? E imperdovel. Venha, ento, comigo.
 Um grupo de jovens damas veio ao encontro deles com exclamaes. A Sra. de Montespan estava entre elas.
 - Sr. de Lauzun, estvamos a sua procura. Tenha compaixo de ns.
 - Eis um tipo de compaixo bastante fcil de fazer brotar em meu corao. Em que posso servi-las, senhoras?
 - Aloje-nos. Parece que o rei fez construir para voc uma residncia no vilarejo. Aqui no teremos direito nem a um ladrilho na antecmara da rainha.
         - Mas vocs no so damas de honra da rainha, tanto vocs quanto a Sra. du Roure e a Sra. d'Artigny?
 - Por certo, mas nosso quarto habitual foi completamente demolido pelos pintores. Parece que querem ali colocar Jpiter e Mercrio... no teto. Enquanto isso, esses 
deuses nos expulsam...
 - Est bem, no se aflijam. Eu as conduzirei, todas,  minha residncia.
 Saram. L fora a neblina se tornava mais e mais densa, trazendo o odor da floresta prxima.
 Lauzun chamou um lacaio que carregava uma lanterna e guiou o grupo das jovens colina abaixo.
 -  aqui - disse, parando diante de um amontoado de pedras brancas.
 - Aqui? Como?
 - Minha residncia.  bem verdade que o rei est fazendo com que seja construda, mas por ora s puseram a primeira pedra.
 - Voc  um gracejador de mau gosto! - sibilou Atenas de Montespan, furiosa. - Fazer-nos gelar at a medula, chafurdar neste entulho...
 - Tomem cuidado para no cair tambm em um buraco - advertiu Pguilin, obsequioso. - A terra foi muito revolvida por aqui.
 A Sra. de Montespan partiu; tropeou repetidas vezes, torceu o tornozelo e voltou a explodir em imprecaes, outorgando ao marqus, no caminho at o castelo, eptetos 
que no desmereceriam os soldados do corpo da guarda.
 Lauzun ainda ria, quando o Marqus de La Vallire, que passava por l, gritou-lhe que iria atrasar-se para "a camisa". O rei se dirigia a seu quarto e/os gentis-homens 
deveriam estar presentes ao cerimonial do deitar do rei,, quando ento o primeiro criado entregaria a camisa ao camarista-mor, que a passaria ele prprio ao rei. 
O Marqus de Pguilin deixou precipitadamente as damas, no sem antes reiterar que, apesar de tudo, lhes oferecia hospitalidade... em seu quarto, situado "em algum 
lugar l em cima".
 As quatro jovens, seguidas de Javotte, voltaram ento para cima, onde o aperto era, segundo a expresso da Sra. de Montespan, "de fazer rachar os lambris".
 Depois de muito procurar, acabaram por descobrir a inscrio honorfica em uma pequena porta:
 "PARA o Marqus Pguilin de Lauzun".
 - Feliz Pguilin! - suspirou a Sra. de Montespan. - No importa que cometa todas as tolices do mundo, o rei continua a trat-lo como favorito. E no entanto  um 
homem de estatura pouco avantajada e de fisionomia comum.
 - Mas que compensa esses dois defeitos com duas grandes qualidades - disse a Sra. du Roure. - Ele tem muito esprito e um no sei qu que faz com que as damas que 
o conheam no o deixem de bom grado por outro.
 Aquela era tambm, sem dvida, a opinio da jovem Sra. de Roquelaure, a quem encontraram no quarto, apresentando-se de maneira bem simples: sua criada acabava de 
lhe passar uma camisa de cambraia ornada de rendas aracndeas e destinada a no ocultar nenhum dos predicados da bela dama. Depois de um momento de embarao, ela 
recomps-se e disse com muita graa que, se o Sr. de Lauzun enviava suas amigas para se abrigar em seu quarto, seria injusto lev-lo a mal. Ajudar-se mutuamente 
era o mnimo que se podia fazer em ocasio to excepcional quanto uma estada em Versalhes. A Sra. du Roure estava encantada: de h muito suspeitava que a Sra. de 
Roquelaure fosse a amante de Pguilin. Agora, finalmente, tinha certeza.
 De vasto o quarto s tinha a gua-furtada que se abria para os bosques. A cama com cortinas que os criados acabavam de armar ocupava-o por inteiro. Depois que todas 
entraram, no havia como se deslocar ali dentro. Felizmente, dada sua exiguidade, o local estava aquecido e o fogo da pequena lareira queimava alegremente.
 -        E agora - disse a Sra. de Montespan, tirando os sapatos enlameados -, livremo-nos um pouco do esprito desse maldito Pguilin.
 Ela enrolou as meias encharcadas, e suas companheiras a imitaram. Sentaram-se as quatro no cho com suas grandes saias e estenderam os lindos ps para o fogo.
 -        E se comssemos bolinhos assados? - props Atenas..
A criada foi enviada at as cozinhas, e voltou com um servial
 de bon branco, que trazia um cesto cheio de massa crua e um longo garfo de dois dentes. Instalaram-no a um canto da lareira, com seus utenslios. A Sra. d'Artigny 
tirou da bolsa um tapeti-nho de pelcia, que estendeu, e um baralho, que comeou a em-baralhar agilmente.
 - Voc joga? - perguntou  Sra. du Roure.
 - De bom grado.
 - E voc, Atenas?
 -        No tenho mais um centavo. Perdi tudo ontem  noite, em casa da Sra. de Crqui.
 Anglica recusou. Queria conversar com a Sra. de Montespan. A Sra. d'Artigny insistia: eram precisos quatro para sua partida. Em desespero de causa, engajou um 
dos criados e o cozinheiro.
 - A gente no sabe jogar cartas, senhora - disse o garoto, intimidado.
 - Ento faamos uma bassette - disse a condessa, pegando um copinho para dados.
 -        E eu, senhora condessa, a gente no pode perder muito dinheiro - disse o criado, esquivo.
 A Sra. d'Artigny jogou-lhes uma bolsa, tirada de sua inesgotvel proviso.
 -        Aqui tm, para comear,, E voc no tem necessidade alguma de abrir a boca at as orelhas. Vou recuperar tudo isso com poucos lances.
 Comearam a jogar os dados. O ajudante de cozinha tinha em uma das mos o copinho e na outra o garfo para os assados.
 O Sr. de Lauzun voltou, acompanhado de um gentil-homem seu amigo, que tomou o lugar do criado. O Sr. de Lauzun e a Sra. de Roquelaure foram deitar-se. Depois que 
fecharam as cortinas, ningum mais se ocupou deles.
 Anglica pegava as guloseimas com as pontas dos dedos e mordis-cava-as melancolicamente pensando em Filipe. Como enfraquec-lo, como venc-lo, ou ao menos como 
escapar a sua vindita e impedi-lo de malbaratar seu destino, to penosamente arquitetado?
 Ela recordava os conselhos daquele filsofo da ladroagem, Traseiro de Pau, quando, no fundo de seu antro, tendo por trono um estrado de madeira, ele lhe dizia: 
"No se deixe dominar por Ca-lembredaine, seno voc morrer... da outra morte, a pior, a morte do seu eu..."
 Mas podia-se comparar o grosseiro Calembredaine ao refinado marqus?... Anglica chegava a se perguntar se o mais temvel no seria este ltimo... Dia viria em 
que aborrecimentos estpidos como o furto da carruagem cederiam lugar a atitudes mais perigosas. Ele sabia como atingi-la. Por meio de seus filhos ou de sua liberdade. 
Se lhe ocorresse a crueldade de torturar Florimond e Cantor, como j o fizera, de que modo poderia defend-los?... Felizmente os dois garotinhos estavam protegidos, 
em Monteloup, onde adquiriam cores correndo pelos campos com os pequenos campnios do Poitou. A sorte deles no a preocupava no momento. Disse consigo mesma que 
seria tolice perder-se em temores imaginrios, quando estava vivendo sua primeira noite em Versalhes.
 O fogo se avivava. Ela pediu a Javotte qye lhe passasse seu estojo, de onde tirou dois protetores contra calor em pergaminho delicadamente decorado. Ofereceu um 
deles  Sra. de Montespan. A bela dama admirava a pequena arca de couro vermelho, forrada de damasco branco e incrustada a ouro. Seu interior encerrava, separados 
por divises, um castial de marfim, um saquinho de cetim preto com dez velas de cera virgem, um porta-alfinetes, dois espe-lhinhos redondos e um outro maior, oval, 
guarnecido de prolas, duas toucas de renda acompanhando uma camisola de fino linho, um estojo de ouro com trs pentes e um outro para as escovas. Estes ltimos 
objetos eram obras de arte, de escamas amarelas e vermelhas realadas por arabescos em ouro.
 - Eu os fiz talhar nas carapaas daquelas tartarugas que se pescam nos mares quentes - explicou Anglica -; no se trata de chifre de boi e muito menos de casco 
de asno.
 - Bem vejo - suspirou com inveja a Marquesa de Montespan. - Ah! O que eu no daria para possuir acessrios to encantadores! Quando seria bastante justo se no 
tivesse que penhorar minhas jias para saldar minha ltima dvida de jogo. O que no fiz. Como poderia aparecer esta noite em Versalhes? O Sr. de Venta-dour, a quem 
devo mil pistolas, esperar.  um cavalheiro.
 - Mas voc no foi nomeada dama de honra da rainha? No se ocupa esse cargo sem obter certas vantagens...
 - Ora! Uma misria! Vi dobrarem os gastos com minhas roupas. Gastei duas mil libras na fantasia que usei no bale de Orfeu que o Sr. Lulli comps e que danamos 
em Saint-Germain. Oh! Era adorvel. Minha fantasia, sobretudo. Alis, o bale tambm. Eu estava vestida de ninfa, com todos aqueles penduricalhos imitando as ervas 
de uma nascente. O rei estava de Orfeu, naturalmente. Ele abriu o baile comigo. Benserade comentou-o em sua crnica. O poeta Loret tambm.
 - Em geral fala-se muito das atenes que o rei tem para com voc - acentuou Anglica.
 Os sentimentos que a Sra. de Montespan lhe inspirava estavam bastante abrandados. Invejava-lhe, se no a beleza um pouco semelhante  sua, da bela raa do Poitou, 
ao menos a radiosa ousadia de sua postura e de suas palavras. Junto a Atenas, Anglica, apesar de seu dom de rplica fcil, sentia-se inferiorizada e calava-se, 
de preferncia. Tinha conscincia da grande seduo da linguagem da jovem marquesa; tudo o que havia de exagerado em suas ideias fundia-se e ligava-se por meio de 
uma elocuo deliciosa, de tal forma que as pessoas se sentiam surpresas por no se chocarem de modo algum. Esse gnero de eloquncia, onde a naturalidade e a graa 
faziam aceitar e mesmo admirar uma conversao quase cnica, constitua um talento de famlia: chamavam-no de a lngua Mortemart. As duas irms da Sra. de Montespan, 
a Sra. de Thianges e Maria Madalena, a encantadora Abadessa de Fontevrault, seu irmo, o Duque de Vivonne, cada qual dela dispunha em abundante proviso. Seus discursos 
causavam deleite e temor ao mesmo tempo.
 Constituam tambm uma famlia importante, os Mortemart de Rochechouart. Anglica de Sanc, possuindo, como era obrigatrio, o armoriai de sua provncia, no deixara 
de ficar impressionada pela magnificncia das recordaes que se ligavam a uma das mais importantes casas do Poitou. Em outros tempos, Eduardo da Inglaterra havia 
dado uma de suas filhas a um Sr. de Mortemart. E o atual Duque de Vivonne tivera por padrinhos o rei e a rainha-me.
 Nos olhos de um azul esplndido da Sra. de Montespan, podia-se evocar o orgulho de sua um tanto disparatada divisa:
 "Antes que existissem as guas do mar
 J havia ondas em Rochechouart".
 O que no a impedira de chegar a Paris em grande pobreza, sem outros bens alm de uma velha carruagem, e de se debater desde seu casamento com odiosos apuros financeiros. 
A jovem, muito orgulhosa e mais sensvel do que se supunha, sofria at as lgrimas.
 Anglica, melhor que ningum, conhecia os humilhantes problemas com os quais se debatia a gloriosa Montespan. Tivera muitas vezes a ocasio, desde que conhecera 
o casal, de acalmar credores irascveis, emprestando somas que jamais tornaria a ver, e que nem mesmo pensavam em lhe agradecer. Isso no impedia que Anglica experimentasse 
um prazer manifesto em obsequiar os Montespan. Por vezes ela se interrogava sobre aquela amizade singular, dizendo consigo mesma que Atenas era, no fundo, bem pouco 
simptica, e que a mais elementar prudncia t-la-ia aconselhado a afastar-se dela. Mas a vitalidade da jovem a atraa. O faro de Anglica sempre a conduzira instintivamente 
na direo das pessoas destinadas a obter sucesso. Atenas estava entre elas. Sua ambio transbordava como o mar do qual se prevalecia; melhor seria .segui-la e 
deixar-se levar pela mar do que tentar navegar contra a corrente.
 Por seu turno, Atenas devia julgar cmodo contar em suas relaes com uma amiga to generosa, cuja fortuna era slida, pois que devida a empreendimentos comerciais; 
amiga que se podia no entanto frequentar sem se sentir diminuda. Anglica, apesar de sua beleza, no lhe fazia sombra.
 Diante da aluso feita por sua amiga aos favores do rei, a fisionomia da Sra. de Montespan, que refletia naquela noite uma profunda preocupao, distendeu-se um 
pouco.
 -        A rainha est no fim de uma gravidez, a Srta. de La Vallire comea uma outra. O momento parece propcio para atrair a ateno do rei - disse ela com seu 
sorriso faiscante, sempre marcado a um canto por uma ponta de maldade. - Oh! Anglica, o que voc me leva a dizer, e mesmo a pensar! Eu me sentiria bastante pesarosa 
e envergonhada se o rei quisesse fazer de mim sua amante; no mais ousaria apresentar-me diante da rainha, que  uma mulher to boa.
 Anglica no se deixou lograr totalmente por esse protesto de virtude. Havia, no entanto, certos aspectos do carter de Atenas que a espantavam, sem que ela pudesse 
discernir se se tratava de aparncia hipcrita ou de sentimento sincero: sua piedade, entre outras coisas. A frvola Montespan no faltava a uma missa ou ofcio, 
e a rainha repetia a quem quisesse ouvir que estava bastante contente por ter enfim uma servidora piedosa.
 - Voc se recorda - retomou Anglica rindo - daquela visita que fizemos junto com Francisca Scarron  adivinha Monvoisin? Voc j tinha, se me parece, a vontade 
de lhe perguntar se conseguiria fazer-se amar pelo rei.
 - Passatempos! - disse a marquesa com um gesto que ironizava seus prprios caprichos. - Alis, eu ainda no havia sido nomeada para a comitiva de Sua Majestade 
e procurava meios de me sobrelevar na corte. A Voisin no disse seno tolices...
 - Que ns trs seramos amadas pelo rei!
 - At mesmo Francisca!
 - Oh! perdo. Se tenho boa memria, o destino de Francisca deve ser ainda mais brilhante. Ela desposar o rei!
 Riram juntas de bom grado.
 -        Francisca Scarron!... Rainha de Frana!
 Os jogadores no davam por aquela hilaridade. S se ouvia o barulho dos dados nos copinhos e o dos escudos que os ganhadores deslizavam para suas bolsas. O cozinheiro 
deixava queimar os bolinhos.
 Anglica pegou uma acha e colocou-a na lareira.
 -        Avistei Francisca, esta noite mesmo. Deixava Versalhes depois de ter esperado em vo a oportunidade de entregar uma nova splica ao rei. Pobre Francisca!
 - Ela exagera com suas splicas.  vista por todo lado. Estava tambm na tera-feira em Saint-Germain. O rei voltou-lhe imediatamente as costas, e o ouvi dizer 
ao Duque de Saint-Aignan: "Chovem, em verdade, memoriais da Sra.-Scarron. Quando cessar ela de me importunar?"
 - Felizmente essa observao'no caiu no ouvido da pobre suplicante!
 - Oh! Mesmo que tivesse o ouvido atingido por esse maldoso cumprimento, isso no a teria dissuadido de solicitar; conheo Francisca, nada esmorece seus intentos. 
H dois anos que pede sem sucesso. Voc sabe o resultado? Ela se apresenta com mais e mais frequncia. Acabar por ser confundida com uma personagem das tapearias 
de Saint-Germain, de Versalhes ou Fontainebleau.
 -  um modo de se fazer notar. Francisca tem belos olhos, uma tez sedutora e as mais lindas formas do mundo.
 - Ela  um tanto^morena, voc no acha? Mas reconheo que tem oficiosidade, capacidade. Mereceria obter um cargo modesto.  raro encontrar uma dama de boa educao 
e no entanto to desenvolta.
 "Sim... desenvolta como a pobreza aprende a ser", disse Anglica consigo mesma/ -
 Atenas de Montespan havia empregado nesse pequeno panegrico sobre sua antiga companheira de penso, Francisca d'Aubig-n, todas as suas possibilidades de se interessar 
por algum que no fosse sua cintilante pessoa.
 - Como sou infeliz! - suspirou bruscamente. - Afigure-se-lhe que devo mil e oitocentas libras a meu mestre-segeiro, que  tambm seleiro, e que me preparou os arreios 
de hoje. No sei se voc notou a beleza do couro. Eu os quis dourados, semelhando um tecido bordado. Uma verdadeira maravilha!
 - Mil e oitocentas libras...
 - Oh! a dvida no  enorme! E eu desdenharia de bom grado as queixas do Sr. Gaubert e lhe pediria-que esperasse do mesmo modo que seus confrades, o mestre-alfaiate, 
o bordador ou o joalheiro. Mas meu insuportvel marido Pardaillan meteu-se com ele para empenhar um par de brincos com trs pendentes, guarnecido com trs grandes 
brilhantes, ao qual sou muito apegada. Se no pagar amanh, perco meu adereo! J viu um marido envolver-se em tais negcios com tanta falta de jeito e de conscincia? 
Ele no consegue segurar o dinheiro... Ele joga! Ele joga! No consigo cham-lo  razo em relao ao jogo. E alm de tudo as ideias mais extravagantes... Estou 
vendo o momento em.que vou acabar minha vida como minha tia de Bellegarde, voc sabe, a duquesa?...  da famlia dele, no da minha, apresso-me a dizer... O marido 
tomou-se de cimes por ela. Tem setenta e cinco anos, e ela, cinquenta e cinco. Ele encerrou-a em seu castelo, privou-a do necessrio, e ela est reduzida a rasgar 
os lenis para fazer suas camisolas... Eis o que me espera por ter tido a imprudncia de aceitar essa aliana. Todos esses Pardaillan de Montespan tm algo de bizarro.
 Anglica, com a face ainda ardendo da bofetada de Filipe, no achava as histrias da Sra. de Montespan muito divertidas. Sua expresso rejubilava visivelmente a 
maligna jovem.
 -        No fique remoendo ideias sombrias. Voc controla seu Filipe por outros meios que a afeio conjugal. Comenta-se que voc o deixa escavar sem limite em 
seus cofres de mercadora.
 Na corte, Anglica desejava ser a Marquesa du Plessis-Bellire, e nada mais. A aluso da Sra. de Montespan a suas atividades comerciais f-la rilhar os dentes.
 -        E voc, no se preocupe, pois, em saber se me deixarei sequestrar ou no - disse, encolerizada. - Ser uma boa oportuni
dade para avaliar o que ter perdido. Se voc fosse uma mulher
inteligente, antes me ajudaria a ligar-me  corte, indicando-me, por
exemplo, um cargo vago que pudesse comprar.
 Atenas ergueu os braos aos cus.
 - Minha pobrezinha, que est voc pensando? Um cargo vago na corte?  o mesmo que procurar agulha em palheiro. Todo mundo est  espreita, e mesmo a preo de ouro 
no se consegue prover-se de um.
 - No entanto, voc bem adquiriu o cargo de dama de honra da rainha.
 - O prprio rei indicou-me. Vrias vezes eu o fiz rir em casa da Srta. de La Vallire. Sua Majestade pensou que eu poderia distrair a rainha. O rei tem muitas atenes 
para com sua mulher. Fazia tanto empenho em minha presena junto a ela que teve a delicadeza de pagar o excedente de um cargo que eu teria bastante dificuldade em 
saldar. Mas  preciso proteo, e como a do rei  importante! Vejamos, por quem voc poderia passar? Ou ento poderia criar algo para seu uso e apresentar a petio 
a Sua Majestade. Sua proposta ser examinada pelo Alto Conselho. Se voc conseguir seu registro no Parlamento, est colocada.
 - Isso me parece bem difcil e complicado. Que voc quer dizer exatamente com alguma coisa para meu uso?
 - Bem, no sei... Basta ter urrj pouco de imaginao... Bom, veja um exemplo recente. Eu sei que o Sr. du Lac, mordomo do Marqus de La Vallire, associou-se com 
Collin, criado de quarto da duquesa, para pedir a graa de perceber, dois sis por jeira sobre todas as terras vagas compreendidas entre a comuna de Meu-don na direao 
de Saint-Cloud e o vilarejo de Chagny, situado prximo a Versalhes. A ideia  um achado, pois, com a escolha que o rei fez daquela regio, muitas terras sero compradas 
por l. E que se compreende exatamente por terras vagas? A petio, trazendo a recomendao da Srta. de La Vallire, foi imediatamente subscrita pelo rei. Ele jamais 
lhe recusa alguma coisa. O Parlamento nada pode fazer a no ser registr-la. Esses dois senhores, garantidos por um tal privilgio, arriscam-se a se encontrar um 
belo dia abarrotados de escudos... Alis,  um erro de nossa favorita outorgar tantas vantagens  criadagem! Ela no sabe dizer no. O rei comea a se sentir embaraado 
com a nuvem de solicitantes de que ela o sobrecarrega. A frente deles vem seu irmo, o marqus: um verdadeiro gnio na arte de pedir. Voc poder consult-lo com 
proveito. Ele a aconselhar com o maior bom grado, se creio ter notado que voc no lhe  indiferente... Enquanto se espera, posso apresent-la  rainha. Voc lhe 
falar. E possvel que consiga prender sua ateno.
 - Faa isso - disse Anglica com nfase. - E prometo-lhe que encontrarei em meus cofres de mercadora maneira de apaziguar seu mestre-seleiro.
 A Marquesa de Montespan estava radiante e no o escondeu.
 -        Entendido. Voc  um anjo... E ser um arcanjo se pudesse obter-me, alm disso, uma arara. Sim, um .daqueles grandes pssaros das ilhas com os quais voc 
faz comrcio... Voc sabe, com plumas vermelhas e verdes... Oh! Sonho com eles.
 
 CAPITULO VI
 
 Barcarola, o bobo da rainha
 
 Com a aurora, a Sra. de Montespan bocejou e espreguiou-se. Havia continuado a conversar com Anglica a intervalos; o desconforto da pea no lhes permitia estirar-se 
para repousar um pouco.
 O cozinheiro roncava apoiado na lareira. A Sra. d'Artigny se havia eclipsado. A Sra. du Roure e o jovem que lhes servira de parceiro no jogo conversavam familiarmente 
em voz baixa, agachados lado a lado sobre o lajedo. No se tratava de amor, mas de acerba contabilidade. Anglica ouvia as palavras "encargos... vacncia... quartis... 
excedentes".
 Por trs das cortinas da grande cama, dois corpos sonolentos viraram-se, bocejaram tambm e depois houve um terno murmrio.
 - Creio que eu faria bem em descer - disse Atenas. - A rainha ir chamar por suas damas de honra. Quero ser uma das primeiras a chegar para acompanh-la  missa. 
Voc vem tambm?
 - Talvez a hora no seja muito propcia para me apresentar a Sua Majestade.
 - No . Esperarei nosso retorno da capela. Voc deve se colocar junto  passagem. Mas antes  preciso que lhe mostre os bons lugares para que possa em todas as 
circunstncias ver Suas Majestades e, se possvel, ser vista por elas.  uma arte difcil. Desa comigo. Eu lhe indicarei tambm um pequeno gabinete de banhos contguos 
aos aposentos da rainha, de que suas damas podem dispor para reunir-se e pentear-se. Voc tem outros trajes alm de seu gibo de caa?
 - Sim, em uma arca. Mas  preciso que encontre meu pequeno lacaio para que v peg-la no quarto de meu marido.
 -        Use algo simples durante a manh. Depois da missa o rei receber os solicitantes e em seguida ir trabalhar com seus ministros. Em compensao, creio que 
esta noite haver comdia e partida de bale. Voc poder exibir suas mais belas jias. Agora, venha.
 Fora do quarto o tempo estava glacial e -mido. A Sra. de Mon-tespan desceu as escadas sem se preocupar com as correntes de ar que sopravam sobre suas belas espduas 
nuas.
 -        No est com frio? - perguntou Anglica.
 A marquesa teve um gesto de despreocupao. Tinha a resistncia dos cortesos habituados a suportar os piores incmodos, tanto o frio como o calor, em salas abertas 
a todos os ventos, ou, ao contrrio, sufocantes sob a chama de milhares de velas, a fadiga das longas estadas em p, as noites sem dormir, o peso dos vestidos sobrecarregados^ 
de douraduras e de jias.
 Anglica conservara a sensibilidade ao frio dos mal nutridos. No podia dispensar os mnts. Tinha toda uma coleo deles. E muito belos. O que ela trazia era em 
quadradinhos alternados de veludo e cetim, de um verde azulado que combinava com seus olhos. O capuz era ornado com uma renda veneziana que podia abaixar sobre o 
rosto, quando no desejava ser reconhecida.
 A Sra. de Montespan deixou-a na entrada da Sala dos Festins. A exceo dos suos em. seus postos, imveis como esttuas, com suas alabardas e golas pregueadas 
engomadas, ningum parecia ter ainda despertado no grande palcio. A claridade do dia mal comeava a dissolver a obscuridade dos sales. Galerias e vestbulos escancaravam-se 
sobre as trevas como grutas imensas e fabulosas onde se adivinhava o brilho dos ouros e dos espelhos.
 A maior parte das velas estava apagada.
 - Eu a deixo - sussurrou a dama de honra da rainha, invadida pela solenidade de um silncio bastante raro naquele local. - Por ali h um pequeno gabinete onde voc 
poder sentar-se enquanto espera. Os cortesos que devem presenciar o despertar do rei no vo tardar a aparecer. Sua Majestade  matinal. Logo voltaremos a nos 
ver.        
 Ela distanciou-se, e Anglica foi abrir a porta dissimulada por uma tapearia, que lhe havia sido indicada.
 -        Oh! perdo - disse, fechando-a depressa.
 Ela deveria ter imaginado que um recanto, por pequeno que fosse, desde que comportasse um sof, s poderia ser ocupado de maneira galante.
 " curioso", considerou, "no imaginava que a Sra. de Soubise tivesse to lindos seios. Ela esconde seu jogo e seus encantos."
 Naturalmente seu par no era o Sr. de Soubise. O que tambm poderia ter imaginado. Em Versalhes, fechavam-se os olhos  licena, mas os divertimentos conjugais 
pareceriam por demais burgueses e teriam chocado a todo mundo.
 Anglica no tinha outro recurso a no ser errar pelas salas abandonadas.
 Deteve-se na primeira. Era a Sala Jnica, assim chamada devido s dozes colunas que sustentavam a cornija. J havia uma certa luminosidade. Podia-se distinguir 
a graa das brancas volutas, desenrolando seus anis  beira das sombras como as vagas de um mar plcido sobre um oceano obscuro. O teto, com seus profundos cai-xotes 
de ouro e bano, permanecia invisvel. Dali emergia o cristal dos lustres, maravilhas glaciais, estalactites fericas suspensas por fios invisveis. Nas paredes, 
trs conjuntos de espelhos refletiam as janelas, invadidas pouco a pouco pela claridade do dia.
 A jovem foi apoiar-se nos montantes de mrmore e olhou para fora. Tambm o parque saa da noite. O terrao arenoso ao p do castelo, despojado, sem sombras, tinha 
a nitidez de uma praia. Os flocos de neblina pairavam mais baixo, envolvendo as altas carpas severamente talhadas e cuja arquitetura batizava uma espcie de cidade 
fantasma, de muralhas brancas e azuladas, guardando o segredo dos jardins perfeitos com seus canteiros de bordados, seus tanques de gua negra e verde onde cisnes 
avanavam.
 Quando o sol surgisse, ver-se-iam reverberar aquelas guas de longe em longe, dos dois tanques do terrao ao de Latona e ao de Apolo, desenhado com a forma de um 
disco de prata; depois  cruz de ouro do Grande Canal, onde se detinham, domadas, outras guas, mortas e selvagens, aquelas dos grandes pntanos, domnio do pato 
e da cerceta, e que se estendiam a perder de vista.
 -        Com que est sonhando, marquesa?
 A voz era sussurrante e a personagem a quem pertencia, invisvel. Anglica olhou a seu redor com a impresso desconcertante de que somente a esttua de mrmore 
a sua frente teria podido dirigir-lhe a palavra.
 -        Com que est sonhando, marquesa?
 - Mas... quem fala?
 - Eu, Apolo, o deus da beleza, a quem voc teve a amabilidade de vir fazer companhia nesta hora matinal.
 - Est fresco, no  mesmo? Voc ainda tem um manto, mas eu estou completamente nu. Um corpo deunrmore no  quente, voc sabe.
 Anglica deu um salto, olhou para trs da esttua e nada viu. Um amontoado de panos multicoloridos sobre o solo, junto ao pedestal, chamou no entanto sua ateno. 
Ela debruou-se e para ali levou a mo. O amontoado deu ento um salto como um cabrito e, com uma pirueta, um curioso gnomo surgiu diante dela, tirando o capuz com 
o qual escondia o rosto.
 - Barcarola! - exclamou Anglica.
 - Para servi-la, Marquesa dos Anjos.
 O ano da rainha inclinava-se em profunda reverncia. No era mais alto que uma criana de sete anos. Diante da deformidade daquele pequeno corpo atarracado, apoiado 
sobre perninhas tortas, esquecia-se a beleza de seu rosto inteligente. Usava um chapu de cetim carmesim enfeitado com medalhas e guizos. O colete e o gibo eram 
tambm de cetim, metade carmesim e metade pretos, mas sem guizos ou ornamentos. Trazia punhos de renda e uma espada em miniatura. H muito que Anglica no o via. 
Achou-o com um ar de gentil-homem e disse-lho.
 -        No ? - falou Barcarola, satisfeito. - Tirando o meu talhe, creio que posso igualar-me a qualquer um destes belos senhores que se pavoneiam por aqui. 
Ah! se nossa boa rainha quisesse consentir que me tirassem esses poucos guizos que ainda trago no chapu, far-me-ia um sensvel favor. Mas ela sustenta que na Espanha 
os bufes sempre usam guizos e que, se no mais ouvir esse pequeno carrilho ao seu redor, ficar mais triste, ainda. Felizmente meus dois companheiros e eu temos 
um aliado inesperado.  o rei. Ele no consegue nos suportar. No perde uma ocasio, quando vem aos aposentos da rainha, de nos expulsar a bastonadas. Ns nos salvamos 
com algumas cabriolas, fazendo soar bem forte todos os nossos berloques. Em todas as ocasies, enquanto ele palestra, ou at mesmo em conjunturas mais ntimas e 
delicadas, agitamos freneticamente nossos chocalhos. Isso o deixa com um terrvel mau humor. A rainha acabou por not-lo. Ela suspira ento e nada mais diz quando, 
por acaso, um de nossos guizos arrancados no  reco-sido. Breve empreenderemos a obteno de um outro privilgio.
 - Qual?
 - A peruca - disse Barcarola, revirando os olhos. Anglica ria.
 - Creio que voc est se tornando pretensioso, Barcarola.
 -        Procuro elevar-me, lanar-me no mundo - disse o ano com presuno.
 Mas em seu olhar de homem maduro ela podia ler a expresso melanclica e a ironia. Ele zombava de si mesmo.
 - Estou muito contente por rev-lo, Barcarola. Conversemos um pouco.
 - No receia por sua reputao? Comentaro sobre ns. Se seu marido me desafiar para um duelo?...
 - Voc tem uma espada.
 -  verdade! A um corao valente nada  impossvel. Ento lhe farei a corte, bela marquesa. Mas olhemos para a janela. As pessoas pensaro que admiramos os jardins 
e no podero perceber minhas declaraes inflamadas.
 Ele trotou em direo  janela e colou o nariz a uma das vidraas, como fazem as crianas.
 -        O que acha do lugar? Agradvel, no ? Marquesa dos Anjos, voc, uma grande dama, no renega a sua amizade com o bufo da rainha?
 Anglica estava em p, a seu lado, com os olhos tambm voltados para os jardins. Ela pousou a mo sobre o ombro do homenzinho.
 -        As recordaes que nos unem no so daquelas que podem ser renegadas, Barcarola.
 Ela acrescentou, mais baixo:
 -        O que seria mesmo desejvel, mas impossvel...
 Agora o sol dissipava a neblina. O dia seria lmpido. Um desses dias doces e luminosos como um dia de primavera. Libertas das brumas, as carpas recobravam sua tintura 
verde, os tanques, transparncias azuladas, as flores, coloridos vivos. Os jardineiros chegavam com suas carriolas e seus ancinhos. Eram bastante numerosos, mas 
pareciam pequenos na escala da vasta esplanada.
 -        Por vezes - disse Barcarola em voz baixa - nossa rainha se inquieta. Ela no me ouviu durante todo o dia. Onde poderia ter ido seu ano preferido?... Ele 
est em Paris, mesmo que isso desagrade a Vossa Majestade. Para render homenagem a uma outra Majestade, que nenhum sdito se permitiria negligenciar, o Grande Cosre 
Traseiro de Pau, rei dos malfeitores. Oh! sditos da nossa espcie, Marquesa dos Anjos, no existem muitos. Capazes de cuspir nas bolsas cheias, gordas como meles. 
Creio que Traseiro de Pau gosta de mim.
 -        De mim tambm ele gosta - disse-Anglica.
 Ela evocou o rosto impressionante do aleijado. Quem poderia imaginar aqueles passeios clandestinos que s vezes conduziam a bela Marquesa du Plessis-Bellire, mascarada, 
vestida de sarja, at os confins do Faubourg Saint-Denis? E cada semana os empregados de sua casa, escolhidos entre os antigos companheiros da malta, levavam at 
l cestas contendo finos vinhos, aves e assados.
 -        No tema nada, Marquesa dos Anjos - murmurou ainda Barcarola -, ns sabemos guardar o segredo. E no se esquea de que, conosco, voc jamais estar sozinha 
nem em perigo... mesmo aqui.
 Ele voltou-se e com um gesto enftico de seu bracinho englobou o esplndido cenrio.
 -        Aqui!... no palcio do rei, onde cada qual est mais sozinho e sob ameaa do que em qualquer outro lugar da Terra...
 Os primeiros cortesos comeavam a chegar, dissimulando um bocejo atrs dos punhos de rendas. Os taces de madeira ressoavam longe sobre o piso de mrmore. Criados 
apareceram trazendo achas de lenha. Acendia-se o fogo nas monumentais lareiras dos sales.
 -        A "velha" no vai tardar. Ei-la, a vem ela.
 Anglica viu passar a silhueta de uma mulher de certa idade, envolta em uma capa com capuz. Trazia sobre os cabelos grisalhos uma touca camponesa engomada, feita 
da mais fina cambraia. A sua passagem, alguns gentis-homens afastaram o p  guisa de leve reverncia. Ela pareceu no os ver. Prosseguia em seu caminho com tranquila 
majestade.
 - Para onde vai ela?
 - A cmara do rei.  a Sra. Hamelin, sua ama-de-leite. Ela conservou o privilgio de entrar pela manh em sua cmara, antes de quem quer que seja. Ela abre as cortinas 
e o beija em sua cama. Pergunta-lhe se dormiu bem e se est bem-dispostcConversam um pouquinho. Os grandes deste mundo sapateiam  porta... Depois que se retira, 
no  mais vista durante todo o dia. No se sabe onde ela se enterra com sua roca...  um pssaro da noite, a "velha". Mas os ministros, os prncipes e os cardeais 
a cada dia engolem o desgosto de ver essa pequeno-burguesa de Paris obter o primeiro sorriso do monarca e lhe subtrair frequentemente seu primeiro favor.
 O rei se levantava.
 Sobre os passos da ama, que se retirava, entravam os trs mdicos em suas tnicas negras, tendo, sobre opulentas perucas de cachos brancos, o chapu em ponta, insgnia 
de sua respeitvel profisso. Um aps outro tomavam o pulso do rei, informavam-lhe sobre sua sade, trocavam algumas palavras em latim e depois saam.
 Ento tinha lugar a primeira entrada, a dos prncipes de sangue.
 Diante dos prncipes de sangue inclinados, o rei descia da cama. O camarista-mor passava-lhe seu chambre, que o primeiro criado carregava. Sua Majestade tinha o 
direito de vestir, ele mesmo, seus cales, e depois um dos grandes oficiais precipitava-se para amarrar as jarreteiras.
 Como fosse privilgio do primeiro gentil-homem apresentar a camisa, era preciso que ele aparecesse caminhando orgulhosamente  frente da segunda entrada, composta 
por membros da alta nobreza e por senhores com autorizao especial.
 Aps ter o rei recebido sua camisa, o primeiro criado de quarto apresentava a manga direita; o primeiro criado do guarda-roupa ajudava a vestir a manga esquerda.
 A terceira entrada, composta por duques e pares, se fazia s cotoveladas, com um rumor alegre e uma multiplicidade de reverncias que faziam vergar os gibes bordados 
como um campo de flores sob uma ventania.
 Enquanto isso o mestre do guarda-roupa atava a gravata. Era seu direito. Mas o gravateiro, tendo-a julgado mal-arrumada, retocava-a ou voltava a amarr-la. Era 
seu direito tambm. Com a condio de se ter assegurado antes de que nenhum oficial superior de quarto se achasse presente.
 A quarta entrada, dos secretrios de Estado, a quinta entrada, dos embaixadores, a sexta entrada, violeta e prpura, dos cardeais e bispos, lotavam pouco a pouco 
a cmara do rei.
 Com um olhar o rei reconhecia cada um e notava as ausncias. Fazia perguntas, informava-se sobre os boatos e se divertia com alguma resposta espirituosa. E os santos 
do paraso versalhs, pensando nos simples mortais relegados para fora das portas douradas, saboreavam a alegria inefvel de serem admitidos a contemplar o rei de 
chambre.
 
 CAPITULO VII
 
 Anglica  convocada ao gabinete do rei
 
 Anglica vira desfilar todos os "santos" com direito de acesso ao santurio.        
 - Ns somos as "almas do purgatrio" - disse-lhe, rindo, uma das damas que j alf estavam, bastante ataviadas, desejosas de ser as primeiras  passagem do rei e 
da rainha, quando estes se dirigissem  capela.
 O Marqus du Plessis-Bellire fizera parte da segunda entrada.
 Anglica esperou, para se assegurar de v-lo penetrar no quarto do rei.
 Lanou-se em seguida aos andares, e sofreu todas as penas do mundo para se situar no labirinto dos corredores atravancados por uma desordem inominvel onde reinava 
um odor de ps de ris e de velas apagadas.
 O Sieur La Violette polia as espadas de seu mestre, trauteando uma cano. Ele ofereceu-se humildemente para laar as roupas da senhora marquesa. Anglica colocou-o 
para fora sem rodeios. Vestiu-se como lhe foi possvel, no tendo tempo de sair  procura de Javotte ou de uma camareira. Depois partiu, correndo, e chegou a tempo 
de ver o pequeno cortejo da rainha. Esta tinha o nariz vermelho, apesar do p com que fizera cobrir o rosto corado. Havia passado toda a noite chorando... O rei 
no viera, nem mesmo "uma horinha", como ela confiava, desolada, a suas damas, o que era uma omisso bem rara, pois Lus XIV tinha sempre o interesse de salvaguardar 
as aparncias, indo introduzir-se ao menos "uma horinha" no leito conjugal. Para ali dormir na maior parte das  vezes, mas, enfim, ele ia. Fora mais uma vez aquela 
La Vallire que o inflamara, fazendo-se de amazona de Diana caadora, no dia anterior nos bosques.
 O grupo da rainha encontrou o de La Vallire, que tambm se dirigia para a capela. Maria Teresa passou, muito digna, o lbio espanhol tremendo sobre soluos ou 
talvez injrias sufocadas. A favorita fez humildemente sua reverncia. Quando se ergueu, Anglica viu seus olhos azuis, muito suaves e com uma expresso um pouco 
acuada. Na luminosidade e no brilho de Versalhes, ela no era mais caadora, porm uma cora cercada. O juzo de Anglica se confirmava. Ela no tinha fibra. Seu 
favor declinaria, se isso j no acontecera! Maria Teresa equivocava-se em tem-la. Havia, no longe dali, rivais a postos, e bem mais temveis...
 Um pouco mais tarde o rei retornou da capela e saiu para os jardins. Haviam-lhe informado que alguns doentes escrofulosos dos arredores, sabendo de sua estada, 
se haviam reunido atrs dos gradis na esperana de alcanar o "toque" milagroso. O rei no lhos podia recusar. No eram em grande nmero. Seria uma cerimonia rpida, 
e em seguida Sua Majestade receberia as peties dos solicitantes no salo de Diana.
 Um jovem senhor do squito do rei atravessou a multido e inclinou-se diante de Anglica.
 - Sua Majestade faz lembrar  Sra. du Plessis-Bellire que conta sem falta com sua presena na caada de amanh,  primeira hora.
 - Agradea a Sua Majestade - disse ela, rgida de emoo - e assegure-lhe que somente minha morte poderia impedir-me de estar presente.
 - Sua Majestade no pede tanto. Mas acentuou que, se a senhora tivesse algum impedimento, ele estaria desejoso de conhecer a razo.
 - Eu o farei, pode assegurar-lho, Sr. de Louvois.  o senhor, no  verdade?
 - Com efeito.
 - Gostaria de lhe falar. Seria possvel?
 Louvois pareceu espantado e disse que, se a Sra. du Plessis permanecesse na galeria, talvez pudesse encontr-la  hora em que o rei ganhasse seu gabinete de trabalho, 
aps a entrega das peties.
 - Eu o esperarei. E confirme a Sua Majestade minha presena amanh na caada.
 - No, no ir - disse a voz de Filipe a seu ouvido. - Senhora, a mulher deve obedincia a seu marido. Jamais lhe dei autorizao para aparecer na corte e voc 
a se introduziu contra minha vontade. E eu lhe ordeno que parta e que volte para Paris.
 - Filipe, voc  absurdo - respondeu Anglica no mesmo tom baixo. - Absurdo e desajeitado, alm de tudo. S obter proveitos com minha presena na corte. Com que 
direito me atormenta assim?
 - Com o direito que voc teve de me atormentar primeiro.
 - Voc  pueril. Deixe-me em paz.
 - Com a condio de que deixe Versalhes imediatamente.
 - No.
 - No ir amanh  caada.
 - Irei!
 Louvois no era testemunha da discusso, pois se distanciara para juntar-se ao squito do rei. Seus vizinhos olhavam-nos com ar de chacota. As cenas domsticas.dos 
Plessis-Bellire estavam em via de se tornar celebrei!
 O que lhes estava nmais prximo, com uma expresso de quem olhava para outro lado, era o jovem Marqus de La Vallire, com seu perfil de pssaro zombeteiro.
 Anglica interrompeu a conversa para escapar ao ridculo.
 -        Basta, Filipe. Eu me vou. No falemos mais nisso.
 Ela o deixou e se contentou em atravessar a galeria e refugiar-se em um dos grandes sales onde havia menos gente.
 "Se tivesse um cargo oficial na corte, eu dependeria do rei, e no do humor desse extravagante", repetia-se ela.
 Como se fazer outorgar tal cargo, e sobretudo rapidamente?
 Eis por que havia pensado subitamente em Louvois, enquanto lhe falava.
 Sua imaginao comercial j trabalhava. Lembrara-se de que, ao tempo em que ela havia montado seu negcio de carroas a cinco centavos em Paris, Audiger lhe falara 
daquele Louvois, grande corteso e homem poltico, mas igualmente proprietrio de um privilgio sobre as diligncias e os transportes entre Lion e Grenoble.
 Certamente tratava-se do mesmo Louvois. Ela no o acreditara to jovem, mas no devia esquecer que era filho de Le Tellier, secretrio de Estado e chanceler do 
rei para o Alto Conselho.
 Iria propor-lhe uma troca de negcios, tentar obter seu apoio e o de seu pai...
 O Marqus de La Vallire, bordejando de grupo em grupo, tentava juntar-se a ela.
 Seu primeiro impulso foi o de se eclipsar, mas depois reconsiderou.
 Haviam-lhe falado daquele Marqus de La Vallire, tenazmente  espreita de umas tantas combinaes que podiam lhe render benefcios. Ele "sabia a corte" melhor 
do que qualquer outro. Ela poderia se informar junto a ele.
 -        Creio que o rei no se mostrou aborrecido com voc pelo seu atraso de ontem  caada - disse-lhe, abordando-a.
 "Eis a por que voc ousa prosseguir sua pequena intriga comigo", pensou ela.
 Mas obrigou-se a fazer boa figura diante dele. Quando lhe falou de um cargo na corte, ele riu de piedade.
 - Minha pobrezinha... voc perdeu a razo! Seria preciso matar no uma, mas dez pessoas, para ter vaga a mnima colocao. Lembre que todos os ofcios da cmara 
do rei e da rainha s se vendem... por quartis.
 - Quer dizer?...
 - Que s se pode adquiri-los por trs meses. Depois do qu, so novamente postos em leilo. O prprio rei est irritado com isso, porque v a todo momento novos 
semblantes nos cargos onde gostaria de conservar seus hbitos. Como ele no quer se separar a nenhum preo de Bontemps, seu primeiro criado de quarto, tem que ajud-lo 
sem cessar, no somente a recomprar seu cargo, mas ainda a pagar pelo direito de poder compr-lo. E isso traz descontentamentos.
 - Senhor, quantas complicaes! O rei no pode impor sua vontade e interditar essas transaes bizarras?
 -  preciso tentar contentar a todos - disse o Marqus de La Vallire, com um gesto indicador de que, para ele, aqueles costumes estranhos eram to inelutveis 
quanto a marcha das estaes.
 - Mas voc mesmo, como se arranja? Disseram-me que voc est muito bem provido.
 - Exageram. Eu possuo o cargo de lugar-tenente do rei, dos mais mdicos quanto ao soldo. Com quatro companhias para equipar e manter, e minha posio a sustentar 
na corte, eu no veria a sombra desse dinheiro se no tivesse algumas ideias pessoais que...
 Ele interrompeu-se para segurar pelo brao algum que passava.
 -        Foram condenados? - perguntou com ansiedade.
 - Sim.
 -  roda?
 - A roda, com degolao.
 - Perfeito - disse o jovem marqus com satisfao. -  precisamente uma de minhas especialidades - explicou a Anglica, cujo ingnuo espanto o envaidecia. -- Eu 
me ocupo sobretudo das "heranas jacentes". No sabe de que s trata, aposto.
 - Eu me ocupei de muitas Coisas, na verdade, confesso que...
 - Bem, voc no ignora que, quando um dos sditos do reino  condenado, seus bens, seja qual for a importncia, revertem para a coroa. O rei dispe deles e geralmente 
presenteia com eles a quem deseja favorecer. Minha especialidade  a de estar  espreita desses negcios e de ser o primeiro a fazer uma solicitao. O rei mostraria 
m vontade se mo recusasse. No lhe custa nada, no  mesmo? Assim, acabo de acompanhar o processo do vice-bailio de Chartres, um grande e consumado ladro, carregado 
de crimes.  fora de espoliar i regio, ele acabou por se fazer prender, assim como dois de seus cmplices de pilhagem, os senhores de Cars e de La Lombardire. 
Como voc acabou de ouvir, foram condenados. Vo cortar-lhes a cabea. Bom negcio para mim!
 Ele esfregou as mos.
 - Era a informao que eu espreitava esta manh, e por isso no segui o rei durante o "toque das escrfulas". Espero que ele no se tenha dado conta de minha ausncia; 
mas no podia perder a notcia. Esses bandidos tm polpudos bens, sem contar o produto de suas espoliaes; redigi adiantado meu pedido para ser seu beneficirio. 
Vou poder apresentar minha petio agora mesmo. Em tudo isso, o que conta  a rapidez. E tambm o faro. Ver, tenho uma outra pista, mais delicada, mas onde conto 
sair-me bem, e chegar primeiro.  a do Conde de Retorfort, um francs que acaba de ser morto a servio do rei da Inglaterra, em Tnger. Se conseguir provar que esse 
Retorfort era ingls, poderei candidatar-me  sua herana, porque os bens dos estrangeiros residentes na Frana revertem igualmente para o domnio real, depois de 
sua morte...
 - Mas como voc poder provar que esse francs era ingls?
 - Eu me arranjarei. Terei alguma ideia. Sou frtil delas... Eu a deixo, minha bela, pois creio que Sua Majestade no vai tardar a voltar dos jardins.
 "De fato, a esse belo senhor no falta habilidade", disse consigo mesma Anglica, um pouco desconcertada, "mas ele tem atitudes de gato cruel e uma mentalidade 
de carniceiro".
 Louvois voltava e, passando a seu lado, inclinou-se ligeiramente e cochichou que, a seu grande pesar, era obrigado a assistir o rei em uma segunda audincia, em 
seguida  qual ele faria a si mesmo o prazer de lhe consagrar alguns instantes "porque depois participaria ainda do servio de mesa de Sua Majestade e no teria 
realmente tempo para si mesmo".
 Anglica aquiesceu com resignao, pondo-se a admirar a capacidade de trabalho do jovem rei que, tendo-se deitado, como se comentava, pelas trs horas da manh, 
se encontrara em p para a missa s seis horas e estava depois "a negcios" sem se alterar.
 Ao deix-la, Louvois se dirigira a um jovem mal vestido, com um ar um pouco deslocado na elegante assembleia. Seu rosto trigueiro contrastava com a gravata de rendas 
e a peruca, que parecia suportar com incmodo. Ele fez uma saudao seca e confirmou:
 -        Sim, sou o enviado da ilha Dauphine.
 Depois as duas personagens submergiram no gabinete do rei, apesar dos protestos indignados e veementes de um outro gentil-homem de postura militar, que acabara 
de chegar.
 - Senhor, o rei me convocou para esta hora e com urgncia. Tenho que ser o primeiro!
 - Eu sei, senhor marechal, mas sou militar tambm e devo executar as ordens do rei, o qual, sabendo que o senhor aqui presente acaba de chegar, ordenou que ele 
passasse na frente de quem quer que fosse.
 - Tenho precedncia sobre todos os marechais, e no me sustarei a que um vulgar oficial de marinha me suplante.
 - Este oficial  convidado do rei e tem por isso toda a precedncia, em que me pese, Sr. de Turenne.
 Turenne, um rude soldado de cinquenta e dois anos, empalideceu e depois retesou-se.
 -        Sua Majestade parece no ter mais considerao pelo cargo com que ele mesmo me gratificou. Est bem. Ele me reconvocara quando tiver um pouco mais de tempo 
para consagrar aos velhos servidores e s pessoas teis.
 Turenne atravessou a multido de cortesos como se passasse suas tropas em revista. Seus olhos muito negros reluziam sob as espessas sobrancelhas encanecidas. Dois 
jovens alferes que permaneciam perfilados a uma das portas desembainharam imediatamente os sabres e o ladearam.
 -        Oh! meu Deus, ser que vo prend-lo? - exclamou Anglica, transtornada.
 O Marqus de La Vallire, que se encontrava como que por acaso a seu lado, explodiu em risos.
 - Mas que lhe sucede, cara amiga, para emprestar a nosso soberano to negros desgnios? Por Deus, drr-se-ia que voc jamais deixou sua provncia. Prender o senhor 
marechal! E para qu, poderosos deuses?
 - Ele no acaba de proferir palavras insultosas contra o rei?
 - Ora! O Sr. de Turenne tem o falar franco de todos os militares. Quando  vtima de alguma injustia, ele se enraivece. No que no est errado. E  bastante justo 
que ele tenha o privilgio de possuir uma guarda particular de cavalaria e dois alferes que o acompanhem, com o sabre desembainhado, a toda parte onde tenha quartel, 
mesmo junto ao rei.
 - Se ele goza de privilgios to importantes, por que se aborrece por to pouca coisa?
 O marqus retesou-se.
 - Eu partilho um pouco da raiva de nosso marechal. Como chefe supremo do exrcito ele deve ser o primeiro sempre. O exrcito  o primeiro corpo do reino.
 - Antes da nobreza? - perguntou ela, insistente.
 O sorriso desdenhoso do jovem La Vallire acentuou-se.
 - Sua pergunta  a de um pequeno-burgus. Devo recordar-lhe que o exrcito  a nobreza e que a nobreza  o exrcito? A quem incumbe pagar o imposto de sangue no 
reino? Aos nobres! Desde a mais tenra idade, meu pai ensinou-me que eu devia carregar a espada, e que essa espada e minha vida estavam a servio do rei.
 - Voc no tem necessidade de me dar uma aula - disse Anglica, que havia enrubescido. - Minhas origens so ao menos to nobres quanto as suas, Sr. de La Vallire. 
Pode informar-se sobre isso. E ademais sou a esposa de um marechal da Frana.
 - No iremos nos indispor por to pouco - disse o marqus, estourando de rir. - Voc  um pouco ingnua, mas encantadora. Creio que seremos excelentes amigos. Se 
voc me viu aborrecer-me,  porque achamos, na corte, que meu real "cunhado" se mostra por demais generoso para com os burgueses e as pessoas comuns. Assim, fazer 
passar na frente do Sr. de Turenne um navegador pouco civilizado...
 -        Esse navegador no traria, talvez, notcias que interessassem a Sua Majestade neste momento, particularmente?
 Uma mo pousando em seu ombro f-la estremecer. Viu diante de si uma personagem em roupas escuras, e que a princpio, apesar de forar a memria, no conseguiu 
identificar.
 Uma voz rouca, baixa, e no entanto cheia de autoridade, ressoou em seus ouvidos:
 -        Precisamente, senhora. E preciso que me conceda de imediato uma entrevista urgente sobre esse assunto.
 -        Que assunto, senhor? - perguntou Anglica, perturbada.
La Vallire, h poucos instantes orgulhoso gentil-homem, multiplicava as reverncias.
 -        Senhor ministro, suplico-lhe que lembre a Sua Majestade minha muito humilde splica, concernente  minha indicao para a sucesso vacante do vice-bailio 
de Chartres. O senhor sabe que esse grande bandido acaba de ser condenado a ter o pescoo cortado.
 A austera personagem lanou-lhe um olhar sem amenidade.
 -        Humm... veremos - resmungou.
 Anglica acabava de nele reconhecer o Sr. Colbert, o novo superintendente das Finanas e membro do Alto Conselho.
 Colbert deixou o corteso curvado e levou com uma firmeza sem rplica a Sra. du Plessis a um recanto da galeria, no exterior.
 Entrementes, Colbert fizera sinal a um auxiliar que o seguia e subtraiu-lhe o contedo de um grande saco de veludo negro no qual havia uma massa de dossis. Dali 
ele tirou uma folha amarela.
 -        A senhora sabe, creio, que no sou nem corteso nem nobre, mas um comerciante de tecidos. Ora, a partir dos negcios de que juntos tratamos, tive conhecimento 
de que, apesar de nobre, a senhora tambm est no comrcio... Em suma,  a um membro das corporaes de mercadores que me dirijo, na sua pessoa, para lhe pedir um 
conselho...
 Ele procurava dar um tom jocoso a suas palavras, mas no tinha jeito para tal. Anglica ficou indignada. Quando ento aquelas pessoas cessariam de lhe jogar seu 
chocolate na cara?
 Ela contraiu os lbios. Mas, ao olhar Colbert, deu-se conta de que ele tinha a fronte molhada de suor, apesar do frio. Sua peruca estava um pouco deslocada, e ele 
certamente se impacientara com seu barbeiro, naquela manh.
 A preveno da jovem cedeu. Iria fazer-se de pretensiosa? Disse bastante pausadamente:
 - Tenho, com efeito, empreendimentos comerciais, mas de bem pouca importncia em comparao queles de que o senhor trata, senhor ministro. Em que posso ser-lhe 
til?
 - Ainda no sei, senhora. Veja por si mesma. Encontrei seu nome como proprietria com plenos direitos em uma lista da Companhia das ndias Orientais. Prendeu-me 
a""ateno o fato de no ignorar que a senhora faz parte da nobreza. Seu caso , pois, particular; e, como disseram-me depois serem prsperos os seus negcios, pensei 
que poderia esclarecer-me sobre certos pormenores que me escapam, concernentes quela companhia.
 - Senhor ministro, o senhor sabe, como eu, que aquela companhia, tanto quanto a dos Cem Associados, que era o dobro dela e da qual eu possua tambm cinco aes, 
trabalhava no comrcio das Amricas, e atualmente, juntas, no valem mais um sol!
 - No lhe falo do valor das aes, que, com efeito, no esto mais cotadas, mas dos-ganhos reais que a senhora deve, contudo, ter obtido nesse comrcio onde outros 
perdiam dinheiro.
 - Meu nico ganho real foi o de me instruir sobre aquilo que no se devia fazer, e paguei muito caro a lio. Porque esses negcios eram geridos por ladres. Eles 
contavam com ganhos miraculosos, quando esses empreendimentos que se efetuam em pases longnquos so, sobretudo, fruto do trabalho.
 O rosto do Sr. Colbert, sulcado de rugas devido  insnia, iluminou-se com uma espcie de sorriso, que ganhava seus olhos sem lhe distender os lbios.
 - O que a senhora me revela seria ento, de certa forma, minha prpria divisa: "O trabalho tudo pode"?
 - "...e  a vontade que confere prazer a tudo o que se deve fazer" - recitou Anglica de um flego, e levantando um dedo: - "e  a aplicao que traz a alegria."
 O sorriso iluminou completamente as ingratas feies do ministro, a ponto de torn-las graciosas.
 - A senhora conhece at mesmo a frase de meu relatrio sobre a referida companhia de navegao longnqua - disse ele com um espanto e uma precipitao apaixonados. 
- Pergunto-me se h muitos entre os honorveis acionistas da companhia que se deram ao trabalho de ler minha frase.
 - Eu estava interessada em saber o que pensava sobre o assunto o poder que o senhor representa. A transao, em si mesma, era vivel e lgica.
 -        Mas, ento, acredita que tal empresa possa e deva ter xito?
- perguntou o ministro, vivamente.
 Mas logo ele se acalmou, e foi em um tom neutro e monocr-dio que enumerou os haveres secretos da Sra. du Plessis-Bellire ou Sra. Morens:
 - Plenos direitos sobre a nau So Joo Batista, de seiscentas toneladas, equipada para o corso com doze canhes, e tambm mercante, e que lhe traz cacau, pimenta, 
especiarias e madeira preciosa da Martinica e de So Domingos...
 - E exato - confirmou Anglica. - Era preciso dar continuidade a meu comrcio de chocolataria.
 - Colocou o corsrio Guinam como comandante?
 - De fato.
 - No ignorava, quando o tomou a seu servio, que ele havia pertencido ao Sr. Fouquet, atualmente na priso? A senhora pensou na gravidade de tal conduta, ou foi 
Fouquet quem a aconselhou?
 - Jamais tive a oportunidade de falar com o Sr. Fouquet - disse Anglica.
 Ela estava longe de se sentir segura. Colbert sempre se mostrara um inimigo encarniado de Fouquet, e havia sorrateiramente tecido a rede na qual este acabara por 
se deixar prender. Tudo o que tivesse ligao com o antigo superintendente conduzia a um terreno incandescente.
 - E a senhora enviou esse barco para comerciar na Amrica. Por que no s ndias? - inquiriu bruscamente Colbert.
 - s ndias. Pensei nisso. Mas um navio francs no conseguiria empreender a viagem sozinho, e no tenho meios para adquirir muitos deles.
 - No entanto seu So Joo Batista faz o caminho para a Amrica sem problemas.
 - No h corsrios barbarescos a temer. Diante deles, um navio sozinho no tem nenhuma oportunidade de ultrapassar o cabo Verde, e, se no for abordado na ida, 
ele o ser na volta.
 - Mas como fazem, ento, os navios das Companhias das ndias holandesas e inglesas, que so to florescentes?
 - Eles vo em grupo. So verdadeiras frotas de vinte a trinta navios de grande tonelagem que deixam Haia ou Liverpool. E nunca h mais de duas expedies por ano.
 - Mas ento por que os franceses no fazem o mesmo?
 - Senhor ministro, se o senhor no o sabe como poderia eu sab-lo? Questo de carter, talvez? Ou de dinheiro? Poderia eu sozinha me proporcionar uma frota pessoal? 
Tambm seria preciso, para os navios franceses, uma escala de reabastecimento, cortando em duas a longa rota das ndias Orientais.
 - Na ilha Dauphine, por exemplo?
 - Na ilha Dauphine, sim, mas com a'condio de que no sejam militares nem gentis-homens, principalmente, que detenham o comando supremo em tal empresa.
 - E quem, ento?
 - Ora, simplesmente aqueles que tm o hbito de abordar as terras novas, de comerciar e de contar, quero dizer, os mercadores - respondeu Anglica com nfase para 
subitamente explodir em risos.
 - Senhora, estamos falando de assuntos srios - protestou o Sr. Colbert, melindrado.
 - Desculpe-me, ms imaginava entre outros um gentil senhor como o Marqus de Ea Vallire no papel de comandante de desembarque em meio aos selvagens.
 - A senhora poria em dvida a coragem desse gentil-homem? Sei que ele j deu provas dela a servio do rei.
 - No  uma questo de coragem. Como procederia o Sr. Marqus de La Vallire ao desembarcar em uma praia e ver correr em sua direo uma nuvem de selvagens, todos 
nus? Ele degolaria a metade e transformaria os outros em escravos.
 - Os escravos representam uma mercadoria necessria e que traz lucros.
 - No o nego. Mas, quando se trata de estabelecer feitorias e fincar razes em um lugar, o mtodo no  borri.  o mnimo que se pode dizer, e que explica o fracasso 
das expedies e o porqu de os franceses que ali permanecem serem periodicamente massacrados.
 O Sr. Colbert lanou-lhe um olhar onde havia admirao.
 -        Com os diabos se eu esperava...
Ele coou o queixo mal barbeado.
 - Aprendi mais sobre isso em dez minutos do que em muitas noites de viglia passadas sobre estes malfadados relatrios.
 - Senhor ministro, minha opinio  suspeita. Eu escuto as recriminaes dos comerciantes e dos navegadores, mas...
 - No  um boato a ser negligenciado. Eu lhe agradeo, senhora. Far-me-ia um obsquio considervel se consentisse em esperar ainda uma meia hora na antecmara.
 -        Que no seja por isso, senhor ministro.
 Ela voltou para a antecmara onde o Marqus de La-Vallire comunicou-lhe com maldosa alegria que Louvois perguntara por ela, e que depois partira para almoar.
 Anglica reprimiu um movimento de contrariedade. Era sua oportunidade. Esperava especialmente por essa entrevista com o jovem ministro da Guerra para solicitar 
seu cargo na corte, e agora, devido a esse encontro inopinado com Colbert, que lhe falara de comrcio martimo, ela perdera a oportunidade. Ora, o tempo urgia, que 
ideia extravagante poderia ainda germinar no crebro de Filipe? Se ela lhe resistisse muito abertamente, ele seria bem capaz de aprision-la. Os maridos tinham absoluta 
autoridade sobre suas mulheres. Era preciso que se implantasse ali, antes que fosse muito tarde...
 Anglica quase sapateou de raiva e seu desalento redobrou, quando os cortesos anunciaram que Sua Majestade retomaria suas audincias no dia seguinte e que todos 
podiam partir.
 Quando j se encaminhava para a sada, o auxiliar do Sr. Colbert abordou-a:
 -        Se a senhora marquesa quiser seguir-me, est sendo aguardada.
O cmodo onde acabavam de introduzir Anglica era de amplas dimenses, mas menos espaoso do que os sales. Somente o teto muito alto, abrindo-se sobre as nuvens 
azuis e brancas de uma paisagem do Olimpo, lhe dava propores intimidantes. s duas janelas, pesadas cortinas de seda azul-escura, brocadas de flores-de-lis em 
ouro e prata, combinavam com a mesma seda que revestia as poltronas de espaldar amplo e os trs tamboretes alinhados junto  parede. Os lambris das paredes eram, 
como todos os de Versalhes, ornamentados com elegantes trabalhos em estuque representando frutas, pmpanos, guirlandas, e reluziam com todo o brilho do ouro novo, 
cuidadosamente aplicado sobre cada moldura, folha por folha. A combinao entre o ouro e o azul profundo conferia ao conjunto um aspecto a um tempo grave e suntuoso.
 Anglica considerou tudo aquilo com um simples olhar. Era o reduto de um homem, criado para um homem.
 O Sr. Colbert estava em p, dando-lhe as costas. No fundo do cmodo havia uma mesa feita de uma nica placa pesada de mrmore negro, sustentada por patas de leo 
em bronze dourado.
 Do outro lado da mesa estava o rei. Anglica ficou boquiaberta...
 -        Ah, eis o meu agente de informaes - disse o ministro, voltando-se. - Por favor, senhora, aproxime-se e queira colocar Sua Majestade a par de sua experincia 
como... como armadora, em suma, na Companhia das Indias,-que ackra to singularmente muitos aspectos da questo.
 Lus XIV, com a cortesia com que honrava cada mulher, mesmo as mais simples, levantara-se para saud-la. Anglica, confusa, deu-se conta de que no havia feito 
nem mesmo sua reverncia de corte e mergulhou em uma profunda genuflexo, maldizendo o Sr. Colbert.
 - Sei que o senhor no tem o hbito de pilheriar, Sr. Colbert - disse o rei -, mas eu no contava com que o agente de informaes, porta-voz dos navegadores que 
o senhor me anunciava, se apresentasse sob os traos de uma das damas da corte.
 - A Sra. du Plessis-Bllire no  somente uma acionista muito importante da companhia- Ela armou um navio com a inteno de comerciar nas ndias e teve que renunciar 
a isso, voltando seus esforos para a Amrica. So as razes desse abandono que ela vai nos expor.
 Anglica perguntava-se que atitude adotar. O rei esperava pacientemente. Seu olhar castanho observava a jovem, e ela leu nele aquela sabedoria minuciosa e prudente 
que devia marcar a maior parte das aes de Lus XIV, qualidade espantosa da parte de um soberano de vinte e sete anos, que bem poucos, entre seus ministros, haviam 
notado. Seu lbio distendeu-se em uma expresso sorridente e ele disse com delicadeza:
 - Por que se perturba?
 - Eu sei que Vossa Majestade no gosta das reputaes excntricas. E entre elas est, me parece, a de ser dama da corte e ocupar-se com navegao, e temo que...
 - A senhora no tem que temer nos desagradar, falando-nos abertamente. Navegao ou outros assuntos, ver que na corte se encontra de tudo, e, de minha parte, no 
me espanto com mais nada. Se o Sr. Colbert estima que suas informaes podem nos esclarecer, fale ento, senhora, com a nica preocupao, que espero ser a sua, 
de bem servir aos nossos interesses.
 Ele deixou-a em p, para assinalar que a recebia da mesma forma que a seus colaboradores, os quais, quaisquer que fossem a idade ou dignidades, jamais deviam sentar-se 
em sua presena, a no ser quando recebidos em particular.
 Ela teve que explicar ao rei por que seu navio havia renunciado a comerciar com as ndias Orientais, apesar dos proveitos que contava obter. Era devido ao perigo 
representado pelos piratas barba-rescos que cruzavam ao largo de Portugal e das costas d Africa, e cuja nica indstria consistia em pilhar os navios isolados. 
No estaria ela exagerando as desvantagens representadas por esses piratas? Muitas naus francesas, navegando sozinhas, voltavam gloriosamente do longo priplo pelo 
cabo da Boa Esperana. Anglica fez notar que no se tratava de navios comerciais, mas de corsrios, contando com sua rapidez para escapar aos brbaros, e que voltavam 
com os pores quase vazios, contentando-se com o comrcio de ouro, prolas e pedras preciosas. Mas um navio de grande tonelagem, abarrotado de mercadorias, era incapaz 
de fugir das ligeiras galeras argelinas ou marroquinas. Seria como um grande escaravelho atacado por formigas. Os canhes frequentemente atiravam muito longe. Logo, 
nada restava  tripulao seno levar desvantagem no momento da abordagem. Assim, fora graas aos marinheiros do So Joo Batista que, por duas vezes, seu navio 
pudera escapar  rapinagem. O que no acontecera sem grandes combates. Um deles ocorrera ao largo do golfo da Gasconha; o outro, na escala da ilha de Gore. Muitos 
marinheiros haviam sido mortos ou feridos. Ela havia desistido...
 O rei escutava, pensativo.
 - E ento uma questo de escolta?
 - Em parte, sire. Os ingleses e holandeses partem em grupo, escoltados por navios de guerra, e conseguem com isso manter seu comrcio.
 - No gosto muito desses mercadores de arenques salgados, mas seria tolice no aproveitar os mtodos de nossos inimigos, naquilo que tm de bom. O senhor ir providenci-lo, 
Sr. Colbert. Partidas importantes de grandes navios mercantes, escoltados por navios de guerra...
 O rei e o ministro discutiram um longo espao de tempo sobre os pormenores daquele projeto; depois, virando-se para Anglica, o rei perguntou-lhe por que se mostrava 
ctica em relao a sua realizao. Ela teve que confessar que as viagens coletivas no agradavam ao temperamento francs. Cada um gosta de conduzir seu negcio 
a seu modo. Alguns armadores estariam prontos a se lanar ao mar, ao passo que outros no disporiam de dinheiro para armar. J se havia tentado obter a necessria 
unio para formar importantes comboios, o que nunca fora conseguido. A mo de Lus XTV pousou sobre a mesa e ali se apoiou com fora.
 -        Desta vez agiro sob a ordem do rei - disse ele.
 Anglica olhou aquela mo que traa o peso de uma vontade soberana. H mais de uma hora encontravm-se naquele escritrio, e ela tinha a sensao de que o rei no 
a deixaria ir, seno quando lhe tivesse confiado inteiramente o resultado de suas bem ou malsucedidas experincias como armadora. Ele tinha o dom de fazer perguntas, 
de obrigar seus interlocutores a esclarecer as situaes. Quais eram os outros motivos do fracasso da navegao para as ndias Orientais? A demora da viagem, a falta 
de uma escala francesa na rota... Ele j havia pensado nisso. No teria ela ouvido falar que, dois anos antes, uma expedio havia partido para assegurar a possesso 
da ilha Dau-phine? Sim, ela no o ignorava, mas ningum contava muito com aquilo, porque aquela expedio estava destinada ao fracasso.
 O rei levantou-se de um salto e cerrou os dentes.
 -        Como o sabe? Acabo de receber o enviado do Sr. Montevergue, comandante da expedio. Seu imediato aportou em Bordeaux h alguns dias. Ele estava em Versalhes, 
esta manh, e tinha ordens de nada comunicar a ningum, antes de me ver. Eu o recebi assim que chegou, e ele acaba de sair de meu gabinete. Ter-se-ia permitido fazer 
comentrios?
 Era preciso dizer tudo. De como os "navegadores estavam a par, h muito tempo, das dificuldades da expedio da ilha Dauphine, tendo alguns navios trazido a bordo 
os doentes assolados pelo escorbuto ou feridos pelos selvagens... De como os armadores recebiam informaes mais rpido do que o rei graas ao sistema de seguros 
pagos entre os navios das diferentes naes e que se encarregavam do correio... Por que a expedio estava destinada ao fracasso, sendo apenas militar, quando seriam 
necessrias mercadorias etc. ...
 Ela falava com segurana sobre as coisas do mar porque, assim como aqueles que possuem uma imaginao viva, cada palavra, para ela, criava um quadro preciso, e 
a ateno fixa do rei a encorajava.
 s portas daquele escritrio detinham-se rumores frvolos, as tagarelices incoercveis da corte, e a sorte do mundo podia-se decidir ali dentro, enquanto l fora 
continuava a festa. Assim trabalhava o rei, capaz de se isolar de tudo para perseguir, a cada momento, um s objetivo.
 Foi somente quando ele se levantou que ela se apercebeu de como estava cansada, com fome, e que tinha estado conversando com o rei durante duas horas, como com 
um amigo de longa data. O Sr. Colbert se retirou. Anglica ia imit-lo, quando o rei -a reteve.
 -        Queira permanecer, senhora.
 Ele contornou a mesa para ir a seu encontro. Estava descontrado, afvel. Abriu a boca, e depois renunciou a falar. Seu olhar vagava sobre aquele rosto de mulher 
erguido em sua direo, e subitamente parecia descobrir por trs da aparncia sedutora daquela feminilidade o que jamais procurava: uma alma, um pensamento, uma 
personalidade.
 Ele disse docemente, com um modo sonhador:
 - Vir a minha caada amanh?
 - Sire,  minha firme inteno.
 - Falarei com o Marqus du Plessis para que a mantenha nessas boas intenes.
 - Sire, eu lhe agradeo.
 Fez-se novo silncio. O corao de Anglica saltou-lhe duas vezes no peito, sem que soubesse por qu, e ela teve conscincia de que enrubescia.
 Entrementes, o primeiro gentil-homem da cmara do rei, o Duque de Charost, apresemou-se. Sua Majestade assistiria ao Grand Couvert ou desejava ser servido em particular?
 -        J que o Grand Couvert est previsto, no decepcionemos os basbaques que fizeram a viagem a Versalhes para assistir a ele, - disse o rei. - Vamos jantar.
 Anglica fez uma reverncia, que renovou  sada do gabinete do rei. Sua Majestade disse-lhe ainda:
 - Creio que a senhora tem filhos, no? Esto em idade de servir?
 - Sire, eles so muito jovens: sete e nove anos.
 - Tm a idade do delfim. Ele logo deixar o governo das mulheres e ser colocado com um preceptor. Queria dar-lhe companheiros que partilhassem suas brincadeiras 
e o animassem um pouco. Apreseme-os a ns.
 Sob o olhar invejoso dos cortesos reunidos, Anglica fez uma terceira reverncia.
 
 CAPTULO VIII
 
 Etiqueta em Versalhes
 
 O rei jantava.        
 Um exrcito de servidores, comandados pelos oficiais-de-boca, aprestara a mesa e .'dispusera protocolarmente os assentos; o camarista-mor, apsnspeo, -abrira 
a sala aos membros da corte desejosos de presenciar a refeio de Sua Majestade, que se enfileiraram numa ordem estabelecida de antemo, enquanto na antecmara e 
nos corredores se comprimia o pblico admitido a desfilar diante da mesa de seu rei.        -
 O rei surgira no enquadramento da porta, detivera-se, inclinando-se para corresponder  reverncia das pessoas j presentes. Em seguida entrara sorridente, tomando 
seu lugar  mesa.
 Imediatamente, Monsieur, seu irmo, precipitara-se e, numa profunda inclinao, ofereceu-lhe o guardanapo.
 Em p, atrs do soberano, o camarista-mor, Sr. de Bouillon, trazia seu guardanapo com mo firme, e, no olhar, claramente manifestava que no concederia a mais ningum, 
nem a um prncipe de sangue, o direito de usurpar seu lugar.
 Na antecmara, guardas incitavam a multido a deixar a passagem livre, enquanto avanava um cortejo, lembrando um pouco uma procisso.
 Um guarda em uniforme de gala precedia servidores que traziam aos ombros uma enorme caixa coberta com um tecido bordado em ouro e prata; aos carregadores se seguiam 
o mordomo, munido de seu basto de comando, o porteiro de sala, o padeiro-mor, oficiais, clrigos e criados de copa.
 A caixa continha "a comida do rei".
 Diante da mesa real, a multido desfilava lentamente. Burguesas e burgueses de Paris, pequenos empregados, artesos, operrios, mulheres do povo, cada qual absorvia 
do espetaculo as lembranas que a memria poderia reter, menos ofuscantes pelo brilho dos cristais e da baixela de ouro do que pela viso do rei de Frana se alimentando 
em sua glria.
 O rei falava pouco, mas tinha o olhar atento a tudo. Anglica viu-o levantar-se ligeiramente por vrias vezes, era saudao a damas da corte que chegavam, enquanto 
o camarista-mor apressava-se a providenciar um tamborete. Para outras damas no havia nem saudao nem tamborete. Eram as damas "no sentadas", as mais numerosas. 
Anglica, que estava entre elas, comeava a no mais sentir suas pernas.
 A Sra. de Choisy, a seu lado, cochichou-lhe:
 -        Ouvi o que o rei lhe dizia, h pouco, a propsito de seus filhos. Minha cara, que sorte a sua! No hesite. Seus filhos iro longe se voc os acostumar 
a frequentar somente as pessoas de qualidade. Cedo se habituaro  complacncia e guardaro por toda a vida esse ar de civilidade que permite ter sucesso na corte. 
Veja meu filho abade. Eu o eduquei com esse objetivo desde a mais tenra idade. No tem vinte anos, e j soube se situar to bem que est a ponto de obter um bispado.
 Mas, naquele momento, Anglica sentia-se menos motivada em relao ao futuro de Florimond e de Cantor do que diante da possibilidade de mastigar alguma coisa e, 
se possvel, confortavelmente.
 Ela deixou a Sala dos Festins o mais discretamente possvel e achou-se, mais adiante, em meio a uma reunio de damas instaladas ao redor de mesinhas de jogo. Criados 
passavam travessas de vitualhas, que as belas elegantes beliscavam, com os olhos voltados para as cartas.
 Uma alta e robusta dama levantou-se e, vindo at Anglica, beijou-a em ambas as faces. Era a Grande Mademoiselle.
 - Sempre me alegra v-la, minha bela. Voc se aborreceu com a corte, me parece. Isso me surpreendeu por vrias vezes, nestes ltimos meses, mas eu no ousava interrogar 
o rei. Voc sabe que as conversas entre ele e mim comeam sempre mal e nunca terminam bem. No entanto  meu primo, e ns nos apreciamos enormemente. Mas, enfim, 
ei-la aqui. Sua expresso  a de quem procura por algum.
 - Que Vossa Alteza me desculpe, mas procurava um lugar onde me sentar.
 A boa princesa lanou a seu redor um olhar perplexo.
 - Aqui no lhe  permitido faz-lo, pois Madame est entre ns.
 - E sei tambm que minha linhagem no me permite sentar-me diante da senhora, Alteza.
 -  onde voc se engana. Voc  uma dama de qualidade e eu, apenas neta de Frana por parte de .meu av, Henrique IV. Voc tem pois o direito de sentar-se em,minha 
presena, sobre um ladrilho ou at sobre um tamborete, o que lhe permitiria de bom grado, minha pequena amiga, mas diante de Madame, filha de Frana por seu casamento 
com Monsieur,  absolutamente impossvel.
 - Compreendo.
 Anglica deu um pequeno suspiro.
 - Mas estou sonhando - retomou a Grande Mademoiselle. - Venha partilhar nosso jogo. Procuramos uma parceira. A Sra. d'Arignys acaba de nas deixar; est completamente 
sem dinheiro.
 - E como poderia- jogar sem me sentar?
 - Mas poder sentr-se! - exclamou a outra, irritada. - Venha. Venha, pois.     
 Ela levou-a para fazer sua reverncia a Madame, que, munida de um jogo de cartas numa das mos e uma asa de ave na outra, dedicou-lhe um sorriso distrado.
 Anglica ainda no tomara seu lugar, quando foi agarrada pela Sra. de Montespan, que. entrava apressada.
 -        Eis o momento de se apresentar  rainha. Apresse-se.
 A Sra. du Plessis balbuciou algumas desculpas a seu redor e seguiu a amiga a passos largos.
 - Atenas - disse ela, no caminho -, esclarea-me sobre a questo do "tamborete". No consigo compreender. Quando, por qu, em que circunstncias e a que ttulo 
uma dama da corte tem o direito de colocar uma cadeira sob o traseiro.
 - Quase nunca. Nem diante do rei nem da rainha, se ela no pertencer  famlia real. No entanto h toda espcie de regras e excees. Ah! O direito ao tamborete! 
Obt-lo  o sonho de cada um, e sobretudo de cada uma, desde a corte dos velhos reis celtas. Contaram-me que naquele tempo era um-direito que s se aplicava aos 
homens. Ele sobreviveu na corte de Frana, e para as mulheres tambm. O tamborete  sinal de alta linhagem ou de grande favor. Tem-se direito a ele quando se faz 
parte da casa da rainha ou do rei. H tambm os pretextos.
 - Os pretextos?
 - O jogo, por exemplo. Se voc joga, pode sentar-se, mesmo diante dos soberanos. Se faz trabalhos de agulha, tambm. E preciso ao menos ter nas mos alguma coisa 
que faa pensarem uma ocupao. H algumas presumidas que se contentam em ter um lao de fita nos dedos. Enfim, voc est vendo que h mil maneiras de se acomodar 
 situao...
 A rainha estava entre as mos de suas damas, que a adornavam e penteavam para as festas da noite. Sobre um consolo, escrnios abertos abrigavam algumas jias da 
coroa. Maria Teresa experimentava-as uma a uma: golilhas de diamantes montadas sobre ouro ou prata dourada, brincos feitos de um nico diamante, talhado em forma 
de pra e de tamanho nico no mundo, que se dizia provenientes das ndias, braceletes, diademas.
 Anglica mantinha-se um pouco afastada, aps ter feito mltiplas reverncias e beijado a mo da rainha. Pensava na infanta, que havia visto na noite de seu casamento 
com o rei, em Saint-Jean-de-Luz. Onde estavam os plidos cabelos de seda loura, avolumados por postios, as pesadas saias  espanhola armadas hieraticamente pelas 
anquinhas fora de moda? A soberana vestia-se agora  francesa, mas aquela moda no se adequava a sua silhueta robusta. A tez delicada, muito plida e rosada, outrora 
conservada pela sombra dos palcios madrilenos, havia se tornado barrosa. O nariz facilmente se avermelhava. Causava surpresa a majestade natural dessa pobre criatura 
to desvantajada. Apesar de piedosa e um tanto falta de esprito, ela possua jovialidade. Eram de um humor bem espanhol suas cleras ciumentas e a paixo que votava 
ao rei. Gostava dos divertimentos da corte e dos mexericos, e a mnima ateno do rei provocava-lhe um ingnuo arrebatamento.
 Notando o olhar de Anglica fixo sobre ela, disse, mostrando a golilha de diamantes que cintilava sobre o peito e os ombros:
 -        E para c que se deve olhar... e no para c - completou, apontando o rosto com um sorriso humilde.
 A um canto, anes brincavam com os grijfons favoritos da rainha. Barcarola dirigiu a Anglica uma piscadela cmplice.
 Em seguida houve passeio nos jardins, porque o tempo estava ameno e a hora era propcia. Depois, com a chegada dos archotes, um grande rebulio agitou a corte, 
cada qual aprestando-se, pressuroso.
 Anglica pde vestir-se na antecmara das damas de honra da rainha. A Sra. de Montespan fez-lhe ver que as jias que trouxera eram muito modestas para a ocasio. 
No havia mais tempo para fazer trazer outras da Manso do Beautreillis, em Paris. Dois ourives lombardos, ligados  corte, foram-lh imediatamente enviados com 
seus escrnios; em troca de "mdico" pagamento, alugavam jias durante algumas horas, muito belas, alis; um mao de papis a assinar os garantia contra o risco 
de ver seus augustos clientes escaparem no se sabe para onde, com suas jias alugadas.
 Anglica assinou e, aliviada do "mdico" pagamento que se elevava no entanto a duzentas libras (!) - com aquela quantia poderia ter adquirido pelo menos dois braceletes 
de valor -, desceu at a grande galeria ao rs-do-cho, onde estava armado o teatro.
 O rei j havia tomado seu lugar. As exigncias da etiqueta no deixavam um nico assento disponvel. Anglica teve que se contentar em ouvir as gargalhadas dos 
espectadores dos primeiros lugares.
 -        O que acha da aula que nos ministra o Sr. Molire? - disse uma voz a seu ouvid. - No-  das mais instrutivas?
 A voz era to afvel que Anglica pensou estar sonhando ao deparar com Filipe, empertigado, a seu lado, a sua maneira de apario, em um casaco de cetim rosa brocado 
de prata, que somente sua tez amndoa e seu bigode louro permitiam-lhe envergar sem parecer ridculo. Ele sorria, e Anglica esforou-se por responder com naturalidade:
 -        A aula do Sr. Molire deve ser, por certo, das mais divertidas, mas do lugar onde me encontro devo confessar que nada distingo.
 -         uma grande pena. Deixe-me ajud-la a ganhar algumas fileiras.
Ele passou-lhe um brao  volta da cintura e arrastou-a. Cediam-lhes passagem de bom grado. O favor de Filipe, conhecido de todos, tornava as pessoas pressurosas 
em relao a eles. Ademais, seu posto de marechal facultava-lhe grandes prerrogativas, como a de poder fazer entrar sua carruagem no ptio do Louvre ou sentar-se 
diante do rei. Sua mulher, no entanto, no gozava desses benefcios. Eles puderam colocar-se com facilidade  direita do palco. Era preciso permanecer em p, mas 
ouvia-se perfeitamente.
 -        Estamos no ponto exato, penso eu. Vemos o espetculo e o rei nos v. Perfeito!
 Ele no havia retirado a mo da cintura de Anglica; ao contrrio, ainda inclinava o rosto em sua direo, e ela sentia a peruca sedosa roar-lhe a face.
 -  absolutamente necessrio que me estreite to de perto? - perguntou ela secamente em voz baixa, concluindo, depois de re-fletir, que essa nova atitude de seu 
marido s podia ser suspeita.
 - Absolutamente necessrio. Sua maldade julgou hbil envolver o rei em seu jogo. No quero que ele duvide de minha boa vontade. Seus desejos so ordens.
 - Ah! ento  isso - disse ela, olhando-o.
 - E isso... E continue a fixar-me assim, nos olhos, por alguns segundos. Ningum mais ter dvida de que o Sr. e a Sra. du Plessis-Bellire se reconciliaram.
 - Isso  importante?
 - O rei o deseja.
 - Oh! Voc ...
 - Permanea tranquila.
 Seu brao tornara-se um crculo de ferro, embora a voz continuasse controlada.
 - Acabar por me sufocar, seu estpido!
 - Eis o que me daria imenso prazer. Pacincia, isso vir com o tempo. Mas no  o dia, nem o momento... Veja, eis Arnolfo, que faz Ins ler as onze mximas do casamento. 
Aplique o ouvido, senhora, eu lhe peo.
 A pea que estava sendo encenada ainda no fora levada a pblico. O rei tinha a primazia de v-la. Em cena, Arnolfo, prestes a convolar justas npcias, entregava 
a sua jovem noiva um longo formulrio:
 - "E aqui trago em meu bolso um escrito importante
 Que vos ensinar o dever da mulher.
 Ignoro o autor, mas  bom no mister.
 E que s a isto tenhais por distrao.
 Vejamos se o lereis com correo".
 Molire representava o papel de Arnolfo. Seu rosto espirituoso sabia refletir os sentimentos mesquinhos e desconfiados de um burgus um tanto falto de esprito. 
A mulher do comediante, Armande Bjart, estava igualmente a contento no papel de Ins, jovem beldade tida por ignorante e tola. Lia, com voz lmpida e dcil:
 -"Aquela que em lao honesto
Outro leito partilhar
 Deve entender por correio
 Contra o que possam falar
 Que somente pertence a quem a desposar".
 - Explicar-lhe-ei o que isso quer dizer - replicava Arnolfo. - Mas, no presente instante, limite-se a ler.
 -"Deve apenas se adornar
Quanto possa desejar
 O marido que a possui,
 Que sua beleza s a ele deve mirar."
 Anglica escutava, distrada. Gostava bastante de comdias, mas sentir Filipe to prximo a perturbava.
 "Se pudesse ser verdade"; pensava, "que ele me mantivesse assim junto dele, sem rancor e sem recordaes de nossos dissentimentos..."
 Ela queria voltar-se para ele e dizer-lhe: "Filipe, deixemos de proceder como crianas amuadas e impertinentes... H em ns, da parte de um e de outro, muitas coisas 
que fariam com que nos entendssemos e talvez nos amssemos. Eu o sinto e creio nisso. Voc era o meu primo importante, a quem admirava e com quem sonhava em menina".
 Ela endereava-lhe olhares furtivos, surpresa por ver que sua agitao no se comunicava quele corpo magnfico, to viril apesar da preciosidade de apresto. As 
tagarelices propagavam em vo as atrocidades atribudas ao Marqus du Plessis; ele no era um Petit Monsieur nem um Cavaleiro de Lorena: era o deus Marte, o deus 
da guerra, duro, implacvel e frio como o mrmore.
 Onde se esconderia, por trs daquele disfarce, o calor vivo desse homem que parecia desprovido das reaes elementares de um homem? Anglica tinha a sensao de 
no ser para ele mais do que uma esttua de madeira; o que era muito deprimente.
 O Sr. Molire, em seus ensinamentos de Escola de Mulheres, s pensara nos homens, iguais a tantos outros, burgueses ou gentis-homens, que so presa de fria quando 
enganados, caem em ridculo por um par de belos olhos e mudam de cor quando uma linda mulher se apoia um pouco mais languidamente neles. Mas, para um Filipe du Plessis-Bellire, 
a psicologia do grande comediante permaneceria em dbito. Por onde atingi-lo?...
 No palco, Arnolfo acabava de descobrir no somente que Ins no o amava como ainda ardia em chamas unicamente pelo louro Horcio. Ele explodia em imprecaes:
 -"No sei que me detm que, com uma pancada
No faa por vingar tanta fanfarronada.
Enraiveo-me ao ver frieza to picante,
 Mas alguns bons socos deixar-me-iam radiante".
 Molire estava magnfico em sua fria burlesca e, no entanto, to humana. As pessoas sabiam-no ciumento e torturado pela co-queteria da encantadora Bjart.
 -        "Coisa estranha, o amor, e que por tais tratantes
Os homens se arrisquem a fraquezas de amantes.
No h quem no conhea sua imperfeio,
 S tm na vida disparate e indiscrio.
 O esprito  malvolo, a alma  frgil,
 Nada mais infiel, e, com defeitos tais,
 Que no faz o mundo por esses animais!..."
 - Ah! Ah! Ah! - faziam os espectadores.
 - Imbecis! - disse Filipe a meia voz. - Riem e, no entanto, no h um entre eles que no esteja disposto a tudo fazer por esses "animais".
 -  Eles, ao menos, tm sangue nas veias - retrucou Anglica.
 - E o corao cheio de estupidez.
 - Ah! quanta afronta,  muita provocao... - uivava Arnolfo.
 - "Seguirei meu desejo, bicho, renitente,
 E logo deste burgo estareis ausente.
 Rejeitar-me e pisar-me, a est vosso intento,
 Mas tereis por castigo o fundo de um convento."
 A plateia vinha abaixo sob risadas.
 - O fim agrada-me bastante - disse Filipe. - E voc, o que acha, minha cara?
 - Esse Molire  um homem hbil - retomou ele um pouco mais tarde, quando aps o trmino da representao cada qual retornava  sala de baile, passando pelos jardins. 
- Ele sabe que escreve em primeiro lugar para o rei.  a rainha. Ento coloca em cena burgueses e gente do povo. Mas, como pinta o homem eterno, cada um a se reconhece, 
apesar de tudo, sem se sentir atingido.
 "Esse Filipe no  to tolo, afinal", pensou Anglica, surpresa. Ele tomara-lhe o brao, familiaridade que ela no recebia sem apreenso.
 - No receie que eu a magoe - disse Filipe.- Est combinado que no lhe farei nenhum mal em pblico.  um princpio venat-rio. Para domar as ferais  preciso estar 
a ss com elas, a portas fechadas. Bem, faamos urna avaliao de nossos negcios se o quiser. Primeira parte. Voc ganhou a primeira partida constrangendo-me a 
despos-la. Ganho a segunda infligindo-lhe uma pequena e merecida correo. Voc venceu a "negra", pois, apesar de minhas proibies, se apresentou em Versalhes 
e a foi recebida. Inclino-me, e passamos  segunda parte. Eu ganho a primeira partida raptando-a; voc ganhou a segunda evadindo-se. Alis, estou curioso por saber 
de que modo. Em suma, eis-nos Com a "negra"-. Quem a vencer desta vez?
 - A sorte decidir.
 - E o valor de nossas armas.  possvel que voc triunfe ainda uma vez. Suas possibilidades so grandes. Mas ateno! Quero preveni-la de algo: o fim do torneio 
ser a meu favor. Tenho a reputao de ser tenaz em meus projetos e de me aferrar a minhas posies. Quanto voc aposta que um dia se encontrar, por meus esforos, 
no fundo de um convento de provncia, a trabalhar numa roca, sem jamais ter a esperana de sair dali?
 - Quanto voc aposta que um dia se apaixonar loucamente por mim?
 Filipe imobilizou-se e respirou profundamente como se essa simples suposio o transtornasse de indignao.
 -        Ento, apostemos, j que voc o sugere - retomou Anglica rindo. - Se voc ganhar, deixar-lhe-ei toda a minha fortuna, meu comrcio, meus navios. Que importncia 
ter para mim, no  fato, possuir tudo isso, se estarei enclausurada, disfigurada, descarnada e louca sob o peso das torturas?
 - Voc est rindo - disse ele, olhando-a -, est rindo - repetiu.
 - Que quer voc, no se pode sempre chorar.   
 Mas seus olhos encheram-se subitamente de lgrimas, e, como levantasse a cabea para olh-lo, ele viu na base do delicado pescoo, sob o colar alugado para dissimul-las, 
as pisaduras que ela lhe devia.
 -        Se eu ganhar, Filipe - murmurou -, pedirei o pingente de ouro que sua famlia carrega desde os tempos longnquos dos primeiros reis, e que cada primognito 
deve colocar ao pescoo de sua noiva. No me recordo muito bem da lenda ligada a esse colar, mas sei que comentavam na regio que ele tinha o poder mgico de dar 
s mulheres da famlia Du Plessis-Bellire a virtude da coragem. Comigo voc desdenhou a tradio.
 -        Voc no tinha necessidade dele - replicou Filipe bruscamente.
E deixando-a ali, plantada, dirigiu-se a passos largos para o palcio.
 No dia seguinte, pela aurora, tada a corte, a cavalo, descia para a floresta.
 A caada foi bem-sucedida. Ao meio-dia, um cervo esplndido, coroado por dez chifres, era abatido sobre o musgo.
 O retorno a Saint-Germain foi decidido logo aps o encarne. Anglica voltava a Paris em uma carruagem emprestada pela Sra. de Montespan. No momento da partida, 
viu o Prncipe de Conde, que lhe acenava a distncia, amigavelmente, com a bengala.
 Ela foi fazer-lhe uma reverncia.
 - Meu senhor - disse-lhe -, a corte  um lugar bem surpreendente. O senhor, que tem grande experincia nesse mundo, poderia dar-me alguns conselhos?
 - Minha cara - respondeu ele -, na corte no se tem de fazer seno trs coisas: falar bem de todo mundo, perguntar por tudo o que ficar vago e sentar-se onde puder!
 
 CAPITULO IX
 
 O brilho do favor comea a envolver Anglica
 
 Anglica retornava de Versalhes para Paris em fiacre.
 O trajeto pareceu-lhe curto, tanto.os pensamentos se entremeavam em sua cabea. Mal podia imaginar que apenas trs dias se haviam escoado. Toda aquela vida nova 
na corte a intrigava, inquietava, e encantava tambm. Estava longe de desembaraar os fios daquele emaranhado complexo. O fausto e os divertimentos haviam-na subjugado 
menos, desta vez, que a vida fervilhante daquele mundo fechado, regrado como um bale e explosivo como um vulco.
 A calma de sua manso da Rue du Beautreillis far-lhe-ia bem. Ela sofria com os membros doloridos, principalmente os joelhos, em consequncia das mltiplas reverncias 
distribudas. Imaginou que o lugar de corteso devia ajudar a manter a flexibilidade dos msculos at uma idade avanada. Quanto a ela, ainda lhe faltava preparo.
 "Um banho quente, uma ceia, e cama! Filipe no me far encerrar num convento at amanh. E, quem sabe, talvez a admoestao do rei o mantenha sob controle durante 
algum tempo."
 Seu otimismo voltava a crescer. Contemplou Paris e achou-a bem I cinzenta  noite, ao lado das perspectivas douradas de Versalhes, I mas repousante.
 O portal que dava para o grande ptie de entrada da manso estava aberto de par em par.
 "Irei repreender vivamente o porteiro por essa desobedincia", disse consigo mesma saltando  terra, aproveitando uma parada momentnea do carro de aluguel diante 
do alojamento do suo.
 Flipot, cuja vivacidade era sempre batida pela de sua senhora, deu um salto para vir carregar-lhe a cauda do manto.
 -        Perdo, desculpe, marquesa - balbuciou.
 Anglica nem mesmo o repreendeu, tanto o espetculo com que deparara a absorvia.
 -        Mas  uma feira em minha prpria casa, palavra de honra!
O ptio, que ela deixara particularmente vazio trs dias antes, estava agora atravancado por um amontoado de caleas, fiacres de aluguel, liteiras e at mesmo trs 
carruagens, modestas  verdade, mas ocupando bastante espao.
 -        Acho, marquesa, que existe em sua casa, como diria, um cano de despejo da cidade. Esto tomando a sua casa por uma pousada de caridade... com o devido 
respeito.
 A Sra. du Plessis abriu caminho com dificuldade atravs da multido heterclita de cocheiros e lacaios, de baixa condio sem dvida alguma, visto que a maior parte 
no trazia libr ou insgnias e nem mesmo conhecia a proprietria do local.
 Um deles, tipo grosseiro de nariz vermelho e fedendo a vinho, s lhe abriu passagem vociferando:
 -        No se apresse, minha bela, chegou muito cedo! H muitas outras pessoas, mais importantes, que esperam desde a manha.
 Flipot berrou ao insolente que era  patroa que ele se dirigia. O outro mal se alterou:
 -        No tente me enganar. A patroa deste lugar  uma grande senhora, dona de milhes, e que o rei no deixa um minuto, ao que parece. Ela no viria at c 
numa velha carroa, e justo com um criadinho como voc atrs dela. Eu, que nada fao alm de
servir o primeiro criado de La Vallire, lhe digo que, mesmo sendo ele primeiro criado,  mais rico que sua marquesa. Veja, repare
na sua carruagem, l no canto. Vocs no teriam o topete de pretender ser recebidos antes dele. Ora, acontece cada uma!
 Anglica empurrou a personagem e passou, perseguida pelas vaias da criadagem e por algumas exclamaes divertidas.
 Dissimulando uma inquietao crescente, penetrou na antecmara e encontrou-a abarrotada de pessoas que lhe eram totalmente desconhecidas.
 -        Teresa! Marion! - chamou.
 Nenhum de seus empregados apareceu. No entanto, aquela interpelao acalmou um pouco o zunzrm dos "invasores".
 Um dentre eles, que envergava rica libr e uma infinidade de fitas, precipitou-se sobre ela... para mergulhar imediatamente em uma reverncia cortes que nenhum 
prncipe teria desacreditado.
 -        Que a senhora marquesa perdoe a extrema liberdade que me permiti tomar - comeou elej empalidecendo, enquanto procurava febrilmente alguma coisa sob as 
abas da sobrecasaca. - Ah! Enfim! - suspirou de alvio, extraindo um rolo de pergaminho
atado com um esplndido lao de seda, enquanto prosseguia: - Sou o Sr. Carmin, primeiro criado de quarto de La Vallire, e venho entregar-lhe uma splica para o 
"privilgio de locao" das carruagens entre Paris e Marselha...
  vista do papel caligrafado, toda a multido de miserveis endo-mingados pareceu desabrochar em retngulos brancos. Dir-se-ia uma revoada de gaivotas... salvo 
que os "pssaros", esses continuavam ali.
 -        Eu tambm tenho uma splica: sou antigo capito de armas de Lus, o Dcimo Terceiro. Veja minha barba quadrada.  para um privilgio... locao de cadeiras 
de espetculos reais... qixe encheria de alegria um dos mais antigos servidores da realeza...
 O pobre velho tremelicava apesar da postura marcial, e fazia pena v-lo.
 Uma gorda e velha dama, que devia ser de boa nobreza, mas cujo xale remendado em muitos pontos traa a pobreza, jogou-se aos ps de Anglica, chocando-se com o 
veterano.
 -        Eu sou a Baronesa de Vaudu, mas para sustentar minha posio encontro mil dificuldades. Consiga para mim apenas a exclusividade do desembarque das carroas 
de peixe fresco  entrada de Paris e far a felicidade de meus velhos dias.
 Por efeito de uma reao nervosa, Anglica foi presa de uma irresistvel vontade de gargalhar. Com a voz alteada por soluos, perguntou:
 -        Peixe fresco?... Mas, minha pobre baronesa, mal a vejo distinguir um arenque de uma cavala...
 A velha dama ps-se em p e lanou-lhe um olhar viperino.
 -        Ora, minha cara marquesa! No serei eu a me ocupar desses horrores.  evidente que encontrarei um velho marselhs para me alugar, vitalcia e imediatamente, 
o privilgio que seu favor junto a nosso todo-poderoso soberano no deixar de me obter. Alguns sois por carroa de peixe que franquear a Porte Saint-Denis.
 Um velhote baixo, de barbicha rala, afastou deliberadamente a baronesa com uma fora inesperada.
 - Sra. du Plessis-Bellire,  a mim que deve escutar, eu a conjuro, pois venho por uma descoberta cientfica, mas ultra-secreta.
 - Senhor, eu no o conheo e nem tenho por que faz-lo. Procurai o Sr. Colbert: ele se interessa pelos sbios.
 Um lerdo colosso, de aspecto bonacho, acompanhado de um agradvel rapaz, interps-se:
 - Esqueamos esse mercador de tecidos avarento! Ele no conhece mais das belas-letras do que das cincias. Senhora, ao menos no seja injusta para com o Sr. Perrault 
e para comigo, pois que nos vimos em casa da Srta. de Lenclos, e da Sra. de Svign tambm.
 - Ah! estou reconhecendo-o, Sr. de La Fontaine e tambm, creio, o Sr. Perrault. O senhor  intendente de construo no palcio real, no  verdade?
 - Sim, senhora - respondeu o rapaz, quase enrubescendo.
 - Entrem os dois - disse-lhes Anglica. Ela os empurrou para uma das peas no rs-do-cho, que lhe servia de gabinete de trabalho. - Ufa! - fez ela, quando conseguiu 
fechar a porta.
 Ela viu que o velhote de barbicha havia aproveitado a oportunidade para se esgueirar at ali dentro, mas no teve coragem de comear uma discusso para se livrar 
dele.
 Com o Sr. de La Fontaine ela jamais conversara, mas vira tantas vezes e, por todo lado, sua longa silhueta mal-ajambrada, a peruca roda pelas traas e sempre colocada 
de travs que quase se tratava de uma antiga relao. Comentava-se que era homem de belas-letras e que fazia versos. Dizia-se tambm que era bastante sonhador, a 
ponto de esquecer durante trs semanas que era casado. Ele divertia Ninon com suas brincadeiras e seu esprito. Anglica no lhe votava uma irrestrita simpatia, 
surpreendendo naquele pensionista do rei as mil artimanhas dos parasitas, que s sabem viver de mendicidade disfarada.
 - Como e por que vieram parar nesta feira? - perguntou ela com severidade. - No sabiam que eu estava em Versalhes?
 - Ao contrrio, ns o sabamos. E foi para colh-la imediatamente ao seu regresso desses lugares abenoados que aqui estamos desde a manh. Os rumores sobre seu 
favor...
 - Mas que favor  esse, que vem sempre ter aos meus ouvidos? Diabos, no fui a nica pessoa a ser recebida em Versalhes! Ali estive praticamente pela primeira vez.
 - O que no impediu o rei de ret-la, a ss, por mais de duas horas.
 - A ss? Ali estava o Sr. Colbert e era o gabinete de trabalho de Sua Majestade... Se soubessem com o que nos entretivemos, no imaginariam tantas histrias. Tratava-se 
de... Mas isso no lhes diz respeito.
 - Tem razo - sussurrou La Fontaine com um gesto significativo de que um simples mortal como ele ho tinha o direito de penetrar o segredo dos deuses. - Basta-fios 
saber que Jpiter encontrou-se com Vnus; tendo sido esse encontro apadrinhado por Mercrio, o Olimpo reunido s pode augurar as maiores felicidades por um tal acontecimento.
 Anglica deixou-se cair sobre um div e abriu o leque.
 - No sou Vnus e, afinal, o rei no me pareceu to prximo de Jpiter. Quanto ao Sr. Colbert, se o tratasse por Mercrio, no me espantaria que o desagradasse; 
ele deve ter pensado que escarnecia, pois malgrado seus muitos atributos ele nada tem de algum que carregue asas nos taces.
 - Precisamente, era  sua grande inteligncia comercial que eu fazia aluso. A senhor  ignora que Mercrio  considerado o grande deus do comrcio?  
 - Ignorava. E o sr. Colbert tambm, sem dvida. Como  triste a ignorncia! - disse ela com um trejeito de ironia.
 - Eis por que esse ministro obtuso professa um tal desprezo pelas belas-letras - disse o poeta em tom um tanto azedo.
 - O senhor exagera; sem dvida...
 - De que outro modo se explicaria o ato de vandalismo que acaba de cometer, retirando as penses de trs quartos dos escritores sustentados por Sua Majestade?
 - No teria eu ouvido dizer que seria para examin-las com cuidado e devolv-las,  maior parte deles, sem dvida aumentadas?...
 - Enquanto espera, como pode um poeta viver contando unicamente com o soldo da Academia de Belas-Letras, fixado em trinta e dois sis por dia?
 - Com trinta sis o senhor pode comprar uma libra de boa manteiga, dois frangos, uma dzia de ovos, um pote de cidra e duas libras de gro-de-bico ou de favas. 
E ainda lhe sobrar para tomar chocolate na "An Espanhola" - disse a jovem,"rindo, percebendo finalmente aonde queria chegar aquele poeta, to prtico quanto sonhador.
 O bom La Fontaine assumiu um ar de cmico sofredor.
 -        Ai de mim! cara marquesa, se suas contas so impiedosamente exatas, a senhora tem por nulos muitos imponderveis que existem. Assim, para perceber o soldo 
da academia somos constrangidos a horas de presena, a justificar nossas atividades, como se a atividade de um poeta pudesse ser medida feito um tecido! Em suma, 
trabalhamos muito mais, portanto temos muito mais fome. Anglica levantara-se e pegara uma bolsa em seu cofrezinho.
 -        Aqui tem com o que esperar at o retorno de sua penso, Sr. de La Fontaine. Quanto a meu favor junto ao rei, no conte muito com isso, pois, como sabe, 
a trombeta da Fama faz de um simples pedregulho uma montanha.
 A mmica do poeta mostrava que, por hora, o vitico de Anglica satisfazia suas esperanas.
 - E o Sr. Perrault - perguntou, voltando-se para o rapaz -, que deseja?
 - Eu, senhora - sobressaltou-se ele -, mas... No... eu no creio... quer dizer... seus desejos  que vm primeiro.
 - Oh! Ento, nesse caso, eu os revelarei a vocs sem rodeios. Gostaria que me deixassem em paz para tomar um bom banho.
 - Susana no banho - exclamou La Fontaine, lrico -, o quadro encantador!
 Como ela se dirigisse para uma pequena porta que dava para seus aposentos, ele colou-se a seus passos.
 - Eu no sou Susana - disse, categrica - e vocs no so ancios.
 - Sim, eu sou - acudiu o terceiro visitante, que ela havia esquecido.
 - Como o senhor?
 - Eu sou um ancio, se  o que procura, bela senhora... e sou tambm Savary, boticrio, e devo v-la em particular, para um negcio que diz respeito ao rei,  senhora 
e sobretudo  cincia.
 - Oh! piedade - gemeu ela. - Estou com dor de cabea, no compreende? E nem as musas nem a cincia me so da menor valia. Aqui tem,, tome esta bolsa, o senhor tambm, 
mas parta!
 O velhote no pareceu ver o dinheiro que ela lhe estendia, mas, acercando-se dela, colocou-lhe, autoritrio, alguma coisa na boca, que em sua estupefao ela engoliu 
imediatamente.
 - Nada tema, senhora! So plulas contra as dores de cabea mais rebeldes, cujo segredo eu trouxe do Oriente, pois sou droguista-boticrio, como j tive a honra 
de lhe dizer, e tambm .antigo mercador do Oriente.
 - Mercador, o senhor? - espantou-se Anglica, examinando a figura insignificante do velho homem.
 -        Estou associado aos dois almotacis do Escritrio de Comrcio de Marselha, e foi assim que ouvi o Sr. Colbert comentar que a senhora tem um comrcio martimo.
 A jovem observou, com reticncia, que seu nico navio fazia apenas o comrcio das ndias Ocidentais, e de modo algum com o Oriente.
 -        Isso no importa - insistiu le -, no estou aqui devido a seu navio, mas, sim, por um neg.cio que interessa  pessoa do rei e  senhora mesma.        
 A Anglica agradaria mand-lo para o inferno. Alis, as duas glrias da academia retiravam-se enfim, muito civilizadamente, por uma porta dos fundos.
 -        Meu pedido parecer-lhe- extremamente singular - continuou o farmacutico, indiscreto e mesmo impertinente. - No importa! Porque espero tudo da senhora 
e no posso recuar. Serei breve. Sua Majestade ir receber, dentro de alguns dias, um embaixador extraordinrio,-cuja visita at mesmo ignora. Em todo caso  oficioso. 
Serei mais breve ainda.  o enviado de Sua Majestade Nadreddin Xain, x da Prsia, que vir negociar um tratado de assistncia mtua e de amizade com o rei de Frana.
 -        E o senhor  um agente secreto do x da Prsia? - zombou ela.
O rosto do velho senhor contristou-se a tal ponto que semelha va um beb infeliz. Ele prosseguiu choramingando:
 - Pobre de mim! bem quisera s-lo! E no teria me sado pior que qualquer outro. O persa, o turco, o rabe e o hebreu so lnguas que pratico e escrevo correntemente. 
Fui escravo durante quinze anos: primeiro junto ao Grande Turco em Constantinopla, depois no Egito, e ia ser comprado pelo sulto do Marrocos, que ouvira falar de 
meus conhecimentos mdicos, quando, pela interveno dos padres da Merc, um parente pagou minha alforria. Mas no  esse o problema. O que desejo  que, no interesse 
de seu rei e tambm no seu, assim como no da cincia, consiga obter uma frgil amostra de uma mercadoria rarssima que o embaixador da Prsia ir certamente trazer 
ao nosso monarca. Trata-se de um lquido mineral conhecido como "mmia",  falta de melhor denominao. Os persas o possuem em estado puro, ao passo que eu s consegui 
obter amostras, nas tumbas egpcias, desse lquido que servia, precisamente, para embalsamar mmias.
 - E  essa imundcie que acabou de me fazer engolir? - perguntou Anglica.
 -        No se sente melhor?
 Surpresa, ela percebeu que sua enxaqueca havia desaparecido.
 - O senhor  um mgico! - observou, sorrindo a contragosto.
 - Um pesquisador cientfico, se tanto, senhora. E se a senhora pudesse obter-me uma amostra desse lquido, eu a abenoaria, pois isso me ajudaria nos trabalhos 
aos quais consagrei toda a minha vida. Jamais consegui obter-lhe uma gota. Apenas o vi em um frasco, guardado por trs mamelucos. Vi e aspirei. Aquilo fede num raio 
de cem toesas. Odor to abominvel quanto delicioso. Aquilo cheira a cadver e a almscar... E maravilhoso! - exultou.
 Ela comeava a desconfiar que estava tratando com um louco ou um simplrio presa de senilidade precoce. "Primeiro, no contrari-lo", disse consigo mesma. Tentou 
desembaraar-se do visitante despedindo-o com brandura. Prometeu fazer o possvel. Embora duvidasse que pudesse ter acesso a um mimo to precioso.
 -        A senhora pode tudo! - afirmou ele com nfase. - E absolutamente necessrio que esteja presente quando o embaixador trouxer essa ddiva. E se acaso o squito 
do rei e seus mdicos ignaros menosprezarem o valor desse objeto e cometerem a blasfmia de querer jog-lo fora, promete-me recolh-lo at a mnima gota. Oh, antes 
de qualquer coisa, salve minha mmia minera!l
 Anglica prometeu tudo o que ele queria.
 -        Obrigado! Mil vezes obrigado, oh, bela senhora! A senhora me devolveu a esperana.
 Com flexibilidade surpreendente ele ajoelhou-se diante dela e tocou vrias vezes o tapete com a fronte encanecida. Depois levantou-se, desculpando-se por aquele 
hbito oriental que conservara de seu longo cativeiro junto aos brbaros.
 Anglica renovou suas promessas enquanto o empurrava insensivelmente para a sada. No entanto, no pde se impedir de perguntar a que vinha aquela sbita invaso 
de solicitantes.
 O ancio retesou-se, recobrando-se de sua exaltao, parecendo muito senhor de si e muito lcido. Disse que, ao ver Anglica, havia compreendido que ela fora criada 
para ocupar o primeiro lugar onde quer que passasse.
 - Mas onde o senhor me viu?
 - Na corte.
 - Na corte? O senhor?
 - No lhe disse que tenho ligaes com os almotacis do Comrcio de Marselha? Sem maiores explicaes, ele continuou:
 - No posso ignorar sua fortuna ascendente junto ao rei, pelas razes que lhe expuseram h pouco esses senhores da academia. Mas o que a sobreleva  tambm ,d descrdito 
crescente da Srta. de La Vallire na corte.
 - O descrdito? Eu a acredjtava no apogeu de seu favor.
 - Ela est, senhora; mas um sbio como eu pode inferir, apenas por esse fato, que sua queda s pode estar, prxima, pois a um pico numa curva, um "mximo", como 
o disse Descartes, corresponde fatalmente uma queda denominada "mnimo". Mas a estas previses, de qualquer forma matemticas, eu somo outras, naturais e de ordem 
instintiva, fenmenos que fazem com que os ratos abandonem os" navios em perigo. Os que frequentam habitualmente -a Srta. de La Vallire, at seu primeiro criado 
de quarto, desertarama para vir at a senhora. Isso significa que, na corrida que se prepara para saber quem ser a prxima favorita de Sua Majestade, a senhora 
j partiu como ganhadora em potencial.
 - Absurdo! - disse Anglica, com um movimento de ombros. - Mestre Savary, o senhor tem muita imaginao para sua idade.
 - Veremos! Veremos! - disse o velhote, cujos olhos cintilaram por trs dos vidros do grosso lornhao.
 Por fim ele se eclipsou.
 Ao ficar sozinha, Anglica deu-se conta de que algo mudara na casa. Havia um silncio, sbito e total.
 Ela vibrou uma sineta, no ousando se arriscar  antecmara. Ao cabo de um momento, ouviu os passos de Roger, o mordomo, que se apresentou.
 - Senhora, a ceia est servida.
 - No  sem tempo! Mas onde esto os outros solicitantes?
 - Fiz correr a notcia de que a senhora havia partido secretamente para Saint-Germain. E todos aqueles brutos imediatamente deixaram a manso, partindo em .seu 
encalo. Que a senhora marquesa me perdoe, mas no sabamos como fazer diante de tamanha afluncia de pessoas.
 - Voc deveria sab-lo, mestre Roger, ou me privaria de seus servios - disse ela em tom cortante.
 O jovem mordomo dobrou-se em dois para afirmar que, doravante, faria a triagem de todos os visitantes com o maior cuidado.
 Anglica fez uma ceia leve: sopa, ovas de carpa, cevada descascada e uma salada de brotos de couve, conhecidos ento-como br-colis. Depois foi para a cama e caiu 
imediatamente no sono.
 No dia seguinte, antes de qualquer outra coisa, ela instalou-se em seu escritrio e redigiu uma missiva endereada a seu pai, no Poitou. Pedia-lhe que enviasse 
o mais breve possvel a Paris seus dois filhos, Florimond e Cantor, com seus criados, dos quais ele se encarregava h alguns meses. Quando tocou para fazer vir o 
"galopador" da casa, o mordomo lembrou-lhe que o homem em questo havia desaparecido h alguns dias junto com os cavalos, como alis todo o pessoal ligado s cavalarias. 
A senhora marquesa decerto no desconhecia que suas cavalarias estavam vazias de carros, animais e homens,  exceo de duas liteiras ali esquecidas.
 Foi com o maior esforo que Anglica se conteve diante do subalterno. Disse-lhe que, assim que aqueles lacaios sacripantas se apresentassem, ele deveria p-los 
para fora a bordoadas e reter seus ltimos soldos. Mestre Roger, sempre calmo, fez-lhe notar que haveria poucas probabilidades de v-los apresentarem-se, pois j 
haviam sido tomados a servio do Sr. Marqus du Plessis-Bellire. Ademais, acrescentou o homem, a maior parte daqueles garotos no vira maldade no fato de transportar 
os cavalos e carruagens da senhora marquesa at as cavalarias do senhor marqus.
 -        Aqui, s a mim devem obedecer! - disse Anglica.
 Ela recomps-se e disse a mestre Roger que fosse o mais rpido possvel  Place de Greve, onde se podiam ajustar criados. E em seguida  feira de Saint-Denis, para 
os cavalos. Uma atrelagem de quatro animais e mais dois corcis de reserva seriam suficientes. Por fim seria -preciso fazer vir o segeiro da rua, da loja com a insgnia 
de "Roda Dourada", que j lhe fornecera carros. quilo se chamava jogar dinheiro pelas janelas, e da parte de Filipe era um roubo, nem mais nem menos. Poderia ela 
denunci-lo ao sargento de ronda ou na justia? No, nada podia fazer a no ser submeter-se. O que era justamente a atitude mais contrria a seu temperamento.
 - E quanto  carta que a senhora marquesa queria enviar ao Poitou? - perguntou o mordomo.
 - Faa-a despachar pela posta pblica.
 - A partida do correio s ter lugar na quarta-feira.
 -        Pouco importa! A carta chegar.
 Para acalmar os nervos, a Sra. du Plessis-Bellire se fez transportar em cadeirinha at o cais da Mgisserie, onde tinha seu entreposto de aves das ilhas.
 Escolheu uma arara multicolorida que praguejava como um bu-caneiro de So Cristvo; mas esse pormenor no era de molde a ferir os ouvidos de Atenas, muito ao 
contrrio.
 Anglica juntou-lhe um negrinho, vestido com as cores do pssaro: turbante laranja, gibo verde, cales vermelhos bordados a ouro. Com calados de laca negra to 
reluzentes quanto sua face, o pequeno mouro assemelhava-se queles tocheiros venezianos de madeira pintada, cuja moda comeava a se expandir.
 Era um presente principesco. Anglica sabia que a Sra. de Mon-tespan o apreciaria e, a seus olhos, o sacrifcio estava bem empregado. Enquanto os imbecis, sobre 
indcios mal fundados, se apressavam em v-la como futura favorita, ela seria quase a nica a fazer a corte na dreo correta. No pde se impedir de rir  ideia 
de quo estpida era a humanidade!
 No entanto, sua particular "transao com a corte" ainda no estava resolvida. E doravante seria preciso juntar aos dissabores pelas inumerveis e estreis diligncias 
aquelas que desviariam at sua antecmara os solicitantes de toda espcie, importunos e daninhos como moscardos em pleno ms de agosto!
 Trs deles j a aguardavam, pertinazes, quando entrou na Rue du Beautreillis. Ela viu tudo vermelho a sua frente e s faltou peg-los pelo colarinho e p-los porta 
afora.
 -        Bom dia, Anglica - disseram em unssono.
 A penumbra no lhe permitira reconhecer de imediato seus trs irmos mais novos: Dionsio, Alberto e Joo Maria.
 Ela os via periodicamente, quando precisavam de subsdios. Dionsio, que se tornara um enorme latago de vinte e trs anos, servia no exrcito,.no regimento de 
Touraine. Todo o seu magro soldo de oficial era devorado por dvidas de jogo. Chegava a vender seu cavalo e alugar seu criado. Alberto e Joo Maria, com dezessete 
e quinze anos, ainda eram pajens, um junto ao Sr. de Saint-Roman e o outro junto ao Duque de Mazarino.
 Anglica no perdeu tempo em perguntar o que queriam. Dinheiro, como de hbito. Foi at seu cofrezinho e contou alguns escudos, dispensando-se naquele dia de lhes 
fazer admoestaes. Dionsio e Joo Maria retiraram-se satisfeitos. Mas o jovem Alberto seguiu-a at o quarto.
 - Agora que voc est bem colocada, Anglica, ser preciso que me obtenha um benefcio eclesistico!
 - De quanto voc dispe para adquiri-lo?
 - Voc me ajudar. Ouvi dizer que a Abadia de Nieul iria ficar vacante.
 Anglica, que comeava a desacolchetar o corpete diante do psi-ch, voltou-se:
 - Voc est louco?..
 - A Abadia de Nieul est situada em suas terras do Plessis...
 - De modo algum!  um enorme domnio independente, uma verdadeira senhoria. Existem, ademais, muitos beneficirios que dela dependem. O abade  o principal deles, 
mas ele deve receber as ordens e ali residir.
 - Por intermdio de Raimundo, nosso irmo jesuta, eu poderia obter dispensas...
 - No  possvel, voc recebeu uma estocada, meu pobre amigo! - disse-lhe a irm, olhando-o com desprezo.
 Ela no gostava dele. Tinha uma beleza plida em muito semelhante  de Maria Ins, mas ela no reconhecia em seu comprido corpo desengonado a robustez dos garotos 
De Sanc. Encontrava nele maneiras dissimuladas que no eram prprias  maior parte dos membros de sua famlia. Em suma, ele se assemelhava a Hortnsia.
 -        Um pequeno libertino como voc, abade de Nieul! Existem, ao menos, limites! Eu sei da vida que voc leva. No faz muito tempo, voc se fazia tratar por 
um emprico do Pont Neuf, de uma doena de rapaz que pegou s o diabo sabe onde. Como v, estou bem informada...
 O jovem pajem engoliu a saliva com um ar melindrado.
 -        No lhe sabia to virtuosa. O que lhe vai muito mal, alis.
No importa! Passarei sem seus servios.
 Afastou-se com passo altivo, mas antes de fechar a porta lanou-lhe:
 -        Assim mesmo alcanarei meus objetivos. Sempre consigo obter o que desejo.
 Por essa ltima tirada, era bem um Sanc. No instante seguinte j no pensava mais nele. Acabavam de anunciar o Sr. Binet, seu cabeleireiro. Ela desfrutou de momentos 
de repouso ao se entregar s mos do artista e ao observ-lo dispor com cuidado seus pentes e ferros, seu pequeno aquecedor de prata dourada, seus frascos e caixas 
de unguentos.
 - Os negcios vo bem, Binet?
 - Poderiam ir melhor, senhora.
 - Seu esprito inventivo est em recesso para criar novas maravilhas sobre a cabea das damas e dos cavalheiros?
 - O esprito inventivo ainda  -uma das mercadorias de que disponho mais facilmente, e que me custa menos caro. No lhe falaram de um blsamo de cinzas de abelha 
que compus para fortificar cabelos ralos? Ele traz bastante esperana a muitas pessoas que no tm a fortuna de possuir uma cabeleira como a sua, senhora.
 Com mo experiente, levantava a massa de cachos sedosos de um louro-escuro entremeado de reflexos mais claros, como reverberaes do sol.
 - Ouvi dizer que foi grande o seu sucesso em Versalhes e que a senhora reteve por Jnuito tempo a ateno do rei.
 - Tambm o ouvirdizer - disse Anglica, com um suspiro resignado.
 - A senhora sabia que minha modesta profisso corre o risco de ser cruelmente abalada, e que pensei na senhora para uma interveno que talvez nos salvasse, a ns 
modestos artesos-cabeleireiros, de um grave dano?
 Sem esperar resposta, ele explicou-lhe que um certo Sr. du Lac havia solicitado ao rei permisso para estabelecer "um escritrio" em Paris, aonde todas as perucas 
seriam levadas e submetidas a controle de qualidade; uma marca seria aposta no interior da peruca e haveria a proibio de debit-las sem esse registro de controle, 
sob pena de confisco e multa de cem libras. Pela tarefa de controle, o Sr. du Lac se reservaria o direito de perceber dez sis por peruca.
 - O caso  constrangedor, mas  quase certo que o rei se recuse a dar-lhe prosseguimento. Ele no se preocupa com tais tolices...
 - E onde a senhora se engana. O Sr. du Lac faz parte da casa da Srta. de La Vallire, e Sua Majestade aceita todos os pedidos apresentados por ela. Este de que 
lhe falo j est em estudo no Alto Conselho.
 - Ento nada resta a fazer seno apresentar um pedido contrrio pelas mos de algum poderoso entre os que cercam o rei.
 - A senhora, por exemplo - Binet apressou-se em dizer, retirando de uma bolsa uma missiva lacrada. - Sua bondade no deixar de intervir para depositar esta justa 
reclamao nas mos de Sua Majestade...
 Anglica hesitou um instante sobre o que convinha fazer. Ela fazia questo de estar bem penteada. Uma mulher que sabe de que elementos se compe seu xito no mundo 
no contraria seu cabeleireiro quando da abertura da estao das grandes festas de inverno.
 Pegou, ento, a petio, mas recusou-se a se envolver. Binet explodiu de satisfao.
 - A senhora pode tudo, estou convencido disso, eu a conheo h muito tempo. Vai ver, eu a adornarei como a uma deusa.
 - No desperdice o seu gnio to cedo. Eu nada prometi e no sei, com os diabos, como farei... O que voc espera? No tenho nenhum cargo na corte, onde s estive 
por duas vezes.
 Mas o otimista Binet tinha-lhe absoluta confiana. Ele a reteve durante duas horas sob sua dependncia volvel e entusiasta. Depois do qu, Anglica no pde se 
impedir de sorrir ao espelho.
 - Completei minha reclamao com um pedido - explicou ainda Binet, antes de deix-la. - Solicito o cargo de cabeleireiro junto a Sua Majestade.
 - Sua ambio tem endereo errado. Acontece que ningum no reino tem menos necessidade de seus servios do que o rei. Ele possui uma cabeleira natural que vale 
todas as perucas do mundo e que no sacrificaria sem relutncia.
 - A moda  a moda - fez Binet, sentencioso. - Mesmo os reis tm que se inclinar diante dela. Ora, a moda  usar peruca. Ela d majestade ao rosto mais comum, graa 
aos traos menos convidativos. Preserva os calvos d ridculo e os velhos, da coriza, e prolonga para os dois a idade das agradveis conquistas. Quem pode passar 
sem peruca doravante? Cedo ou tarde o rei chegar a ela. E eu, Francisco Binet, acabo de confeccionar um modelo especialmente estudado para Sua Majestade, que lhe 
permitir usar a peruca sem por isso sacrificar sua cabeleira nem dissimul-la inteiramente.
 - Voc me intriga, Binet.
 - Senhora, s confiarei meu segredo ao rei.
 No dia seguinte, tendo decidido que no podia mais se privar da atmosfera da corte, Anglica tomou o caminho de Saint-Germain-en-Laye, onde Lus XIV fixara, havia 
trs anos, sua residncia habitual.
 
 CAPITULO X
 
 O rei a recebe em Saint-Germain
 
 Anglica ps o p em terra  entrada dos jardins. A animao era maior do que em Versalhes. A cidadezinha inteira participava da vida da corte. Curiosos, solicitantes, 
funcionrios e criados iam e vinham livremente...
 O terrao, com mais de cinco lguas de comprimento, realizado por Le Ntre, prolongava-se dominando um dos mais belos panoramas de lie de France.
 Naquele mesmo instante chegava o rei em sua carruagem puxada por seis cavalos isabis brancos suntuosamente ajaezados e rodeada por quatrocentos senhores, a cavalo 
e de chapu na mo. A extraordinria assembleia destacava-se em seu mltiplo colorido sobre a frondosidade avermelhada da floresta, enquanto ao longe se distinguia 
a plancie em tons de azul suave e verde acinzentado, onde brilhava o curso ondulante do Sena.
 O Marqus de La Vallire, um dos primeiros a chegar, ofereceu-se para acompanhar Anglica; o Marqus de Roquelaure, Brienne e Lauzun acercaram-se a seguir. Estavam 
bastante excitados, discutindo a ltima novidade na ordem do dia. O rei fizera chamar seu alfaiate a fim de lhe dar as diretivas para a confeco dos famosos gibes 
azuis, com os quais desejava criar uma ordem bem pouco monstica, mas bastante honorfica. Seriam escolhidos sessenta gentis-homens, que poderiam acompanhar o rei 
em seus passeios sem necessitar de permisso. Para tanto envergariam o uniforme, que seria, aos olhos de todos, a flagrante testemunha da amizade que o soberano 
lhes votava; casaco de chamalote azul, era o que se comentava, forrado de vermelho com desenhos bordados a ouro e um pouco de prata, de adornos e jaqueta vermelha.
 -        Nosso amigo Andijos nos devia uma agradvel surpresa - disse Lauzun. - Creio que est no auge de seu favor e que podemos passear juntos sem receios. Conhece 
as grutas de Saint-Germain, minha bela?
 Diante da negativa de Anglica, ele tomou-lhe o brao e, arrebatando-a, autoritrio, de seus outros admiradores, levou-a para ver as curiosas grutas animadas ou 
falantes, que datavam do bom Rei Henrique. Artistas italianos, os Francinet, nomeados em 1590 "mestres na arte de utilizar a gua para o embelezamento dos parques 
e jardins", haviam-nas povoado com toda uma mitologia mecanizada que a gua fazia como que viver e falar.
 A primeira gruta era habitada por Orfeu tocando harpa. Animais apareciam alternadamente, cada qual emitindo a voz de sua espcie.
 A segunda abrigava um pastor, que cantava acompanhado de um coro de pssaros.
 Na terceira, onde se podia ver um Perseu autmato libertando Andrmeda, enquanto trites sopravam em suas conchas, Lauzun e sua companheira encontraram a Srta. 
de La Vallire e algumas de suas damas de companhia. Estava sentada na borda de um dos tanques, mergulhando os finos dedos na gua murmurante.
 O Marqus de Lauzun cumprimentou-a, e a jovem respondeu-lhe com jovialidade. Submetida desde a juventude s regras da conversao, um longo trato com o mundo havia-lhe 
vencido a timidez e a vergonha que no podia se impedir de sentir desde que se tornara, aos olhos de todos, amante do rei.
 Sofria por ter que se mostrar, mas continuava alegre e graciosa. Seu olhar voltou-se para Anglica com interesse.
 -        A Srta. de La Vallire atrai a afeio, mas no o devotamento - observou Anglica, enquanto continuava seu passeio sob a cobertura das galerias de verdura.
 Lauzun no reforou aquelas palavras. Examinava-a com o canto dos olhos. Ela prosseguiu em seu raciocnio:
 -        Esses criados e parasitas que ela sustenta sem o saber, e quase sem o querer, esto prontos para abandon-la ao mnimo vento contrrio. No houve certamente 
na histria uma favorita menos exigente para consigo mesma e que d tanto a impresso de pilhar o tesouro real. Os protegidos da Srta. de La Vallire representam 
um flagelo. So encontrados em toda parte, com suas longas presas, a mo estendida, insaciveis.
 __ Suas breves apreciaes sobre os corrilhos da corte me parecem j bastante claras para sua pouca experincia - disse Lauzun. - Espere! - disse ele, detendo-se. 
- Levante os olhos para as rvores, por favor.
 Ela atendeu, sem compreender.
 -        Admirvel! - suspirou Lauzun. - Assim, seus olhos tornam-se verdes e lquidos como a gua d uma fonte. Poder-se-ia refrescar-se neles.
 Ele beijou-lhe as plpebras. Ela o afastou com um leve golpe do leque.
 - No se acredite na obrigao de representar o papel de stiro s por estarmos na floresta.
 - No entanto, h muito que a adoro.
 - Sua adorao  das que produzem as boas amizades. Gostaria que a colocasse a meu servio para que me fosse possvel adquirir um cargo na corte.
 - Anglica, voc  uma criana muito sria. Mostramos-lhe belos brinquedos mecnicos- e voc os contempla distraidamente, pensando em seus deveres escolares. Elogiamos 
seus belos olhos e voc fala de cargos e colocaes.
 - Quem no fala neles por aqui?
 - Fala-se tambm de belos olhos!.... E de amor - disse Lauzun, passando-lhe um brao afaganteao redor da cintura.
 Ela no quis escut-lo e precedeu-o na entrada da quarta gruta, onde Vulcano e Vnus vogavam juntos em uma concha de prata. Havia ali uma multido; achegando-se, 
ela reconheceu o rei.
 -        Ah! Eis a encantadora Bagatela - disse ele ao not-la.
Anglica executou sua primeira grande reverncia do dia. E renovou-a para Monsieur e Madame, tambm presentes.
 Como o rei se pusesse a conversar com o Marqus de Lauzun, ela misturou-se ao grupo de damas e de cortesos, seguindo-os durante o passeio pelos jardins. Pouco 
depois, Pguilin retornou, pegou-a pela mo e conduziu-a para junto do rei.
 -        Sua Majestade quer trocar duas palavras com voc...
Anglica fez uma nova reverncia e permaneceu prxima a Sua Majestade, enquanto a massa de acompanhantes guardava alguma distncia.
 Mais duas conversas como essa e verei dobrar o nmero de solicitantes  minha porta", pensou.
 - Senhora - disse o rei -, desde nossa ltima entrevista em Versalhes, tivemos por diversas vezes a oportunidade de nos felicitarmos pelas opinies bastante acertadas, 
razoveis e inditas que nos exps. E pensamos que a senhora foi mal recompensada por elas. Se a senhora tem algum favor a nos pedir, ns o subscreveremos com o 
maior prazer.
 - Sire, Vossa Majestade j teve a bondade de se interessar pelo futuro de meus filhos.
 - O que era excusado pedir! Mas no teria a senhora uma requisio mais precisa a me dirigir?
 Anglica lembrou-se imediatamente do pedido de Binet e tirou do corpete a petio fortemente perfumada com as essncias da Provena do cabeleireiro.
 - Um cabeleireiro? - disse o rei, surpreso. - Falava-lhe de uma petio mais importante.
 - Mas um cabeleireiro  algum muito importante - afirmou Anglica, sria. - E aos meus olhos, este o  mais do que todos os outros cabeleireiros de Paris, pois 
 o meu. Ademais, ele afirma possuir um segredo que permitiria a Vossa Majestade usar a peruca, sem com isso ter que sacrificar ou mesmo esconder seus cabelos, que 
os tem muito bonitos.
 - Realmente?! - exclamou o rei, detendo-se no meio da alia. - Como seria isso possvel?
 - O Sr. Francisco Binet disse-me que s confiaria seu segredo a Vossa Excelncia, em particular.
 - Que o diabo me carregue se tenho pacincia de esperar at amanh para conhecer a soluo do problema! Estou sempre me perguntando: cortarei? No cortarei? Mas 
se esse artista, de quem ouvi falar muito bem, alis, encontrou um modo de conciliar esses dois extremos, palavra de honra, f-lo-ei duque!...
 Rindo com a animao a que se abandonava em seus momentos de despreocupao, Lus XIV fez um sinal a seu primeiro gentil-homem, entregou-lhe a petio de Binet 
e deu-lhe ordens para que se fizesse vir o cabeleireiro a Saint-Germain.
 Ao retornar, ao anoitecer, a sua morada parisiense, Anglica experimentava uma alegria pueril por ter obtido to rapidamente sua primeira requisio. Sentia-se 
quase todo-poderosa, embora devendo confes-sar-se que seus negcios pessoais no haviam progredido. Tomara parte em uma colao seguida de uma partida de baile, 
falara com uma infinidade de pessoas, executara um nmero incalculvel de reverncias e perdera cem libras durante uma partida - sentada - de lansquen.
 Contudo, no dia seguinte, e nos subsequentes, ela retomava o caminho da corte.
 No mais-via Filipe em nenhuma parte.-Pelos boatos soubera que fora enviado para uma inspe de alguns dias na Picardia. Estaria ele em desgraa? No, pois o monteiro-mor 
fora um dos primeiros a envergar o famoso casaco azul, to disputado. Anglica tambm se avistara com o Marqus de Louvois. A seu pedido de tramitaes de negcios, 
o ministro erguera os olhos aos cus e passara a expor-lhe a situao ridcula e desastrosa em que se encontrava. Por certo era proprietrio, e h muito tempo, dos 
benefcios dos transportes entre Lyon e Paris. Mas no se dera o caso de um rematado patife^ um tal de Collin, ter tido a ousadia de pedir o mesmo privilegie, e 
o rei concordar com o pedido? Agora, via-se obrigado a tratarcom um maldito lacaio de baixa condio, fosse para recuperar seus direitos oferecendo ao referido Collin 
uma substancial indenizao, fosse para partilhar com ele aqueles direitos, ou para renunciar a tudo. Naturalmente esse Collin pertencia  casa da Srta. de La Vallire, 
o que tornava a situao espinhosa junto ao rei. Louvois estendeu-se longa e maantemente sobre o caso desagradvel e esqueceu os cumprimentos que havia preparado 
para a encantadora marquesa, cuja beleza e expresso ao mesmo tempo sagaz e ingnua comeavam a povoar seus sonhos.
 O Marqus de La Vallire, a quem aquela longa conversao com Louvois deixara enervado, veio ao encontro de Anglica com recriminaes nos lbios, mas tornou-se 
afvel quando ela lhe perguntou se conseguira "anglicizar" seu francs morto em Tnger, e de quem cobiava os bens. Sim, a naturalizao pstuma estava bem encaminhada. 
As investigaes do Marqus de La Vallire haviam-lhe revelado uma origem escocesa na ascendncia do pobre Conde de Retorfort.
 E os bens do vice-bailio de Chartres tinham vindo dar a sua escarce-la? Com um movimento de ombros, Joo Francisco de La Baume Le Blanc, Marqus de La Vallire, 
dera a entender que conseguira seus ob-jetivos e, ao mesmo tempo, que a parte obtida no satisfazia seu apetite.
 Por duas vezes Pguilin de Lauzun conseguiu arrastar Anglica a um canto com o objetivo explcito de arrancar-lhe alguns beijos.
 Sem mostrar que dava pela coisa, ela perguntou pelo Sr. Duque de Mazarino. Seus escrpulos religiosos haviam-no afinal levado a se desfazer de um de seus cargos 
em proveito do Sr. de Lauzun?
 Com as faces vermelhas de excitao, Pguilin respondeu-lhe que sim e no. Era um quebra-cabea, mas estava a ponto de ser resolvido.
 O Duque de Mazarino demitira-se, com efeito, de seu cargo de gro-mestre, a pedido da Sra. de Longueville, que intentava compr-lo para seu filho. Quando, porm, 
com o acordo acertado, a Sra. de Longueville solicitara a aprovao do rei, este lhe dissera que a transao no lhe convinha e que ignorava o fato de o Duque de 
Mazarino querer desfazer-se de seu cargo. O Duque de Mazarino dissera, ento, que no queria mais vend-lo.
 O rei, por seu turno, mostrara escrpulos em conservar-lhe o cargo. Fixara, pessoalmente, um preo, decidira delegar as funes inerentes a ele ao Sr. de Louvois 
e resolvera que o titular do cargo se limitaria s aes de guerra. Ele sugerira que o Sr. de Lauzun deixasse o cargo de general dos drages e tomasse aquele, efetivo, 
de gro-mestre...
 Como a Sra. du Plessis podia imaginar, Lauzun sentira-se ofendido em ocupar um cargo cujas funes seriam exercidas pelo Sr. Louvois.
 Ele suplicara a Sua Majestade que lhe desse um lugar junto a sua pessoa, que lhe permitisse agir segundo melhor aprouvesse ao rei.
 Se aceitasse o cargo, teria desentendimentos com o Sr. de Louvois.
 O rei louvava os sentimentos do Sr. de Lauzun e, com a inteno de dar mostras de maior confiana, entregara-lhe a guarda de sua pessoa e tomara a deciso de lhe 
oferecer o cargo de capito das guardas do corpo do rei.
 Em consequncia disso, ele fizera do Conde de Ludre gro-mestre. Este cedera seu cargo de primeiro gentil-homem ao Sr. de Gesvres, que colocara seu posto de capito 
das guardas do corpo do rei nas mos do Sr. de Lauzun. O Sr. de Lauzun, por sua vez, cedera o cargo de coronel-general dos drages ao Sr. de Roure, que se desfizera 
daquele que possua na cavalaria ligeira e cujo valor servira para recompensar o Sr. Duque de Mazarino por seu cargo de gro-mestre.
 Eis como Anglica soube da histria. Com as mos juntas sobre os joelhos e um ar aplicado, ela acompanhou a aula, aprendendo, por um lado, os arcanos complicados 
das intrigas e, por outro, que o mais hbil sistema de defesa de uma linda mulher que queria fugir s homenagens muito afoitas consiste em jogar o audacioso na narrativa 
de suas esperanas e de suas ambies prticas. Surpresa, percebia que naquela corte, tida por muito galante, o amor vinha, por vezes, aps o interesse, e que, como 
teria narrado o fabulista La Fontaine, o pequeno deus Eros devia com frequncia retirar-se, vencido, diante do casal temvel que formavam a Fortuna, cega, montada 
em sua roda, e Mercrio, de ps alados. O rei orquestrava aquele bale complicado com uma conscincia minuciosa, atenta, que jamais esmorecia. Ele "levava para a 
frente" todos aqueles que serviam a sua volta. Era preciso ser visto e revisto. Uma insolncia pesava menos que uma ausncia.
 Pouco tempo depois ela soube que Binet recebera o cargo de primeiro cabeleireiro do rei. Ele conquistara o reconhecimento do soberano apresentando-lhe uma peruca 
que trazia aberturas pelas quais Sua Majestade podia fazer sair amplas mechas de sua prpria cabeleira. Assim, o rei no precisaria sacrificar seu ornato natural 
e aproveitaria ao mesmo tempo as vantagens e comodidades da peruca.
 Toda a corte quis fazer^se pentear por ele ou usar perucas de sua criao. S se estariarna moda depois de ter passado por suas mos.
 Os elegantes criaram uma palavra nova.
 - Que pensa de minha binette? - perguntavam ao se encontrar.
 
 CAPITULO XI
 
 A caa ao lobo - Lauzun seduz Anglica
 
 Com a chegada das primeiras neves, que foram precoces naquele ano, toda a corte partiu para Fontainebleau. Os camponeses da regio haviam solicitado o apoio de 
seu senhor, o rei de Frana, para livr-los dos lobos, que estavam causando grandes devastaes.
 Atravs dos campos imaculados, sob um cu carregado, a longa fila de carruagens, furges, cavaleiros e homens a p se ps em movimento.
 Era toda uma cidade que mudava de lugar. A "Boca do Rei",  "Capela do Rei",  "Casa do Rei", se haviam juntado a casa da rainha, o jogo de pla, a casa militar, 
a montearia e o mobilirio da coroa, at as tapearias suntuosas que se pregariam s paredes como proteo contra o frio. Seriam oito dias de caa ao lobo, o que 
no impediria a realizao dos bailes, teatros e das agradveis colocaes  meia-noite, chamadas de "medianocbe".
 Ao anoitecer, acenderam-se as tochas de resina junto s portinholas. E em meio a um rorejar de lgrimas de fogo chegou-se a Fontainebleau, antiga residncia dos 
reis de Frana no sculo XIV, que fora transformada por Francisco I, amante do local, numa das jias da Renascena, antes de Carlos V ser ali recebido.
 Em Fontainebleau, a etiqueta se abrandava. Todas as damas, mesmo as que no tivessem direito ao tamborete, podiam sentar-se diante do rei e da rainha, algumas sobre 
uma almofada, e outras sobre o lajedo. Anglica imaginou que, devido ao frio, no abusaria daquela permisso. A Grande Mademoiselle, a quem agradava o papel de cicerone, 
f-la visitar a morada real. Mostrou-lhe o teatro chins, a Galeria Henrique II e o aposento onde, dez anos antes, a Rainha Cristina, da Sucia, fizera assassinar 
seu favorito, Monaldeschi. Mademoiselle conhecera bem a singular soberana do Norte, quando de sua passagem pela Frana.
 - Ela vestia-se de um modo que mais fazia lembrar um lindo rapaz. No havia nenhuma mulher em seu squito; um criado de quarto a vestia, colocava-a na cama e, j 
que  preciso tudo dizer, acalmava seus desejos quando um. dos favoritos no se achava presente para faz-lo. Da primeira vez que viu nosso jovem rei, tmido  poca, 
perguntou-lhe sem cerimnia e diante da rainha-me se ele tinha amantes. O Cardeal Mazarino no sabia como desviar o assunto, e o rei ficara to vermelho quanto 
a veste do cardeal... Hoje, sentir-se-ia menos embaraado...
 Anglica escutava-a distraidamente, procurando Filipe com os olhos. No sabia ao certo se por desejo ou por medo de v-lo. Nada havia de bom a esperar daquele encorftro. 
Ele s lhe teria uma palavra dura, um olhar de desprezo. Seria melhor que fingisse ignor-la e que fosse menos corts com relao a ela do que com qualquer outra 
mulher da corte. Ele parecia ter.aceitado sua presena, mas no seria isso uma trgua em deferncia s recomendaes do rei? Anglica permanecia em guarda, e, no 
entanto, quando avistava Filipe, no podia se impedir de experimentar um sentimento complexo, feito de humilde admirao e secreta esperana, no qual reconhecia 
seus sonhos de outrora, quando ento no passava de uma garotinha desajeitada diante do elegante primo de cachos dourados.
 "Como custam-nos morrer os sonhos de infncia!", pensou.
 Filipe conservou-se invisvel durante o primeiro dia de chegada a Fontainebleau. Ele preparava a caada. Eram constantes os comentrios sobre quo aterrados estavam 
os camponeses com as feras. Carneiros haviam sido roubados at mesmo dos currais. Uma criana de dez anos fora atacada e degolada. Um bando particularmente perigoso 
parecia ser guiado por um grande macho, "gordo como um bezerro", afirmavam os campnios que o haviam visto rondar os limites dos vilarejos. Sua audcia era inacreditvel. 
A noite, vinha resfoligar e arranhar as portas das choupanas, onde as crianas, gritando de pavor, agarrayarri-se a suas mes. Todos se aterrorizavam, desde o anoitecer.
 A caada tornara-se violenta e implacvel. Todos estavam no encalo da besta-fera. Os camponeses, em grande nmero, haviam se apresentado, armados de forcados e 
de chuos. Misturados aos monteadores, ajudavam a guiar os ces. Ningum ficava para trs.
 Gentis-homens e amazonas conheciam os lobos. No havia entre eles quem no tivesse escutado em sua infncia, no fundo de um castelo, histrias sobre suas maldades, 
e era o mesmo dio ancestral contra o carniceiro temvel, flagelo dos campos, que arrastava nobres e camponeses s veredas selvagens. Ao entardecer, seus cadveres 
j se alinhavam na neve.
 Entre os galhos avermelhados das rvores os clebres rochedos da floresta de Fontainebleau, as surpreendentes falsias negras, os belvederes de arenito e os balces 
franjados de gelo vibravam com o contnuo chamado das trompas.
 Anglica acabava de desembocar em uma pequena clareira, que formava um tapete branco, estreitamente protegida por um macio de altos rochedos, como  fundo de um 
poo coberto de musgo. O canto das trompas ali repercutia de modo harmonioso e envolvente. Ela deteve o cavalo e ps-se a escutar, invadida pela melancolia de reminiscncias 
longnquas. A floresta! H quanto tempo no adentrava uma floresta! O ar mido, recendendo a velhas rvores e folhas mortas, varreu de um golpe os anos passados 
na fetidez ruidosa de Paris, levando-a de volta a suas primeiras alegrias na floresta de Nieul. Contemplou as rvores de colorao clida, ferrugem e prpura, que 
o outono ainda no desfolhara. A neve, der-retendo-se em um murmrio de fonte, avivava o colorido das folhagens e dava-lhes, sob a carcia de um sol tmido, um faiscar 
de pedras preciosas. Na penumbra da vegetao que crescia entre as rvores, Anglica viu brilhar as prolas vermelhas de uma moita de azevinho. Lembrou-se de que, 
em Monteloup, aquela planta era colhida s braadas na poca do Natal. Como aquilo tudo estava distante! Poderia o presente de Anglica du Plessis-Bellire reencontrar 
o passado de Anglica de Sanc por meio de um simples talo de azevinho?
 "A vida jamais nos separa de ns mesmos", pensou, enlevada, como se tivesse recebido uma promessa de felicidade.
 Podia parecer infantil, mas ainda no renunciara aos impulsos pueris, apangio de todas as mulheres. Abandonar-se a eles era um luxo que, agora, podia se oferecer.
 Ela deslizou de seu cavalo e, aps amarrar as rdeas de Ceres a um galho de aveleira, correu at a moita de azevinho. Entre as bugigangas que toda mulher elegante 
trazia  cintura, encontrou um pequeno canivete com cabo de madreprola, com o qual principiou a colheita. O que no se fazia sem dificuldade.
 Anglica no se deu conta de que o som das trompas e o burburinho da caada se distanciavam, e nem notou, a princpio, a agitao de Ceres, que puxava, as rdeas, 
nervosa. S atentou para a perturbao do animal no momento em,que Ceres, com um relincho de pnico, arrancou o galho de avel e fugiu a galope.
 -        Ceres! - gritou Anglica.- Ceres!
 Foi ento que percebeu o que causara a agitao da gua.
 Do outro lado da clareira, ainda meio escondida pela moita, rondava uma forma.
 "O lobo", pensou.
 Quando ele saiu de entre a ramagem, avanando cauteloso sobre o tapete imaculado, compreendeu que se tratava do grande macho, terror da regio. Um;animal enorme, 
na verdade, cinza e avermelhado como a floresta, com o dorso arqueado e o plo eriado. Ele imobilizou-se, os olhos fosforescentes fixados em Anglica.
 Ela emitiu um grijo agudo.
 A fera deu um salto para trs, e depois voltou a se aproximar, com as mandbulas arregaadas emitindo ferozes grunhidos. De um momento para outro daria o bote...
 Ajovem lanou um olhar para a falsia que se erguia atrs dela.
 " absolutamente necessrio que tente alar-me o mais alto possvel."
 Tomou impulso e conseguiu elevar-se um pouco, mas logo teve que se deter. Suas unhas escorregavam sobre uma superfcie lisa onde no encontravam nenhum apoio.
 O lobo saltara, mas s conseguira abocanhar-lhe a extremidade do vestido. Cara, e a espreitava, andando  volta com os olhos injetados de sangue. Ela gritou mais 
uma vez, com todas as foras. Seu corao batia to forte que ela nada ouvia alm de seus golpes surdos e descompassados. Rapidamente reuniu algumas palavras em 
forma de orao:
 -        Senhor! Senhor! No permita que eu morra to estupidamente!... Faa alguma coisa!...
 Um cavalo surgiu a galope e estacoujde. chofre, em meio a uma nuvem de flocos de neve. O cavaleiro saltou em terra.
 Como em um sonho, Anglica viu aproximar-se o monteiro-mor, seu marido, Filipe du Plessis-Bellire. Era uma apario to extraordinria que em um segundo todos 
os detalhes saltaram-lhe aos olhos.
 Filipe estava cingido por um gibo de pele branca, guarnecido com largos bordados em prata. O colarinho e as dobras das mangas eram forrados com uma pelia na mesma 
cor de sua peruca.
 Ele avanava a passo uniforme, em suas botas de courobranco e gales prateados.
 Ao saltar do cavalo, havia arrancado as luvas. Suas mos estavam nuas. A direita empunhava uma faca de caa afilada, com cabo de prata.
 O lobo voltara-se para aquele novo adversrio. Filipe caminhava em sua direo sem se apressar, mas de modo implacvel. Estava a apenas seis ps do lobo quando 
este atacou, com a goela vermelha aberta soltando grunhidos agudos.
 Com um gesto rpido como um raio o marqus avanou o brao esquerdo, a mo fechando-se como tenaz ao redor do pescoo do animal. Com a outra mo rasgou-lhe o ventre 
de alto a baixo, de um s golpe. A fera debatia-se em horrvel estertor, o sangue jorrando. Por fim sua resistncia esgotou-se. Filipe jogou de lado o corpo anelante, 
que desabou, enquanto as entranhas espalhavam-se na neve.
 De todos os lados, monteadores e cavaleiros invadiam a clareira. Os lacaios controlavam a matilha delirante ao redor do cadver.
 -        Belo golpe, senhor marechal - disse o rei a Filipe.
 Na confuso, a situao de Anglica passava ainda despercebida. Fora-lhe possvel deslizar para a base do rochedo, limpar as mos arranhadas e pegar o chapu.
 Um dos batedores trouxe-lhe seu cavalo. Era um homem grisalho, que se ocupara a vida toda com a montearia, e de falar franco. Lanara-se nas pegadas de Filipe e 
presenciara o fim do combate.
 -        A senhora causou-nos um medo e tanto, marquesa! - disse. - Sabamos que o lobo estava por aqui. E quando vimos seu cavalo voltar com a sela vazia, e ouvimos 
seu grito!... Palavra de monteador, senhora, foi a primeira vez que vi o senhor monteiro-mortornar-se plido como a morte.
 Somente ao acaso da festa que se seguiu pde Anglica encontrar-se com Filipe. Procurara em vo estar com ele, desde o instante em que, retesado em seu gibo ensanguentado, 
ele lhe lanara um olhar furioso antes de voltar a seu cavalo. Sem dvida alguma, ele estivera a ponto de administrar-lhe um par de bofetadas. No entanto ela estimava 
que uma mulher que teve a vida salva pelo marido deve-lhe ao menos alguns agradecimentos.
 -        Filipe - disse, no momento em que conseguiu ret-lo por entre duas mesas do banquete real -, sou-lhe to grata... Sem voc estaria perdida.
 Foi o tempo de o gentil-homem depositar na bandeja carregada por um valete que passava o copo que tinha na mo; pegando no pulso de Anglica, apertou-o a ponto 
dejssmag-lo.
 - Quem no sabe acompanhar uma caada deveria permanecer em casa, fazendo tapetes -- disse em voz baixa, encolerizado. - Voc no cessa de colocar-me em situaes 
ridculas. No passa de uma camponesa grosseira, de uma mercadora sem educao. Um dia saberei como fazer-lhe expulsar da corte e livrar-me de voc!
 - E por que no ter deixado esse encargo ao Senhor Lobo, como ele tanto o desejava?
 - Era meu dever matar aquele lobo, e sua sorte pouco importava. No ria, voc me exaspera.  como todas as mulheres que se imaginam irresistveis e que pensam que 
se morreria por elas com alegria. No sou'dess espcie. Um dia voc saber, se ainda no compreendeu, qlie eu tambm sou um lobo.
 - No creio nisso, Filipe.
 - Saberei prov-lo - disse ele, com um sorriso frio que acendeu em seu olhar um brilho de maldade.
 Pegou-lhe na mo, com uma delicadeza da qual ela no desconfiou, levando-a aos lbios.
 -        O que voc colocou entre ns, no dia de nosso casamento,
dio, rancor e vingana, jamais se apagar. Tenha-o por dito.
 Ele mantinha junto aos lbios o delicado pulso. Sbito, mordeu-o cruelmente.
 Anglica teve que controlar-se ao mximo para no gritar de dor. Ao recuar, esmagou com o salto o p de Madame, que se levantava de uma das mesas e que, ela sim, 
gritou.
 Anglica, muito rubra e depois muito plida, balbuciou:
 -        Que Vossa Alteza me perdoe!
 -        Minha cara, voc  uma desajeitada...
Filipe acrescentou, num tom de desagrado:
 -        De fato, tenha um pouco de cuidadccom seus movimentos, senhora. O vinho no lhe cai bem.
 Seus olhos brilhavam com maldosa ironia. Ele inclinou-se profundamente diante da princesa, e depois deixou as senhoras para acompanhar o rei, que se dirigia aos 
sales.
 Anglica pegou seu lencinho de rendas e aplicou-o  mordedura. A dor brutal repercutiu em seu estmago. Ela sentiu-se mal.
 Com o olhar enevoado, esgueirou-se por entre os grupos e conseguiu chegar a um vestbulo, onde estava mais fresco.
 Sentou-se no primeiro sof a sua frente, em um dos nichos que enquadravam as janelas. Com precauo ergueu o pedao de cambraia amarfanhado e contemplou o pulso 
perolado de gotas de sangue pisado. Com que selvageria ele a havia mordido! E que hipocrisia em seguida! "Tenha cuidado com seus movimentos, o vinho no lhe cai 
bem." Espalhariam o boato de que a Sra. du Plessis estava embriagada a ponto de chocar-se com Madame... Uma jovem incapaz de frequentar a aristocracia!...
 O Marqus de Lauzun, que passava por ali, ele tambm de casaco azul, reconheceu a silhueta feminina sentada.
 -        Desta vez vou passar-lhe uma descompostura - disse, aproximando-se. - Novamente sozinha!... E sempre sozinha!... Na corte!... E bela como o dia!... E escondida, 
para cmulo do escndalo, neste canto preferido pelos enamorados, to discreto e encoberto que foi apelidado de gabinete de Vnus! Sozinha!... Voc  um desafio 
s regras ele mentares do decoro, para no dizer s leis da natureza, em uma palavra.
 Ele sentou-se a seu lado, adotando a expresso severa de um pai que ralhasse com a filha.
 -        Que bicho a mordeu, minha criana? Que demnio lgubre a domina, levando-a a desdenhar homenagens, a fugir da companhia dos galanteadores? Esqueceu que 
o cu dotou-a com os maiores encantos?... Quer insultar os deuses com... Mas que vejo?... Anglica, meu corao, no  verdade!
 Em outro tom de voz, tocou-lhe o queixo com um dedo, obrigando-a a erguer a cabea.
 -        Voc est chorando? Por causa de um homem?...
 Ela acenou afirmativamente, com pequenos soluos convulsivos.
 -        Mas ento - disse Lauzun - j no se trata mais de uma falta; isto  um crime! Seu dever essencial deveria ser o de fazer os outros chorarem... Minha criana, 
no h um homem aqui por quem valha a pena voc derramar lgrimas... Salvo por mim, 
claro. Mas eu no ousaria esperar que...
 Anglica tentou' sorrir. Por fim conseguiu articular:
 -        Oh! no  nada grave.  mais nervosismo... Porque estou sentindo dores.
 -        Dores? Mas onde?
Ela mostrou-lhe o pulso.
 - Quisera muito saber quem foi o sujo que a tratou dessa maneira! - gritou Pguilin, alterado. - Diga-me seu nome, senhora, e tomar-lhe-ei satisfaes por tal procedimento.
 - No se indigne, Pguilin. Ele tem, infelizmente, todos os direitos sobre mim.
 -        Quer dizer que se trata d belo marqus, seu esposo?
Anglica no respondeu, pondo-se de novo a chorar.
 -        Ora! Que mais se pode esperar de um marido - disse Pguilin com um ar desgostoso. -  bem no estilo daquele que voc escolheu. Mas ento por que voc se 
obstina a viver com ele?
 Anglica sufocava as lgrimas.
 -        Vamos! Vamos! - retomou mais docemente Pguilin. - No  preciso chegar a esse estado. Por um homem! E por um marido, alm de tudo... Mas voc est fora 
de moda, meu tesouro; est doente ou... Alis, h bastante tempo existe algo de errado com voc. Quisera j ter-lhe faiado a respeito... Mas assoe-se primeiro.
 Com uma cambraia imaculada que tirara do prprio bolso, ele enxugou-lhe delicadamente o rosto e os olhos. Ela via muito prximo aquele olhar reluzente e zombeteiro, 
do qual toda a corte, incluindo o soberano, aprendera a temer o lampejo de malcia. A existncia mundana, os desregramentos j marcavam com uma ruga os cantos da 
boca sarcstica. Mas havia em toda a sua fisionomia uma agradvel expresso de vida e de contentamento. Ele era do sul, um gasco ardente como o sol e vivo como 
a truta que se pesca nas torrentes dos Pireneus.
 Ela olhou-o com amizade. Ele sorriu.
 - Est melhor?
 - Creio que sim.
 - Daremos um jeito nisso - disse ele.
 Deixou escoarem-se alguns momentos, examinando-a em silncio, com ateno.
 Eles encontravam-se isolados do vaivm da galeria, percorrida sem cessar por cortesos e criados. Era-preciso subir trs degraus para ter acesso quele recanto, 
quase inteiramente ocupado pelo canap cujos braos escondiam os ocupantes dos olhares alheios.
 Com o crepsculo precipitado do inverno, a claridade existente provinha somente da janela, onde brincava o ouro rubro do sol poente. Podia-se distinguir, invadido 
pela bruma, o terrao arenoso com vasos de mrmore e os reflexos de um tanque.
 - Voc disse que este canto discreto em que nos encontramos  chamado de gabinete de Vnus? - perguntou Anglica. '
 - Sim. Aqui se est, tanto quanto  possvel nesta corte, ao abrigo da curiosidade, e correm  solta os comentrios de que os amantes muito impacientes aqui vm 
por vezes, oferecer sacrifcios  amvel deusa. Anglica, no h nenhuma falta que a condene diante dela?
 - Da deusa dos amores?... Pguilin, a mim  que caberia censur-la por se mostrar negligente a meu respeito.
 - No tenho tanta certeza disso - disse ele, sonhador.
 - Que quer dizer?
 Ele balanou a cabea, e meditou, um punho sob o queixo.
 - Infame Filipe! - suspirou. - Quem saber o que se esconde naquele corpo estranho? Voc jamais tentou introduzir algum p benfico em seu copo,  noite, antes 
que ele venha ao seu encontro? Comenta-se que o banhista La Vienne, cujo estabelecimento fica no Faubourg Saint-Honor, dispe de drogas apropriadas para devolver 
o vigor aos amantes esgotados por sacrifcios frequentes, como tambm aos velhos ou queles que uma disposio pouco ardente desvia do altar de Vnus. H, entre 
outras, uma substncia conhecida como pelleville da qual se dizem maravilhas.
 - No duvido. Mas esses mtodos no me agradam. Alm de tudo, seria necessrio que pudesse aproximar-me de Filipe vez por outra para tocar ao menos... seu copo. 
O que no acontece com frequncia.
 Os olhos de Pguilin escancararam-se.
 -        No est querendo dizer que seu esposo  to completamente indiferente a seus encantos, a ponto de jamais se apresentar em seus aposentos!
 Anglica deu um pequeno suspiro entrecortado.
 - Sim,  o que acontece - disse num tom morno.
 - E... o que pensa disso seu amante?...
 - No tenho amante.
 - Como?
 Lauzun deu um salto.
 - Ento, digamos... seus amigos de passagem?
 - Ousar acaso confessar-me que no existem?
 - Sim, Pguilin, pois  a verdade.
 - I-na-cre-di-t-vel! - murmurou Pguilin, tendo no rosto a expresso de quem desabava diante de uma notcia trgica... - Anglica, voc merece uma surra.
 - Como? - revoltou-se ela. - Mas no  minha culpa.
 -  somente sua a culpa. Quem possui sua pele, seus olhos e suas formas, s a si mesmo pode culpar por tal situao. Voc  um monstro, uma criatura exasperante 
e temvel!
 Ele tocou-lhe as tmporas com o dedo em riste.
 -        Que existir nessa maldosa cabecinha? Clculos, projetos, planos perigosos sobre negcios complicados que deixam atnitos at o Sr. Colbert e pesaroso 
o Sr. Le Tellier? Os graves homens de bem tiram o chapu diante de voc; e os jovens, aflitos, no sabem como proteger seus ltimos centavos de suas mos rapaces. 
E, alm de tudo, um rosto de anjo, olhos que se inundam de luminosidade, lbios que no se podem contemplar sem o desejo de esmag-los com beijos! Sua crueldade 
beiro refinamento. Voc se apresenta surpreendentemente como uma deusa... Para quem, pergunto-lhe?
 A violncia de Lauzun desconcertava Anglica.
 - Que quer voc - aventurou ela -, tenho tanto que fazer...
 - Mas que diabos uma mulher tem para fazer a no ser amar?... Na verdade, voc no passa de uma egosta encerrada em uma torre que construiu para preseryar-se da 
vida.
 Anglica ficou surpresa com tanta perspiccia sob aquela leve peruca de corteso.
 -         isso, e no  nada disso, Lauzun. Quem poder compreender-me?... Voc no esteve no inferno...
 Ela pendeu a cabea para trs e fechou os olhos, presa de grande lassido. H pouco estava febril, mas agora parecia sentir o sangue frio em suas veias. Algo que 
se assemelhava  morte ou  aproximao da velhice. Teve vontade de pedir socorro a Pguilin, e ao mesmo tempo a razo lhe mostrava que aquele salvador poderia arrast-la 
a outros perigos; decidiu afastar-se do terreno escorregadio. Recomps-se e perguntou num tom jovial:
 - Com efeito, Pguilin, voc no me disse se conseguiu enfim obter seu cargo de gro-mestre.
 - No - disse calmamente Pguilin.
 - Como no?
 - No, voc me aplicou esse golpe repetidas vezes, mas agora no me deixarei apanhar. Voc ainda no est quite comigo. Neste momento no  meu cargo de gro-mestre 
que me interessa, mas saber por que sua vida como mulher se encontra refugiada aqui, neste pequeno crnio duro, e no aqui - acrescentou, colocando, num gesto preciso, 
a mo no peito da jovem.
 -        Pguilin! - protestou ela, levantando-se.
 Mas ele agarrou-a com presteza e, cercando-a com o brao direito, deslizou a mo esquerda sob seus joelhos, o que a fez perder o equilbrio, obrigando-a a ficar 
semi-estendida no sof, com o busto nele apoiado.
 - Cale-se e acalme-se - ordenou, erguendo um dedo doutoral. - Deixe que a faculdade examine o caso. Eu o considero crtico, mas no desesperador. Vejamos, um primeiro 
passo. Recite-me sem mais delongas os nomes de todos os gentis-homens que rondam a sua volta e perdem o sono  simples lembrana de sua pessoa.
 - Na verdade... voc acredita que sejam tantos assim?
 - Probo-a de parecer surpresa com minha pergunta.
 - Mas, Pguilin, asseguro-lhe que ignoro a quem voc faz aluso.
 - Mas como? No percebeu realmente que o Marqus de La Val-lire se agita como uma borboleta louca quando voc aparece, que Vivonne, o irmo de Atenas, gagueja, 
ele, to glorioso, que Brien-ne compe frases espirituosas... E os senhores de Saint-Aignan e Ro-quelaure, e at aquele sujo Louvois, que no tem outro recurso a 
no ser o de se fazer sangrar, aps ter conversado dez minutos com voc...
 Ela ria divertida.
 -        Probo-a de rir - atalhou Pguilin. - Se voc no se deu conta de tudo o que acontece, ento est pior do que eu pensava. No sente ento todo esse fogo, 
todas essas chamas que a rodeiam? Por Belzebu, voc tem a pele de uma salamandra...
 Ele roou-lhe o pescoo com o indicador.
 - Ningum diria, no entanto.
 - E voc, Sr. de Lauzun, no se coloca na lista dos inflamados?
 - Oh, no, no eu! - protestou ele, vivamente. - Oh! no, eu jamais ousaria, teria muito medo.
 - De mim?
 Os olhos do marqus ficaram enevoados.
 -        De voc... e de tudo o que a rodeia. Seu passado, seu futuro, seu mistrio.
 Anglica olhou-o fixamente por um momento. Depois sentiu um calafrio e escondeu o rosto no casaco azul.
 -        Pguilin!
 Pguilin o Leviano, era um velho amigo. Estava ligado a seu antigo drama. Em todos os momentos trgicos de sua vida ela o vira surgir como uma marionete de comdia. 
Ele aparecia, desaparecia, reaparecia.
 E estava ali, naquela noite, sempre o mesmo.
 - No, no, no - repetiu ele. - No gosto de correr grandes riscos. Os tormentos do corao me assustam. No conte comigo para fazer-lhe a corte.
 - Ento, que est fazendo agora?
 - Oferecendo-lhe consolo. No  a mesma coisa.
 Seu dedo descia ao longo do pescoo acetinado, desenhava alguns riscos, seguindo a curva do colar de prolas rosa, cujo brilho leitoso resplandecia sobre a pele 
branca.
 -        Causaram-lhe um grande mal - murmurou ele ternamente -, e esta noite voc est muito, muito triste. Irra! - impacientou- se ele - cesse de retesar-se como 
uma espada. Palavra de honra, dir-se-ia que jamais a mo de um homem a tocou! Anseio por dar-lhe uma pequena aula...
 Ele debruou-se. Ela ainda tentou desvencilhar-se, mas ele segurou-a com vigor. Seus gestos tinham a autoridade do homem que perdeu a conta de seus casos bem-sucedidos; 
seu olhar tinha um brilho estranho.
 -        Voc nos fez esperar muito tempo, daminha! A hora da vingana soou. Alis, morro de vontade de acarici-la, e creio que voc tem grande necessidade disso.
 Ele se ps a dar-lhe beijos nas plpebras e nas tmporas. Depois, seus lbios quentes pousaram no canto da boca de Anglica.
 Ela estremeceu. O chicote de um desejo animal estalou, repentino, sobre ela. A ele misturava-se uma espcie de curiosidade perversa  ideia de conhecer por experincia 
prpria os talentos do clebre dom-juan da corte.
 Era Pguilin quem estava com a razo. Filipe no contava. A festa louca, o bailado dourado da corte arrastavam Anglica. Ela sabia que no poderia viver sempre 
 -margem dos acontecimentos, sozinha, com seus belos vestidos e suas jias custosas. Deslizaria por entre os outros, semelhante a eles enfim, arrebatada pelo fluxo 
das intrigas, comprometimentos e adultrios. Era uma bebida forte, envenenada e deliciosa.
 Devia beber-lhe a taa para no morrer.
 Ela emitiu um profundo suspiro. No calor reconfortante das carcias masculinas, reencontrava o gosto pela despreocupao. E quando os lbios do Marqus de Lauzun 
pousaram nos seus, ela correspondeu, hesitante, a princpio, e depois, pouco a pouco, com a mesma paixo que deles vinha.
 O brilho dos archotes e tocheiros que duas filas de criados traziam e dispunham ao longo da galeria separou-os por um momento.
 Anglica no compreendia como a escurido j chegara at ali.
 Junto ao local um criado disps sobre um consolo um castial de seis braos.
 - Ei, amigo - sussurrou Pguilin, debruado no brao do canap -, pendure um pouco alm a sua lanterna.
 - No posso, senhor. Corro o risco de ser repreendido pelo senhor oficial das luzes, responsvel por esta galeria.
 - Ento sopre ao menos trs velas - replicou o marqus, lanando-lhe uma pea de ouro.
 Ele voltou-se e retomou a jovem em seus braos.
 -        Voc est aqui? Como voc  bela! Como  saborosa!
 A espera exasperara a ambos. Anglica gemeu e mordeu violentamente a ombreira achamalotada do belo casaco azul. Pguilin riu baixinho.
 -        Calma, lobinha... voc ser contentada... Mas estamos numa passagem; deixe-me dirigir a manobra.
 Ela obedeceu, ofegante e dcil. O vu dourado do esquecimento voluptuoso caa sobre seu sofrimento. Era agora apenas um corpo ardente, vido por seu prprio prazer, 
e sem a preocupao com o lugar onde se encontrava, nem mesmo com o parceiro hbil que a fazia vibrar.
 - Minha criana, voc cometeu muitos pecados, mas, diante do arrependimento de que deu prova e o ardor com o qual se props a reparar suas faltas, no creio dever 
recusar a bno do pequeno deus Eros nem sua absolvio. Como penitncia voc recitar...
 - Oh! voc  um horrvel libertino - protestou ela, ainda lnguida, com uma risadinha rouca.
 Pguilin pegou um anel de cabelos louros e beijou-o. Ele se espantava, em segredo, com seu prprio jbilo. Nada havia nele que se assemelhasse ao sentimento desabusado 
que se segue ao gozo. Por qu? Que espcie de mulher era aquela?
 - Anglica, meu anjo, temo ter esquecido minhas sbias resolues... Sim, eu ardo por conhec-la melhor. Quer... Peo-lhe, venha ter comigo, esta noite, depois 
que o rei se recolher.
 - E a Sra. de Roquelaure?
 - Pouco importa!...
 Anglica desprendeu-se do ombro onde se demorava e cobriu o peito com as rendas do corpete. O gesto permaneceu em suspenso.
 A alguns passos de distncia, destacando-se em negro no cenrio incandescente da galeria iluminada, havia uma personagem imvel. No era preciso distinguir-lhe 
os traos para reconhec-lo: Filipe!
 Pguilin de Lauzun possua longa experincia nesse gnero de situao. Com mo gil retificou a desordem de suas roupas, levantou-se e inclinou-se profundamente.
 - Senhor, escolha suas testemunhas, sou seu...
 - E minha mulher  de todo mundo - respondeu Filipe, em voz lenta. - Eu lh peo, marqus, no incomode a ningum.
 Com a perna curvada, saudou to profundamente quanto Pguilin e afastou-se em seu passo soberbo.
 O Marqus de Lauzun parecia ter-se transformado numa esttua de sal.
 -        Com os diabos! - praguejou. - Jamais encontrei um marido dessa espcie.
 Desembainhando a espada, cobriu de um salto os trs degraus do estrado e lanou-se atrs do monteiro-mor.
 Desembocou, assim, correndo, no Salo de Diana, no momento exato em que o rei, seguido das damas de sua famlia, saa de seu gabinete.
 -        Senhor - gritou Pguilin, com voz estrondeante -, sua atitude desdenhosa  um insulto. Eu no a admitirei. Sua espada deve responder a isso.
 Filipe baixou sobre o rival gesticulador os olhos frios.
 -        Minha espada pertence ao rei, senhor. Jamais me bati por prostitutas.
 Em sua raiva, Lauzun retomava seu acento meridional:
 -        Fiz de voc um corno! - gritou ele, brio de despeito. - E exijo que me pea reparao.
 
 CAPTULO XII
 
 Deteno de Filipe
 
 Anglica ergueu-se na cama, a cabea pesada e a boca amarga. A aurora apontava, cinzenta.
 Ela passou os dedos pelos cabelos embaraados; doa-lhe o couro cabeludo. Quis apanhar o espelho sobre a mesa-de-cabeceira e teve um esgar de dor: a mo estava 
inchada. Entorpecida, Anglica considerou o ferimento em seu pulso e bruscamente lembrou-se: Filipe!
 Pulou para fora da cama e calou as chinelas, cambaleando. Era preciso ir  caa de notcias o mais rpido possvel, saber o que aconteceu a Filipe e a Lauzun. 
Teria o rei conseguido convenc-los a no se baterem? E se duelassem, que sorte aguardava o sobrevivente? A deteno, o encerramento, a desgraa?...
 De onde quer que contemplasse a situao, ela se lhe mostrava terrvel e sem sada.
 Um escndalo! Um terrvel escndalo!
 A vergonha consumia-a como um braseiro,  simples lembrana do que acontecera em Fontainebleau.
 Revia Filipe e Pguilin desembainhando a espada e colocando-se em guarda diante mesmo do rei, os senhores de Gesvres, de Crqui e de Montausier separando-os, Montausier 
contendo com o brao o corpo do indignado gasco, que bradava: "Fiz de voc um corno!", e todos os olhos da corte voltando-se para Anglica, enrubescida, com seu 
suntuoso vestido cor de aurora em eloquente desordem.
 Que prodgio de vontade a fizera, malgrado a situao, encaminhar-se at o rei para fazer-lhe, bem como  rainha, uma grande reverncia, e depois afastar-se, muito 
tesa, por entre duas alas de olhares zombeteiros e escandalizados, de murmrios, de risos sufocados, e, por fim, sob um silncio to profundo e aterradpr que ela 
tivera vontade de arrepanhar as saias com as duas mos e fugir, correndo?
 Mas controlara-se at o fim e sara sem apressar o passo para depois desmoronar, mais morta que viva, em uma banqueta de patamar, em um canto deserto e mal iluminado.
 Fora ali que a Sra. de Choisy a encontrara pouco depois. Engolindo a saliva com a expresso de um pombo escandalizado, a nobre dama informara  Marquesa du Plessis-Bellire 
que Sua Majestade estava repreendendo o Sr. de Lauzun em particular, que o senhor prncipe se havia encarregado do marido ofendido e que se esperava que aquela desagradvel 
querela parasse por ali. No entanto, a Sra. du Plessis compreenderia que sua presena na corte tornara-se indesejvel e que a Sra. de Choisy recebera do rei a incumbncia 
de comunicar-lhe quedeveriadeixar Fontainebleau imediatamente.
 Anglica acolhera p veredicto quase com alvio. Jogara-se em sua carruagem e rodara toda a noite, apesar dos resmungos do cocheiro e dos lacaios/ que temiam ser 
assaltados por bandidos ao atravessar a floresta.
 "Eis a minha sorte!", disse consigo mesma, contemplando com amargura a imagem de plpebras azuladas de fadiga, no alto psi-ch de seu gabinete de toalete. "A.cada 
dia e a cada noite na corte, um nmero incalculvel de mulheres enganam os maridos com a maior facilidade do mundo, e, quando isso me acontece uma vez, o fogo do 
cu cai sobre a terra. Verdadeiramente, no tenho sorte!"
 A beira das lgrimas, comeou a sacudir todas as sinetas. Javot-te e Teresa apareceram bocejando, sonolentas. Ordenou que a ajudassem a vestir-se e depois mandou 
procurar Flipot, dizendo-lhe que corresse at a manso do Marqus du Plessis no Faubourg Saint-Antoine e lhe trouxesse as notcias que conseguisse obter.
 Ela acabava de se vestir quando o barulho de uma carruagem penetrando lentamente no ptio da manso f-la gelar, o corao aos pulos. Para que viriam a sua casa 
s seis horas da manh? Quem poderia ser?... Precipitou-se para o vestbulo e, descendo alguns degraus com passo trpego, debruourse" n corrimo.
 Avistou Filipe, seguido por La Violette, que carregava duas espadas, e pelo capelo particular do marqus.
 O Marqus du Plessis levantou a cabea.
 - Acabo de matar o Sr. de Lauzun - disse.
 Anglica agarrou-se ao corrimo para no cair. Seu corao recomeava a saltar. Filipe! Ele estava vivo!
 Ela desceu rapidamente e viu, ao aproximar-se, que o plastro e o colete do marido estavam manchados de sangue. Pela primeira vez ele trazia o casaco sem elegncia, 
pois segurava o brao direito com a outra mo.
 -        Voc est ferido! - disse ela com voz apagada. -  grave?
Oh! Filipe,  preciso medic-lo. Venha, eu lhe peo!
 Ela o guiou, quase sustendo-o, at se quarto, e sem dvida ele estava bastante aturdido, pois seguiu-a sem comentrios. Deixando-se cair pesadamente numa poltrona, 
cerrou os olhos. Estava branco como seu colarinho.
 Anglica, com as mos febris, pegou de seu estojo de acessrios de costura uma tesoura, com a qual comeou a cortar o tecido enrijecido pelo sangue, ordenando s 
criadas que trouxessem gua, tiras de linho, ps, blsamos e licor da rainha da Hungria.
 -        Beba isto - disse ela, assim que Filipe reanimou-se um pouco.
O ferimento no parecia grave. Um corte partia do ombro direito at o flanco esquerdo, mas s atingira a carne superficialmente. Anglica lavou-o, aplicando-lhe 
mostarda de Maille e p de caranguejo. Filipe submeteu-se impassvel a esses cuidados, at mesmo ao contato da mostarda, parecendo refletir profundamente.
 - Pergunto-me como se proceder para fazer cumprir a etiqueta - disse por fim.
 - Que etiqueta?
 - Para a deteno. Em princpio,  o capito da guarda do corpo do rei que procede  deteno dos duelistas. Mas o atual capito da guarda no  outro seno o Marqus 
de Lauzun. E ento? Ele no pode prender a si prprio, no  mesmo?
 - Ele pode menos ainda por estar morto - acentuou Anglica com um riso nervoso.
 - Ele?... No tem um arranho!
 A jovem permaneceu em suspenso, com a tira de linho na mo.
 - Mas no acabou de dizer que...
 - Queria saber se desfaleceria.
 - Eu no iria, malgrado a situao, desfalecer por um Pguilin de Lauzun... Estava aflita,  verdade... Mas ento o derrotado foi voc, Filipe?
 - Era preciso empenhar-se em acabar com essa estupidez. E eu no iria desfazer uma camaradagem militar de vinte anos com P-guilin por uma... bagatela. Sua tez 
empalideceu e o olhar enevoou-se sob um acesso de fraqueza.
 -        Creio que  assim que o rei a chama: Bagatela.
 Os olhos de Anglica voltaram a encher-se de lgrimas. Ela pousou a mo na testa de Filipe. Como parecia fraco, ele, to duro!
 -        Oh! Filipe - murmurou -, que transtorno! E voc, que pouco antes me havia salvado a vida!... Oh! Por que as coisas no se passaram de outro modo?... Eu 
gostaria tanto de... poder am-lo.
 O marqus ergueu a mo em um gesto qu impunha silncio.
 -        Creio que chegaram - disse.
 Ouviu-se na escada de mrmore o retinir de esporas e de sabres. Em seguida a porta abriu-se lentamente e o Conde de Cavois avanou com expresso perturbada.
 -        Cavois! - disse Filipe. - Veio deter-me?
 O conde confirmou com um movimento de cabea desolado.
 -        A escolha foi boa. Voc  coronel dos. mosqueteiros, e, depois do capito da guarda do rei,  a voc com efeito que incumbe
a funo. Que aconteceu a Pguilin?
 -        J est na Bastilha.
Filipe ergueu-se penosamente.
 -        Eu o sigo. Senhora, faa o obsquio de colocar-me a veste nos ombros.
 Mas, ao ouvir a palavra Bastilha, Anglica fora tomada por uma vertigem. Tudo recomeava!... Mais uma vez vinham arrancar-lhe o marido para encerr-lo na Bastilha. 
Plida at os lbios, ela juntou as mos.
 - Sr. de Cavois, oh! eu lhe suplico, no na Bastilha.
 - Senhora, lamento, mas so as ordens do rei. A senhora no ignora que o Sr. du Plessis cometeu uma grave contraveno batendo-se em duelo malgrado os ditos severos 
que o probem. No se atormente, no entanto. Ele ser bem tratado, bem medicado, e seu criado recebeu autorizao para acompanh-lo.
 Ele estendeu o brao para que Filipe pudesse apoiar-se. Anglica deu um grito de animal ferido:
 -        Na Bastilha, no!... Encarcere-o onde quiser, mas no na Bastilha!
Os dois gentis-homens, que ganhavam a porta, voltaram-se para ela com o mesmo olhar de incompreenso e desagrado.
 -        E onde queria voc que ele me prendesse? - disse Filipe, alterado. - No Chtelet, talvez? Com os maltrapilhos!
 Tudo recomeava! A espera, o silncio, a impossibilidade de agir, a catstrofe irremedivel. Via-se tornando a percorrer, trpega, o mesmo caminho, e j a angstia 
a sufocava como nos pesadelos onde se procura fugir, mas em vo, como se pregado ao solo por ps de chumbo. Durante algumas horas, acreditou que fosse perder a razo.
 As criadas, confusas por ver em tal estado a senhora que conheciam sob uma aparncia mais enrgica, entreviram por fim uma soluo para acalm-la.
 -         preciso ir ver a Sita. de Lenclos, senhora. A Sita. de Lenclos.
E colocaram-na quase  fora em sua cadeirinha.
 O conselho era bom. Somente Ninon, com seu equilbrio, sua experincia, sua compreenso e corao delicado, poderia ouvir Anglica sem tom-la por uma louca ou 
sem se escandalizar.
 Ela embalou a jovem em seus braos, chamou-a de "Meu doce corao" e, quando o pnico pareceu decrescer um pouco, ps-se a demonstrar-lhe como o incidente era de 
pouca importncia. Havia muitos exemplos para prov-lo. A cada dia viam-se maridos due-larem para vingar a honra ultrajada.
 -        Mas... a Bastilha!
 O nome abominvel inscrevia-se em letras vermelhas diante dos olhos de Anglica.
 - A Bastilha! Mas pode-se sair dali, minha querida.
 - Sim, para ser jogado na fogueira! Ninon acariciou-lhe a fronte.
 -        No sei a que voc faz aluso. Sem dvida existe em suas lembranas um acontecimento atroz que se liga a tudo isso e lhe faz perder seu sangue-frio. Mas, 
quando voc tiver recobrado um pouco do bom senso que lhe  caracterstico, considerar, como eu, que a fama da Bastilha se impressiona, no aterroriza.  o gabinete 
negro do rei. Poderamos contar ao menos um entre nossos belos senhores que ali no tenha estado durante algum tempo para pagar uma insolncia ou indisciplina s 
quais o seu carter inflamado arrasta com frequncia? O prprio Lauzun ali volta pela terceira vez, se no a quarta. E seu exemplo bem prova que se sai da Bastilha, 
e por vezes para desfrutar de maiores honrarias que antes de l ter entrado. Deixe, pois, ao rei o tempo e o direito de fazer sentir sob sua frula esse rebanho 
indisciplinado. Ele ser o primeiro a suspirar aliviado com a volta daquele maldoso traquina de Lauzun e de seu monteiro-mor...
  fora de palavras persuasivas, conseguiu fazer voltar a calma ao esprito de Anglica, que conveio ser seu pavor ridculo e infundado.
 Ninon recomendou-lhe que nada tentasse fazer no momento, a fim de deixar que os rumores se desfizessem.
 -        Um escndalo apaga outro! Acorte  frtil deles! Pacincia. Aposto que dentro de oito dias um outro nome substituir o seu nos lbios do mexeriqueiros.
 Diante desses conselhos Anglica tomou a resoluo de fazer um retiro no convento das carmelitas, onde sua jovem irm Maria Ins era novia. Seria a melhor soluo 
para estar ao abrigo dos comentrios, sem, contudo, deixar o lugar.
 Sob a touca de religiosa a jovem Maria Ins de Sanc, com seus olhos verdes, rosto alongado e sorriso matreiro, assemelhava-se a um desses anjos um pouco inquietantes 
por sua graa, que nos acolhem nos prticos das velhas catedrais. Anglica espantava-se por v-la persistir em sua deciso de tomar o vu quando mal atingia vinte 
e um anos. Uma vida de privaes e de preces parecia bem pouco adequada ao temperamento da irm mais nova, de quem se dissera, j aos doze anos, que tinha o diabo 
no corpo, e cuja breve carreira entre as damas da rainha fora um fogo ardente de curtas e libertinas aventuras. Anglica tinha a impresso de que, no captulo do 
amor, Maria Ins possua bem mais experincia do que ela. Aquela parecia ser, tambm, a opinio da jovem religiosa, que, aps ter escutado sua confisso com expresso 
indulgente, suspirou:
 -        Como voc  inexperiente! Por que tanto transtorno por uma histria to banal?
  - Banal, Maria Ins! Acabo de lhe dizer que tra meu marido.  um pecado, se me parece.
 - Nada  mais banal que o pecado. A virtude  que  rara. To rara nos nossos dias que se torna original.
 - O que no compreendo  como isso foi acontecer. Eu no queria, mas...        
 - Escute - disse Maria Ins no tom cortante, caracterstico da famlia -, essas coisas, ns as queremos ou no. E, se no as queremos, a nica coisa a fazer  no 
viver na corte.
 Ali estava, talvez, a explicao de sua ruptura total com o mundo.
 No silncio abafado do santo local, onde vinham morrer os rudos da cidade, Anglica pensou por um instante em fazer penitncia. A visita da Sra. de Montespan sustou 
seus impulsos em direo ao cu e trouxe-a de volta aos complexos problemas da terra.
 - No sei se o que fao  acertado - disse a bela Atenas -, mas, afinal, pareceu-me apropriado vir adverti-la. Voc pode proceder como quiser, e, sobretudo, sem 
me envolver. Solignac tomou a seu cargo essa histria de duelo. O que significa que as coisas vo mal para o lado de seu marido.
 - O Marqus de Solignac? Mas por que se envolve nisso?
 - Como sempre, pela defesa de Deus e de seus sagrados direitos. Eu a adverti de que  uma criatura rabugenta e contestadora. Ele meteu na cabea que o duelo  um 
dos pivs da heresia e do atesmo e, agarrando-se ao ocorrido entre Lauzun e seu marido, est pressionando o rei para que se mostre severo, a fim, disse ele, "de 
fazer disso um exemplo". Ao ouvi-lo, tem-se a impresso de que seria preciso acender uma fogueira.
 Vendo que Anglica empalidecera, a aturdida marquesa deu-lhe um golpe amigvel com o leque.
 -        Eu pilheriava. Mas acautele-se! Esse furioso devoto  bem capaz de obter ao menos um encarceramento prolongado, um desvalimento notrio, quem sabe? O rei 
ouve com ateno, pois se recorda de que Lauzun j o irritou muitas vezes. Ele no est satisfeito por ver que seus dois gentis-homens passaram por cima de seus 
desejos de acomodao. O duelo em si no o choca. No entanto trata-se de uma questo legal. Enfim, a opinio geral  de que as coisas no vo bem. No seu lugar, 
eu tentaria intervir enquanto h tempo e o esprito do rei oscila.
 Anglica ps de lado os livros de oraes e deixou imediatamente o piedoso local.
 Ninon de Lenclos, que ela tornou a visitar, obstinava-se em no levar a srio aquela histria de marido trado. Quem seria tolo a ponto de fazer daquilo um processo?
 A ideia do processo, Lus XIV sorrira. O que era bom sinal.
 No entanto, a cortes franziu o cenho, quando Anglica falou-lhe no papel que se atribua ao Sr. de Solignac. Recordou-se de que Richelieu fizera tombar cabeas 
nobres e loucas sob o machado do verdugo, a fim de "dar o exemplo" e obrigar os jovens senhores a renunciar ao detestvel costume dos duelos que os dizimavam.
 - Se o Sr. de Solignac meteu na cabea que a causa de Deus foi atingida pela espada de seu marido, podemos estar certas de que importunar o rei com a obstinao 
que outros empregariam em obter um favor.        
 - Voc acredita que o rei seja.capaz de se deixar influenciar?
 - No  uma questo de fraqueza da parte dele. Mesmo que o rei julgue o Sr. de Solignac insuportvel, os argumentos que este invoca tm o seu peso. Ele tem a lei 
religiosa e a lei propriamente dita a seu lado. Se o rei for intimadq a aplicar uma ou outra lei, no poder se esquivar. A coisa s poderia se arranjar se fosse 
cercada de discrio. E no entanto est sendo proclamada em altos brados.
 Anglica baixara a cabea e refletia. Agora que havia uma batalha a sustentar, cessara de se afligir.
 - E se eu fosse procurar o Sr. de Solignac?
 - Tente.        
 
 CAPTULO XIII
 
 Anglica joga-se aos ps do rei
 
 Anglica permaneceu imvel por alguns instantes, sob a chuva torrencial, diante das grades do Castelo de Saint-Germain. Acabavam de inform-la de que a corte se 
deslocara para Versalhes. Ela quase desistiu. Depois, recobrando o domnio, voltou  carruagem.
 -        Para Versalhes - gritou ao cocheiro, que, resmungando, manobrou a atrelagem.
 Atravs da gua que escorria pelas vidraas, a jovem via desfilar as rvores desfolhadas da floresta, envoltas em cinzenta neblina.
 Chuva, frio, lama! Era o inverno maante. As neves cintilantes que anunciavam o Natal eram esperadas com ansiedade.
 Anglica estava insensvel a seus ps gelados. De tempos em tempos comprimia os lbios, e em seus olhos acendia-se o que a Srta. de Parajonc chamava de seu olhar 
de batalha.
 Revivia a entrevista com o Marqus de Solignac. Ele aquiescera em receb-la. No em sua casa, muito menos na de Anglica, mas, com toda a espcie de mistrios, 
em um pequeno e glacial parlat-rio, no convento dos celestinos. Longe dos reflexos da corte, onde seu alto talhe e a peruca monumental conferiam-lhe uma certa nobreza 
de porte, o camarista-mor da rainha aparecera-lhe como uma personagem mirrada e inexplicavelmente desconfiada.
 Tudo parecia fornecer-lhe pretexto para indignar-se. E ele no escondeu que, para uma entrevista to solene, faltava modstia  aparncia de Anglica.
 -        A senhora acredita-se ainda sob os lustres da corte e me toma por um desses rapazes louros capazes de se inflamar como uma borboleta diante de seus atrativos? 
Ignoro a razo por que quis ver-me, mas, dada a triste situao na qual a colocou sua leviandade, tenha ao menos o pudor de encobrir esses funestos atrativos que 
carregam a responsabilidade de uma grande desgraa.
 Ela no cessaria de caminhar de surpresa em surpresa. O Sr. de Solignac, com os olhos semicerrados deixando apenas filtrar uma luz incisiva, perguntara-lhe, ento, 
.s jejuava s sextas-feiras, se dava esmolas e se assistira ao Tartufa, e quantas vezes.
 Tartufo era uma pea do Sr. Molire, que, segundo comentrios, fora mal acolhida pelas pessoas devotas. Ela no assistira  pea, por no estar na corte quando 
de sua apresentao. Subestimando a fora que representava a Companhia do Santo Sacramento, Anglica encolerizou-se. A discusso envenenou-se, tornando-se spera.
 - Pior para aquele, ou para aquela, que  atingido pelo escndalo! - concluiu o marqus, intransigente.
 Anglica deixou-o,-completamente derrotada. A clera substituiu a coragem. Ela resolveu procurar o rei.
 Passou a noite em um albergue nos arredores de Versalhes. Desde a primeira hora, ela aguardava no salo dos solicitantes, depois de ter feito sua reverncia  nave 
de ouro que, sobre a lareira de mrmore, representava a pessoa do rei. A hora das peties trazia sob os tetos trabalhados de Versalhes o habitual contingente de 
velhos militares sem pensjk), de vivas espoliadas e nobres arruinados, pobres destroos que, cansados de se verem abandonados pela sorte e pelos homens, dirigiam-se 
ao rei todo-poderoso e dos quais a Sra. Scarron, em p no longe dali, em sua capa surrada, representava um dos tipos mais perfeitos e quase o smbolo.
 Anglica no se dera a conhecer, mantendo o vu do capuz sobre o rosto.
 Quando o rei passou, ela permaneceu profundamente ajoelhada, limitando-se a entregar-lhe a petio que havia preparado, onde a Sra. du Plessis-Bellire suplicava 
humildemente a Sua Majestade que lhe concedesse uma entrevista.
 Notou com esperana que o rei, aps ter lanado um olhar  suplica, conservou-a na mo ao invs de- entreg-la, segundo o hbito, ao Sr. de Gesvres.
 Foi este, no entanto, que, aps a multido ter-se dispersado, aproximou-se da silhueta encoberta e pediu-lhe em voz baixa que o seguisse. Pouco depois, a porta 
do gabinete do rei abriu-se diante dela.
 Anglica no esperava ser to rapidamente atendida. Com o corao batendo desordenadamente, deu alguns passos e deixou-se cair de novo de joelhos, assim que a porta 
foi fechada.
 -        Levante-se, senhora - disse o rei -, e aproxime-se.
A voz no era atemorizante.
 A jovem obedeceu e, chegando diante da mesa, ousou afastar o vu.
  Estava bastante escuro; nuvens pesadas acabavam de invadir o cu e l fora ouvia-se o barulho da gua fazendo espirrar a areia dos canteiros. Apesar da semi-obscuridade, 
ela podia distinguir o esboo de um sorriso no rosto de Lus XTV. Ele disse com benevolncia:
 - Aborrece-me saber que uma de minhas damas acredita-se obrigada a tanto mistrio para me abordar. No podia aparecer e fazer-se anunciar em pblico? A senhora 
 mulher de um general.
 - Sire, minha confuso  tal que...
 - Est bem. Aceito sua confuso como desculpa. Teria sido mais acertado que no tivesse deixado Fontainebleau to precipitadamente na outra noite. Aquela fuga no 
esteve  altura da dignidade de que a senhora dera prova durante o penoso incidente.
 Anglica conteve um movimento de surpresa; esteve a ponto de lembrar ao soberano que fora por sua ordem, transmitida pela Sra. de Choisy, que ela abandonara o local.
 Mas ele voltava a atalhar.
 - Deixemos isso de lado. Qual  oobjetivo de sua visita?
 - Sire, a Bastilha...
 Interrompeu-se, o flego suspenso  simples meno daquele nome. A frase fora mal comeada. Ela perturbou-se e contorceu as mos.
 - Entendamo-nos bem - disse o rei com doura. - Por quem veio interceder? Pelo Sr. de Lauzun ou pelo Sr. du Plessis?
 - Sire - exclamou Anglica com ardor -, minha nica preocupao  com o destino de meu marido!
 -  pena que no tenha sido sempre assim, senhora! Se devo acreditar nos rumores, parece-me que, durante alguns instantes, talvez breves, mas efetivos, o destino 
do marqus e mesmo sua honra passaram para segundo plano, em meio a suas preocupaes.
 - E verdade, sire.
 - Est arrependida?
 - Estou, sire, do fundo de minha alma.
 Diante do olhar penetrante do rei, ocorreu-lhe o que ouvira dizer sobre a curiosidade do soberano para com a vida privada de seus sditos.
 Mas a indagao se fazia debaixo de absoluta discrio. O rei sabia, mas no falava. Mais ainda: ele fazia calar.
 Como sempre, manifestava sobretudo o interesse profundo que tinha pelas pessoas e o desejo de conhecerias em seu ntimo, para ali encontrar o meio mais seguro de 
gui-las e, quando necessrio, de sujeit-las.        '
 Anglica dirigia o olhar, daquele rosto srio voltado em sua dire-o e modelado em plida claridade, para as mos pousadas sobre a mesa negra, mos em repouso, 
imveis e poderosas, sem um tremor.
 -        Que tempo! - disse ele bruscamente, afastando a poltrona para levantar-se. - Seria necessrio pedir as velas em pleno meio-dia. No consigo distinguir 
seu rosto. Vamos, venha at a janela para que a examine.
 Ela o seguiu, dcil  e, quando chegaram ao enquadramento da janela, por onde escorria a chuva;
 - No posso verdadeiramente acreditar que o Sr. du Plessis seja to indiferente aos encantos de sua mulher quanto ao uso que ela faz deles. A senhora deve ter culpa 
nisso. Por que no habita a manso de seu marido?
 - O Sr. du Plessis jamais me convidou.
 - Estranhos modos!- Vamos, Bagatela, conte-me, ento, o que ocorreu em Fontainebleau.
 - Sei que meu comportamento no tem desculpa, mas meu marido acabava de ofender-me... gravemente, em pblico.
 Ela olhou maquinalmente para o pulso que trazia ainda as marcas reveladoras da ofensa. O rei tomou-lhe a mo, olhou-a e nada disse.
 -Eu me sentara afastada. Estava aflita. O Sr. de Lauzun passou...
Contou como Lauzun procedera para consol-la, primeiro verbalmente, e depois de modo mais concreto.
 - E muito difcil resistir s manobras do Sr. de Lauzun, sire. Sua habilidade  tanta que, quando pensamos em indignar-nos ou defender-nos, a situao j  tal 
que no seria possvel esclarec-la sem o risco de uma grande confuso!.-?. 
 - Ah! Ah! Ento  assim que procede!...
 -  O Sr. de Lauzun tem tanta experincia!  debochado, sem escrpulos e, no fundo, o melhor corao do mundo. Enfim, Vossa Majestade o conhece melhor do que eu.
 -        Hum! - fez o rei, trocista -, isso depende do sentido a que alude, senhora. Voc  encantadora quando enrubesce assim - retomou o rei. - H em sua pessoa 
contrastes muito agradveis. E tmida e audaciosa, alegre e grave... No outro dia visitei as estufas, j instaladas, e quis ver as flores que ali foram colocadas. 
Entre as tuberosas, notei uma flor que perturbava a ordem das cores. Os jardineiros queriam arranc-la, dizendo que se tratava de uma planta selvagem. Ela era, na 
verdade, to deslumbrante quanto as outras, e no entanto diferente.  nesta flor que me faz pensar quando a vejo entre minhas damas... E agora estou em dvida e 
inclinado a acreditar que a culpa pende para o lado do Sr. du Plessis...
 O monarca franziu o cenho e seu rosto, h pouco to afvel, tornou-se sombrio.
 - Sua reputao de brutalidade sempre me desagradou. No quero em minha corte gentis-hotnens que mostrem diante dos estrangeiros que os costumes franceses permanecem 
grosseiros, e mesmo brbaros. Preconizo a cortesia para com as damas como uma disciplina necessria ao bom renome de nosso pas.  verdade que seu marido lhe bate, 
e em pblico?
 - No! - disse Anglica, recalcitrante.
 - Bem! Creio que o belo Filipe obteria grande proveito de uma meditao um pouco prolongada entre os muros da Bastilha.
 - Sire, vim at aqui para pedir que o liberte. Tire-o da Bastilha, sire, eu lhe suplico!
 - Voc o ama, ento? No entanto, seu casamento parece antes marcado por amargas lembranas que por felizes reconciliaes. Vocs se conheciam pouco, disseram-me, 
e mal.
 - Pouco, mas h muito tempo. Era meu primo importante... quando ramos crianas...
 Reviu-o com seus cachos louros sobre o colarinho de rendas, no casaco azul-celeste que vestia quando aparecera pela primeira vez no Castelo de Sanc.
 Ela sorriu, o olhar voltado para a janela. Cessara de chover. Um raio de sol surgiu entre duas nuvens, fazendo reluzir os pisos de mrmore, onde chegava uma carruagem 
alaranjada, puxada por quatro cavalos negros.
 -        Aquela poca ele j se recusava a me beijar - suspirou ela - e agitava o leno de rendas com horror a sua volta, quando nos aproximvamos dele, minhas 
irmzinhas e eu.
 Ela se ps a rir.
 O rei a fixava. Sabia que era muito bela, mas, pela primeira vez, tinha a impresso de v-la to prxima. Observava a textura de sua pele, o frescor aveludado das 
faces e a polpa dos lbios. Sentiu seu perfume quando ela fez um movimento para afastar uma mecha loura das tmporas. Dela se desprendia um impresso calorosa de 
vida. Bruscamente, estendeu as mos na direo daquele objeto atraente e tomou-o. Achou-a maravilhosamente flexvel. Inclinou-se sobre aquela boca que sorria. Era 
saborosa e agradavelmente morna. Ele entre-abriu-a, encontrou os dentes, lisos e duros como pequenas prolas...
 Anglica ficou to estupefata que permaneceu sem reagir, com a cabea inclinada sob a presso do beijo, at que o calor daquela boca penetrou-a e f-la estremecer 
violentamente. Ento suas mos se crisparam sobre os ombros do rei.
 Ele parou imediatamente e disse, calmo e sorridente:
 -        Nada tema. Eu sp queria desempatar as responsabilidades e perceber se no havia,"de sua parte, algum problema de frieza, de reticncia, suscetvel le 
paralisar os impulsos legtimos de um esposo.
 Anglica no se deixou convencer totalmente pela desculpa. Tinha suficiente experincia para sentir que o rei acabava de ser, diante dela, presa de um irresistvel 
desejo.
 - Creio que Vossa Majestade emprega no estudo da questo uma conscincia que o assunto no merece - disse, com um sorriso.
 - Deveras?
 - Deveras.
 O rei afastou-se e retornou a sua mesa de trabalho. No entanto sorria e no parecia aborrecido.
 -        No importa! No lamento ter levado muito longe o processo. Agora, minha opinio est feita... O Sr. du Plessis  o ltimo dos imbecis. Mereceu cem vezes 
seu infortnio, e terei o cuidado de dizer-lhe isso pessoalmente. Espero que desta vez ele leve em conta minhas advertncias. Quero tambm envi-lo durante algum 
tempo para a Picardia, como lio. Mas no chore mais, Bagatela, breve seu primo lhe ser devolvido.
 Sob as janelas, no ptio de mrmore, o Sr. de Solignac, camarista-mor da rainha, descia da carruagem alaranjada.
 
 CAPITULO XIV
 
 Retorno de Florimond e de Cantor
 
 A Sra. du Plessis-Bellire voltou a casa com a cabea ardendo.
 Dessa vez encontrou o ptio da manso atravancado por uma mala-posta j desatrelada e da qual descarregava-se numerosa bagagem.
 Nos degraus da escadaria de entrada, dois garotinhos de faces rosadas aguardavam-na de mos dadas.
 Ela caiu das nuvens.
 - Florimond! Cantor!
 Esquecera-se por completo da carta expedida para o Poitou, pedindo sua vinda. Seria aquela chegada oportuna, ou no?
 A alegria de rev-los venceu-lhe as preocupaes. Ela abraou-os com vontade.
 Eles estavam to embaraados, taciturnos e apatetados como rsticos camponeses que estivessem na cidade pela primeira vez. Calavam sapatos ferrados e meias de 
l que lhes caam pelas pernas, e suas roupas fediam a estrume. Mas Anglica ficou estupefata com o talhe de Cantor, que, aos sete anos, era to alto como o irmo 
mais velho, tambm j bastante desenvolvido. No havia nenhum ponto em comum entre os dois irmos,  exceo da cabeleira abundante e encaracolada, negra em Florimond 
e castanho-clara em Cantor. Florimond era um filho do sul, de olhar ardente e vivo. Os olhos verdes de Cantor semelhavam a planta da anglica, que reluz na penumbra 
lquida dos pntanos do Poitou. Sua limpidez tinha algo de impenetrvel e nada deixava revelar.
 Brbara, a serva que os criara, degelou a atmosfera com sua presena. Estava radiante por se achar de volta a Paris. Ela via-se mal, dizia, passando o inverno no 
fundo de um castelo de provncia, entre camponeses obtusos e dois fedelhos malvados que o ar livre desencaminhara. Ningum podia mais com eles. E o senhor baro, 
seu av, fazia-lhes todas as vontades, assim como a velha dama. Era mais que tempo de coloc-los nas mos de um bom mestre que lhes ensinasse o alfabeto sem poupar 
as vergastadas.
 -        Eles iro para a corte - confio-lhe Anglica, em voz baixa
_- para servir de companhia a Monseigneur, o delfim.
 Brbara escancarou os olhos em xtase, juntou as mos e contemplou seus dois bandidos com respeito crescente.
 - Ser preciso fazer com que aprendam alguns modos.
 - E a trazer a espada e o penacho.
 - E a fazer a reverncia.
 - E a assoar-se, a no cuspir, a no p... por toda parte.
 - A falar e a responder s damas sem ser por meio de grunhidos de porco...
 A educao completa e rpida dos dois jovens futuros cortesos apresentava-se, evidentemente, como um problema. A Sra. de Choisy encarregou-se de resolv.-lo. Viram-n 
apresentar-se, j no dia seguinte, na Manso do Beautreillis, franqueada por um abadezinho magro como uma menina, em seu gibo negro, e abrindo uns olhos de cora 
sob os anis da peruca empoada. Ela apresentou-o como pertencendo ao ramo caula dos Lesdiguieres da regio de Chartres, o que lhe dava uma famlia de qualidade 
e de boa nomeada, mas de poucos bens. Fora encarregada por aquela gente, com quem era aparentada, de lanar o jovem Maurcio no mundo. Ela no podia fazer melhor, 
segundo entendia, do que recomend-lo  Sra. du Plessis-Bellire, para que esta lhe confiasse a educao de seus dois filhos.
 Ele havia feito bons estudos e servira como pajem junto ao arcebispo de Sens.
 A Sra. de Choisy acrescentou que seria necessrio juntar-se-lhe um preceptor, bem como um mestre de dana, um mestre de equitao e um mestre de espada. Tinha em 
mos trs rapazes que fanam o servio. Um de nome Racan, da casa de Bueil. Ele fizera estudos de direito, mas, sendo muito pobre para comprar um cargo de advogado, 
desejava arrumar trabalho. O mestre de dana era um neto do Marqus de Lesbourg, velho senhor de Flandres, que, como se sabe, sempre teve cavaleiros do Toso de 
Ouro em sua casa. O terceiro era de uma outra espcie, pois, excepcionalmente, pertencia a uma famlia muito rica, da qual teria podido ser o nico herdeiro, mas 
tomara-se da idia-de se fazer criado gladiador, de sorte que perdera sua herana. Sabia manejar todas as armas conhecidas, incluindo-se o estoque e o arcabuz, e 
ensinaria aos garotos a arte do carrossel, da corrida de argola e tudo o que se desejasse. Em suma, era varonil e folgazo. A Sra. de Choisy recomendava igualmente 
duas senhoritas de Gilandon, da regio de Chambord. Sua av pertencia  casa de Joyeuse, e sua irm havia desposado o Conde des Roches. No eram de forma alguma 
estpidas, porm no tinham beleza e contentar-se-iam com um pequeno soldo, pois seu pai as arruinara, por encontrar sua me grvida ao retornar da Espanha.
 - Mas que farei com essas senhoritas? - perguntou Anglica.
 - Voc as tomar em seu squito.  vista somente acompanhada de criadas de touca. Isso no assenta em uma grande dama com seu renome, e que deve ascender na corte.
 Ela explicou a Anglica que em uma casa bem caracterizada deveriam encontrar-se entre os serviais todas as ordens do Estado: o clero, na pessoa dos capeles e 
dos preceptores, a nobreza com o gentil-homem, o mestre de equitao, os pajens e os criados, a burguesia com o intendente, o mordomo, os criados de quarto, o chefe 
de cozinha e por fim o povo: uma multido de lacaios e servas, criados de copa e de cozinha, postilhes e palafreneiros.
 A Sra. du Plessis no possua uma comitiva digna de sua reputao e de sua linhagem. A Sra. de Choisy nada pedia alm de ajud-la. Apenas esperava que a jovem marquesa 
tivesse suficiente seriedade para no descuidar de que o pessoal de sua casa fizesse suas preces pela manh e  noite e recebesse os sacramentos regularmente.
 Anglica ainda no havia atinado com o papel desempenhado pela Sra. de Choisy em Fontainebleau. Teria ela, por excesso de zelo, interpretado erroneamente as ordens 
do rei? Embora parecesse, ento, indignada, eis que agora transbordava de obsequiosidade.
 Era uma dama que j passara dos quarenta anos, mas cujos olhos ainda tinham "fogo", e o sorriso, atr.ao. No entanto, havia algo nela que esfriava a amizade. A 
criadagem contava  solta que sua casa era uma espcie de priso. Quando uma jovem ali houvesse entrado, no mais poderia sair; ela obrigava-as a trabalhar e castigava-as 
rudemente. O suo no ousava abrir a porta sem sua permisso, e, por ter uma vez infringido suas ordens, fora aoitado. Fizera aplicar uma surra de correia em uma 
serva, que com isso quase morrera. Comentava-se que havia mandado aoitar o prprio marido, mas ficara de tal modo arrependida que, como penitncia, enfiara-se em 
um charco at o pescoo.
 Anglica acreditava que as pessoas aumentavam os boatos, e no dava crdito a tais disparates.. Mas a propenso da Sra. de Choisy a se ocupar com os problemas alheios 
no deixava de ser embaraosa. Com receio de v-la oferecerainda novos protegidos, Anglica, um pouco submergida pelos Racan, Lesdiguires e Gilandon, tomou-os a 
todos, incluindo as duas senhoritas.
 Ademais, urgia colocar Florimond e Cantor entre mos preparadas para endireit-los. Estavam na idade em que se cavalga em tudo o que puder ser montado. A falta 
dos mulos de seu av, contentavam-se com o corrimo de madeira preciosa da escadaria principal, e, passado o primeiro momento, a Manso do Beautreillis vibrava com 
o barulho das batalhas e das galopadas.
 Como essas lides domsticas ocupassem alguns dias, foi pelo rumor pblico que Anglica soube da libertao de Filipe. Ele no veio v-la. Ela hesitava sobre o<jue 
convinha fazer. A Sra. de Mon-tespan insistiu para que voltasse  corte com a cabea erguida.
 - O rei perdoou-a. Todos sabem que a recebeu em longa sesso. Ele admoestou o Sr. du Plessis em particular, mas  noite mesmo este teve a honra de "apresentar a 
camisa" no coucher do rei, em Saint-Germain. Todos compreenderam em quanta amizade Sua Majestade os tem, a um e outro.
 A Sra. de Choisy apoiou aquelas palavras. E, como o rei manifestara o desejo de ver a Sra. du Plessis apresentar seus filhos, ela devia obtemperar sem esperar que 
aquela boa disposio se evaporasse do pensamento real. A Sra. de Choisy visitara a Sra. de Montausier, mulher do fututo preceptor do delfim e atual governanta dos 
filhos de Frana. Combinou-se a data.
 E, com isso, Florimond e Cantor foram apresentados  corte, quando de uma passagem sua por Versalhes. Ambos estavam vestidos de cetim azul-pavo, com o devido nmero 
de rosetas e fitas, meias brancas e frisos laterais em ouro, taces altos, espada de prata lavrada  ilharga. Sobre a cabeleira frisada traziam chapus redondos 
de feltro negro com uma pluma vermelha, no em penacho, mas tombando sobre a aba, segundo a nova moda que comeava a se impor. Como estivesse frio e houvesse nevado, 
envergavam um manto de veludo negro bordado com sutache de ouro. O Abade de Lesdiguires dizia que Florimond sabia "carregar o manto" naturalmente, o que  uma arte 
que se adquire por nascimento. Algumas pessoas do vulgo no o conseguem jamais.
 Cantor era mais desajeitado. O pequeno squito daqueles senhores confessava estar mais ou menos tranquilo quanto ao comportamento de Florimond, que assimilara rapidamente 
curvaturas e rapaps. Mas no se sabia o que esperar de Cantor, que podia sair-se muito bem quando o desejava. S restava pedir aos cus que o inspirassem no caminho 
do bom senso.
 O aposento reservado s crianas reais tinha uma marca de intimidade pouco habitual  residncia versalhesa. O ambiente era clido. A um canto ficava uma grande 
gaiola de pssaros. As duas embala-deiras da pequena Madame traziam as coifas de suas regies de origem, num delicado edifcio de custosas rendas. Quando se lhes 
juntava a coifa da Sra. Hamelin, a velha ama-de-leite do rei, que ali ia com frequncia fiar em sua roca, era como se um bater de asas brancas trouxesse alegria 
ao local. A Sra. de Montausier, uma boa mulher, no havia criado seu real pupilo com muito vigor. Breve viria o tempo em que ele se inclinaria sob a frula dos preceptores 
e se dobraria s regras da etiqueta que entravariam cada um de seus passos de criana.
 Era um gordo garotinho, a boca sempre entreaberta, pois seu nariz "se entupia com facilidade", dizia a governanta. De inteligncia mediana, parecia, j aos seis 
anos e meio, pouco  vontade em seu difcil papel de filho de Lus XIV, atitude que deveria guardar por toda a vida. Crescera como filho nico, pois duas princesinhas 
tinham morrido logo ao nascer, uma delas trigueira como uma moura, dizia-se, "pois a rainha havia bebido muito chocolate enquanto a esperava".
 Anglica pensou consigo mesma que seus filhos, mesmo tendo sofrido um brusco emagrecimento, tinham mais graa, mais desenvoltura, enfim, mais boa presena que o 
herdeiro da coroa. Olhou-os com admirao quando saudaram em perfeita harmonia, o p arqueado, o chapu baixo, e se adiantaram, um aps o outro, para beijar a mo 
que o delfim estendia-lhes com apreenso enquanto espreitava o olhar de encorajamento da Sra. de Montausier. E encheu-se de orgulho enquanto Florimond disse com 
voz natural e gentil, embora respeitosa:
 - Monseigneur, o senhor carrega uma linda concha.
 Ocorria que aquela concha era uma decorao pessoal do delfim, uma jia sem igual que encontrara naquela manh mesmo na areia do canteiro, e da qual no mais quisera 
desfazer-se, exigindo que fosse presa a seu casaco, entre a Gruz de So Lus e a de grande almirante da frota, capricho a que as damas de honra acabaram por ceder.
 A observao de Florimond atraiu o interesse do delfim para seu tesouro, que quis mostrar em pormenores aos novos amigos. Sua timidez desapareceu e ele levou-os 
a admirar sua coleo de bonecos de cermica, seu pequeno canhe e seu mais belo tambor revestido com tela de prata.
 Tanta intuio da parte de Elorimond no emprego da lisonja e no comrcio com os grandes encheu de alegria seus educadores. O abadezinho e o preceptor Racan trocavam 
olhares cmplices, e Anglica, muito satisfeita, prometeu a si mesma ofrecer-lhes  noite uma gratificao de trinta escudos.
 Entrementes, e segundo o protocolo previsto, a rainha, uma dezena de suas damas e alguns gentis-homens apresentaram-se.
 Aps a troca de reverncias, Cantor foi convidado a cantar diante da soberana. Houverento, um ligeiro embarao no perfeito desenrolar da apresentao, pois o garoto, 
colocando um joelho ena terra, preludiou s primeiras notas de sua cano preferida:
 - "O rei quis mirar suas damas
 E fez soar o tambor".
 O abade precipitou-se e disse que o alade no estava bem afinado. Enquanto ajustava as cravelhas do instrumento, falou em voz baixa a seu pupilo, que, com a maior 
graa do mundo, iniciou uma nova cano. O incidente mal foi notado, sobretudo pela rainha, que, espanhola, no tinha nenhuma ideia do folclore francs. Anglica 
lembrou-se vagamente dos amores ilegtimos do Rei Henrique IV. Ficou grata ao abade por ter desfeito a tempo o equvoco. Decididamente, agradeceria mais uma vez 
 Sra. de Choisy pela boa escolha de seus recrutas.
 A voz de Cantor s poderia comparar-se  de um anjo. Era de uma pureza indizvel, e no entanto firme, bem empostada, emitindo notas longas que no se enfraqueciam. 
Era clara e cristalina, mas sem a insipidez um pouco piegas das vozes infantis.
 As damas, que se haviam preparado-para escutar com polidez a criana prodgio, logo se transportaram ao auge do arrebatamento. Florimond, que primeiro retivera 
as atenes, passava agora para segundo plano. Fixavam o rosto agradvel do pequeno cantor, menos belo que o irmo, mas com olhos de rara nuana, que se enchiam 
de luz quando cantava. O Sr. de Vivonne era o mais entusiasta de todos, e o desejo de adular Anglica nada tinha a ver com seus cumprimentos ditirmbicos. Como muitos 
dos alegres convivas da corte, ele possua alguns talentos secretos, praticados como amador, por divertimento. Vivonne, irmo da Sra. de Montespan, ao mesmo tempo 
que era capito das galeras e tenente-general dos mares, versejava, compunha, tocava muitos instrumentos. Repetidas vezes foi-lhe confiada a coordenao dos bales 
da corte. Ele saa-se muito bem. Pediu a Cantor que interpretasse algumas de suas canonetas, escolhendo entre as menos lestas de seu repertrio. Havia at uma arieta 
para missa de Natal, plena de graa gentil, que transportou toda a assembleia. A rainha quis que se procurasse o Sr. Lulli imediatamente.
 O superintendente da msica do rei ensaiava os coristas na capela. Apresentou-se de m vontade, mas seu rosto rabugento e afogueado distendeu-se ao escutar a criana. 
Uma voz de tal fineza era rara, disse. No quis acreditar que Cantor mal completava oito anos; ele tinha uma "caixa" de onze anos. Alis, o msico logo se contristou. 
A carreira do pequeno fenmeno estava destinada a ser breve, sua voz sendo daquelas que a mudana de idade destri quase com certeza. A menos que se fizesse uma 
voz " castre", privando-o de sua virilidade pelos dez ou onze anos. Vozes como aquela eram muito procuradas. Os jovens efebos, de rosto imberbe e timbre serfico, 
permaneciam o mais belo ornamento das capelas principescas da Europa. Eram recrutados principalmente entre filhos de msicos pobres ou de bailarinos, desejosos de 
assegurar uma carreira a seus filhos, em lugar de uma vida normal, mas votada  mediocridade.
 Anglica protestou com veemncia. Castrar seu vigoroso pequeno Cantor! Que horror! Era um gentil-homem, louvado seja Deus, e seu destino no sofreria com a perda 
de seus dons. Aprenderia a manejar a espada a servio do rei e teria assegurada numerosa descendncia.
 As opinies do Sr. Lulli foram matria de alguns gracejos nos moldes da corte, onde damas e senhores eram hbeis em manejar a linguagem picante. Cantor passou de 
mo em mo e foi mimado, cumprimentado, incentivado. Ele aceitou as homenagens com seu costumeiro ar de gato pacfico, mas que tem opinio.
 Conveio-se que, quando Monseigneur, o delfim, fosse entregue s mos dos homens, Florimond e Cantor tomariam lugar entre os senhores de seu squito, a fim de acompanh-lo 
ao manejo, ao jogo da pla e muito em breve  caa.
 
 CAPITULO XV
 
 O velho boticrio Savary
 
 Era a estao em qu Paris desperta pouco a pouco, ao som dos violinos e com o estrpito dos risos.
 Malgrado a paz doi tratados, o hbito da guerra continuava a manter a maior parte- dos gentis-homens ausente.
 Anglica dava-se conta, com mau humor, das dificuldades que experimentava ao se movimentar. A maternidade tornava-a mais pesada. Mais uma vez Filipe era a causa 
de um embarao que breve a obrigaria a manter-se afastada do mundo. De nada adiantava tentar espartilhar-se, ou mesmo a moda mostrar-se generosa para com as formas 
exuberantes. J no podia envergar seus mais belos trajes. Estava bem de acordo com sua falta de sorte que aquela criana fosse a maior de quantas j carregara.
 A parte as festividades reais, ela continuava a frequentar Saint-Germain, onde todos podiam apresentar-se sem convite. O andamento dos negcios do reino enchia 
os corredores com um mundo heterclito, onde os auxiliares dos ministros, a pluma de ganso a orelha, passavam ao lado de embaixadores, e onde doutos almo-tacis 
discutiam negcios com circunspeco entre as grandes damas que agitavam seus leques.
 Ela ali encontrou, certo dia, o velho farmacutico Savary, que se apresentara em sua casa como solicitante, e a quem, em seu espirito, chamava de "o mago". Parecia 
to  vontade na brilhante assembleia como um peixe em seu aqurio.
 Ele disse-lhe numa mmica confidencial:
 - Senhora, no esquea... a mmia!
 - Mas quando, afinal, chegar seu embaixador com sua mmia?
 - Psiu! Eu a avisarei, e a guiarei ento, passo a passo. Enquanto isso, silncio, discrio!...
 Uma jovem que passava parou, soltando um gritinho, e agarrou o velho Savary pelo peitilho, olhando-o com paixo. Anglica reconheceu a Srta. de Brienne.
 - Senhor - disse, em voz baixa -, eu o conheo. Sei que  adivinho, e at um pouco feiticeiro. Quer partilhar um negcio?
 - A senhora est enganada. Tenho minha modesta reputao,  verdade, e fala-se bem de mim nesta casa, mas no sou seno um modesto sbio.
 - Eu sei - insistiu ela, com os belos olhos brilhando como carbnculos -, eu sei que o senhor pode muito. Tem filtros que trouxe do Oriente. Escute,  absolutamente 
necessrio que me obtenha do rei um tamborete. Faa seu preo.
 - Essas coisas no se obtm com dinheiro.
 - Ento lhe pertencerei de corpo e alma.
 - Mas voc est louca, minha pobre criana!
 - Pense bem, Sr. Savary. Isso no lhe deve ser to difcil. E no vejo mais nenhum modo de constranger o esprito do rei a oferecer-me um tamborete. Eu o quero, 
eu o quero, definitivamente. Estou pronta a tudo para obt-lo.
 - Est bem! Est bem! Eu pensarei - disse o velho boticrio, conciliador.
 Mas recusou a bolsa que a Srta. de Brienne queria a toda fora passar-lhe.
 -        Em que me teria envolvido, se aceitasse - disse a Anglica, quando a Srta. de Brienne os deixou. - Veja como so essas tolinhas! Um tamborete! Um tamborete 
diante do rei! Eis o que tm na cabea assim que colocam o p na corte.
 Meneando a cabea com indulgncia, tirou das abas da casaca um grande leno de quadrados com o qual comeou a limpar os vidros de seu lornho.
 - Eh! Eh! Sr. Savary, no estou longe de atribuir-lhe um certo poder de feitiaria. As mais difceis beldades da corte vm jogar-se a seus ps...
 - No me tome por um stiro. Nada tenho  ver com isso. As jovens e sobretudo as adolescentes tm, s vezes, certas ousadias que desconcertam um velho navegante 
como eu. Essa descerebra-da est mais roda pela ambio que uma odalisca de harm.
 - Conheceu harns?
 - Naturalmente, posto que minhas drogas encontravam entre aquelas damas sua clientela preferida. Oh! No  comum ver um homem, mesmo grisalho, penetraram tais-recintos. 
Eu era conduzido at ali de olhos vendados e cercado por trs eunucos, de cimitarra em punho. Uma vez, por trs do vu que cobria o rosto de uma favorita do sulto 
otomano Ibrahim, uma voz francesa interpelou-me. Tratava-se de uma linda jovem de La Rochelle que fora raptada com a idade de dezesseis anos pelos brbaros. Mas 
no me faa embarcar em lembranas, senhora. No momento s devemos ocupar-nos da mmia. Posso lembrar-lhe sua promessa de ajudar-me?
 -        Est combinado. Farei o melhor possvel e no reclamarei um tamborete. Mas creio que est iludido quanto a meu poder.
 Mestre Savary exaiiinou-a com um olho escrutador.
 - No sou de modo algum adivinho, como insinuou a pequena descerebrada, mas mesmo assim posso predizer que a senhora ter um tamborete, e no entanto mal a vejo 
permanecendo por muito tempo sentada em algum lugar e principalmente em Versalhes, e mesmo diante do rei...
 - Se um dia obtiver um tamborete, quando nem posso ainda obter um cargo, saiba que no serei to tola a ponto de deix-lo por deciso prpria.
 - Senhora, no se irrite. No Oriente aprenderia que a clera dispersa as foras vitais. Ora, tem a necessidade de conservar todas as suas foras.
 - Para espreitar a chegada de sua mmia? - ironizou ela.
 - Para isso, e para outra coisa tambm - respondeu o velho homem com serenidade.
 Ela ia responder-lhe com algum sarcasmo, quando percebeu que ele se eclipsara sem rudo.
 "Ter sido, provavelmente, nos pases estranhos onde vendia suas drogas que aprendeu a caminhar e a esvanecer-se como um puro esprito", pensou ela, "mas ele  
divertido..."
  Um pouco mais tarde reencontrou a Sita. de Brienne a uma mesa de jogo.
 -        Que conseguiu obter do pequeno boticrio - perguntou-lhe a jovem com avidez -, prometeu ajud-la? Comenta-se que  mais forte que a adivinha Monvoisin 
em influenciar a distncia.
 Anglica limitou-se a sorrir e embaralhou as cartas. A Srta. de Brienne era uma linda morena, picante, um pouco exaltada e principalmente muito mal-educada. Vivia 
na corte desde a infncia, o que significava que seu crebro de pssaro estava impregnado de uma moral particular. O jogo, a bebida e o amor eram para ela passatempos 
to inofensivos quanto a tapearia e a renda para as jovens burguesas.
 Ela perdeu naquele dia dez mil libras jogando com Anglica. Confessou que no poderia obt-las de imediato para acertar sua dvida.
 -        Bem lhe havia dito que aquele diablico droguista lhe daria sorte - disse ela com um beicinho de criana, a ponto de chorar.
- Que poderia prometer-lhe para que se ocupe tambm de mim? So quase trinta mil libras que perco em uma semana. Meu irmo vai passar-me nova descompostura e dizer 
que o arruino...
 Depois, vendo que Anglica no parecia em nada decidida a oferecer-lhe crdito por muito tempo, acrescentou:
 -        No quer comprar meu cargo de cnsul de Cndia? Estava
em conferncia para vend-lo. Vale quarenta mil libras.
 A meno da palavra "cargo", Anglica ficara atenta.
 - Cnsul? - repetiu.
 - Sim.
 - De Cndia?
 -  uma cidade, creio - informou a Srta. de Brienne.
 - Mas onde?
 - Nada sei a esse respeito.
 - Mas uma mulher no pode ser cnsul!...
 - Decerto que sim. H trs anos sou sua proprietria. E um dos cargos que no pedem obrigatoriamente residncia efetiva, e por outro lado do uma certa posio 
na corte, onde qualquer cnsul, mesmo de saias, tem a permisso e mesmo a obrigao de residir. Ao compr-lo, esperava tambm que os benefcios fossem interessantes. 
Pobre de mim! Nada disso. Os dois administradores que l coloquei so uns piratas e traficam por conta prpria, enquanto me obrigam a pagar suas despesas de representao. 
No deveria diz-lo a voc j que lhe proponho a sua compra, mas sou to tola! E quem sabe se na se sair melhor que eu. Quarenta mil libras no  caro. E isso 
deixar-me- mais  vontade, permitindo-me saldar minhas dvidas.
 -        Eu refletirei - disse vagamente Anglica.
 Na verdade estava um pouco confusa. Cnsul de Frana! Ela considerara vrios ttulos, mas no. esse. Partiu  procura de Savary e tevea boa fortuna de reencontr-lo.
 - O senhor, que tanto viajou,pode dizer-me onde se localiza Cndia?        .
 - Cndia? Ora veja, sim, eu sei. Embora jamais tenha l estado. E o lamento. E uma ilha do Mediterrneo bastante interessante. Ali se encontra, e em nenhum outro 
lugar, uma substncia chamada ladanum, que permanece at hoje a nica matria conhecida, juntamente com o almscar, que d fixidez e permanncia aos melhores perfumes. 
Tenho algumas amostras em pequenas ampolas muito delgadas; Apresenta-se como uma substncia goma-resinosa, de origem provavelmente vegetal, mas ignoro de onde provm 
exatamente;e como  recolhida...
 - O que me interessaria, Sr. Savary, seria saber a quem pertence Cndia e se os franceses ali tm grande poder.
 Mestre Savary mascava pensativamente a ponta da barba.
 - Cndia! Cndia! E preciso que v at l; no se pode relegar o mistrio do ladanum ao insondvel...
 - Cndia - disse uma voz atrs deles -, ah! a ilha de Creta, o labirinto, o Minotauro, todas as cruis recordaes da Grcia. Interessa-lhe a histria dos antigos, 
senhora?
 Anglica reconheceu o poeta La Fontaine, que, aps t-la saudado, dirigiu muitas reverncias a Savary. Depois tomou com familiaridade o brao da jovem e conduziu-a, 
enquanto explicava:
 - Eu sempre sado as pessoas das quais tenho vaga lembrana, porm, o mais das vezes, no consigo lembrar-me dos nomes. Onde terei encontrado esse nobre ancio? 
Quem poder dizer-mo?
 - Eu, pois foi em minha manso que o encontrou. Agora informe-me a respeito de Cndia.
 - Fora com isso! Cndia  um nome muito novo. Ilha de Creta e o que se deve dizer. O mel e o leite' deslizam ao p do monte Ida, onde Teseu matou o Minotauro. Quer 
que lhe conte a lenda de Ariadne?
 Anglica recusou com polidez. Gostava de se instruir, mas a noite caa e ela devia retornar a Paris.
 - Ao menos aceite a homenagem que me preparava para lhe fazer - disse o poeta, tirando um livrinho de um saco de pelcia gasto. - Este foi para mim um grande dia, 
pois ofereci ao rei um exemplar da primeira edio de meus Contos. Desejaria ofertar-lhe um, tambm, pois foi graas  sua generosidade que a impresso tornou-se 
possvel.
 Anglica agradeceu. J havia ouvido falar daqueles contos. Ni-non de Lenclos chamava-os de "o brevirio de uma mulher sensvel" e fizera correr cpias deles. O 
prprio poeta lia por toda parte aquelas galanterias reforadas com o sangue-frio que teria colocado na leitura de um sermo... A Sra. de Svign dizia que ele imitava, 
por vezes, Boccaccio, mas que o ultrapassava pela ingenuidade de poder falar-lhe pertinentemente de sua obra. Ele tratou-a de "adorvel mecenas", e ela teve grande 
dificuldade em desembaraar-se dele.
 
 CAPITULO XVI
 
 Anglica, cnsul de Frana em Cndia
 
 A habitao do Sr. Colbert e seu gabinete de trabalho guardavam a aparncia de um confronto burgus sem rebuscamento. O homem frio que a Sra. de Svign chamava 
com um calafriozinho de "O Norte" norpossua a paixo do luxo. Nele a economia era uma qualidade marcadamente hereditria. A vaidade, ele a colocava em outro lugar: 
no trato impecvel e minucioso de suas contas e no estabelecimento de sua rvore genealgica.
 Nesse assunto ele no se mostrava mesquinho e pagava numerosos auxiliares especialmente encarregados de pesquisar em obscuros documentos uma ascendncia que o ligasse 
ao menos um pouco  nobreza. Pequena fraqueza que no o impedia, porm, de discernir com lucidez os defeitos dos nobres e a influncia que iria adquirir a burguesia, 
nico corpo a um tempo ativo e inteligente do reino.
 A Sra. du Plessis desculpou-se por incomod-lo. Estava prestes a adquirir, dizia, o cargo de cnsul de Cndia, e, sabendo que o ministro tinha poder de deciso 
na distribuio desses postos, solicitava sua opinio. Colbert, a princpio taciturno, descontraiu-se. No era comum que, antes de se fazer adjudicar uma colocao, 
as belas des-cerebradas se lembrassem de pensar nas consequncias. Na maior parte do tempo, cabia a ele, Colbert, o papel ingrato de colocar um pouco de ordem nos 
malabarismos das peties, sendo obrigado a suspender os pedidos mais disparatados ou incongruentes, ou que dificultassem o bom andamento dos negcios, ou muito 
pesados para as finanas, atribuio que lhe ocasionava inmeros aborrecimentos entre as reclamantes decepcionadas.
 Anglica constatou que a nomeao de uma mulher como cnsul de Frana no o chocava. Era algo comum. Entre a opinio profissional de mestre Savary e a mitolgica 
do bom La Fontaine, ele emitiu uma terceira.
 A seu ver, Cndia, capital de Creta,, representava o melhor mercado de escravos do Mediterrneo. Era mesmo o nico lugar onde se podiam conseguir russos, raa de 
homens slidos, sbrios e que eram obtidos por cem e cento e cinquenta libras cada um. Eram comprados aos turcos, que os capturavam em suas contnuas batalhas na 
Armnia, Ucrnia, Hungria ou Polnia.
 - Essa praa no  negligencivel, no momento em que voltamos nossos esforos para a marinha e quando se trata de aumentar o nmero de galeras reais no Mediterrneo. 
Os mouros, tunisinos ou argelinos que capturamos nos combates com os piratas fazem mal o seu trabalho. So utilizados principalmente para completar as equipagens, 
quando h escassez de braos, ou trocados por cristos cativos na Barbaria. Quanto aos condenados de direito comum, os forados, esses no tm nenhuma resistncia, 
no aguentam o mar e morrem como moscas. At hoje, os melhores remadores foram, pois, recrutados entre os turcos, e tambm entre esses russos comerciados em Cndia. 
So, alm de tudo, excelentes marinheiros. Impressionou-me que a base das equipagens nos veleiros ingleses seja constituda por esses mesmos escravos russos. Os 
ingleses tm-nos em apreo e mostram-se bons pagadores para com aqueles que possam obter-lhos. Por todos esses motivos, Cndia parece-me um ponto no falto de interesse.
 - Qual  ali a situao dos franceses? - interrogou Anglica, que ainda no se via muito bem como mercadora de escravos.
 - Nossos representantes so respeitados, creio eu. A ilha de Creta  uma colnia veneziana. J h alguns anos os turcos tm em mente apoderar-se dela, e a ilha 
teve que repelir muitos assaltos.
 - Mas ento  perigoso investir dinheiro nesse local.
 - Depende. O comrcio de uma nao por vezes pode beneficiar-se com as guerras, se no tomar partido nelas. A Frana tem boas alianas com Veneza, tanto quanto 
com o Corno de Ouro.
 - A Srta. de Brienne no me ocultou que esse cargo quase nada lhe rendia. Ela acusa os que obtiveram o posto de administradores, que, segundo disse, trabalham por 
conta prpria.
 -  bem provvel. Fornea-me os nomes e poderei proceder a uma inquirio.
 - Ento... o senhor sustentaria minha candidatura a esse cargo, senhor ministro?
 Colbert permaneceu em silncio um momento, o cenho franzido. Por fim, disse:
 - Sim. De todos os modos ele ganhar por estar em suas mos, Sra. Morens, mais do que nas:da Sita. de Brienne ou mesmo de qualquer gentil-homem descerebrado. Por 
outro lado, isso se ajusta perfeitamente aos projetos que tenho para a senhora.
 - Para mim?
 - Sim. Acredita que aceitemos ver aptides como as suas no serem utilizadas para o bem do Estado? Um dos grandes dons de Sua Majestade  o de fazer flecha de toda 
madeira. No que lhe diz respeito, ele tem dificuldade em se persuadir de que uma linda mulher possa juntar a seus atrativos outras qualidades, como inteligncia 
prtica. Con.venci-o de que a senhora poderia prestar-lhe os maiores servios^ Ademais^ sua fortuna  grande e slida. Isso lhe confere poder.
 Anglica contristou-se.
 - Tenho dinheiro,  sabido - disse -, mas no certamente com que salvar o reino.
 - Quem lhe fala de dinheiro? E de trabalho que se trata. O trabalho  que formar o pas e reconstituir a riqueza desaparecida. Veja: eu era um simples mercador 
de tecidos; eis-me ministro, mas isso no me envaidece. Embora tenha orgulho em ser diretor das manufaturas reais. Ns podemos e devemos fazer melhor na Frana que 
no estrangeiro. Mas estamos muito divididos. No sei o que me leva a falar sobre isso. A senhora tem um certo dom de escutar e de se interessar pelos pensamentos 
de outrem. Dever utilizar tal dom a nosso servio. Lisonjear os velhos tolos com sua ateno. Para os jovens, a seduo de sua pessoa ser suficiente. Quanto s 
mulheres, sua elegncia persuadi-las- facilmente a seguir suas opinies. Em suma, a senhora dispe de armas no negligenciveis.
 -        E com que objetivo deveria mobilizar todo esse arsenal?
O ministro permitiu-se ainda alguns instantes de reflexo.
 -        Antes de tudo, no deve deixar a corte. Estar ligada a ela; a senhora a seguir em seus deslocamentos e far por conhecer-lhe o maior nmero de pessoas 
possvel, e com o mximo de preciso.
 A jovem teve dificuldade em dissimular a intensa satisfao que essas prescries lhe davam.
 - Esse... trabalho no me parece to temvel.
 - Ento ns a utilizaremos em diferentes misses que tero relao sobretudo com o comrcio martimo, com o comrcio pura e simplesmente e com seus derivados, entre 
os quais, a moda.
 - A moda?
 - Acrescentei a moda para convencer Sua Majestade a confiar  senhora, uma mulher, atribuies mais importantes. Explico-me. Por exemplo, quero descobrir o segredo 
do "ponto veneza", aquela renda que faz furor, at agora inimitada. Tentei interditar sua venda, mas esses senhores e damas passam uns aos outros colarinhos e punhos 
sob a capa, e com isso mais de trs milhes de libras por ano escapam para a Itlia. Que acontea, aberta ou fraudulentamente,  deplorvel para o comrcio francs, 
quando no haveria nenhuma razo para no surpreender o segredo dessa renda que enlouquece nossos elegantes, a fim de estabelecer aqui uma manufatura.
 - Ser-me-ia preciso ir a Veneza.
 - No creio. Em Veneza suspeitariam de sua presena, enquanto tenho boas razes para acreditar que  na prpria corte que residem os fraudadores. Por meio deles, 
poderamos remontar  mercadoria, saber ao menos onde se abastecem. Suspeito de dois delegados no comrcio marselhs. Esse trfico deve trazer-lhes fortunas imensas...
 Anglica estava pensativa.
 -        Esse gnero de atividade que me sugere assemelha-se em muito  espionagem...
 O Sr. Colbert concordou. A palavra no o chocava de modo algum. Espies?... Todo o mundo os empregava, e por toda parte.
 - O comrcio caminhar junto. Assim, novas aes da Companhia das ndias Orientais sero emitidas em breve. Seu local de atividade ser a corte. A senhora caber 
lanar a moda das ndias, persuadir os avaros, que sei eu? H dinheiro na corte.  preciso que no se transforme em fumaa, em dissipao... Enfim, pode perceber 
que ter muitas oportunidades de exercer seus talentos. O embaraoso para ns era dar a suas atividades um carter oficial. Se fosse preciso, criar um cargo sob 
que ttulo? Seu consulado de Creta servir de fachada e de libi.
 - Os lucros so magros.
 - No se faa de sonsa!  coisa entendida que por seu trabalho oficioso receber vultosas prebendas. Sero fixadas para cada negcio. Poder ter participao nos 
que forem bem-sucedidos. Por hbito, ela regateou.
 - Quarenta mil libras  muito.
 - Uma pitada de sal para a senhora. Lembre que por um cargo de procurador se pagam cento e setenta e cinco mil libras, e pelo de seu predecessor, o ministro das 
Finanas, um milho e quatrocentas mil libras. O rei tomou-o em sua conta, pois me queria neste lugar. No entanto, sinto-me em dvida para com ele. Eis por que no 
estarei tranquilo enquanto no lhe fizer ganhar muitas vezes essa soma, pela prosperidade de seu reino.
 "Eis a corte", dizia consigo Anglica. "Ela , nesta noite em que danamos no Palais-Royal, tal como o povo ingnuo a imagina: banhada em luz e palco de uma eterna 
festa."
 Atrs da mscara tle veludo que lhe dissimulava o rosto, ela seguia com os olhos osj?ares que danavam.
 O rei acabava de abrir o baile com Madame. Ele representava Jpiter no bale O Olimpo em Festa. Atraa os olhares s para si. Trazer a mscara no o conservava incgnito. 
A sua era em ouro. Um capacete de ouro com folhagem enriquecida por cabuches e rosas de diamantes erguia sobre sua cabea uma crista de plumas cor de fogo.        -
 Sua roupa era toda em brocado de ouro e resplandecia com mil reflexos de diamantes engastados nos bordados. Para exaltar no dia seguinte aquele traje, o prprio 
poeta Loret s conseguiria dizer:
 - "A vestimenta daquele prncipe
 Valia ao menos uma provncia..."
 "Tanta riqueza", pensava Anglica. "Eis a corte."
 Monsieur, que recebia seu irmo, devia apresentar uma aparncia mais modesta. Reconhecia-se, no entanto, sua silhueta rechonchuda e saltitante, acolchoada de cetim 
e de arminho. Sua mscara era de rendas.
 O prncipe traa-se por suas turquesas. O duque, por suas prolas.
 Um "rio" de barbas brancas, coberto de escamas de prata, de guirlandas de canios e de plantas marinhas em cetim azul e verde, roou em Anglica.
 Um olo, em roupa de plumas brancas e cor da aurora, com um moinho de vento na cabea, arrastou-a a uma "corrente". Ela acompanhou a dana rpida, em que a danarina 
passava de um cavalheiro para outro. Suas mos pousavam em mos cobertas de- anis faiscantes, que ofuscavam a sua passagem. Mscaras de ouro, mscaras de prata, 
mscaras de veludo, mscaras de rendas, mscaras de cetim. Risos sonoros, perfumes. O odor dos vinhos e o odor das rosas, O assoalho estava juncado de ptalas. Rosas 
em dezembro...
 Eis a corte. Loucura. Profuso. Mas, se nos aproximamos, que surpresa! Vemos um rei jovem e reservado, puxando os cordes de suas marionetes. E, se nos aproximamos 
ainda mais, as prprias marionetes deixam cair a mscara. Esto vivas, devoradas por paixes ardentes, por ambies tenazes, por dedicaes estranhas...
 A conversa recente com o Sr. Colbert descortinara para Anglica horizontes insuspeitos. Ao pensar no papel que ele queria atribuir-lhe, ela se perguntava se todas 
aquelas mscaras no escondiam, elas tambm, suas misses clandestinas. "No est nos projetos do rei deixar sem utilidade as aptides..."
 Outrora, naquele mesmo Palais-Royal, que se chamava ento Palais-Cardinal, Richelieu passeara sua samarra violeta e seus projetos de dominao. Ningum ali penetrara 
sem estar a seu servio. Sua rede de espionagem era como uma imensa teia de aranha. Ele empregava muitas mulheres. "Essas criaturas", dizia, "tm o dom natural da 
comdia e da dissimulao..." Estaria o jovem rei retomando por sua conta os mesmos princpios?
 Como Anglica deixasse a dana, um pajenzinho entregou-lhe um sobrescrito. Era um bilhete do Sr. Colbert.
 "Considere-se", escrevia-lhe ele, "de posse do cargo permanente que solicitou na corte, nas condies estipuladas. Seu ttulo de cnsul de Frana em Cndia ser-lhe- 
outorgado amanh."
 Ela dobrou a carta e enfiou-a em sua bolsa. Um sorriso brincava-lhe no canto dos lbios. Havia triunfado.
 E, considerando tudo, nada havia de bizarro em que uma marquesa fosse cnsul de Frana, naquele mundo em que as baronesas ocupavam-se de venenos, as duquesas requeriam 
o monoplio das cadeiras de teatro, onde o ministro do Exrcito solicitava o cargo das mudas de cavalos de posta e onde os maiores libertinos do reino eram proprietrios 
de benefcios eclesisticos.
 
 FILIPE OU A GUERRA EM RENDAS
 
 CAPTULO XVII
 
 A clera de Filipe
 
 Anglica despia-se com vagar. Havia dispensado a ajuda de suas criadas e das senhoritas Gilandon. Em seu esprito ela revivia as ltimas fases de sua vitoria. Naquele 
mesmo dia seu intendente entregara ao intendente da Srta. de Brienne quarenta mil libras bem sonantes, enquanto ela recebia do Sr. Colbert, e da parte do rei, sua 
"nomeao". Ela imprimira seu selo em uma impressionante papelada, secara suas pginas de escritura e ainda pagara "uma ninharia", a ttulo de taxas e outros, que 
se elevava, no entanto, a dez mil libras suplementares.
 No estava, por isso, menos satisfeita, mas inquietava-se intimamente ao pensar em Filipe.
 Que diria quando soubesse do acontecido? Ele a desafiara a manter-se na corte, deixando claro que tudo faria, por seu turno, para afast-la. Mas a estada na Bastilha 
e seu afastamento do exrcito haviam deixado a Anglica todo o tempo para levar a bom termo seus negcios. Ela triunfara... No sem remorsos. Havia uma semana que 
Filipe retornara da Picardia. O prprio rei comunicou-o a Sra. du Plessis-Bellire, dando a entender o quanto a inteno de agradar-lhe o levara a passar a esponja 
sobre uma falta grave, qual seja, a indisciplina de Filipe ao bater-se em duelo. Tendo agradecido a Sua Majestade por sua clemncia, Anglica se interrogava sobre 
o que convinha fazer. Qual deveria ser a atitude de uma mulher para com o marido, levado  priso por ela o ter trado? Ela hesitava, mas tudo fazia crer que a atitude 
de seu marido seria bem mais incisiva. Escarnecido, admoestado pelo rei, perdendo por todos os lados, seu humor para com Anglica no devia ter abrandado. Ao considerar 
com iseno todos os agravos reais que Filipe podia atribuir-lhe, ela compreendeu que devia esperar pelo pior. De onde a pressa em concluir um comrcio que erguesse 
uma barreira entre ela e o ostracismo de seu esposo. Agora a coisa estava feita. De Filipe, nenhuma manifestao. Comentava-se que se apresentara ao rei e que fora 
recebido com afeio. Em seguida fora visto em Paris, na casa de Ninon. Depois, por duas vezes acompanhara o rei  caa. Naquele mesmo dia, enquanto ela assinava 
papis com o Sr. Colbert, ele estava no bosque de Marly.
 Estaria resolvido a deix-la em paz? Gostaria de poder convencer-se disso. Mas Filipe a habituara a seus revides cruis. Seu silncio no seria o do tigre prestes 
a dar o bote? A jovem suspirou.
 Absorta em seus pensamentos, desatava o plastro de lao de cetim, colocando os alfinetes, um a um, em uma taa de nix. Tirou o corpete e desamarrou os atilhos 
das trs saias, que caram a sua volta em pesadas pregas.
 Ela passou por sobre aquela barreira de veludo e de seda e apanhou no encosto de uma poltrona a camisola de fina cambraia que Javotte havia preparado. Em seguida 
inclinou-se para desatar as jarreteiras de pedras preciosas. Seus gestos eram tranquilos e sonhadores. Nas ltimas semanas, perdera a agilidade costumeira.
 Aproximou-se do toucador enquanto tirava os braceletes, para deposit-los em seus escrnios. O grande espelho oval devolveu-lhe sua imagem, dourada pela suave luz 
das velas. Com prazer um tanto melanclico, detalhou a perfeio de seu rosto, onde a carnao das faces e dos lbios tinha um frescor de rosa. A renda da camisola 
ressaltava os ombros rolios, de contorno juvenil, que sustentavam o pescoo liso e bem-conformado.
 "Esse ponto veneza  decididamente uma maravilha. O Sr. Colbert tem razo em querer fabric-lo na Frana."
 Ela percorria com o dedo o ornato aracndeo. Atravs das flores vazadas do delicado trabalhosa pele nacarada parecia brilhar. A renda avanava sobre os seios, deixando 
transparecer duas flores mais escuras.
 Anglica ergueu os braos nus para soltar o adorno de prolas colocado em forma de diadema sobre seus cabelos. Os cachos caam pesados, com quentes reflexos. Malgrado 
o talhe espesso que a camisola vaporosa revelava, ela disse consigo mesma que era bela. A pergunta insidiosa feita por Lauzun tornou a seu esprito.
 "Para quem?"
 Ela experimentou a solido de seu corpo, a um tempo to cobiado e desdenhado.        
 Voltou-se com um novo suspiro e pegou o chambre de tafet prpura, envolvendo-se nele cuidadosamente.
 Que faria nessa noite? No tiijha sono.
 Escreveria a Ninon de Lenclos? Ou  Sra. de Svign, a quem negligenciara um pouco? Ou faria algumas contas, com a aplicao habitual de seus tempos de comerciante?
 Um passo de homem avanando na galeria comeou a subir rapidamente a escada, fazendo soar as esporas. Era sem dvida Mal-brant, o mestre de equitao de Florimond 
e de Cantor, apelidado de Malbrant Golpe de Espada, retornando de uma alegre jornada.
 Mas o passo continuava a se aproximar.
 Anglica sobressalt-se. Atinando quem poderia ser, quis alcanar a porta de um'-salto a fim de empurrar o ferrolho.
 Era tarde demais. A porta abriu-se e em seu enquadramento surgiu
o Marqus du Plessis-Bellire.        
 Ainda vestia a sobrecasaca de caa cinza-prateada guarnecida com pele negra, chapu negro com uma nica pluma branca e longas botas negras cobertas de .lama e neve 
derretida. Nas mos, protegidas por luvas tambm negras, trazia o longo chicote para ces.
 Permaneceu um instante imvel, plantado nas pernas afastadas, e com um olhar cobriu o quadro formado pela jovem loura diante da penteadeira, em meio  desordem 
de adornos e jias. Um lento sorriso distendeu-lhe os lbios.
 Entrou e fechou a porta. A ele coube, de um golpe seco, estalar o ferrolho.
 -        Boa noite, Filipe - disse Anglica.
 Ao contempl-lo, um misto de alegria e medo fazia-lhe pulsar o corao.
 Era belo. Esquecera-se de quanto era belo e da marca de perfeio que sabia imprimir a toda a sua pessoa. Era o mais belo gentil-homem da corte. E lhe pertencia, 
tal como ela sonhara quando, garotinha apaixonada, mirava o belo adolescente.
 - No esperava por minha visita, senhora?
 - Mas claro. Esperava por ela... Eu a desejava.
 - Palavra que no lhe falta coragem. No teria boas razes para temer minha clera?
 - Certamente. Eis por que pensava que, quanto mais cedo tivesse lugar esta entrevista, melhor seria. Nada se ganha em recuar o momento de engolir uma poo amarga.
 O rosto de Filipe ensombreceu-se de clera.
 - Pequena hipcrita! Traidora! Voc est em boa situao para fazer-me crer que minha presena era desejada, quando j tudo fez por levar-me de vencida. No acabo 
de saber que adquiriu dois cargos permanentes na corte?
 - Ah!... Voc est ao corrente dos fatos - disse ela debilmente.
 - Sim. Estou ao corrente dos fatos - ladrou ele, fora de si.
 - Voc no... no parece muito satisfeito.
 - Voc contava satisfazer-me buscando meios de me fazer encerrar na priso para tecer em paz sua teia de aranha? E agora... agora acredita ter-me escapado. Mas 
ainda no foi dita a ltima palavra. Far-lhe-ei pagar caro o seu comrcio. E no incluiu no preo o corretivo que lhe administrarei.
 O chicote estalou no soalho, com um barulho seco de detonao. Anglica emitiu um grito. Sua resistncia cedia.
 Ela refugiou-se na alcova e ps-se a chorar. No, no, jamais teria foras para reviver a terrvel cena do Plessis.
 -        No me faa mal, Filipe - suplicou. - Oh! eu lhe peo, no me faa mal... Pense na criana.
 O jovem estacou. Suas plpebras se estreitaram.
 - Criana... Que criana?
 - A que carrego comigo... seu filho!...
 Um pesado silncio tombou entre eles, perturbado apenas pelos soluos abafados de Anglica.
 Por fim, o marqus tirou cuidadosamente as luvas, pousando-as, bem como ao chicote, sobre a penteadeira, e caminhou para a mulher com ar ressabiado.
 -        Mostre-mo - disse.
 Afastou as bordas do chambre e em seguida, jogando a cabea para trs, explodiu em risadas.
 -        Mas  verdade, por minha f! Palavra, voc est prenhe como uma vaqueira!
 Sentou-se junto dela na borda da cama e estreitou-lhe os ombros, atraindo-a para si.
 -        Por que no t-lo dito antes, animalzinho indcil? Eu no a teria aterrorizado.
 Ela chorava, emitindo pequenos soluos nervosos, o esprito em desordem.
 -        Vamos, no chore mais, no chore mais - repetia ele.
 Como era estranho ter a cabea contra o-ombro brutal de Filipe, o rosto perdido em sua peruca, loura, com aroma de jasmim, e sentir-lhe a mo acariciando docemente 
o ventre onde estremecia uma nova vida, ainda mergulhada no limbo da gestao!
 - Quando ele deve nascer?
 - Breve... Em janeiro.
 - Foi ento no Plessis - retomou, aps um instante de meditao. - Confesso que isso me rejubila. No me desagrada que meu filho tenha sido concebido sob o teto 
de seus ancestrais. Hum! Deve-se acreditar que a violncia e a clera no lhe fazem medo. Ser um guerreiror aceito o augrio. No tem com que beber  sua sade?        
 Foi, ele mesmo, apanhar de sobre a credencia de bano duas taas de prata dourada e um frasco de vinho de Baume, ali colocado diariamente para provveis visitas.
 -        Vamos, beba! Mesmo se bebericar comigo no lhe agrada, manda o bom-tom que nos felicitemos por nossa obra. Por que me olha com esse pasmo estpido? Porque 
ainda uma vez encontrou um meio sorrateiro de me desarmar?... Pacincia, minha bela. Estou muito satisfeito  ideia de um herdeiro, para no lhe poupar. Respeitarei 
a trgua. Mas ns nos reencontraremos mais tarde. Que o diabo no a faa aproveitar ainda de minha bondade, para armar-me uma de suas jogadas traioeiras... Em janeiro, 
voc disse?... Bom. At l, contentar-me-ei em t-la sob minha mira.
 Erguendo o cotovelo, bebeu um gole e jogou a taa no lajedo, gritando:
 - Viva o herdeiro dos Miremont du Plessis de Bellire!
 - Filipe - murmurou Anglica -, voc  em verdade o indivduo mais surpreendente, mais desconcertante que j encontrei. Nenhum homem que recebesse de minha parte 
uma tal confisso num momento como este teria deixado de lanar-me ao rosto,o meu intento de faz-lo endossar uma paternidade de que no era responsvel. Estava 
persuadida de que voc me acusaria de t-lo desposado j grvida.
 Filipe calava as luvas com cuidado. Lanou-lhe um olhar demorado e sombrio, quase furioso.
 - Sem demonstrar - disse ele - que, malgrado as lacunas de minha educao, eu sei contar at nove, e que, se essa criarra no fosse minha, a natureza j a teria 
constrangido a coloc-la no mundo, ajuntarei o seguinte: acredito-lhe capaz de tudo, e de algumas coisinhas mais, porm no desse gnero de baixezas.
 - Elas so, no entanto, habituais nas mulheres... De voc, que tanto as menospreza, eu esperava uma reao de dvida.
 - Voc no  uma mulher como as outras - disse Filipe em tom arrogante. - Voc  minha mulher.
 Ele saiu a passo largo, deixando-a pensativa e agitada por uma emoo que semelhava a esperana.
 
 CAPITULO XVIII
 
 Nascimento do pequeno Carlos Henrique
 
 Numa plida manh de janeiro, em que o brilho da neve punha reflexos irreais nas tapearias escuras, Anglica sentiu que o momento havia chegado. Ela fez chamar 
a parteira do bairro do Ma-rais, a Sra. Cordet, 3e quem solicitara os ofcios. Vrias grandes damas entre suas amigas haviam-na recomendado. A Sra. Cordet tinha 
um carter decidido e a bonomia necessria para ser bem-sucedida junto a uma clientela difcil. Fazia-se acompanhar por duas aprendizes, o que lhe conferia importncia. 
Mandou armar diante da lareira uma grande mesa apoiada em cavaletes, onde "trabalhariam" mais confortavelmente.
 Foi trazido um braseiro para elevar a temperatura do quarto. As criadas enrolavam bandas de linho e ferviam gua em tachos de cobre. A Sra. Cordet ali mergulhou 
algumas ervas, e o local impregnou-se de aromas medicinais que lembravam os campos sob um sol de vero.
 Anglica estava terrivelmente nervosa e impaciente. Aquele parto no lhe interessava. Enfurecia-se por no haver quem o fizesse em seu lugar.
 Incapaz de permanecer no leito, caminhava de um lado para outro, detendo-se diante da janela para contemplar a rua completamente branca e acolchoada de neve. Atravs 
dos vidros encaixilhados em chumbo podiam-se adivinhar as silhuetas vaporosas dos passantes. Uma carruagem que rodava oscilando abria caminho com dificuldade, e 
o bufo dos quatro cavalos escapava em nuvens azuladas no ar cristalino. O proprietrio bradava  portinhola. O cocheiro praguejava. As comadres riam.
 Era o dia que se segue  Epifania, data de jbilo, passada entre enormes bolos dourados e taas de bom vinho tinto e branco. Toda Paris tinha a garganta ardendo 
por ter gritado em excesso "O rei bebe".
 Na Manso do Beautreillis, todos se regalaram, como mandava a ocasio, ao redor de Florimond, reizinho da fava, coroado de ouro, e que erguia seu copo de cristal 
sob os vivas. Hoje, todos tinham sono e bocejavam. Era bem o dia de pr uma criana no mundo!
 Para iludir sua impacincia, Anglica informava-se sobre detalhes domsticos. Haviam recolhido as sobras para os pobres? Sim, quatro corbelhas foram distribudas 
naquela manh, diante do prtico, aos aleijados da esquina.
 E duas panelas de esmolas haviam sido levadas aos enfants Meus, os rfos do bairro do Temple, que vestiam azul, e aos enfants rouges, os rfos do Htel-Dieu, 
de roupas vermelhas.
 Haviam posto as toalhas de molho, guardado a loua, lavado  talher com gua de farelo e polido as facas com cinza de feno?...
 A Sra. Cordet procurava acalmar a paciente. Que necessidade havia de se ocupar desses detalhes? A criadagem era suficientemente numerosa, que o mordomo se encarregasse 
de tudo. Havia mais em que pensar. Mas era o que Anglica no desejava fazer.
 -        Ningum diria que  a sua terceira criana - dizia a parteira, ralhando com ela. - A senhora faz tanta comdia como por uma primeira.
 No fora tanta assim, na verdade. Revia-se dando  luz Florimond, jovem me tensa, assustada, mas silenciosa. Era, ento, bem mais corajosa. Guardava a fora dos 
animais jovens, que no passaram pela vida e se acreditam invencveis.
 Um rosto inclinava-se sobre ela. Uma voz terna e profunda lhe dizia: "Meu corao... voc sofre. Perdoe-me. No imaginava que sofreria tanto..." O grande Conde 
de Toulouse compungia-se  tortura do corpo amado.
 Como fora feliz quela poca!
 Mas sua energia fora minada por muitos golpes. Hoje, tinha os nervos frgeis.
 -  que a criana  muito pesada - gemeu. - As outras no eram to pesadas...
 - Bah! Bah! Quer engambelar-me. Encontrei seu filho mais jovem na antecmara. Encorpado como  hoje, no deve ter feito rir quando ps o nariz no mundo.
 O nascimento de Cantor! No queria record-lo. Fora um pesadelo ftido, um abismo escuro e glacial, onde conhecera todas as dores. Mas ao pensar no horrvel Htel-Dieu, 
onde tantos inocentes davam seu primeiro grito sobre a ferra, Anglica teve vergonha de suas jeremiadas, e isso incitou-a a mostrar-se mais razovel.
 Consentiu em sentar-se numa grande poltrona, uma almofada sob os rins e um tamborete sob os ps. Uma das senhoritas Gilandon props-se a ler-lhe algumas oraes. 
Anglica mndou-a passear. Que fazia aquela estouvada no quarto de uma mulher grvida? Que procurasse o Abade de Lesdiguires e, se nada tivesse de melhor a dizer 
um ao outro, fossem acender um crio na Igreja de Saint-Paul.
 Por fim as contraes tornaram-se mais frequentes e mais intensas, e a Sra. Cordet deitou-a na mesa, diante do fogo. A jovem me no mais contro4ava.as queixas. 
Era o momento difcil e angustiante em que o fruto, prestes, a soltar-se, parece arrancar as razes da rvore que o carregou. Os ouvidos de Anglica zuniam sob o 
assdio de vagas dolorosas. Acreditou ouvir uma agitao no exterior e uma porta bater.
 A voz de Teresa disse: "Oh! o senhor marqus!"
 S compreendeu o que acontecia ao ver Filipe a sua cabeceira, altivo, magnfico e inslito entre as mulheres azafamadas, com sua sobrecasaca, sua espada, punhos 
de renda, peruca e chapu de plumas brancas.
 -        Filipe! Que faz aqui? Que quer? Por que veio?
Ele teve uma expresso irnica e altiva.
 -        Hoje  o dia do nascimento de meu filho! A coisa me interessa, ora veja!
 A indignao reanimou Anglica. Ela ergueu-se sobre um cotovelo.
 -        Veio para ver-me sofrer - gritou. - Voc  um monstro. O homem mais cruel, mais ignbil, mais...
 Um novo espasmo cortou-lhe a palavra. Jogou-se para trs, procurando alento.
 -        Vamos! Vamos! - disse Filipe. - No deve enervar-se.
Ele pousou a mo em sua fronte mida e comeou a acarici-la lentamente, enquanto dizia palavras que ela mal compreendia, mas cujo murmrio a tranquilizava.
 -        Calma! Calma! Vai tudo bem! Coragem, minha bela...
 " a primeira vez que me acaricia", pensou Anglica. "Retoma comigo os gestos e palavras que emprega no canil ou no estbulo, para a cadela ou a gua que deve parir. 
E por que no? Que sou neste momento, seno um pobre animal... Contam que ele pode ficar horas confor-tando-os pacientemente... que os mais selvagens lhe lambem 
as mos..."
 Era, na verdade, o ltimo homem de quem esperaria ajuda nesse momento. Mas estava escrito que Filipe du Plessis-Bellire jamais cessaria de surpreend-la. Sob sua 
mo, ela relaxava e recobrava foras.
 "Imagina que no conseguirei pr seu filho no mundo? Mostrar-lhe-ei do que sou capaz. No darei um nico grito!"
 -        Assim! Assim! - dizia a voz de Filipe. - No tema nada... E vocs, criaturas estpidas, ajudem-na um pouco. Que bicho lhes mordeu?
 Falava-lhes como aos criados do canil.
 Na semi-inconscincia do momento decisivo, Anglica ergueu os olhos para Filipe. Naquele olhar acuado, arregalado e como que velado por uma doura pattica, ele 
vislumbrou como seria seu abandono... Essa mulher que ele imaginava feita de dureza ambiciosa e de premeditao seria capaz de fraqueza? Aquele olhar atravessava 
o passado. Era o olhar de uma garotinha de vestido cinza que ele trazia pela mo, e que apresentara aos risos zombeteiros de seus amigos: "Eis a Baronesa do Triste 
Vestido".
 Filipe cerrou os dentes e cobriu com mo rpida aquele olhar.
 - Nada tema - repetia -, nada mais tema, agora...
 -  um menino - disse a parteira.
 Anglica via Filipe estender  frente um pacotinho vermelho, envolto em um pano, e gritar:
 -        Meu filho! Meu filho!
Ele ria.
 A jovem foi transportada para sua cama de lenis perfumados, onde o esquentador de cobre passara muitas vezes.
 O sono invencvel das mulheres que acabam de dar  luz pesava sobre ela. Procurou Filipe com os olhos.
 Ele se debruava sobre o bero do filho.
 "Agora no lhe interesso mais", disse consigo mesma, tomada de decepo.
 No entanto, uma impresso de felicidade acompanhava-a em seu repouso.
 
 CAPITULO XIX
 
 A cano de Cantor
 
 Foi quando depositaram pela primeira vez o bebe em seus braos que Anglica compreendeu o que aquela nova existncia significava.        
 O pimpolho era belo. Haviam-no enfaixado com tiras de linho debruadas com um galo de cetim que cobriam seus braos e pernas e enrolavam-se em capuz ao redor da 
cabea. No ficava  mostra seno uma redonda carinha de porcelana branca e rosa, onde se abriam duas pupilas de um azul indefinido, mas que logo adquiririam o mesmo 
safira transparente das de seu pai.
 A ama-de-leite e as criadas repetiam admiradas que ele era louro como um pintainho e rechonchudo como um amor.
 "Essa criana saiu do meu ventre", disse Anglica consigo mesma, "e no entanto no  filho de Joffrey de Peyrac! Misturei meu sangue, que s a ele pertencia, a 
um sangue estranho."
 Aterrada, via nela o fruto de uma traio que s agora compreendia. Disse a meia voz:
 -        No sou mais sua mulher, Joffrey!
Mas no o quisera assim?
 Ela ps-se a chorar.
 -        Quero ver Florimond e Cantor - gritou em meio aos soluos. - Oh! suplico-lhes, que faam vjr..rheus filhos.
 Eles vieram. Adiantaram-se, e ela estremeceu ao ver que o acaso fizera-os vestir naquele dia um traje idntico de veludo negro. Diferentes e semelhantes, com o 
mesmo talhe, tez mate e cabeleira espessa caindo sobre a grande gola de renda branca, estavam de mos dadas, gesto familiar no qual desde a mais tenra infncia pareciam 
cavar foras para seguir o caminho de seu destino ameaado.
 Saudaram e sentaram-se com polidez em dois tamboretes. O es-petculo inusitado de sua me estendida entre lenis impressionava-os.
 Anglica procurou dominar o desespero que lhe apertava a garganta. No queria emocion-los.
 Perguntou-lhes se haviam visto seu novo irmo. Sim, haviam-no visto. Que pensavam dele? Ao que tudo indicava, no pensavam nada. Aps consultar Cantor com o olhar, 
Florimond afirmou que era um "encantador querubim". Os resultados dos esforos conjugados dos quatro preceptores eram realmente notveis. O mtodo, em que entravam 
vergastadas e a palmatria, contribua em parte para isso, porm, mais ainda, a mentalidade das duas crianas, desde cedo dobradas por terrveis disciplinas. Por 
terem passado fome, frio e medo, pareciam adaptar-se a tudo. Abria-se-lhes a porta dos campos: logo galopavam e transformavam-se em selvagens. Impunham-se-lhes costumes 
refinados, a obrigao de saudar e fazer cumprimentos: tornavam-se ento perfeitos jovens senhores.
 Pela primeira vez pensou nessa flexibilidade inata de seu car-ter. "Flexveis como a pobreza ensina a ser!"
 - Cantor, meu trovador, no quer cantar-nos alguma coisa?
 A criana buscou a guitarra e preludiou alguns acordes.
 - "O rei quis mirar suas damas
 E fez soar o tambor.
 Ao ver surgir a primeira,
 Ficou perdido de amor..."
 "Voc me amou, Joffrey. E eu o adorei. Por que me amou? Porque era bela?... Voc to apaixonado pela beleza! Um belo ob-jeto no seu Palcio da Gaia Cincia... Mas 
voc me amava para alm disso! Eu o soube quando seus rijos braos me estreitaram at fazer-me gemer... No entanto, eu ainda era infantil... Porm, ntegra. Talvez 
tenha sido por isso que voc me amou tanto..."
 -"Quem  a bela, pergunta
Ao marqus, caso o souber.
E o marqus logo ajunta:
Sire,  minha mulher."
 "Minha mulher... Como ele disse essas-palavras na outra noite, o louro marqus de olhar impenetrvel! No sou mais sua mulher, Joffrey! Ele me reclama. E seu amor 
afasta-se de mim como uma barca que me abandona numa margem gelada. Nunca mais! Nunca mais!...  difcil dizer a si mesmo: nunca mais... admitir que voc se torna 
uma sombra para mim tambm."
 -"Marqus, tens mais sorte que eu
Por teres esposa to bela.
 Porm, se o consentisses,
 Com prazer-cuidaria dela."
 Filipe no voltou para v-la. No mais lhe manifestou interesse. Agora que ela cumprira a tarefa, ele a desdenhava. Para que esperar? Ela jamais o compreender. 
Que dizia Ninon de Lenclos a seu respeito? " um nobre por excelncia. Fica em transe por questes de etiqueta. Teme uma mancha de lama em sua meia de seda. Mas 
no teme a morte. E, quando morrer, estar sozinho como um lobo e no pedir socorro a ningum. No pertence seno ao rei e a si mesmo."
 -"Sire, se no fsseis o rei,
Faria por ser vingado.
Porm, senhor, sois o rei
 E eu sou vosso criado."
 O rei... O rei todo-poderoso que caminha em seus faustosos jardins. A geada adornou as alamedas arborizadas com novas luzes. Seguido pelo vasto cortejo empenachado, 
ele vai de bosquete em bosquete. Os mrmores tm o brilho- da neve. Na extremidade de uma alia cor de malva, Ceres, Pomona e Flora, esttuas de ouro, cintilam e 
se miram no gelo de um tanque redondo. O rei traz seu basto na mo enluvada, mo de rapaz e de soberano, que tambm decide dos destinos, distribui a vida e a morte.
 -"Adeus, corao, minha vida.
Adeus, esperana minha.
 Se temos que servir ao rei,
 Devemos, ento, separar-nos..."
 "Senhor Deus! No  a cano que Cantor quase entoou diante da rainha, no outro dia, em Versalhes? Sem o Abade de Lesdigui-res, que disparate no teria cometido!... 
O abade decididamente tem expediente. Ser preciso remeter-lhe nova gratificao."
 -"A rainha comps um huqu
De flores-de-lis com beleza,
 E o perfume desse buque
 Levou  morte a marquesa."
 "Pobre Rainha Maria Teresa! Ser incapaz de enviar buques de flores envenenadas s suas rivais, como o fez, outrora, Maria de Mdicis a uma das favoritas do amante 
do belo sexo. S lhe resta chorar e assoar o nariz vermelho. Pobre rainha!..."
 CAPITULO XX
 Visita da Sra. Scarron
 A sra. de Svign escreveu  Sra. du Plessis-Bellire, contando-lhe as novidades da corte.  "    
 "Hoje, em Versalhes, o rei abriu o baile com a Sra. de Montes-pan. A Srta. de La Vallire-estava presente, mas no danou. A rainha, que ficou em Saint-Germain, 
no faz tanto caso..."
 As tradicionais visitas  parturiente, que deveriam prolongar-se at a cerimnia de ao de graas, revestiram-se, na Manso do Beautreillis, de um brilho inusitado.
 O favor com que o rei e a rainha haviam acolhido seu novo sdito no mundo incitara os representantes do tout-Paris a vir fazer a corte  cabeceira da bela marquesa.
 Anglica mostrava com orgulho a pequena arca forrada de cetim azul achamalotado de flores-de-lis, presente da rainha, e que continha um grande cueiro em tela de 
prata e dois lenis da Inglaterra escarlates, uma manta de tafet azul e um encantador enxoval com camisinhas em tela de Cambrai, toucas bordadas e babadouros floridos.
 O rei havia ajuntado duas bomboneiras em prata dourada e pedrarias, cheias de confeitos.
 O camarista-mor, Sr. de Gesvres, entregara pessoalmente  jovem me os presentes de Suas Majestades e transmitira-lhe seus cumprimentos. Essas atenes reais, por 
mais-envaidecedoras que tossem, no transgrediam a etiqueta: a mulher de um marechal de Frana fazia jus a elas.
 Mas foi o suficiente para fazer voltar, qual chama temporariamente abafada, o boato de que a Sra. du Plessis-Bellire arrebatara o corao de Sua Majestade. Houve 
mesmo as ms-lnguas a aventar que o robusto pimpolho instalado numa almofada de veludo carmesim, entre a ama-de-leite e a embaladeira, tinha nas veias o sangue 
de Henrique IV.
 Anglica dava de ombros e desdenhava tais aluses. Aquelas pessoas estavam loucas, mas eram, afinal, divertidas! Seu quarto no se esvaziava. Recebia em sua intimidade 
como uma preciosa. Muitas fisionomias um pouco esquecidas voltaram a aparecer. Sua irm Hortnsia, a mulher do procurador, veio com toda a ninhada. Alava-se a cada 
dia nos degraus da alta burguesia e no podia desdenhar uma relao to em evidncia como sua irm, a Marquesa du Plessis-Bellire.
 A Sra. Scarron tambm apareceu. Por acaso, Anglica no estava com visitas. Elas puderam conversar  vontade.
 A companhia da jovem viva era agradvel. De humor estvel, ela parecia ignorar  maledicncia e a ironia, a violncia e a irritao. No era maante nem rabugenta. 
Nem severa. Anglica espantava-se por sentir em relao a ela a amizade calorosa e confiante que lhe inspirava Ninon de Lenclos.
 Francisca continuava l embaixo, pois, na luta que travava, no entendia abandonar nem sua virtude nem sua dignidade. De uma economia escrupulosa, no despendia 
um nico sol inutilmente. Prudente, no se engajava em nenhum negcio arriscado. Malgrado sua pobreza e sua beleza, no se lhe conheciam nem dvidas... nem amantes. 
Contentava-se em apresentar peties com inaltervel perseverana. Mendigar do rei no  mendigar. E reclamar do reino sua parte de vida, seu lugar ao sol. At ento 
haviam-no recusado. Ela era to pobre! Com riqueza, podia-se conseguir algo mais.
 - No gosto de me tomar como exemplo - explicou Francisca -, mas considere que apresentei ao rei em pessoa, ou por meio de amigos altamente colocados, mais de mil 
e oitocentas requisies!
 - Hein?! - exclamou Anglica, erguendo-se no leito.
 - E que,  parte alguns magros benefcios que logo me foram retirados, nada mais obtive. Mas no perco a coragem. Pois dia vir em que o que posso propor de honesto 
e til para o servio de Sua Majestade ou de alguma grande famlia ter seu preo... Talvez devido  sua raridade mesma.
 - Est to segura de que  bom o seu sistema? Ouvi contar que Sua Majestade lamentava "que choviam memoriais da Sra. Scarron como folhas de outono" e que, a seus 
olhos, voc est a ponto de tornar-se uma personagem to imutvel quanto as das tapearias de Saint-Germain e de Versalhes. A serenidade de Francisca no pareceu 
se alterar.
 - Essa notcia no  m. Embora o rei proteste, nada lhe agrada tanto quanto a assiduidade, e para.tr sucesso  preciso primeiro atrair a ateno do soberano. 
E a coisa est feita, voc o disse. Agora estou certa de que atingirei meu objetivo.
 - Quer dizer...
 - O sucesso!
 Uma chama brilhava em seu olhar. Ela continuou, baixando a voz:
 - Acautelo-me com as pessoas loquazes, mas voc no  desse tipo, Anglica! Pois, se voc discorre de bom grado e no sem esprito, o faz frequentemente para iludir 
e dissimular o que existe de mais caro em sua pessoa. Continue a calar-se.  o modo corre-to de viver no mundo,, permanecendo protegida. Venho me calando h muitos 
anos. Mas lhe farei uma confidncia, de que ainda no fiz parte a ningum, e que explica o segredo de minha perseverana: fui objeto de uma profecia.
 - Voc fala das predies absurdas feitas pela adivinha Monvoi-sin, quando a visitamos, ns trs, Atenas de Montespan, voc e eu?
 - No. Na verdade, a Voisin inspira-me bem pouca confiana. Busca em excesso sua eficcia no vinho. A profecia a que aludo foi-me feita em Versalhes, h trs anos, 
por um jovem operrio. Voc sabe que muitas das pessoas simples, que fazem trabalho braal, e cujo crebro jamais foi cultivado, tm o dom de dupla viso. Era um 
aprendiz de pedreiro gago e coxo. Eu atravessava um dos canteiros de obras ao redor do palcio, onde Sua Majestade est sempre fazendo novos embelezamentos. Aquele 
jovem ergueu-se, veio at mim e fez-me profundas reverncias. Seus companheiros estavam intrigados, mas no zombavam, pois o tinham por adivinho. Ele disse, ento, 
com o olhar iluminado, que saudava em mim "a primeira mulher do reino" e que, de onde nos encontrvamos, via o Palcio de Versalhes ainda mais imenso e majestoso, 
com todos os cortesos se inclinando, de chapu na mo, a minha passagem. Quando me sinto desencorajada, recordo-me dessas palavras e torno a Versalhes, pois ali 
me espera o destino.
 Ela sorriu, mas em seus olhos escuros continuava a brilhar um fogo ardente.
 Esse discurso, vindo de outra pessoa, teria feito rir Anglica. Mas, feito pela Sra. Scarron, ela ficou impressionada. Via-a agora sob sua verdadeira luz. Desmesuradamente 
ambiciosa, com um amor-prprio sem limites. Humilde e modesta na superfcie, tenaz e cheia de orgulho no fundo.
 Longe de ver aumentar sua antipatia, a amizade com a Sra. Scarron pareceu-lhe mais preciosa a conservar.
 - Esclarea-me - disse ela -, voc que tem a compreenso de tantas coisas. Confesso que no atino com os obstculos que se erguem  minha frente na corte. Durante 
longo tempo suspeitei que meu marido fosse um intrigante...
 - Seu marido  inocente. Ele sabe o que se passa, pois tem grande experincia da corte, mas nenhuma vontade de intervir. O que ocorre  que voc  muito bela!
 - Como isso pode prejudicar-me? E a quem? H mulheres mais belas que eu, Francisca! No me lisonjeie sem motivo.
 - Voc  tambm bastante... diferente.
 - O rei j me disse algo assim - murmurou Anglica, pensativa.
 - Est vendo! No somente voc se coloca entre as mais belas mulheres da corte, e se adorna  maravilha, seduzindo e divertindo os que a cercam assim que abre a 
boca, como tem ainda essa coisa inestimvel que tantas beldades frvolas sonham adquirir, sem jamais consegui-lo...
 - Mas o qu, ento?
 - Uma alma - disse a Sra. Scarron, em tom lastimoso.
 O ardor extinguira-se de sua face. Contemplava suas mos encantadoras, pousadas sobre os joelhos, e que os duros trabalhos domsticos haviam magoado, malgrado os 
cuidados que tomava.
 -        Nessas condies, como voc quer evitar... levantar legies de inimigos... assim que aparece - concluiu, com um suspiro de solado.
 E rompeu em lgrimas.
 - Francisca - suplicou Anglica -, no diga que chora por minha causa ou de minha alma!
 - No... na verdade. Pensava em minha prpria sorte. Ser mulher, ser bela e ter uma alma, quanto sofrimento e como encontrar um dia o prprio caminho... Quantas 
oportunidades j-me foram recusadas por isso!
 O incidente acabou de persuadir Anglica de que a Sra. Scarron jamais seria sua inimiga; e que era, apesar de tudo, vulnervel, e tinha os nervos  flor da pele. 
Talvez a reflexo do rei a tivesse atingido mais do que deixava transparecer. Com remorsos, Anglica disse consigo mesma que a jovem viva por certo no se alimentava 
bem h muito tempo. Qse tocou a sineta para ordenar aleo de comer, mas conteve-se com receio de rhago-la.
 - Francisca - disse com energia -, seque suas lgrimas. E pense na profecia do seu pedreiro. O que considera prejudicial representa, ao contrrio, um srio trunfo 
que a levar mais longe que aos outros. Voc  hbil e j obteve importantes er srias prote-es. A Sra. d'Aumont a protege, segundo me disseram.
 - E tambm a Sra. de Richelieu e a Sra. Lamoignon - completou a Sra. Scarron, que dominara aquele momento de fraqueza. - J h trs anos frequento assiduamente 
seus sales.
 - Sales austeros - fez Anglica com uma careta. - Ali sempre me entediei ao extremo.
 - So tediosos, mas ali.se progride aos poucos. Eis onde a espreita o perigo, Anglica. E onde est seu erro. Pelo" mesmo erro a Srta. de La Vallire se pe a perder. 
Desde que voc frequenta a corte, ainda no pensou em separar seus inimigos. Voc no pertence ao cl da rainha, nem ao de Madame ou aos dos prncipes. Voc no 
escolheu entre os "importantes" e os "elegantes", nem entre os "libertinos" e os "devotos".
 - Os devotos? Voc acredita que tenham um papel importante a desempenhar? No me pareceu existir lugar para Deus nesse mundo frvolo*
 - Ele existe, acredite-me, e no sob o aspecto do Senhor indulgente cuja imagem gostamos de rever em nossos missais, mas sob o do Deus de justia que carrega uma 
balana.
 - Voc me confunde.
 - O esprito do mal no enverga na corte sua mscara mais perigosa?  preciso o deus dos exrcitos para expuls-lo.
 - Em suma, voc me aconselha a escolher entre Deus e o Diabo.
 - Exatamente - confirmou a Sra. Scarron docemente.
 Ela levantou-se, tomou seu manto e seu leqire negro, que jamais abria para esconder-lhe o desgaste. Depois de beijar a fronte de Anglica, afastou-se sem rudo.
 
 CAPITULO XXI
 
 Filipe faz raptar seu filho - Aceita Anglica em sua casa
 
 - bem o momento de falar de Deus e do Diabo, senhora. Que terrvel desgraa!
 Brbara, o rosto afogueado, inclinava-se entre as cortinas. Achava-se ali h algum tempo. Fora ela quem acompanhara a Sra. Scar-ron at a porta. Depois voltara, 
o olhar assustado. No conseguindo com seus suspiros e soluos convulsivos atrair a ateno da patroa, absorta em reflexes, decidira-se a falar:
 - Senhora, que terrvel desgraa!
 - Que acontece, agora?
 - Nosso Carlos Henrique desapareceu.
 - Que Carlos Henrique?
 Anglica ainda no se habituara ao nome do recm-nascido: Carlos Henrique Armando Maria Camilo de Miremont du Plessis-Bellire.
 - O beb, voc quer dizer? A ama-de-leite esqueceu onde o colocou?
 - A ama tambm desapareceu. E a embaladeira. E a pequena que enrola as faixas. Enfim, toda a "casa" do Sr. Carlos Henrique.
 Anglica afastou as cobertas em silncio e comeou a vestir-se.
 - Senhora - gemeu Brbara -, est louca! Uma grande dama que deu  luz h seis dias no pode levantar-se.
 - Ento por que voc veio procurar-me? Suponho que na inteno de que faa alguma coisa. Isso, se essa histria da carochinha tiver alguma base real. Mas suspeito 
muito de que voc se abandone a uma certa inclinao pelo vinho. Desde que o abade tomou para si o encargo dos meninos que voc no deixa a despensa. O cio s a 
prejudica.
 No entanto teve que se render aos fatos: a sobriedade da pobre Brbara no estava em questo. O aposento reservado ao beb mostrou-se deserto. O bero, a arca contendo 
seu enxoval, os primeiros brinquedos e at o frasco de leo de absinto e de creme de almscar que a ama lhe passava no umbigo haviam desaparecido.
 Alvoroados por Brbara, os criados comprimiam-se aterrados diante da porta.
 Anglica passou s perguntas. A partir de que momento a ama e suas ajudantes no haviam mais sido vistas? Ainda pela manh, a pequena tinha vindo s cozinhas buscar 
uma bacia de gua quente. As trs guardis do pequeno senhor haviam jantado lautamente, como de hbito. Depois, havia um vazio. Descobriu-se que,  hora em que a 
criadagem se deixa em geral ganhar por uma doce sonolncia digestiva,"o porteiro fora jogar uma partida de quilha com os cavalarios no ptio dos fundos. A guarita 
e o ptio de entrada ficaram, pois, desertos por urna boa hora. Tempo suficiente para que trs mulheres carregando um beb, um bero e uma arca de enxoval pudessem 
sair.
 O porteiro jurou que a partida no durara mais que um quarto de hora.
 -        Ento voc estava de conluio com aquelas celeradas - lanou-lhe Anglica.
 Prometeu-lhe umas bastonadas, o que jamais ocorrera com qualquer de seus servidores. A medida que os minutos passavam, vinham-lhe  memria aterradoras histrias 
de crianas mrtires, raptadas e imoladas. A ama fora recomendada pela Sra. de Svig-n, que a tinha por simples e afvel. Mas como fiar-se nessa casta de criados 
que tinham um p na casa de seus mestres e outro na terrvel matterie?
 Flipot chegou nesse meio tempo, gritando que sabia de tudo. Com o faro de um velho mion do Ptio dos Milagres, tinha sido lesto em encontrar a pista. Carlos Henrique 
du Plessis-Bellire havia simplesmente se mudado, com toda a sua '-Nrsa", para a manso de seu pai, no Faubourg Saint-Antoine.
 -        Maldito Filipe!
 No podia fingir diante de seus empregados, que a haviam visto, cinco minutos antes, desvairada de ansiedade. Ento deixou que sua clera explodisse. Disse-lhes, 
para ganh-los, que aquela era a oportunidade de desancar a criadagem insolente do Marqus du Plessis, que os tratava de "lacaios de mercadora", quando tinham, como 
outros, o direito  libr "camura e azul" da casa, e quando ela era recebida e distinguida pelo rei...
 Disse-lhes que se armassem; e ento, munidos de bastes, alabardas e espadas, desde o ltimo ajudante de cozinha at o jovem abade, todos tomaram o caminho do Faubourg 
Saint-Antoine. Anglica ia em sua cadeirinha.        ;
 Compunham uma bela tropa, em grande algazarra. As pessoas do bairro, gulosas por tais rixas, e no eram raras entre as diferentes criadagens dos grandes senhores, 
acompanharam o movimento com entusiasmo.
 A vaga foi bater na porta de carvalho negro da manso do Plessis. Da janela gradeada da guarita, o suo tentou parlamentar. Era ordem do senhor marqus no abrir 
a porta a ningum. A ningum, sem exceo, em circunstncia alguma.
 - Abra  sua senhora - rugiu Malbrant Golpe de Espada, brandindo dois petardos surgidos, por que milagre?, das abas de seu casaco -, ou palavra de Golpe de Espada 
que ponho estas duas "tochas" no seu nariz e fao saltar o porto e sua guarita.
 Racan j pusera fogo a uma vareta com pavio.
 O porteiro, aterrorizado, disse que abriria a porta lateral  senhora marquesa, sob a condio de que a canalha ficasse do lado de fora. Com a promessa de Anglica 
de que no haveria batalha nem assalto imediatos, ele entreabriu a porta e ela precipitou-se na manso, seguida das senhoritas de Gilandon. No teve dificuldade 
em encontrar os trnsfugas no andar de cima. Esbofeteou a ama-de-leite, pegou o bebe, e ia descer quando La Violette posse diante dela. Com ele vivo, o filho do 
senhor marqus jamais deixaria a casa do pai. Ele o jurara.
 Anglica apostrofou-o em dialeto do Poitou, de onde ele tambm era originrio.
 O arrogante criado acabou por perder o sangue-frio. Desmoronou de joelhos diante dela, suplicando-lhe, a voz embargada, que se apiedasse dele. O senhor marqus 
ameaara-o com os piores castigos, se deixasse a criana partir. H anos servia o senhor marqus. Juntos haviam matado seu primeiro esquilo na floresta de Nieul. 
Ele o acompanhara em todas as suas campanhas.
 Nesse meio tempo, um lacaio de libr camura e amarela galopava a toda a brida na estrada de Saint-Germain, na esperana de encontrar o marqus antes que seus criados 
e os de sua mulher se degolassem em Paris.
 Era preciso ganhar tempo.
 O capelo do marqus veio tentar fazer com que a me espoliada se mostrasse razovel. Em desespero de causa, foram procurar o intendente da famlia, Sr. Moliijes.
 Anglica no o sabia em Paris. Ao reconhecer a silhueta austera, sempre tesa e segura, malgrado os cabelos embranquecidos, cedeu em sua vindita. Com Molines poderia 
se entender.
 O intendente pediu-lhe que tomasse lugar junto ao fogo. Elogiou a bela criana, que folgava em ver nascer no lar de seu senhor.
 - Mas ele quer raptar-mo!
 - E seu filho, senhora. E, creia em meu espanto, jamais vi um homem de sua condio-to estupidamente feliz por ter um filho.
 - Voc o defende sempre - disse Anglica com mau humor. - Custo a imagin-lo f&liz por alguma coisa, a no ser pelo sofrimento que inflige. Sua maldade ultrapassa 
em muito o quadro to sombrio que voc havia pintado.
 Consentiu, no entanto, em mandar de volta seu pessoal e em esperar pacientemente pela chegada do marido, contanto que Molines servisse de rbitro imparcial.
 Quando, ao cair da noite, Filipe entrou, fazendo soar as esporas, encontrou Anglica e o intendente em palestra amigvel, ao lado da lareira.
 O pequeno Carlos Henrique, abraado junto a um seio ciumento, mamava avidamente em sua me. O movimento das chamas punha reflexos no colo alvo e rolio da jovem. 
Tal espetculo surpreendeu o gentil-homem o suficiente para dar tempo a Molines de levantar-se e tomar a palavra. Contou-lhe o quanto a Sra. du Plessis ficara transtornada 
com a partida de seu filho. O Sr. du Plessis ignorava que o jovem Carlos Henrique devia ser alimentado pela me? A sade do beb no era to perfeita quanto sua 
aparncia exterior pudesse fazer crer. Priv-lo-do leite da me seria colocar sua vida em perigo. Quanto  Sra. du Plessis, seu marido ignorava que ela corria o 
risco da febre quarta? Era o menor dos aborrecimentos que causaria um aleitamento bruscamente interrompido.
 Sim, Filipe o ignorava. Aquelas consideraes estavam, por certo, muito longe de suas preocupaes habituais. O rosto arrogante escondia a custo um misto de inquietao 
e ceticismo. Mas Molines sabia o que dizia. Era pai de famlia e at av.
 O marqus teve um ltimo mpeto de defesa.
 -  meu filho, Molines! Quero que permanea sob meu teto.
 - Mas no seja por isso, senhor marqus, a Sra. du Plessis quedar-se- com ele.
 Anglica e Filipe estremeceram e guardaram obstinado silncio. Depois trocaram um olhar de crianas agastadas prestes a se reconciliar.
 - No posso abandonar meus outros dois filhos - disse Anglica.
 - Instalar-se-o aqui, igualmente - disse Molines. - A manso  vasta.
 Filipe no o contradisse.
 Molines retirou-se aps cumprir sua misso. Filipe continuou a caminhar de um lado para outro, lanando por instantes um olhar sombrio a Anglica, que dava toda 
a ateno ao apetite do jovem Carlos Henrique.
 O marqus acabou por puxar um tamborete e sentar-se, junto da jovem. Anglica lanou-lhe um olhar inquieto.
 - Vamos - disse Filipe. - Voc tem medo, confesse-o, sob seu ar insolente. Talvez voc no contasse com que as coisas se passassem desse modo. Ei-la no covil do 
lobo. Por que me olha com desconfiana, ao me instalar a seu lado? Mesmo a um campons, no sendo um bruto, apraz sentar-se junto  lareira, para contemplar sua 
mulher amamentando seu primeiro filho.
 - Justamente, Filipe. Voc no  campons... e  um bruto.
 -        Vejo com satisfao que seu ardor guerreiro no se extinguiu.
Ela voltou a cabea para ele num gesto pleno de doura, e o olhar do jovem deslizou do colo gracioso para o seio branco junto ao qual a criana adormecera.
 -        No imaginava que voc me pregaria to cedo uma partida, Filipe. Voc se mostrou bom comigo, no outro dia.
 Filipe sobressaltou-se como se tivesse recebido um insulto.
 -        Voc se equivocou. No sou bom. S no gosto de ver um animal de raa prejudicado por um parto malfeito. Era minha obrigao ajud-la. Minhas opinies 
sobre a espcie humana e a suavidade das mulheres, em particular, no mudaram. Pergunto-me, alis, como seres que se aparentam to de perto  espcie animal podem 
ainda se permitir ter orgulho. No tinha tanta altivez na outra manh. E, como as cadelas mais indceis, na hora do parto encontrou a mo confortadora do mestre.
 - No o nego. Mas sua filosofia  um pouco limitada, Filipe, porque se entende melhor comos animais que com os humanos, julga os ltimos pelos primeiros. Para voc, 
uma mulher no representa seno uma vaga mistura entre a cadela, a loba e a vaca.
 - Juntando-se-lhe o esprito da Serpente.
 - O monstro do Apocalipse, em suma.
 Olharam-se, rindo. Filipe cerrou os lbios, engolindo aquele movimento de alegria espontnea.
 -        O monstro do Apocalipse - repetiu, fixando o rosto de Anglica, que as chamas avivavam de rosa. - Minha filosofia vale tanto quanto qualquer outra - retomou, 
aps um instante de silncio. - Pe-me ao abrigo de emoes perigosas... Assim, na outra manh,  sua cabeceira, lembri-me de uma cadela, a mais feroz da matilha, 
que assisti toda uma noite, quando ps no mundo uma ninhada de sete cezinhos. Seu olhar era quase humano;
abandonava-se a mim com simplicidade tocante. Dois dias mais tarde, degolou um criadinho que quis aproximar-se dos filhotes!
 Sbito perguntou, curioso:
 -  verdade o que me contaram, que voc fez colocar petardos diante da guarita do suo?
 - Sim.
 - Se ele no capitulasse, t-lo-ia feito explodir?
 -        Sim, eu o teria feito - disse Anglica, enfurecida.
Filipe ergueu-se, explodindo em risadas.
 -        Pelo Diabo que a criou, voc acabar por divertir-me. Podem atribuir-lhe todos os defeitos da terra, mas no o de ser aborrecida.
 Ps as duas mos em seu pescoo.
 -        Pergunto-me, s vezes, se no h outras solues alm de estrangul-la ou de...
 Ela fechou os olhos sob o cerco daquelas mos.
 - Ou de?
 - Eu refletirei - disse, deixando-a -r mas no cante triunfo muito cedo. Por ora, voc est em meu poder.
 Foi o tempo de Anglica instalar-se sob o teto do marido, com seus filhos e criados e os poucos servidores que desejava ter junto de si. A manso era escura e no 
tinha a graa da Manso do Beautreillis.
 Mas ali encontrou, para si mesma, um aposento encantador, no melhor da moda. La Violette contou que havia pertencido  marquesa viva, mas que o senhor marqus 
mudara toda a forrao alguns meses antes. Anglica, surpresa, no ousou perguntar: "Para quem?" Pouco tempo depois, um convite do rei para um grande baile em Versalhes 
f-la deixar a nova morada. Para uma grande dama da corte, provida de dois cargos, j consagrara bastante tempo a seus deveres familiares. Devia retornar  vida 
mundana,  qual Filipe dedicava-se por inteiro. Via-o menos ainda que quando frequentava a corte. Compreendendo que as noites ao p da lareira no retornariam, Anglica 
retomou o caminho de Versalhes.
 A noite, com a proximidade do baile, ela sofreu todas as penas do mundo para achar um canto onde trocar de roupa. Era a preocupao permanente das damas, quando 
estavam em Versalhes. Ao menos para as que ainda se sacrificassem ao pudor. Para as outras, era um fcil pretexto de se oferecer aos olhares pressurosos.
 Anglica abrigou-se em uma pequena antecmara, contgua aos aposentos da rainha. No tendo encontrado suas camareiras, ela e a Sra. du Roure prestaram-se mtua 
assistncia. As idas e vindas eram constantes. Os gentis-homens de passagem lanavam galanteios e alguns ofereciam ajuda, diligentes.
 -        Deixem-nos, senhores - protestava a Sra. du Roure, aos gritos -, faro com que nos atrasemos, e sabem que o rei tem horror a isso.
 Ela teve que ausentar-se,  cata de alfinetes.
 Anglica, sozinha por instantes, aproveitava para prender as meias quando um brao musculoso tomou-a pela cintura e derrubou-a, com as saias levantadas, sobre um 
pequeno sof. Uma boca gulosa colocou-se-lhe ao pescoo. Transtornada, lanou um grito, debatendo-se com violncia, e, quando pde soltar-se, esbofeteou o insolente 
por duas vezes.
 A mo no baixou uma terceira vez, e ela permaneceu petrificada diante do rei, que levara a mo  face.
 - Eu... eu no sabia que era o senhor - balbuciou.
 - Tambm no sabia que era voc - disse ele, com mau humor. - Nem que voc tinha pernas to bonitas. Por que, diabos, mostr-las e ficar aborrecida em seguida?
 - No posso calar as meias sem mostrar as pernas.
 - E para que veio calar as meias na antecmara da rainha, seno para mostrar as pernas? 
 - Porque no tenho um buraco onde possa me vestir.
 - Quer insinuar que Versalhes no  grande o suficiente para sua preciosa pessoa?        '
 - Talvez. E vasto, mas faltam-lhe bastidores. Preciosa ou no, minha pessoa  obrigada a permanecer em cena.
 - E so essas as suas desculpas para uma conduta inqualificvel!...
 - E as suas para uma conduta no menos inqualificvel!
 Anglica levantou-se, esticando as saias nervosamente. Estava furiosa. Mas, ao lanar um olhar  fisionomia contrita do rei, recuperou seu senso de humor. Ela esboou 
um sorriso. O rosto do rei desanuviou-se.-
 - Bagatela, sou um-tolo!.
 - E eu sou muito impulsiva.-
 - Sim, uma flor selvagem! Creia-me, se a tivesse, reconhecido, no teria me comportado desse modo. Mas, ao entrar, no vi seno uma nuca loura e, palavra, duas 
pernas admirveis e... muito atraentes.
 Anglica olhou-o de esguelha, com a expresso indulgente e divertida que uma mulher dirige a um homem para mostrar que no est muito aborrecida desde que ele no 
recomece. Mesmo um rei tinha o direito de ficar embevecido diante de um sorriso como aquele.
 -        Voc me perdoa?
 Ela estendeu-lhe a mo e ele beijou-a. Ela no o fez por coquete-ria. Era o gesto franco que pe fim  querela. O rei disse consigo mesmo que era uma mulher deliciosa.
 Pouco tempo depois, ao atravessar o ptio de mrmore, ela foi abordada por um guarda que parecia  procura de algum:
 -        Venho de parte do camarista-mor de Sua Majestade para inform-la de que seus aposentos esto reservados, no fim da ala dos prncipes de sangue,  direita. 
Devo conduzi-la at l, senhora?
 -        A mim? Cometeu um erro, meu bravo.
O homem consultou uma tabuleta.
 -        Sra. du Plessis-Bellire. E esse o nome. Pensei ter reconhecido a senhora marquesa.
 -        Com efeito.
 Surpresa, ela seguiu o militar. Ele f-la atravessar os aposentos reais, e depois os dos primeiros prncipes de sangue. No fim da ala direita, um dos furriis de 
casaca azul acabava de inscrever com giz em uma porta:
 "PARA a Sra. du Plessis-Bellire".
 Anglica ficou encantada. Quase saltou de alegria ao pescoo dos dois militares. Ofertou-lhes vrias peas de ouro:
 - Eis com que beber  minha sade.
 - Desejamo-la boa e vigorosa - responderam com uma piscadela cmplice.
 Pediu-lhes que prevenissem seus lacaios e criadas para que trouxessem seu guarda-roupa e sua cama. Depois, com prazer infantil, tomou posse dos aposentos, compostos 
de dois compartimentos e uma alcova.
 Sentada sobre uma almofada, Anglica meditou com jbilo nas sensaes inebriantes que os favores de um monarca podem inspirar. Depois saiu para contemplar mais 
uma vez a inscrio:
 "PARA a Sra. du Plessis-Bellire".
 - Ento o obteve, o famoso PARA!
 - Parece que os "homens azuis" inscreveram o seu PARA. A novidade j se alastrara.  soleira do salo de baile, Anglica
 era objeto de admirao e de inveja. Ela brilhava. A chegada do cortejo da rainha esfriou um pouco seu entusiasmo.
 A soberana saudava graciosamente, a sua passagem, as pessoas que reconhecia. Mas, quando se viu diante da Marquesa du Plessis-Bellire, afetou no v-la e tomou 
um ar glacial. Sua atitude no escapou aos circunstantes.
 - Sua Majestade a rainha lhe faz cara fechada - disse o Marqus de Roquelaure. - Ela cobrava esperana, diante do favor declinante da Srta. de La Valliere, mas 
eis que se ergue uma nova rival, ainda mais deslumbrante.
 - Quem?
 - Voc, minha cara.
 - Eu? Sempre essa tolice! - suspirou a jovem, irritada.
 Ela no vira no gesto do rei seno o que ele, sem dvida, ali colocara: o desejo de se fazer perdoar e de remediar, como senhor da casa, um incmodo do qual ela 
se queixara. E os cortesos viam nisso mais uma prova de seu amor por ela.
 Anglica, contrariada, demorou-se  entrada do salo de baile.
 Era uma sala forrada de tapearias de vivo colorido. Trinta e seis lustres pendentes da abbada iluminavam-na com suas numerosas velas. Em dois patamares construdos 
face a face, postavam-se,  direita, as damas e,  esquerda, os senhores. O rei e a rainha tinham um camarote  parte. Ao fundo, sobre um estrado emoldurado por 
guirlandas de folhagem dourada, ficavam os msicos, sob a direo do Sr. Lulli.
 -        A rainha chorou por causa da Sra. du Plessis-Bellire - sussurrou uma voz rouca. - Disseram-lhe que o rei instala os aposentos de sua nova amante. Acautele-se, 
marquesa!
 Anglica no teve que se voltar e baixar os olhos, para saber de onde vinha aquela voz que parecia brotar da terra. Sem mover-se, respondeu:        
 - Sr. Barcarola, no d crdito a tais palavras. O rei no me cobia. No mais do que a qualquer dama de seu squito.
 - Ento acautele-se mais ainda, marquesa. Preparam-lhe um golpe perigoso.
 - Quem? Por qu? Que sabe voc?
 - No muita coisa. Apenas sei que  Sra. de Montespan e a Sra. du Roure foram at Voisin para encontrar um meio de envenenar La Vallire. Ela aconselhou-as a influir 
no esprito do rei pela magia, e Marieta, sua sacerdotisa sacrlega, j virou alguns ps em seu clice.
 - Cale-se! - disse ela, com um sobressalto de horror.
 - Acautele-se com essas rameiras. O dia que puserem na cabea que  a voc que devem fazer passar para o outro lado...
 Os violinos atacavam o preldio numa cadncia viva e arrebatadora.
 O rei ergueu-se, e, aps ter-se inclinado diante da rainha, abriu o baile com a Sra. de Montespan.        
 Anglica adiantou-se. Era tempo de tomar seu lugar.
 A sombra de uma tapearia, o gnomo coberto de plumas escarnecia...
 
 CAPTULO XXII
 A Srta. de La Vallire no exrcito - Festa em Versalhes
 
 O rei ocupava-se dos assuntos da guerra. Um campo de manobras foi erguido na reserva de Saint-Germain. As tendas eram muito belas. A do Sr. de Lauzun - que recuperara 
seu favor - era em seda carmesim. Ele ali recebeu o rei e houve uma grande festa.
 Em Fontainebleau, para onde a corte se dirigiu a seguir, tropas se reuniam, e as damas tiveram o espetculo das revistas militares, quando o rei se comprazia em 
fazer admirar a disciplina e o aprumo de seus homens.
 La Violette polia a armadura do mestre - o colete de ao mais decorativo que o necessrio -, que o marechal traria sob as golas de rendas. A tenda rebordada valia 
duas mil libras. Cinco mulos carregariam as bagagens. Montarias haviam sido previstas. E os mosqueteiros da companhia pessoal do Sr. du Plessis cobriam-se com um 
pano camura da espessura de um escudo de prata, com correame dourado e cales de couro branco com costuras douradas.
 Sim, o esprito da poca estava voltado para a guerra. O chamado da prostituta que, pelas margens do Sena, gritava: "Ei! Rei de Frana, quando nos dar a guerra... 
a bela guerra!..." no chegara ao jovem soberano, ele tambm ouvindo pelo vento o chamado da glria?
 Somente a guerra traz a glria. O triunfo das armas completa a grandeza dos soberanos.
 A guerra emergia de sete anos de paz como um espectro envolvente no qual todos, desde o rei, os prncipes, os gentis-homens at a massa errante de espadachins desempregados, 
de cabeas vidas de aventuras, reconheciam o apetite de sua raa pelo grande jogo pico do combate. Os burgueses, artesos e camponeses no eram consultados. Teriam 
mostrado reticncia? Certamente, no. A guerra, para a nao que a empreende,  a vitria, promessa de enriquecimento, sonho enganador da libertao de insuportveis 
servides. Confiavam em seu rei. E no amavam os espanhis. Nem os ingleses, holandeses, suecos ou imperiais.
 Parecia chegado o momento de mostrar  Europa que a Frana era a primeira nao do mundo, e no entendia mais obedecer, mas ditar suas ordens.
 Faltava o pretexto. Casustas foram encarregados por Lus XrV de extra-lo do passado e do presente polticos. Depois de muita reflexo, descobriu-se que a Rainha 
Maria Teresa, filha do primeiro casamento de Filipe IV da Espanha, tinha direito de herana sobre Flandres, em detrimento de Carlos II, filho do segundo casamento. 
A Espanha fez ver qu esse direito no era fundado seno num uso local, restrito  provncia dos Pases Baixos, que exclua da sucesso os filhos do segundo casamento 
-"em favor daqueles do primeiro casamento. E que ela, Espanha, senhora daquelas provncias, no desejava lev-lo em conta. Lembrava, alis, que ao se casar com o 
rei de Frana, Maria Teresa renunciara solenemente a qualquer herana espanhola.
 A Frana respondeu que a Espanha, no tendo entregado os quinhentos mil escudos que; segundo o tratado dos Pireneus, devia ao rei de Frana como dote de Maria Teresa, 
faltava com a palavra, o que anulava as promessas precedentes.
 A Espanha replicou que no se via obrigada a fazer a entrega do dote, quando aquele estipulado pela filha de Henrique IV, ao tornar-se rainha espanhola em 1621, 
no fora tampouco fielmente pago pela corte do Louvre.
 E a Frana parou por ali com as reminiscncias dos diplomatas, base-ando-se no princpio de que em poltica  preciso ter memria curta.
 O exrcito partiu para a conquista de Flandres, e a corte acompanhou-o a passeio.
 Era primavera. Primavera chuvosa,  verdade, mas tambm a estao que com as macieiras faz florescer os projetos belicosos. Havia tantas carruagens acompanhando 
as tropas quanto canhes e equipagens de guerra.
 Lus XIV desejava que a rainha, herdeira das cidades picardas, fosse aclamada soberana em cada cidade conquistada. Queria ofuscar com seu fausto as populaes acostumadas, 
havia mais de um sculo, ao ocupador espanhol, arrogante mas miservel.
 Queria, enfim, dar a primeira estocada na industriosa Holanda, cujas pesadas naus singravam os mares at Sumatra e Java, enquanto a frota francesa, reduzida a zero, 
arriscava-se, por todo lado, a se ver sobrepujada no campo comercial.
 Para dar aos estaleiros franceses o tempo de construir navios, era preciso arruinar a Holanda.
 Mas este ltimo objetivo, Lus XIV no o confessava. Era um segredo entre Colbert e ele.
 Sob a chuva torrencial, carruagens, carros e cavalos de reserva avanaram por estradas onde a infantaria, a artilharia e a cavalaria haviam desfilado. O caminho 
estava reduzido a ravinas e lama.
 Anglica partilhava a carruagem da Srta. de Montpensier. A princesa tinha-a em amizade desde que o Sr. de Lauzun sara da Bastilha. Em uma encruzilhada, foram detidas 
por um tumulto ao redor de uma carruagem que acabava de tombar. Disseram-lhe que era a das damas da rainha. Mademoiselle avistou a Sra. de Montespan sobre um talude 
e acenou-lhe intensamente.
 -        V.enha conosco, h um lugar vago.
 A jovem alcanou-as saltando de poa em poa, a terceira saia erguida sobre a cabea. Precipitou-se, rindo, na carruagem.
 - Jamais vi algo to engraado - contou - como o Sr. de Lauzun com todo o cabelo sob o chapu. H duas horas que o rei o mantm  sua portinhola. Tinha a peruca 
to encharcada que acabou por tir-la.
 - Mas isso  horrvel! - exclamou a Grande Mademoiselle. - Assim acabar doente.
 Ela fez apressar os cavalos. Na primeira volta, seu carro topou com o do rei. Lauzun ali estava de fato, a cavalo, ensopado, com o aspecto de um pardal depenado. 
Mademoiselle tomou-lhe a defesa com voz pattica.
 -        Meu primo, voc no tem um pouco de corao? Voc faz esse gentil-homem correr o risco da febre ter. Se  to inacessvel  piedade, considere ao menos 
o que seria a perda de um de seus mais valorosos servidores.
 O rei, com os olhos fixos em um binculo de bano e ouro, no se voltara.
 Anglica olhava a sua volta. Achavam-se em uma ligeira elevao e dominavam a plancie picarda, parda e molhada. Uma cidadezinha, parda tambm em seu cercado de 
muralhas, perfilava suas ameias sob o cu carregado. Atravs da cortina de chuva, parecia morta como um destroo no fundo das guas.
 A trincheira francesa envolvia-a num cerco implacvel. Uma segunda trincheira, acompanhando a primeira, estava em via de ser terminada. Na retaguarda, o fogo dos 
canhes apontados para a cidade lanava a breves intervalos uma luz avermelhada no crepsculo. O rudo das detonaes era ensurdecedor. A Grande Ma-demoiselle tapava 
os ouvidos, depois retomava seu discurso.
 Por fim, o rei baixou o binculo.
 -        Minha prima - disse pausadamente -, voc  eloquente, mas sempre escolhe mal o momento para fazer suas arengas. Creio que a guarnio vai render-se.
 Ele transmitiu a Lauzun a, ordem de cessar fogo. O marqus partiu a galope. Distinguia-se, com efeito, um movimento  entrada da cidadela.
 -        Vejo a bandeira branca - gritou a Grande Mademoiselle, batendo palmas. - Em trs dias, sire. Voc a conquistou em trs dias! Ah! como a guerra  apaixonante.
 A noite, acantonados na cidadezinha conquistada, enquanto as exclamaes dos habitantes vinham ter s portas da habitao onde a rainha se alojara, o Sr. de Lauzun 
aproximou-se de Mademoiselle e exprimiu-lhe o reconhecimento por sua interveno. A Grande Mademoiselle sorriu. Uma onda rosada tingiu-lhe a tez delicada. Desculpou-se 
junto  rainha por deixar a mesa de jogo, pediu que Anglica a substitusse e conduziu Lauzun at um vo de janela.
 Com o olhar brilhante erguido para ele, bebia suas palavras. A luz fraca de um candelabro pousado em um consolo, parecia quase jovem e linda.
 "Mas ela est apaixonada!", disse Anglica consigo mesma, enternecida.
 Lauzun tinha sua expresso de sedutor,  qual mesclava sabiamente a dose de respeito necessria. Maldito Pguilin da Gasconha! Em que aventura no voltaria a se 
perder, atraindo o corao de uma neta de Henrique IV!
 A pea estava lotada mas silenciosa. Havia quatro mesas de jogos.
 Somente as chamadas montonas dos jogadores e o tilintar dos escudos amontoados vinham perturbar o namoro que se prolongava.
 Tambm a rainha tinha expresso feliz! A alegria de contar com mais uma cidade entre as prolas da coroa, misturavam-se satisfaes mais ntimas. A Srta. de La 
Vallire no tomava parte na viagem. Permanecera em Versalhes por ordem do rei. Antes de partir em campanha, Lus XTV, num ato pblico registrado pelo Parlamento, 
doara  amante o ducado de Vaujours, na Touraine, e o baronato por suas rendas e pelo nmero de feudos dependentes... E reconhecera a filha que tivera com ela, a 
pequena Maria Ana, que viria a ser a Srta. de Blois.
 Esses favores notrios no enganavam a ningum, nem mesmo  prpria interessada. Eram o presente de rompimento. A rainha neles via um retorno  ordem, uma espcie 
de liquidao dos erros do passado. O rei cercava-a de atenes. Ela ia a seu lado, quando entravam em uma cidade, e partilhava os cuidados e esperanas da campanha. 
Uma muda inquietao ainda vinha apertar o corao da soberana, quando seu olhar caa sobre o perfil daquela Marquesa du Plessis-Bellire, a quem, segundo comentavam, 
o rei se afeioara, impondo-a a seu squito.
 Mulher muito bela, em verdade, cujos olhos claros tinham seriedade e os gestos, uma graa a um tempo contida e espontnea. Maria Teresa deplorava a desconfiana 
que lhe haviam incutido. Aquela dama agradava-lhe. Quisera t-la como confidente. Mas o Sr. de So-lignac dizia que era uma mulher libertina e sem piedade. E a Sra. 
de Montespan acusava-a de ter uma doena de pele contrada nos meios de baixa condio que frequentava por vcio. Como fiar-se nas aparncias? Ela parecia to s 
e fresca, e seus filhos eram to belos! Se o rei a fizesse amante, quanto aborrecimento! E quanta dor!... Jamais haveria repouso para seu triste corao de rainha?
 Sabendo o quanto sua presena era penosa para a rainha, Anglica aproveitou o primeiro pretexto para afastar-se.
 A casa que o burgomestre pusera  disposio dos soberanos era pequena e incomoda. As damas e os primeiros gentis-homens ali se empilharam, enquanto o resto da 
corte e o exrcito alojaram-se com os habitantes. A acolhida por parte da populao evitava a violncia e a pilhagem. Nada havia a tomar, pois que tudo se dava. 
de bom grado. O rudo das canes e dos risos chegava amortecido ao fundo da residncia mal iluminada, onde ainda flutuava o perfume caseiro da imensa torta picarda 
de peras, coberta de creme e ovos, que trs damas da cidade tinham trazido em uma bandeja de prata.
 Chocando-se com arcas e bagagens, Anglica subiu a escada. O quarto onde se alojara com a Sra. de Montespan situava-se  direita. Os quartos do rei e- da rainha, 
 esquerda.
 Uma pequena sombra ergueu-se  luz da lamparina de leo e dela emergiu uma mscara negra com olhos de esmalte branco.
 -        No, senhora, no entre.
 Anglica reconheceu o negrinho que oferecera  Sra. de Montespan.
 - Boa noite, Naaman. Deixe-me passar.    -
 - No, senhora.
 - Que acontece?
 - H algum...
 Ela ouviu um murmrio e acreditou distinguir um galanteio.
 -        Est bem. Eu me vou.
 Os dentes do pajenzinho de bano brilharam num sorriso cmplice.
 -        O rei, senhora. O rei.," psiu!
Anglica desceu a escacla, pensativa.
O rei e a Sra. de Montespan!
 No dia seguinte, todos partiam para Amiens.
 Anglica vestiu-se logo cedo e dirigiu-se ao quarto da rainha, como era de sua obrigao. A entrada, encontrou a Sita. de Montpen-sier em grande alvoroo. 
 -        Venha ver o estado em que se acha Sua Majestade.  de dar pena!
A rainha estava em prantos. Disse que acabava de vomitar e que
 no podia mais. A Sra. de Montausier sustinha-a, gemendo, e a Sra. de Montespan gritava mais alto ainda, repetindo o quanto a dor de Sua Majestade era compreensvel. 
Haviam comunicado que a Duquesa de La Vallire acabava de juntar-se ao exrcito. Chegara com a aurora, aps ter rodado toda a noite, e viera fazer uma reverncia 
 rainha.
 -        Aquela insolente! - exclamava a Sra. de Montespan. - Deus me livre de vir a ser amante do rei! Se me ocorresse tamanha desgraa, jamais ousaria afrontar 
a rainha!
 Que significava aquela volta?
 O rei teria convocado a favorita?        
 No entanto, antes de pr-se a caminho, a corte devia dirigir-se a igreja para a missa.
 Maria Teresa subiu  tribuna. A Duquesa de La Vallire j ali se encontrava. A rainha no olhou para ela. A favorita desceu. Voltou a apresentar-se  soberana quando 
esta subiu em sua carruagem. A rainha, porm, nada lhe disse. A decepo era muito amarga. No mais podia ter a expresso afvel que se obrigara a manter, a duras 
penas, quando da ligao oficiosa de seu real esposo. Em sua raiva, proibiu que lhe trouxessem de comer. Ordenou que os oficiais de sua escolta impedissem quem quer 
que fosse de passar  frente da carruagem, com receio de que a Srta. de La Vallire chegasse at o rei antes dela.
 A noite, as equipagens que vinham sacolejando pela estrada avistaram o exrcito, de uma pequena elevao. A Srta. de La Vallire compreendeu que o rei devia estar 
l embaixo. Com a coragem do desespero fez correr a carruagem a toda a brida pelos campos.
 A rainha percebeu-o e tomou-se de terrvel clera. Queria ordenar que os oficiais perseguissem a carruagem e a detivessem. Todos suplicaram-lhe que nada fizesse 
e se acalmasse. A chegada do rei, que vinha ao encontro da rainha por um outro caminho, interrompeu a cena tragicmica.
 Ele estava a cavalo, enlameado at os olhos, e de muito bom humor. Apeou e desculpou-se por no poder subir na carruagem devido  lama. Mas, aps falar alguns instantes 
com a rainha pela portinhola, seu rosto ensombrou-se.
 De boca em boca, tiveram a confirmao de que a vinda da Srta. de La Vallire no fora desejada nem mesmo cogitada pelo rei. Que notcia teria levado a tmida amante 
a sair de sua resignao habitual? Que receios? Que certezas?
 Sozinha em Versalhes, cumulada de honras e riquezas, ela compreendera seu abandono. Tomada de vertigem, com os nervos  flor da pele, pedira sua equipagem e partira 
a todo galope em di-reo do norte, desobedecendo ao rei pela primeira vez. No tanto por saber quanto pelo sofrimento de suspeitar ou imaginar aquele a quem amava 
nos braos de outra...
 Ela no compareceu ao jantar da etapa seguinte. O acantonamento era abominvel: um burgo onde no havia quatro casas de pedra. De resto, apenas casebres de taipa.
 Anglica, que junto com as senhoritas de Gilandon e suas trs criadas errava  procura de abrigo, encontrou a Srta. de Montpensier em igual situao.
 - Estamos realmente em meio  guerra, minha pequena. A Sra. de Montausier dorme sobre um monte de palha em um gabinete, as damas da rainha, em um celeiro sobre 
molhos de trigo, e, quanto a mim, creio que contentar-me-ei com uma pilha de carvo. Anglica acabou por encontrar um celeiro repleto de feno. Alou-se pela escada 
 parte de cima, onde dormiria mais tranquila, enquanto suas acompanhantes permaneceriam embaixo. Uma lanterna suspensa s traves do teto projetava uma luz avermelhada 
atravs da penumbra. Ali tambm, Anglica-viu surgir, numa sombria apario de turbante carmesim  verde-ma, a carinha negra e os olhos brancos do negrinho'Naaman.
 - Que est fazendo aqui, diabinho do inferno?
 - Espero a Sra. de Montespan. Estou guardando sua bolsa. A Sra. de Montespan tambm vai dormir aqui.
 A bela marquesa apareceu no cimo da escada.
 -        Boa ideia, Anglica, vir partilhar meu "quarto verde", como dizem os bravos militares. Poderemos jogar um pouco, se o sono tardar a chegar.
 Deixou-se cair no feno, estiru-se e bocejou com voluptuosida-de felina.
 - Como estamos l?em aqui! Que cama deliciosa! Recorda-me minha infncia no Poitou.
 - A mim tambm - disse Anglica.
 - Havia um depsito de feno prximo ao nosso pombal. Meu amiguinho vinha ter comigo. Era um pastor de dez anos. Escutvamos o arrulhar das pombas de mos dadas.
 Ela desacolchetou o rgido corpete. Anglica imitou-a. Livraram-se das duas primeiras saias, e, com os ps nus, revolveram-se no capim seco, reencontrando antigas 
e agradveis sensaes.
 -        Do pastor ao rei - cochichou Atenas. - Que pensa voc
de meu destino, minha cara?
 Erguera-se sobre um cotovelo. A luz quente e como que misteriosa da velha lanterna avivava-lhe a carnao magnfica, a alvura dos ombros e do colo. Ela teve um 
riso um pouco brio.
 - Ser amante do rei, que coisa inebriante!
 - Voc me parece, de sbito, muito segura desse amor. Tinha dvidas, h bem pouco tempo.
 - Mas agora recebi provas que no deixam nenhuma dvida... Ontem  noite ele veio... Oh! sabia que viria, que seria durante esta viagem. O modo como deixou La Vallire 
em Versalhes no era j um penhor de sua vontade? Ele ofereceu-lhe umas coisinhas como presente de rompimento.
 - Coisinhas! Um ducado? Um baronato?
 - Ora! Para ela pode parecer deslumbrante. Deve imaginar-se no auge de seu favor. Foi por isso que se acreditou com autorizao para juntar-se  corte. Ah! Ah! 
as coisas no acabaram bem para ela... Mas eu no me contentarei com ninharias. Ele no me tratar como a uma jovem de pera. Sou uma Mortemart!
 - Atenas, voc fala com uma segurana que me assusta. Tornou-se realmente amante do rei?
 - Sim, sou sua amante... Oh! Anglica, como  divertido sentir-se todo-poderosa sobre um homem dessa tmpera! V-lo empalidecer e tremer... Suplicar, ele, to senhor 
de seus nervos, to solene e majestoso, e, por vezes, to temvel.  fato o que se comentava. No amor,  um selvagem. Perde o comedimento e o refinamento.  bastante 
guloso, mas creio no t-lo decepcionado.
 Falava rindo loucamente, rolando a cabea loura no feno e estirando-se com gestos de indolente despudor, que pareciam recriar uma cena ainda prxima. A situao 
tornou-se insuportvel para Anglica.
 -        Nesse caso est perfeito - disse secamente. - Os curiosos sabero enfim quem  a nova amante do rei, e eu me livrarei das suspeitas ridculas com que me 
importunam.
 A Sra. de Montespan ergueu-se num mpeto.
 - Oh! no, querida! Isso no. Sobretudo, nem uma palavra. Contamos com sua discrio. Ainda no  chegado o momento de ocupar abertamente o lugar. Isso criaria 
muitas complicaes. Faa, pois, o obsquio de continuar no papel que ns a destinamos.
 - Que papel? Ns quem?
 - Ora!... o rei e eu.
 - Quer dizer que vocs se entenderam, o rei e voc, para espalhar o boato de que ele estava apaixonado por mim a fim de desviar as suspeitas sobre sua pessoa?
 Atenas vigiava a jovem por entre os longos clios. Um brilho perverso surgiu em seus olhos de safira.
 -        Mas claro. Isso resolvia tudo. Minha situao  delicada. Por um lado, sou dama de honra da rainha; e por outro, amiga ntima da Srta. de La Vallire. 
As atenes do rei logo cristalizariam as tagarelices em torno do meu nome. Era preciso um contra-ataque.
No sei por qu, comearam a falar de voc. O rei reforou os rumores, cumulando-a de benefcios. Agora a rainha a trata com  frieza. A pobre Lusa desmancha-se 
em lgrimas mal a v. E ningum mais pensa em mim. A jogada est armada. Sei que voc  bastante inteligente para ter compreendido desde o incio. O rei lhe  bastante 
grato... Voc no diz nada? Estaria aborrecida?
 Anglica no respondeu. Pegou um filete de palha e mordiscou-o um tanto nervosamente. Sentia-se magoada interiormente e mais tola do que poderia ser. Devia usar 
de astciaxom os^nais hbeis comerciantes do reino! No plano das intrigas mundanas seria sob certo aspecto sempre a mesma, com um fundo de ingenuidade camponesa 
irremovvel.
 - Alis, por que o estaria? - retomava melosamente a Sra. de Montespan. - A coisa  envaidecedora para voc e dela voc j retirou benefcios e brilho. Est desapontada? 
No, no posso imaginar que tenha levado essa pequena comdia a srio... E parece que voc est apaixonada. Por seu marido. Eis o.que  divertido... Ele no  carinhoso, 
mas  to belo! E contam que comea a amansar...
 - Quer jogar uma partida? - perguntou Anglica com voz neutra.
 -        De bom grado. Tenho um baralho em minha bolsa. Naaman!
O negrinho passou-lhe o estojo de viagem. Jogaram um pouco, sem convico. Anglica, alheia ao jogo,perdeu, o que lhe acentuou o mau humor. A Sra. de Montespan acabou 
por dormir, com um sorriso nos lbios. Anglica no conseguiu imit-la. Roa uma unha, no auge da irritao, e,  medida que a noite se escoava, a cabea se lhe 
enchia de ideias de vingana. No dia seguinte o nome da Marquesa de Montespan j estaria em todos os lbios. A bela marquesa fora bastante imprudente. Anglica no 
se deixaria enganar por palavras hipcritas. Atenas usufrura de um prazer refinado em revelar-lhe seu triunfo e o papel que lhe fora reservado. Contando com o 
apoio do rei e com sua ascendncia sobre ele, dera-se ao prazer de fazer em pedaos uma mulher que invejava h muito, mas a quem manejava por interesse. J no mais 
necessitava dela, ou de seus escudos. Podia humilh-la e faz-la pagar caro o pouco sucesso que a beleza e a riqueza da Sra. du Pessis lhe haviam tomado.
 "Imbecil", pensou Anglica, mais exasperada ainda consigo prpria.
 Envolveu-se no manto e deslizou at a escada.
 A Sra. de Montespan continuava a dormir sobre o feno, em meio a seus atavios, como uma deusa em uma nuvem.
 Fora, a aurora nascente tinha um sabor de chuva. Do leste, onde o cu se avermelhava entre duas nuvens, vinha um som de pfaros e tambores. Os regimentos levantavam 
acampamento.
 Anglica patinou na lama viscosa e chegou  casa da rainha, onde sabia que encontraria a Srta. de Montpensier.  entrada, avistou sobre um banco, tiritante, miservel, 
a Srta. de La Vallire acompanhada de dois ou trs servidores e de sua jovem cunhada, morna e sonolenta. Ficou to compungida  vista do quadro desolador que se 
deteve a contragosto.
 -        Que faz aqui, senhora? Assim perecer de frio.
 Lusa de La Vallire ergueu os olhos azuis, desmesurados no rosto ceroso. Estremeceu como se sasse de um sonho.
 - Onde est o rei? - disse. - Quero v-lo. No partirei sem t-lo visto. Onde est? Diga-me.
 - Ignoro-o, senhora.
 - Voc o sabe, tenho a certeza! Voc o sabe...
 Num impulso de piedade, Anglica tomou as mos magras e glaciais que se estendiam para ela.
 - Juro-lhe que o ignoro. No vejo o rei h... h no sei quanto tempo, e asseguro-lhe de que tambm ele no se preocupa comigo.  loucura continuar aqui em noite 
to fria.
 - No me canso de repeti-lo a Lusa - gemeu a cunhadinha. - Ela est no limite de suas foras e eu tambm. Mas continua a obstinar-se.
 - Vocs no tm um quarto na aldeia?
 - Sim, mas ela queria esperar pelo rei.
 - Basta de tolices!
 Anglica tomou-a energicamente pelo brao e obrigou-a a levantar-se.
 -        Primeiro voc deve esquecer-se e repousar. O rei no se mostraria grato por ter de contemplar um rosto de fantasma.
 Na casa onde fora reservado abrigo  favorita, Anglica pressionou os lacaios a que avivassem o fogo, fez passar o aquecedor entre os lenis midos, preparou uma 
tisana e ps a Srta. de La Vallire na cama com uma autoridade que no encontrou rplica. Estendida sob as cobertas que Anglica acrescentara, ela parecia extremamente 
frgil. O epteto de "descarnada" que lhe atribura outrora um panfletrio venenoso no parecia exagerado. Os ossos sobressaam-lhe na pele. Estava no stimo ms 
de uma gravidez, a quinta em seis anos. No tinha seno vinte e trs anos; e j atrs de si um deslumbrante romance de amor e, pela frente, uma longa vida de lgrimas 
ardentes a derramar. No outono, a Srta. de La Vallire, de amazona, vivera seu esplendor final. No era possvel reconhec-la agora, to profunda fora a mudana.
 "Eis a que o amor por um homem pode reduzir uma mulher", pensou Anglica, num assomo de clera.
 Ao recordar a confidncia de Barcarola sobre as rivais que queriam envenen-la, estremeceu...
 Sentou-se  cabeceira da cama e tomou entre as mos vigorosas e firmes aquela outra mo, franzina, onde os anis giravam, muito largos.
 - Voc  boa - murmurou Lusa de La Vallire. - No entanto me haviam dito...        '
 - Por que d ouvidos ao que dizem? Voc se prejudica inutilmente. Nada posso contra as ms-lnguas. Sou como voc...
 Esteve a ponto de acrescentar "to estpida como voc. No fui seno um pra-vento involuntrio". Mas para qu? Por que orientar o cime de Lusa em outra direo? 
Com isso descobriria uma traio ainda mais dolorosa, pois que vinda de sua melhor amiga.
 -Durma agora - murmurou. - O rei a ama.
Caridosa, dizia a nica coisa capaz de acalmar a dor do corao despedaado. Lusa deu um sorrisinho, desolado.
 -Ele o prova bem mal...
 -Como pode voc diz-lo? Ele no acaba de testemunhar sua afeio com ttulos e presentes que no deixam nenhuma dvida sobre o bem em que a tem? Voc  Duquesa 
de Vaujours e sua filha no ser condenada  obscuridade.
 A favorita sacudiu a cabea. Dos olhos fechados, lgrimas escorreram-lhe lentamente pelas faces. Ela, que sempre escondera heroicamente suas gestaes ao preo 
de males inenarrveis; que vira seus filhos serem-lhe arrebatados logo ao nascer; que no tivera a liberdade de chorar a morte de trs filhos, comparecendo aos bailes 
sorridente para iludir os comentrios; que dera tudo de si para desmentir sua escandalosa situao, via-se de repente declarada me da filha do rei por uma medida 
pblica sobre a qual no fora sequer consultada. E no comentavam que o Marqus de Vardes seria chamado de volta do exlio para despos-la por ordem do rei?
 No mais adiantavam as palavras de consolo, as exortaes, os conselhos. Chegavam muito tarde. Anglica nada mais disse e continuou segurando-lhe a mo at que 
ela adormeceu.
 Ao regressar  casa da rainha, viu uma luz na vidraa. Pensou na rainha, que tambm esperava pelo rei, inventando mil suposies fortificantes e imaginando-o nos 
braos de La Vallire, enquanto esta se enregelava no andar de baixo, durante uma parte da noite.
 De que valeria gritar o nome da verdadeira rival? Acrescentar mais uma gota  mistura envenenada?
 A Sra. de Montespan tinha razo em dormir to tranquilamente em seu ninho de feno. Ela sabia - sempre o soubera - que a Sra. du Plessis jamais falaria.
 Charleroi, Armentires, Saint-Vnoux, Douai, Oudenarde, o Forte de la Scarpe, Courtrai caam como castelos de cartas.
 O rei e a rainha eram recebidos sob dossis enaltecidos pelos almotacis e, aps atravessar as ruas atapetadas, iam ouvir o Te Deum em uma daquelas velhas igrejas 
do norte em renda de pedra, cuja aguda flecha parece perfurar o cu pesado.
 Entre um e outro Te Deum, a guerra, em breves convulses, sacudia o horizonte com tiros de canhes e de mosquetes. As guarnies expunham-se a surtidas, por vezes 
sangrentas. Mas os espanhis eram pouco numerosos e, sobretudo, a Espanha estava longe. Privados de quaisquer reforos e sob a presso das populaes que no se 
dispunham a padecer os horrores da fome pela glria do ocupador, acabavam por se render.
 Em Douai, um cavalo de guarda do rei caiu morto a seu lado., Lus XIV expunha-se demais. O cheiro da plvora inebriava-o. De bom grado estaria no comando de um 
esquadro de ataque.
 Durante o cerco a Lille, descia todos os dias  trincheira como um simples granadeiro, para grande inquietao dos cortesos. Certo dia, ao ver o rei coberto de 
terra pela queda prxima de uma bala de canho, o Sr. de Turenne ameaou abandonar o cerco, se ele persistisse em se mostrar imprudente. Mas o rei, que avanara 
at as paliadas  vista do exrcito, hesitava em recuar. O Marechal du Plessis-Bellire disse-lhe ento: "Tome meu chapu e d-me o seu; se os espanhis minarem 
o penacho, equivocar-se-o de alvo".
 No dia seguinte, o rei exps-se menos. Filipe recebeu o cordon Meu.
 O vero chegava.
 J fazia bastante calor. A fumaa dos morteiros punha nuvenzi-nhas no cu de um azul esverdeado inaltervel.
 A Srta. de La Vallire ficara em Compigne. A rainha juntou-se ao exrcito; em sua carruagem vinham a Srta. de Montpensier, a Princesa de Bade, as senhoras De Montansier 
e De Montespan, e em outra,
 logo atrs, as senhoras D'Armagnac, De Bouillon, De Crqui, De Bthune e Du Plessis-Bellire, todas terrivelmente cansadas e sedentas.
 Ao desembarcar, foram surpreendidas pela passagem de um carro onde se via o agradvel cintilar de refrescantes pedaos de gelo, escoltados por trs ou quatro homenzarres 
de bigode de bano, olhar sombrio e uniforme remendado. 0 oficial que os acompanhava a cavalo no deixava qualquer dvida quanto a sua origem.
 Com uma gola pregueada opulenta e um ar altaneiro, era um puro fidalgo de Sua Majestade muito Catlica.
 As damas ficaram sabendo que o Sr. de Brouay, governador espanhol de Lille, enviava todo dia, por galanteria ou bravata, gelo ao rei de Frana.
 - Pedi-lhe que mo envie em maior quantidade - disse o rei ao portador.
 - Sire - respondeu o castelhano -, meu general o envia porque tem como "certo;que o cerco ser longo e teme que falte gelo a Vossa Majestade.^
 O velho Duque de Charost, ao lado do rei, gritou ao enviado:
 - Bem, bem, recomende tambm ao Sr. de Brouay que no imite o governador de Douai, que se rendeu como um patife.
 - Est louco, senhor? - disse o rei com vivacidade, surpreso com aquele discurso. - Encoraja meus inimigos  resistncia?
 - E uma questo de amor-prprio familiar, sire - desculpou-se o duque. - Brouay  meu primo!
 Enquanto isso, a vida da corte continuava no acampamento.
 A plancie estava coberta de tendas matizadas, dispostas simetricamente. A mais vasta era a tenda do rei, composta de trs salas, um quarto e dois gabinetes, armada 
em cetim da China e guarnecida com mveis dourados.
 O lever e o coucher do rei aconteciam exatamente como em Versalhes.
 Ofereciam-se suntuosas refeies, que as pessoas degustavam com especial prazer, pensando nos espanhis, por trs das escuras muralhas de Lille, sem outro alimento 
que rbanos para roer. No exrcito francs, o rei recebia as damas a-sua mesa.
 Numa noite, ao jantar, seu olhar caiu sobre Anglica, sentada no longe dele. As vitrias recentes e aquela mais ntima que obtivera sobre a Sra. de Montespan haviam, 
na alegria do triunfo, embotado um pouco as habituais faculdades de observao do
 soberano. Acreditou ver a jovem pela primeira vez, desde o incio da campanha, e perguntou-lhe amavelmente:
 -        Com que ento voc deixou a capital? Que diziam em Paris,
quando voc partiu?
 Anglica dirigiu-lhe um olhar frio.
 - Diziam as vsperas, sire.
 - Pergunto quais eram as novidades.
 - As ervilhas frescas, sire.
 As rplicas pareceriam engraadas se no tivessem sido pronunciadas num tom to glacial como os olhos da bela marquesa.
 O rei no tinha o esprito pronto. Emudeceu de espanto e suas faces se coloriram.
 A Sra. de Montespan salvou a situao com seu riso encantador. Disse que dar respostas precisas num tom impertinente era o jogo da moda. Em Paris, os sales e ruelles 
das preciosas fervilhavam de trocadilhos. A Sra. du Plessis era bastante hbil nisso. Todos quiseram logo experiment-lo. A refeio teve fim alegre.
 No dia seguinte, Anglica acabava de mpoar-se diante do espelho sob o olhar interessado de uma vaca, quando o Marechal du Plessis-Bellire se fez anunciar.
 Assim como todas as grandes damas, ela tambm no sofria com as incomodidades de uma viagem no campo. Desde que pudesse armar seu toucador em algum canto, mesmo 
num estbulo, tudo estava bem. O odor do p-de-arroz e dos perfumes misturava-se ao esterco, mas nem a grande dama de chambre vaporoso nem as boas vacas brancas 
e negras que lhe faziam companhia pareciam incomodadas.
 Javotte apresentava a primeira saia em cetim rosa listrado de verde-claro, e Teresa preparava-se para amarrar os cordes.
 Ao ver o marido, Anglica dispensou as criadas e voltou a debruar-se sobre o espelho. O rosto de Filipe refletia-se por trs dela com expresso encolerizada.
 - Chegaram-me rumores desagradveis sobre voc. Acreditei-me na obrigao de vir repreend-la, se no puni-la.
 - Que rumores so esses?
 - Disseram-me que mostrou mau humor diante do rei, o qual lhe dera a honra de dirigir-lhe a palavra.
 - Apenas isso? - disse Anglica, enquanto escolhia uma mosca numa caixinha de ouro trabalhada. - Correm outros rumores a meu respeito, que de h muito deveriam 
t-lo atingido. Mas  verdade que no lhe recorda a qualidade de marido, seno para fazer-me sentir a frula matrimonial.
 - Respondeu ao rei com insolncia? Sim ou no?
 - Tinha minhas razes.
 - Mas... voc falava ao reiL.
 - Rei ou no, isso no o impede de ser-um rapaz que precisa ser colocado no seu lugar.
 Uma blasfmia no causaria pior efeito. O jovem parecia sufocar.
 -        Palavra, voc perdeu a razo!
 Filipe deu alguns passos de um lado para outro; depois apoiou-se na manjedoura e ps-se a contemplar Anglica, enquanto mordiscava um filete de palha.
 -        Agora vejo o que acontece. Deixei-a um tempo  vontade em ateno ao senhor meu filho, que voc carregava e amamentava, e com isso voc concluiu que poderia 
erguer a cabea. J  tempo de retomar o adestramento.
 Anglica deu de ombros. Conteve,, no entanto, uma rplica exaltada e voltou sua ateno para o espelho, na delicada operao de fixar uma mosca na fronte direita.
 - Que castigo escolherei para ensin-la como se comportar  mesa dos reis? - retomou Filipe. - O exlio? Hum! Voc acharia um meio de aparecer no outro extremo 
do caminho, mal lhe voltasse as costas. Um bom corretivo com chicote de ces que voc j conhece? Sim. Recorda-me que voc saiu com a cabea baixa. Ou ento... Penso 
em algumas humilhaes que lhe parecem particularmente dolorosas e que me sinto tentado a infligir-lhe.
 - No canse a imaginao, Filipe. Voc  um mestre muito escrupuloso. Por trs palavras ditas ao acaso...
 - ...que se endereavam ao rei!
 - O rei , s vezes, um homem como os outros.
 -  onde voc se engana. O rei  o rei. Voc lhe deve obedincia, respeito, devoo.
 - E que mais? Devo dar-lhe o direito de reger meu destino, manchar minha reputao, escarnecer de minha confiana?
 -        O rei  o senhor. Tem todos os direitos sobre voc.
Anglica voltou-se prontamente e sondou Filipe com olhar sombrio.
 Muito bem!... E se lhe viesse a fantasia de querer-me como amante, que deveria fazer?
 -        Consentir. No compreendeu que todas estas damas, cada qual mais bela e ornamento da corte de Frana, ali esto para o prazer dos prncipes?...
 - Permita-me compreender seu ponto de vista de marido mais que generoso! A falta de afeio, ao menos seu instinto de proprietrio deveria revoltar-se.
 - Todos os meus bens pertencem ao rei - disse Filipe. - Jamais poderia recusar-lhe o que quer que fosse.
 A jovem teve uma exclamao de despeito. Seu marido tinha o dom de feri-la profundamente. Que poderia esperar de sua parte? Um protesto de cime? Seria exagero. 
No se sentia ligado a ela e mostrava-o abertamente. As atenes passageiras ao p do fogo no se dirigiam seno quela que tivera a honra de conceber seu herdeiro. 
Ela voltou-se, fora de si, derrubou a caixa de moscas, e com a mo trmula de clera pegou um pente e depois outro.
 Filipe, atrs dela, observava-a com ironia.
 A mgoa de Anglica irrompeu num fluxo de palavras amargas.
 - E verdade, j o esquecia. Uma mulher no  para voc seno um objeto, uma pea de mobilirio. Boa apenas para pr crianas no mundo. Menos que uma gua, menos 
que um criado. Podem compr-la, vend-la, usar de sua honra para honrar os outros, trat-la como refugo quando no serve para mais nada. Eis o que uma mulher representa 
para os homens de sua espcie. Quando muito um pedao de doce, um prato de comida ao qual se atiram quando esto com fome.
 - Imagem divertida - disse Filipe -, a que no nego verdade. Com essas faces brilhantes e essa roupa vaporosa, confesso-lhe que voc me parece bastante apetitosa. 
Palavra, sinto minha fome despertar!
 Aproximou-se lentamente e pousou duas mos possessivas nos ombros rolios da jovem. Anglica desprendeu-se e fechou com firmeza a abertura do corpete.
 -        No conte com isso, meu caro - disse friamente.
 Com um gesto furioso, Filipe voltou a abrir-lhe o corpete, fazendo saltar trs alfinetes de diamante.
 -        Acaso lhe perguntei se isso lhe agrada, pequena presumida?
- trovejou ele. - Ainda no compreendeu que me pertence? Ah! Ah! Eis onde lhe aperta o sapato. A bela marquesa persiste em se ver cercada de atenes!
 Despojou-a com brutalidade do corpete, rasgou-lhe a camisa e tomou-lhe os seios com uma brutalidade de mercenrio em noite de pilhagem.
 - Esqueceu de onde saiu, senhora marquesa? No era outrora seno uma pequena miservel de nariz sujo e ps encardidos. Estou vendo-a de saia esburacada e cabelos 
nos olhos. E j ento cheia de arrogncia.
 Conservava o rosto dela prximo ao seu e apertava suas tmporas com tal rudeza que ela sentia que seus ossos iriam estalar.
 - Isto sai de um velho castelo prestes a desmoronar e se permite falar ao rei com insolncia!... Um estbulo; esse  o seu cenrio, Srta. de Monteloup. Est bem 
aqui, hoje. Despertarei suas recordaes campestres.
 - Deixe-me! - gritou Anglica, tentando golpe-lo.
 Mas esmagou os punhos contra sua couraa e teve que sacudir os dedos doloridos com um gemido. Filipe explodiu em risadas e enlaou-a enquanto ela se debatia.
 -        Vamos, pastorinha, abandone-se sem mais histrias.
Ergueu-a vigorosamente e carregou-a at um monte de feno, em um canto escuro no .celeiro. Anglica gritava:   
 - Deixe-me! Deix-me!
 - Cale-se! Ir alvoroar toda a guarnio.
 - Tanto melhor. Sabero como voc me trata.
 - Que belo escndalo! A Sra. du Plessis violada pelo marido.
 - Odeio-o!
 Sufocava no feno em que a luta a mergulhava. Mas conseguiu morder, at sangrar, a mo que a segurava.
 -        Animal indcil!
 Ele bateu-lhe na boca repetidas vezes. Depois segurou seus braos para trs, paralisando-lhe os movimentos.
 -        Bom Deus! - ofegava, rindo -, jamais deparei com tamanha possessa. Seria preciso todo um regimento.
 Anglica, sufocada, perdia as foras. Seria tudo como das outras vezes. Deveria suportar a posse humilhante, o jugo bestial que ele lhe infligia, e contra o qual 
seu orgulho se acirrava. E seu amor, tambm. O amor tmido que dedicava a Filipe - que no morria, e ela no ousava confessar.
 -        Filipe!
 Ele che gava a seus fins. No era a primeira vez que empreendia esse gnero de luta no escuro de uma granja. Sabia como controlar a presa e servir-se dela, enquanto 
ela ofegava sob ele, esquartejada.
 Na profunda escurido danavam minsculos pedaos de ouro, partculas de poeira captadas por um tnue raio de sol vindo de entre duas pranchas.
 -        Filipe!
 Ouviu-a chamar por ele. Sua voz tinha um som estranhe. Lassido ou embriaguez involuntria provocada pelo cheiro do feno, Anglica rendia-se. Cansara de encolerizar-se. 
Ela aceitava o amor e os tratos desse homem que se queria cruel. Era Filipe, aquele a quem amava, j em Monteloup. No importava que a magoasse at sangrar! Era 
ele que o fazia.        
 No transporte que a libertava, aceitava-se fmea sob as exigncias do macho. Era sua vtima, sua coisa. Tinha o direito de servir-se dela como lhe aprouvesse.
 Malgrado a tenso selvagem que o dominava, Filipe percebeu aquele sbito abandono. T-la-ia machucado? Ele controlou um pouco seu cego delrio, procurou adivinhar 
o que a sombra escondia e o porqu daquele silncio.
 Ao inclinar-se, recebeu no rosto a carcia de um sopro leve e sentiu uma emoo que o fez estremecer violentamente e se abater sobre ela, frgil como uma criana.
 Praguejou repetidas vezes para iludir seu embarao.
 Ignorava, ao separar-se dela, que estivera a ponto de lev-la ao auge do prazer.
 Espiou-a com o canto do olho na semi-obscuridade, adivinhando que ajustava as roupas; cada um de seus movimentos enviava-lhe um quente odor de suor.
 Aquela resignao pareceu-lhe suspeita.
 -        Quero crer que minhas homenagens a desagradem bastante.
Mas saiba que as inflijo como uma punio.
 Ela deixou passar um momento antes de responder com voz doce e um pouco velada:
 -        Poderia ser uma recompensa.
 Filipe ps-se de p de um salto, como se diante de sbito perigo. Ainda sentia uma fraqueza inusitada. Quisera estender-se novamente no feno morno, junto de Anglica, 
para trocar simples confidncias. Tentao desconhecida e que o indignou. Mas as palavras de defesa morriam em seus lbios.
 Perplexo, o Marechal du Plessis saiu da granja com a impresso deprimente de que dessa vez ele no tivera a ltima palavra.
 
 CAPITULO XXIII
 
 "Voc  muito bela", diz Filipe. "Perigosamente bela" - O beijo do rei
 
 Uma escaldante tarde-de julho pesava sobre Versalhes. Em busca de um pouco de frescor, Anglica foi passear no caramancho de gua, na companhiarda Sra. de Ludre 
e da Sra. de Choisy. Era uma alia agradvel pela sombra de suas rvores e sobretudo pela magia de uma infinidade de jatos de gua que brotavam de ambos os lados, 
por trs de um banco de relva, e se juntavam em arcos numa abbada sob a qual podia-se passear sem se molhar.
 As damas encontraram o Sr. de Vivonne, que as saudou e abordou Anglica.
 - Tencionava falar-lhe, senhora. Hoje no me dirijo  senhora como  mais deliciosa ninfa destes bosques, mas como  me sbia que a Antiguidade sempre reverenciou. 
Em uma palavra, desejava o seu consentimento para colocar seu filho Cantor a meu servio.
 - Cantor! Mas em que uma criana to jovem pode lhe interessar?
 - Para que se quer ter ao lado um pssaro melodioso? Essa criana encantou-me. Canta  maravilha, toca com perfeio vrios instrumentos. Queria lev-lo em minha 
expedio para continuar a versejar e aproveitar sua voz de anjo.    
 - Sua expedio?
 - No sabe que acabo de ser nomeado almirante da esquadra e que o rei me envia para repelir o assdio dos turcos a Cndia, no Mediterrneo?
 - To longe! - exclamou Anglica. - No quero separar-me de meu filho.  muito jovem, antes de tudo. Um bravo cavaleiro de oito anos?...
 - Parece ter onze e no se perderia entre meus pajens,-todos meninos de boa linhagem. Meu mordomo  homem de certa idade, ele mesmo pai de muitas crianas. Recomendar-lhe-ei 
essa encantadora criana em especial. E ademais, a senhora no tem interesse na ilha de Cndia? Deve enviar um de seus filhos para defender seu feudo.
 Anglica recusou-se a levar a srio a proposta, mas prometeu refletir.
 -        Seria hbil de sua parte contentar o Sr. de Vivonne - observou a Sra. de Choisy, quando o gentil-homem a deixou. - Ele est muito bem colocado. Seu novo 
cargo de tenente-general dos mares torna-o um dos maiores dignitrios de Frana.
 A Sra. de Ludre torceu a boca num sorriso avinagrado.
 - E no esqueamos que Sua Majestade se mostra a cada dia mais disposto a cumul-lo de honrarias, ao menos para cair nas boas graas da irm do referido almirante.
 - Voc fala como se o favor da Sra. de Montespan fosse um fato consumado - observou a Sra. de Choisy. - Essa pessoa mostra-se, no entanto, piedosa.
 - O que se aparenta nem sempre vai de par com o que se . A experincia do mundo dev-lo-ia t-la ensinado. Quanto  Sra. de Montespan, talvez preferisse manter 
a aventura em segredo; mas seu ciumento esposo no lho permite. Faz tanto escndalo como se tivesse por rival um peralvilho qualquer de Paris.
 - Ah! no me fale em tal homem.  um louco, e o maior pra-guejador do reino.
 - Comentam que compareceu sem peruca a uma ceia de Monsieur; diante do espanto de todos, disse estar com duas bossas na fronte que o impediam de cobrir a cabea. 
A coisa  bastante engraada! Ah! Ah! Ah!
 - Bem menos engraada foi a afronta que ousou infligir ao rei, ontem mesmo, em Saint-Germain. Voltvamos de um passeio pelo grande terrao, quando vimos avanar 
a equipagem do Sr. de Montespan coberta de negro e com borlas de prata. Ele prprio estava de negro. O rei, muito afvel, inquietou-se e perguntou-lhe por quem estava 
de luto, ao que respondeu com voz lgubre: "Por minha mulher, sire".
 A Sra. de Ludre voltou a rir com vontade, imitada por Anglica.
 - Riam, senhoras, riam! - disse a Sra. de Choisy, alterada. - No deixam de ser modos mais dignos do quarteiro dos Halles e que desonram a corte. O rei no poder 
suport-los por muito mais tempo. O Sr. de Montespan arrisca-se  Bastilha.
 - Eis o que convir a todos.
 - Voc  uma cnica.        
 - Mas o rei no pode chegar a esse extremo; isso seria uma confisso pblica.
 - Por mim - disse Anglica -, folgo em saber que essa histria com a Sra. de Montespan tenha vindo  luz. Tive que suportar a tolice dos mexericos, envolvendo o 
rei e,minha modesta pessoa; agora sabe-se que no tinham nenhum fundamento.
 -  verdade que, por minha parte, acreditei durante muito tempo que voc iria suceder  Srta. de La Vallire - disse a Sra. de Choisy, como se o lamentasse. - Mas 
devo reconhecer que sua virtude mostrou-se inatacvel.
 Parecia ter-lhe raiva por ter sido lograda em sua perspiccia.
 - No entanto, n correria o risco de um marido to incmodo como o Sr. de Montespan - fez notar a Sra. de Ludre, cujas flechas estavam sempre cuidadosamente envenenadas. 
- Alis, no  mais visto na corte, desde que voc aqui chegou...
 - Desde que cheguei, a guerra no cessou de cham-lo at as fronteiras. Em Flandres .primeiro, no Franco-Condado em seguida.
 - No se vexe, minha cara, eu pilheriava! E ademais, no  seno um marido.
 Enquanto conversavam, as trs damas subiam a grande alia que conduzia ao castelo. A todo momento viam-se obrigadas a ter cuidado com operrios e criados que, armados 
de escadas, penduravam lampies em todas as rvores e ao longo dos caminhos. No interior dos bosquetes ressoavam golpes apressados de martelo. O parque preparava-se 
para a festa.
 - Talvez seja tempo de envergar nossos adornos - disse a Sra. de Choisy. - Parece que o rei nos reserva surpresas maravilhosas, porm, desde que chegamos, a companhia 
toda se esfalfa, enquanto Sua Majestade trabalha em seu. gabinete.
 - A festa deve comear com o crepsculo. Creio que nossa pacincia ser recompensada.
 
 O rei queria celebrar com grandes festas seu triunfo nas armas.
 A gloriosa conquista de Flandres, a fulgurante campanha de inverno no Franco-Condado haviam trazido seus frutos. A Europa, surpresa, voltava os olhos para o jovem 
soberano, por muito tempo considerado um reizinho trado pelos seus. J haviam ouvido falar de seu fausto. Agora descobriam sua audcia de conquistador e seu maquiavelismo 
poltico. Lus XIV queria dar festas cuja repercusso transpusesse fronteiras e pontuasse, como o som fascinante de um gongo, a orquestrao de sua fama.
 Encarregara o Duque de Crqui, primeiro gentil-homem de quarto, o Marechal de Bellefonds, primeiro mordomo, e Colbert, enquanto superintendente de construo, de 
presidirem  organizao dos espetculos, festins, construes, iluminaes e fogos de artifcio. Eles contavam com auxiliares habituais, Molire, Racine, Vi-garini, 
Gissey, Le Vau, equipe de pessoas diligentes e desejosas de agradar ao senhor. Os planos logo foram concludos e executados.
 No momento em que Anglica se apresentava na galeria de baixo, envergando um vestido azul-turquesa brilhante, com uma profuso de diamantes despedindo reflexos 
irisados, o rei deixava seus aposentos.
 No se vestia mais suntuosamente que de costume, mas seu humor era contagiante. Todos compreenderam que soara a hora dos prazeres.
 As grades do castelo foram abertas ao povo, que invadiu os ptios, grandes sales e terraos com olhos admirados, correndo de um ponto a outro do parque para ver 
passar o cortejo.
 O rei segurava a mo da rainha. Rechonchuda, infantil, suportando bravamente sobre os ombros pequenos um vestido bordado a ouro mais pesado que uma urna merovngia, 
ela no cabia em si de contente. Adorava as manifestaes de grande aparato. E hoje o rei lhe fazia as honras e segurava-lhe a mo. Seu corao, magoado pelo cime, 
conhecia um pouco de repouso: as lnguas bem informadas da corte no chegavam a um acordo sobre o nome da nova favorita.
  verdade que a Srta. de La Vallire e a Sra. de Montespan estavam presentes, uma bastante abatida e a outra bastante alegre, como de costume; e tambm aquela Sra. 
du Plessis-Bellire, mais bela e singular que nunca, e a Sra. de Ludre, e a Sra. du Roure; mas elas misturavam-se  multido e nenhuma tinha direito a honrarias 
especiais.
 O rei e a rainha, seguidos a distncia pela corte, caminharam pelo lado direito do castelo, descendo pela relva na direo da Fonte do Drago, recentemente edificada, 
e que o rei queria fazer admirar pela beleza e engenhosas combinaes.
 No meio de um grande tanque, um drago com o flanco atravessado por uma flecha vomitava  guisa -de sangue golfadas de gua em forma de chuva. Golfinhos nadavam 
aqui e ali, lanando gua pelas goelas abertas. Montadas em cisnes cujos bicos vertiam finos jatos de gua, dois amores fugiam do monstro ameaador, enquanto outros 
dois atacavam-no pela retaguarda. As esttuas eram revestidas de ouro verde,  exceo dos cisnes em prata, e sob as guas que se cruzavam a cena tinha um brilho 
irreal, que evocava as profundezas marinhas.
 Quando todos se extasiaram, o rei retomou a caminhada pelas alias do caramancho de gua que contornavam o tanque de La-tona e conduziam ao grande canteiro, at 
os caminhos cheios de sombra do labirinto. m ali chegando, o cu tornava-se prpura sob os ltimos raios do sol. As rvores tomavam tonalidades azuis, mas ainda 
restava luz suficiente para fazer cintilar os quadros formados por esttuas multicoloridas. A poca, todo o parque de Versalhes era aquecido pela vivacidade de uma 
colorao primitiva. As esculturas que no eram revestidas de ouro recebiam uma pintura "ao natural".     
 A entrada do labirinto, sopo, o Frgio, de barrete vermelho e o corpo disforme envolvido num manto azul, acolhia os prncipes com olhos irnicos e boca maliciosa. 
Diante dele erguia-se o Amor, significando que, se esse deus por vezes nos lana num labirinto de inconvenientes, a malcia e o bom senso nos fornecem, tambm por 
vezes, os meios de compreend-los e venc-los.
 O rei explicou com graa a alegoria  rainha, que aprovou e achou o grupo bastante pitoresco.
 O labirinto, ornato indispensvel dos jardins principescos de ento, revestia-se em Versalhes de um brilho singular. Era um quadrado de vegetao nova, compacta 
e frondosa, onde uma infinidade de pequenas alias se cruzavam e enredavam de tal modo que seria difcil acompanh-las sem se perder.
 A cada volta lanavam-se exclamaes de admirao ao deparar cada um dos trinta e nove grupos em chumbo pintado, no centro de pequenos tanques em forma de conchas 
e rochas delicadas, ali dispostos para passatempo dos passeantes. Punham-se em cena os animais das fbulas de Esopo e alguns pssaros de plumagem deslumbrante, copiados 
das aves de Mnagerie. Trinta e sete quadras de Benserade, gravadas a ouro em cartis de bronze, contavam a anedota.
 O passeio at ali fora igual aos que se faziam todos os dias, com a corte seguindo o mestre, que jamais se cansava de admirar a beleza e os progressos de seu jardim. 
Mas, ao chegar a uma interseco de cinco alias, a companhia desembocou em um maravilhoso gabinete em forma de pentgono. Contra o fundo das grandes alias, cada 
lado do pentgono era ornado com uma arquitetura de folhagens, sublinhadas por guirlandas e cujo soclo central sustentava trs vasos de mrmores ornados de flores 
vermelhas, rosa, azuis e brancas.
 No centro do gabinete, um alto jato de gua projetava sua alva coluna e, ao redor do tanque de onde jorrava, cinco mesas de mrmore haviam sido dispostas na direo 
das cinco alias. Separavam-nas vasos de faiana contendo laranjeiras com frutos cristalinos, e cada qual estava guarnecida com uma suculenta surpresa. Uma delas 
representava uma montanha, onde, em vrias cavernas, viam-se diversas carnes frias. Outra comportava um palcio em miniatura feito de maapo e de pasta aucarada. 
A terceira estava carregada com uma pirmide de doces de frutos secos. Uma outra, com uma infinidade de taas de cristal e de jarros de prata com licores de vrios 
tipos. A ltima oferecia um sortimento de obje-tos em caramelo marrom, amarelo e avermelhado, perfumados de chocolate, mel e canela...
 Foi o tempo de louvar o encanto da sala fresca e reconfortante, pois mos vidas demoliram o palcio de maapo, pilharam os caramelos e apossaram-se das taas 
de licor.
 Sentados  volta, em bancos de relva, as nobres damas e os nobres senhores fizeram o mais alegre dos piqueniques.
 Do ponto mdio onde se encontravam, tinham a viso das cinco alias, bordadas de arcadas de ciprestes alternados com rvores frutferas em vasos, os galhos guarnecidos 
com esplndidos frutos. Dali a pouco, ao partir, todos respigariam peras, mas, pssegos, cidras e cerejas ao longo do caminho.
 Na extremidade de uma perspectiva, a esttua do deus Pan despedia um ltimo reflexo dourado, enquanto para o leste dois stiros e  duas  bacantes  perfilavam  as 
escuras  silhuetas  no cu verde-plido.
 - Algum bom gnio transportou-nos s margens da Astre! - exclamou a Srta. de Scudry.
 - Breve veremos s margens do encantador Lignon pastores e rebanhos enfitados!
 Sbito, com a noite, uma infinidade de luzes acendeu-se, correndo ao longo dos bosquetes e caminhos. Os pastores e pastoras anunciados surgiram, cantando e danando, 
enquanto de um grande rochedo quarenta stiros e bacantes irrompiam agitando tirsos e pandeiros e rodeavam a amvel companhia para gui-la ao local do teatro.
 Uma calea e uma cadeirinha receberam o rei, a rainha e os prncipes, levando-os pelas avenidas de tlias.
 O teatro onde levariam a comdia fora construdo num grande espao, no cruzamento da alia real com outros caminhos.
 Ali, as coisas se tumultuaram, por uma falha de organizao. O povo "que queria ver" e.os convidados de honra, os cortesos, formavam uma multido compacta e ululante 
a que a presena dos stiros e bacantes comunicava uma aura de saturnal.
 A porta abriu-se para a calea do soberano, fechando-se em seguida. A cadeirinha da rainha no conseguiu vencer o obstculo. Em vo os porteiros gritavam:
 -        Passagem para Sua Majestade, a rainha!
 Ningum se movia. Por uma meia hora, em meio ao tumulto furioso dos que disputavam a entrada, Maria Teresa, espumando de clera, teve que se resignar a esperar. 
Por fim, o prprio rei veio busc-la.
 Desde os primeiros instantes da batalha, Anglica se retirara do combate. O bom senso aconselhara-a a que no arriscasse seu frgil traje naquele pugilato. Assim, 
afastou-se do formigueiro alvoroado, passando por algumas pessoas que, como ela, resignaram-se a esperar. A comdia era de longa durao. Mas a noite era amena, 
e o parque de Versalhes, com sua iluminao e o sussurro das aguas que brotavam do corao dos bosquetes, oferecia a seus olhos um espetculo ferico. Ela usufruiu 
de-sua solido. Um pequeno pavilho de mrmore, em um nicho de verdura pontuado de lampies como um cu estrelado, atraiu-a. Subiu trs degraus e apoiou-se a uma 
das delgadas colunas. Um odor de madressilva e de rosas flutuava a seu redor. O clamor da multido decrescia.
 Ao voltar-se, pensou estar sonhando. Um fantasma branco como neve inclinava-se diante dela, ao p dos degraus. Quando se ergueu, ela reconheceu Filipe.
 No o revira desde a batalha no celeiro, encontro que Filipe quisera doloroso e que lhe deixara, embora o negasse, uma recordao perturbadora. Enquanto a corte 
voltava para a capital, o Marechal du Plessis permanecia no norte, e depois conduzia o exrcito at o Franco-Condado. Anglica estava a par desses deslocamentos 
pelo rumor pblico, pois naturalmente no seria Filipe quem se daria ao trabalho de escrever-lhe.
 Ela escrevia-lhe, por vezes, curtos bilhetes em que falava de Carlos Henrique e da corte, esperando em vo por resposta.
 De repente estava ali, erguendo para ela os olhos impassveis; mas a sombra de um sorriso suavizava-lhe os lbios.
 - Sado a Baronesa do Triste Vestido - disse.
 - Filipe!... - exclamou Anglica. Ela esticou com ambas as mos a pesada saia de brocado. - Filipe, h dez mil libras de diamantes neste vestido.
 - O que voc trazia outrora era cinza com lacinhos de fita azul-clara no corpete e gola branca.
 - Lembra-se dele?
 - Por que no me lembraria?
 Subiu os degraus e apoiou-se a uma das colunas de mrmore. Ela estendeu-lhe a mo. Aps uma imperceptvel hesitao, ele beijou-a.
 - Acreditava que voc estivesse no exrcito - disse Anglica.
 - Uma mensagem do rei pedia-me que retornasse  corte para mostrar-me na grande festa que daria esta noite. Devo ser um de seus ornatos.   ,
 A ltima frase no traa nenhuma fatuidade; apenas o cumprimento de um papel que aceitava com escrupulosa obedincia. O rei desejava em seu squito as mais belas 
damas e os mais soberbos senhores. No poderia dispensar nesse dia um dos mais belos gentis-homens da corte. "O mais belo, sem dvida", pensou Anglica, contemplando-o, 
esbelto e magnfico, em seu traje de cetim branco bordado a ouro. O punho da espada era de ouro fino. E dourados, os taces dos calados de couro branco.
 Meses e meses novamente sem v-lo!
 -         o rei quem o retm no exrcito? - perguntou de sbito.
 - No! Solicitei-lhe, eu mesmo, que me mantivesse no comando.
 - Por qu?
 - Amo a guerra - disse.
 - Recebeu minhas cartas?
 - Suas cartas? Bem! sim... creio que sim. Anglica fechou o leque com um golpe seco.
 - Voc as leu, ao menos? - perguntou, com despeito.
 
 - Que voc quer? No exrcito tenho mais que fazer que ocupar-me de cartas de amor e todas as suas tolices.
 - Sempre to amvel!
 - Sempre to agressiva... Alegra-me encontr-la com boa disposio. Para ser sincero, far-lhe-ei uma confisso. Fazia-me um pouco de falta seu humor guerreiro. 
A campanha, militar era bastante morna. Dois ou trs cercos a cidades, algumas escaramuas... Certamente voc teria alguma ideia para animar tudo aquilo.
 - Quando voc parte?-
 - O rei mandou comunicar-me que doravante deseja-me na corte. Teremos tempo para Jhossas disputas.
 - Tempo tambm para outra coisa - disse Anglica, olhando-o nos olhos.
 A noite era to suave, e o isolamento to perfeito, na proteo do pequeno templo de amor, que ela se arriscava a todas as audcias. Ele voltara. Procurara por 
ela na confuso da festa. No resistira ao desejo de encontr-la. Abrigando-se por trs da ironia, confessara que sentira sua falta. No estariam, ambos, a caminho 
de algo maravilhoso?
 Filipe no pareceu compreender, mas suas mos tomaram com um pouco de rudeza os braos de Anglica e afastaram os braceletes para acariciar-lhe a pele lisa. Depois, 
com dedo negligente, soergueu os pesados colares de pedras preciosas que cobriam o colo da jovem.
 - Praa forte muito bem defendida - disse. - Sempre admirei a arte com que as belas se oferecem seminuas e no entanto inabordveis.
 -  a arte de adornar, Filipe. A armadura, das mulheres.  o que faz o encanto de nossas festas. No me acha bela?
 - Muito bela - disse Filipe, enigmtico. - Perigosamente bela.
 - Para voc?
 - Para mim e para outros. Mas que importa, isso a diverte. Voc estremece de prazer  ideia de brincar com fogo. Seria mais fcil fazer de um puro-sangue um cavalo 
de arado que mudar a natureza de uma rameira.
 - Filipe! - exclamou Anglica. - Oh! que pena! Voc come ava a falar como um verdadeiro peralvilho.
 Filipe ria.
 - Ninon de Lenclos sempre me recomendou que ficasse de boca fechada. "Calar-se, no sorrir, ser belo, passar e desaparecer, eis o seu gnero", dizia. Conheceria 
os maiores aborrecimentos se me afastasse dele.
 - Ninon nem sempre tem razo. Gosto de ouvi-lo falar.
 -        Para as mulheres, bastaria um papagaio.
Tomou-lhe a mo e desceram os degraus de mrmore.
 -        O som dos violinos se amplifica. O teatro deve ter aberto suas portas.  tempo de nos juntarmos ao rei e seu squito.
 Voltaram por uma alia guarnecida de arvorezinhas frutferas em vasos de prata. Filipe estendeu a mo e colheu uma maa rosada.
 -        Quer este fruto? - disse.
 Ela aceitou, quase com timidez, e sorriu ao encontrar seus olhos.
 A multido ruidosa separou-os. Os espectadores discorriam sobre os mritos da pea e o gnio de Molire; os risos que ele provocara haviam serenado os nimos.
 J era plena noite, mas a cobertura profunda do cu e dos bosques formava o cenrio ideal para o edifcio de luz diante do qual todos pararam.
 Novo palcio de sonho, frgil viso de uma noite que surgia na volta de uma alia, era guardado, por faunos dourados, tocando instrumentos rsticos sobre pedestais 
de verdura, em vasos transparentes de onde fluam cascatazinhas de viva gua. As luzes conferiam-lhe uma carapaa cristalina.
 O rei deteve-se um instante para louvar a apario, depois penetrou no efmero palcio. O teto era de vegetao ligada por finas armaes de madeira consteladas 
de ouro. Sobre a cornija alinhavam-se vasos de porcelana cheios de flores, alternando-se com bolas de cristal iluminadas, que semeavam a abbada com as cores do 
arco-ris.
 Suspensos em gazes de prata ou em guirlandas de flores, inmeros lustres clareavam aquele salo das Mil e Uma Noites. Nos espaos entre as portas, dois grandes 
archotes enquadravam uma flecha 
 de gua que, caindo numa cortina achamalotada sobre vrias conchas superpostas, ia perder-se em grandes tanques.
 No fundo correspondente  porta de entrada, um bufe arruma do sobre degraus reunia maravilhosas peas de ourivesaria, terrinas, jarros, caoulas, boies e gomis 
em prata, destinados ao servio da Boca do Rei.        
 No meio da sala avistava-se o cavalo Pgaso, com as asas desdobradas, batendo com o casco no cimo de um alto rochedo e fazendo jorrar a fonte de Hipocrene. Por 
cima do cavalo simblico, entre plantas de acar, arbustos com frutos cristalizados, ervas de massa e caramelos, lagos de gelia, Apqlo e as Musas, em conselho, 
pareciam presidir a mesa real engalanada de flores, carregada de terrinas de prata e armada em forma circular ao redor do rochedo de Pgaso. Era o momento da Grande 
Ceia. O rei tomara lugar  mesa, e as damas que desejara em sua companhia formavam a seu redor uma coroa brilhante. Todos rivalizavam no esplendor de seus trajes.
 Anglica viu, com eerto alvio e um pouco de despeito, que no fora designada para a mesa real. No podia mesmo esperar por tal honra. Desde a campanha de Flandres 
a atitude do rei para com ela permanecia ambgua. Jamais lhe testemunhava descontentamento e sua afabilidade no parecia ter-se atenuado. No entanto, uma barreira 
se erguera entre eles, a ponto de ela se perguntar, por vezes, se no era apenas tolerada na corte.
 Com um olhar irnico identificou os nomes das eleitas que enquadravam o Rei-Sol, e disse consigo mesma que, com algumas excees, era uma assembleia de rematadas 
vagabundas, de passado cheio de devassido.
 Ningum ignorava que a Sra. de Bounelle-Bullion, mulher de um secretrio de Estado, aposentada da galanteria, tinha um salo de jogo em sua casa, nem que o "mapa 
da corte" consignava a ilha dos Prazeres como residncia habitual da Sra. de Brissac. A Marechala de La Fert e a Condessa de Fiesque rivalizavam em afetao. As 
pessoas fingiam olvidar que a Histoire Amoureuse des Gauls, do terrvel Bussy-Rabutin, cobririas de sarcasmos. Mais distante, a Duquesa de Mecklembourg, antiga 
amazona da Fron-da, cujas intrigas e amores tiveram grande repercusso, exibia seu tausto e suas bochechas cadas.
 Entre as excees podia-se citar a grave Sra. de La Fayette e, em certa medida, a triste Duquesa de La Vallire, que, relegada  extremidade da mesa, beliscava 
com melancolia os pratos oferecidos pelos oficiais do rei. Ningum mais se ocupava com a favorita em declnio. Lus XIV no mais detinha nela o olhar.
 Que rosto feminino ocuparia seu esprito enquanto devorava com o costumeiro apetite a carne abundante dos cinco servios de cinquenta e seis pratos cada um que 
o Sr. Le Duc, primeiro mordomo, fazia servir por prestos criados?
 Tampouco a Sra. de Montespan tomava parte na mesa.
 Vieram dizer a Anglica que se colocasse  mesa da Sra. de Montausier. As outras mesas haviam sido armadas sob tendas, presididas pela rainha e pelas damas de honra; 
a da Sra. de Montausier comportava quarenta talheres. Anglica sentou-se entre a Srta. de Scudry, a quem conhecia um pouco por ter frequentado seu salo do Marais, 
e uma mulher que teve que olhar por duas vezes antes de convencer-se de sua presena.
 -        Francisca! Voc aqui!
 A Sra. Scarron sorriu, radiante.
 - Sim, minha cara Anglica! Devo confessar que estou quase to incrdula como voc, e mal posso crer em minha sorte quando penso no triste estado em que me encontrava 
h apenas poucos meses. Sabia que quase parti para Portugal?
 - No, mas ouvi dizer que o Sr. de Cormeil queria despos-la.
 - Ah! nem me fale nessa histria. Por ter recusado o pedido, perdi todos os apoios e amizades com que contava!
 - Mas o Sr. de Cormeil no  muito rico? Ter-lhe-ia assegurado vida farta e ao abrigo de suas perptuas ansiedades.
 - Porm  velho e, ademais, terrivelmente debochado. Foi o que disse aos que me pressionavam a aceit-lo. Mostraram-se surpresos e descontentes, opinando que minha 
situao no me permitia fazer-me de rogada, o que no acontecera no passado quando aceitei o Sr. Scarron. E persistiram em censurar-me. Disse  senhora marechala 
tudo o que encontrei de mais eloquente e sensato, mas ela me condenava, imputando-me minhas desgraas. Somente Ninon deu-me razo. Sua aprovao consolou-me em parte 
da crueldade de meus amigos... Que acha da comparao que ousaram fazer entre aquele homem e o Sr. Scarron? Oh! Deus, quanta diferena! Sem fortuna, sem obsquios, 
atraa para nossa casa toda a boa companhia; o Sr. de Cormeil t-la-ia odiado e afastado. O Sr. Scarron tinha aquela jovialidade que todos sabiam e uma bondade de 
esprito que quase ningum conheceu; o outro no tem o esprito brilhante, nem divertido, nem forte; quando fala  ridculo. Meu marido era, no fundo, excelente. 
Eu o corrigira de suas licenas; no era louco ou viciado de corao, e tinha reconhecida probidade e um desinteresse sem igual...
 Falava com fogo, a meia voz, com a paixo a que por vezes se abandonava quando sentia que podia confiar. E Anglica, sensvel ao encanto de sua personalidade, disse 
consigo mesma que era realmente bela e atraente.
 Ela destoava um pouco pela simplicidade de seu traje, mas o vestido de veludo castanho com reflexos vermelhos escolhidos com gosto e o colar de duas voltas de azeviche 
e pequenos rubis combinavam com sua carnao e a cabeleira morena.
 Contou como, totalmente abandonada, acabara por aceitar o cargo de terceira dama de tenra, quase de camareira, da Princesa de Nemours, que iria desposar o rei de 
Portugal. Foi quando, ao fazer as visitas de despedida, reviu  Sra. de' Montespan. Ela ficou surpresa, e a Sra. Scarron descreveu-lhe sua misria.
 - Mas sem me rebaixar, acredite. Atenas ouviu-me com ateno, embora estivesse se arrumando. Voc sabe que somos velhas amigas de penso e da mesma provncia, 
como voc, Anglica. Desde que est em Paris tive a-oportunidade de prestar-lhe pequenos servios. Ela acabou por assegurar-me que se encarregaria de falar ao rei 
sobre a penso que me fora suprimida e as splicas sem resposta. A seu conselho escrevi uma nova splica, que conclua dizendo: "Duas mil libras so mais do que 
necessito para minha solido e minha salvao". O rei recebeu-a com bondade e, milagre, minha penso foi restabelecida! Quando fui agradecer a Atenas em Saint-Germain, 
tive a honra de ver Sua Majestade, que me disse: "Senhora, fi-la esperar por muito tempo; mas tinha cime de seus amigos: quis ser o nico a gozar esse merecimento 
junto  senhora". Palavras to amveis no apagariam estes longos anos desgastantes? Desde ento respiro, vivo, no me vejo roda por preocupaes mesquinhas. Reencontrei" 
minha sociedade, que se mostrava contrafeita, voltei a frequentar o mundo e... eis-me aqui, em Versalhes!
 Anglica asseverou-lhe com calor que ela tambm, sinceramente, se rejubilava.
 A Sra. de Montespan, que passava por trs dela, pousou levemente a mo no ombro da protegida.
 - Ento... contente?
 - Ah! cara Atenas. Toda a minha vida testemunhar o quanto lhe sou grata!
 As mesas esvaziavam-se. O rei e seu squito levantaram-se e enveredaram por uma longa alia, enquanto a multido, que aflua por todos os lados at o local do festim, 
teve permisso de pilhar os pratos e corbelhas de doces e de frutos abandonados.
 A alia, em sua extremidade, parecia fechada por uma paliada de luz, que no entanto se abriu  aproximao do cortejo. E num concerto de guas cascateantes e rorejantes, 
de arabescos de luz, trites prateados e grutas, surgiu um novo ddalo encantador.
 Por corredores de verdura e caramanches de flores, as pessoas passaram entre alas de stiros sorridentes, ou de jatos de gua, contornaram tanques onde brincavam 
golfinhos de ouro e depararam subitamente com as cores do arco-ris que um engenhoso sistema de iluminao fazia acender a cada passo.
 O corredor ferico desembocou na sala construda para o baile, ornamentada de prfiro e mrmore. Do teto, em painis decorados com sis de ouro contra um fundo 
azulado, desciam lustres de prata. Estandartes de flores balanavam-se na cornija, e entre as pilastras que a sustentavam haviam sido armadas tribunas e duas grutas 
destinadas aos msicos, onde avistavam-se Orfeu e Arion dedilhando liras.
 O rei abriu o baile com Madame e as princesas. Depois damas e gentis-homens avanaram, por seu turno, evoluindo com seus trajes luxuosos em complexas figuras de 
dana. As danas antigas eram conduzidas com mais rapidez, num ritmo frvolo de farndola. As novas surpreendiam pela lentido hiertica. Mais difceis de se seguir, 
concentravam-se na postura do p e nos gestos estudados dos braos e das mos. Um irresistvel movimento, preciso, minucioso, quase mecnico, como o de um relgio, 
arrastava os autmatos viventes numa ronda incansvel, numa coreografia aparentemente serena, mas que, pouco a pouco, com a sustentao da msica, enchia-se de tenso 
no formulada. Havia mais desejo contido nas pacientes aproximaes, no roar das mos que logo se separavam, nas lentas voltas de um olhar ardente, nos gestos lnguidos 
e inacabados de oferecimento e recusa que na mais endiabrada das "correntes".
 A corte, de sangue quente, enchia-se de paixo sob aqueles ritmos aparentemente comportados. Reconhecia, sob essa mscara hipcrita, a aproximao do Amor, nem 
tanto filho do fogo como da noite e do silncio.        
 Anglica danava bem. Sentia um prazer pessoal em seguir os desenhos complicados dos bales. Pbr vezes, de passagem, dedos retinham os seus, mas ela no fazia caso, 
distrada. Reconheceu no entanto as duas mos reais nas quais as suas pousaram, ao acaso de um rondo. Ergueu o olhar para os olhos do rei e baixou-o, depois, vivamente.
 -        Ainda zangada? - disse o monarca a meia voz.
Anglica afetou espanto.
 - Zangada? Em semelhante festa! Que quer dizer Vossa Majestade?        ".        .
 - Pode semelhante festa atenuar o rancor que me votou h longos meses?
 - Sire, est me confundindo. Se Vossa Majestade me atribui tais sentimentos a seu respeito, h longos meses, por que jamais o observou?
 -        Temia muito que me lanasse ervilhas no rosto.
A dana separou-os.      .
 Quando voltou para diante dele, ela viu que os olhos castanhos, impiedosos e doces, pediam uma resposta.
 - A palavra "temer" no assenta nos lbios de Vossa Majestade!
 - A guerra parece-me menos temvel que a severidade de sua linda boca.
 Assim que lhe foi possvel, Anglica deixou a dana e veio esconder-se na ltima fileira das tribunas, entre as senhoras idosas que seguiam as evolues agitando 
seus leques. Um pajem veio procur-la da parte do rei, pedindo-lhe que o seguisse.
 O rei aguardava, fora da sala de baile, na sombra de uma alia onde as luzes no projetavam seno leve claridade.
 - Voc tem razo - disse, num tom jocoso -, sua beleza nesta noite me d coragem. E chegado o momento de nos reconciliarmos.
 - Seria o momento certo? Esta noite, toda a companhia est vida pela presena de Vossa Majestade, e daqui a um momento todos iro procur-lo com os olhos e interrogar-se 
sobre sua ausncia.
 -        No. Esto danando. Podero sempre supor-me em outro ponto da sala. Esta , ao contrrio, a ocasio esperada para trocarmos algumas palavras sem atrair 
a ateno.
 Anglica sentia-se enrijecer como uma barra de ferror A manobra era clara. A Sra. de Montespan e o rei entendiam-se novamente para envolv-la no jogo de que j 
fora vtima.
 - Como voc  renitente! - disse ele, com doura, tomando-lhe o brao. - No tenho ao menos o direito de dirigir-lhe meus agradecimentos?
 - Agradecimentos? A que ttulo?
 - O Sr. Colbert disse-me repetidas vezes que voc fazia maravilhas no papel que lhe confiou junto s pessoas da corte. Voc soube criar um clima de confiana em 
torno dos assuntos em voga, explicar, esclarecer os espritos, e tudo num plano mundano, sem despertar desconfiana, ao contrrio! No duvidamos que lhe devemos 
alguns sucessos financeiros.
 - Oh!  isso? - disse ela, desprendendo-se. - Vossa Majestade no tem por que manifestar-me gratido. Ali encontro sobejas vantagens... e isso me basta.
 O rei estremeceu. A sombra para que a arrastara era to espessa que ele no podia distinguir seus traos. Reinou entre eles um silncio tenso e embaraoso.
 - Decididamente, voc me odeia! Peo-lhe,  preciso que me revele o motivo.
 - Vossa Majestade ignora-o totalmente? Com sua perspiccia, isso me espanta.
 -' Minha perspiccia se deixa com frequncia pilhar em erro pelo humor das damas. De modo algum sinto-me seguro nesse ponto. E que homem, mesmo o rei, poderia vangloriar-se 
de consegui-lo?
 Sob o tom folgazo, ele parecia desamparado. Seu nervosismo cresceu.
 - Retornemos at seus hspedes, sire, eu lhe peo...
 - No h pressa. Decidi ver o caso s claras.
 - E eu decidi no mais servir de pra-vento a Vossa Majestade e  Sra. de Montespan - explodiu. - O Sr. Colbert no me paga para tal. Tenho muito apreo por minha 
reputao; dela disponho segundo minha vontade e no a ofereo a ningum... nem mesmo ao rei.
 - Ah!... Ento  isso. A Sra. de Montespan quis manipul-la como uma marionete, para desviar sobre seu suposto favor as suspeitas de seu insuportvel marido. Plano 
hbil, com efeito.
 - Que Vossa Majestade no ignorava.
 - Trata-me de velhaco ou de hipcrita?
 - Devemos mentir ao rei ou desagradar-tte?
 - Eis ento a opinio que voc faz de seu soberano.
 - Meu soberano no tem por que conduzir do modo como o faz a meu respeito. Por quem me toma? Serei-um brinquedo do qual se pode dispor? No lhe perteno.
 Duas mos violentas agarraram os punhos de Anglica.
 -        Voc est enganada. Todas as minhas damas me pertencem com direito de prncipe.
 Ambos tremiam de clera. Permaneceram assim um instante, os olhos faiscantes, a se enfrentar. O rei recomps-se primeiro. 
 -        Vamos, no devemos partir para a guerra por futilidades. Acreditar-me-ia se dissesse que procurei convencer a Sra. de Montespan a no escolh-la como vtima? 
"Por que ela?", perguntei-lhe. "Porque", respondeu, "somente a Sra. du Plessis-Bellire  capaz de sobrepujar-me. No admitirei que se diga que Vossa Majestade me 
deixou por algum que no valha a pena." Est vendo?  a prova, em certa medida, da estima que lhe tem... Ela a julgava bastante ingnua para entrar no jogo sem 
perceb-lo. Ou bastante dissimulada para aceit-lo. Enganou-se de ambos os lados. Mas no  justo fazer-me suportar o peso de seu rancor. Por que esse pequeno compl 
magoou-a a tal ponto, Bagatela?  to grande desonra passar por amante do rei? Voc no obteria uma certa fama? Vantagens?... Lisonjas?...
 Com um brao acariciante, atraiu-a para junto de si e a reteve, falando-lhe a meia voz, inclinado para ela e procurando adivinhar o rosto que a escurido da noite 
lhe escondia.
 -        Sua reputao denegrida, voc disse? No, no na corte. Ela ganharia um novo brilho, acredite-me... Ento? Devo pensar que acabou por se deixar prender 
na armadilha?-Por acreditar na farsa?... E isso, ento? Decepcionada?...
 Anglica no respondia, a fronte escondida no veludo do gibo perfumado de ris, sensvel aos braos que a retinham e que se cerraram num amplexo. H tanto tempo 
no se deixava embalar assim... Doura de ser frgil, de sentir-se pueril e de fazer-se repreender um pouco.
 -        Voc, to positiva, se deixou iludir?
 Ela balanou a cabea com veemncia, sem responder.
 -        No, eu o sabia - disse o rei, rindo. - E no entanto ter sido somente comdia? Se lhe confessasse que no a olhava sem desejo e que frequentemente veio-me 
 ideia...
 Anglica desprendeu-se com firmeza.
 -        No acreditaria no que diz, sir... Sei que Vossa Majestade ama outra pessoa. A escolhida  bela, envolvente, invencvel e no apresenta seno vantagens, 
 parte o aborrecimento de um marido desconfiado,  verdade.
 -        Aborrecimento que no  pouco - disse o rei com uma careta.
Retomou o brao de Anglica e conduziu-a ao longo de uma alia de teixos aparados.
 -        No se lhe afigura tudo o que Montespan pode inventar para incomodar-me. Acabar por arrastar-me diante de meu prprio Parlamento. Por certo Filipe du 
Plessis seria um marido mais cmodo que o sacripanta do Pardaillan. Mas no  o caso - concluiu com um suspiro.
 Deteve-se, segurando-lhe o brao para olh-la bem no rosto.
 -        Faamos as pazes, marquesinha. Seu rei lhe pede humilde mente perdo. Insistir em sua frieza?
 Adivinhavam-se-lhe o encanto do sorriso e o brilho dos olhos.
 Ela estremeceu. Aquele rosto inclinado, de lbios flexveis e sorridentes, e de olhar ardente, atraa-a irresistivelmente.
 Sbito fugiu, erguendo a pesada saia roagante para correr. Mas logo se deteve junto  cerca formada pelas sebes.
 Ofegante, apoiou-se ao soclo de uma esttua e olhou a seu redor. Encontrava-se no bosquete da Girndola, de um negro de veludo, onde se desenhava a pluma branca 
de um jato de gua rodeado por dez outros jatos que caam em arcos alvacentos no tanque redondo.
 L no alto, no cu de um azul esmaecido, a lua longe do espet-culo mundano lanava sua plcida claridade. Da festa no vinha seno uma longnqua melodia. Ali reinava 
o silncio, perturbado somente pelo sussurro da gua e pelos passos do rei, que se aproximava, esmagando com os altos taces a areia mida da alia.
 -        Meninazinha - murmurou -, por que fugiu?
 Retomou-a nos braos com fora, obrigando-a a retornar ao calor de seu ombro, enquanto apoiava, a face em seus cabelos.
 -        Tentaram mago-la e voc no o merecia. Sabia, no entanto, de que crueldade as mulheres, entre elas, so capazes. Cabe a mim, seu soberano, defend-la. 
Perdoe-me, meninazinha.
 Anglica desfaleceu, o esprito desnorteado por uma vertigem plena de doura. Os traos do soberano permaneciam invisveis na sombra de seu grande chapu,- sombra 
que os envolvia, a ambos, enquanto ela escutava sua voz baixa e -envolvente.
 -        Os seres que aqui vivem reunidos so terrveis, minha criana. Saiba disso. Tenho-os sob minha frula, pois sei muito bem de que desordens, de que loucura 
sanguinria so capazes, quando esto livres. No existe um que, tendo uma cidade ou provncia, no esteja pronto a erguer-se contra mim, pela desgraa de meu povo. 
Por isso, quero-os sob minha mira. Aqui, em minha corte em Versalhes, so" inofensivos.. Nenhum escapar. Mas feras e rapaces no convivem sem dano.  preciso ter 
bico e garras para sobreviver. Voc no "pertence  essa raa, minha linda Bagatela.
 Ela perguntou-lhe to baixo que ele teve que inclinar-se para ouvi-la:
 - Vossa Majestade quer me dizer que meu lugar no  na corte?
 - Decerto que no. Quero-a aqui. Voc  uma de suas mais belas jias. Seu gosto, sua suavidade, sua graa encantaram-me. E disse-lhe o quanto dou valor a seu trabalho. 
Desejava apenas que voc escapasse aos rapaces.
 - Escapei de bem pior - disse Anglica.
 O rei pousou docemente a mo em sua fronte obrigando-a a inclinar a cabea para trs e expondo  luz do luar seu rosto de tez aveludada. No escrnio escuro dos 
clios, os olhos verdes de Anglica tinham um brilho de manancial, conservando seu mistrio no fundo de alguma floresta. O rei inclinou-se e quase com temor pousou 
os lbios naqueles jovens lbios que sbito mostravam um vinco amargo. No queria amedront-la, mas logo no foi seno um homem vido, subjugado por seu desejo e 
pelo contato da boca acetinada que a princpio, fechada e reticente, estremecera, depois se animara e revelara-se sbia.
 "Mas...  uma mulher experimentada", vislumbrou, de repente.
 Intrigado, mirava-a com novos olhos.
 -        Agradam-me seus lbios - disse. - No se assemelham a quaisquer outros. Lbios de mulher e de menina a um tempo... frescos e ardentes.
 No arriscara outras atitudes. E quando ela se desprendeu, lentamente, ele no a reteve. Permaneceram indecisos, a alguns passos um do outro. Sbito, uma srie 
de detonaes surdas sacudiu a frondosidade do parque.
 -        Os senhores fogueteiros comeam a acender os foguetes. No podemos perder o espetculo. Voltemos - disse o rei a contragosto.
 Caminharam em silncio at a proximidade da sala de baile. O rumor da multido, pontuado por surdas exploses de fogos de artifcio, chegava at eles como se fosse 
o rudo do mar. A claridade se fez mais viva na volta de uma moita de jasmim.
 O rei tomou a mo de Anglica para afastar um pouco a jovem e contempl-la.
 - Ainda no a felicitei por seu traje. E uma maravilha que no se iguala seno a sua beleza.
 - Agradeo a Vossa Majestade.
 Anglica mergulhou numa reverncia. O rei, inclinado, o p curvado, beijou-lhe a mo. - Ento?... Amigos, novamente?
 - Talvez.
 - Ouso esper-lo...
 Anglica afastou-se um pouco assustada, ofuscada por estranhas luzes e perturbada por ver que o palcio lhe aparecia ao longe como se vestido de fogo contra um 
fundo de trevas.
 Os espectadores lanavam gritos, assombrados. No enquadramento da porta queimava uma imagem de Janus, de dupla face. As janelas do rs-do-cho sustinham trofus 
de guerra luminosos e as do primeiro andar, as imagens inflamadas das Virtudes. Prximo  cumeeira, um imenso sol despedia seus raios. Mais abaixo, ao nvel do cho, 
o edifcio parecia contornado por uma balaustrada incandescente.
 A calea do rei passou, puxada por seis fogosos cavalos, montados por postilhes com archotes. A rainha, Madame, Monsieur, a Sita. de Montpensier e o Prncipe de 
Conde ali haviam tomado lugar.
 Fizeram alto diante do tanque de Latona, que prolongava a luminosidade do castelo. No era mais que um lago de fogo onde seres irreais agitavam-se num caramancho 
furta-cor de guas que se cruzavam. Inmeros vasos fosforescentes alternando-se com candelabros antigos sublinhavam as belas curvas da Ferradura.
 O rei fez parar a calea um instante e contemplou em silncio o harmonioso desenho das luzes. Por trs das carruagens, a multido acorrera enchendo a noite de gritos 
de alegria.
 Os veculos voltaram e enveredaram pela grande alia, bordada de uma dupla fileira de termas, que graas a um incompreensvel artifcio pareciam translcidas. Mas^sbito, 
de entre as esttuas, brotaram fachos de luz. Nas profundezas do grande parque, mirades de foguetes estrondearam como trovo. E os tanques inflamavam-se por todos 
os lados, como crateras de vulco.
 O alarido crescia, produzindo pnico. Mulheres amedrontadas refugiaram-se correndo nas grutas e sob as rvores. O parque inteiro de Versalhes reverberava. Os canais 
e lagos tornavam-se prpura sob os reflexos incandescentes.
 Grossos foguetes cortavam, fulgurantes, o cu negro; outros riscavam-no de listras. Outros ainda transformavam-se em caudas de cometa ou lagartas multicores.
 Por fim, no momento em que, de todos os pontos do horizonte, foguetes convergiram numa abbada de rastos luminosos, viram-se planar nos ares, como deslumbrantes 
borboletas, um L e um M, iniciais do rei e da rainha.
 O vento da noite carregou-os lentamente por entre o fumo avermelhado da iluminao ferica que se extinguia.
 As derradeiras luzes rseas da festa mesclaram-se s do cu, que se coloria pelo leste. A aurora despontava.
 Lus XIV deu ordem de retornar a Saint-Germain. Os cortesos, estafados, seguiam-no a cavalo ou em seus prprios carros.
 Todos porfiavam em repetir que jamais se vira festa to bela no mundo.
 
 CAPTULO XXIV
 
 Lio de amor nos braos de Anglica
 
 Uma festa inesquecvel, dois passeios galantes na sombra de uma alia; sentia-se arrebatar pela vaga dourada do encantamento, mas um ressaibo de ansiedade amargava-lhe 
a boca e perturbava as agradveis reminiscncias...
 Tal era o estado de Anglica no dia que se seguiu  noite em Versalhes.
 Em meio a seu pensamento errante, uma preocupao menor rondava com curiosidade e vinha se impor: o rosto redondo do pequeno Cantor, a quem o Sr. de Vivonne queria 
tomar como pajem.
 "Acertemos essa questo primeiro", disse consigo Anglica, arrancando-se ao preguioso devaneio.
 Deixou o div onde repousava da fadiga da noite anterior. Ao atravessar a pequena galeria da Manso do Plessis, chegou-lhe, vinda de cima, a voz de Cantor:
 - "Marqus, tens mais sorte que eu
 Por ter esposa to bela..."
 A jovem deteve-se diante da porta de carvalho negro, hesitando um instante. Jamais chegara at aquela porta, que dava para os aposentos de Filipe. Ela recuou, dizendo 
consigo que sua atitude no tinha sentido.
 A voz de oito anos que l do alto cantava os amores ilegtimos do Rei Henrique IV f-la sorrir e ela reconsiderou.
 Mal bateu levemente na porta, La Violette veio abri-la.
 Filipe, diante do espelho, acabava de vestir o gibo azul. Estava de partida para Saint-Germain. Anglica deveria segui-lo em breve, convidada para uma partida 
com a rainha e uma pequena ceia que se seguiria. As pessoas da corte dispem de pouco tempo para acertar as questes domsticas.    
 O marqus, com cortesia, no mostrou surpresa ao ver sua mulher apresentar-se em seus aposentos. Pediu-lhe que se sentasse e continuou a toalete, aguardando sem 
impacincia que ela lhe comunicasse o objeto de sua visita.
 Anglica olhava Filipe colocar os anis. Ele os escolhia demoradamente, experimentava-os e examinava com olhar crtico a mo estendida diante de si. Uma mulher 
no o faria com maior cuidado.
 Ela encontrou naquela mscara de homem concentrado em tarefa to ftil a rija frieza da tolice.
 Que vinha buscar junto dele? Um conselho? Isso parecia derri-srio. Para romper um silncio que se tornava embaraoso, acabou por dizer:       "
 -        O Sr. de Vivonne solicitou a companhia de meu filho Cantor Filipe no mostrou interesse. Suspirou e retirou todos os anis
 da mo direita, cujo conjunto lhe desagradava. Permaneceu pensativo diante dos escrnios abertos; depois, parecendo lembrar-se de Anglica, disse com enfado:
 - Ah! Sim? Aceite meus cumprimentos pela boa nova. O favor do Sr. de Vivonne est em ascenso e pode-se contar com a irm, a Sra. de Montespan, para mant-lo largo 
tempo em seu znite.
 - Mas o Sr. de Vivonne deve partir numa expedio ao Mediterrneo.
 - Mais uma prova da confiana que o rei lhe testemunha.
 - A criana  muito nova.
 - Que pensa de tudo isso?
 - Quem? Cantor? Oh!... pareceu-me contente e at bastante desejoso de seguir esse gentil-homem. O que no espanta. O Sr. de Vivonne o mima e sempre o cumula de 
doces. Mas no incumbe a um garoto de oito anos decidir de sua sorte. Hesito em...
 As sobrancelhas de Filipe esboavam uma mmica de surpresa.
 - Quer que ele faa carreira?
 - Sim, mas...
 -        Quantos mas! - disse com ironia.
Ela falou rapidamente, as faces em fogo:
 -        O Sr. de Vivonne tem reputao de libertino. Fez parte do bando de Monsieur. Todos sabem o que isso significa. No queria confiar meu filho a um homem 
que poderia corromp-lo.
 O Marqus du Plessis colocara nos dedos um grande solitrio e dois outros anis. Caminhou at a janela e f-los reverberar  luz do sol.
 - Ento a quem voc desejaria confi-lo?- - disse com voz lenta. - Ao pssaro raro, de costumes puros, nem intrigante, nem aborrecido, influente junto ao rei, cumulado 
por ele de honras e... que no existe! No  simples o aprendizado da vida. Agradar aos grandes no  tarefa fcil.
 -  muito jovem - repetiu Anglica. - Temo que seja testemunha de espetculos que firam sua inocncia.
 Filipe deu uma risadinha contida.
 -        Quanto escrpulo para uma me ambiciosa! De minha parte, tinha apenas dez anos quando o Sr. de Coulmers me colocou em seu leito. E, quatro anos mais tarde, 
mal a voz revelou minha nova condio de homem, a Sra. de Crcy, desejosa de fruir os benefcios de uma seiva primaveril, ofereceu-me, ou antes, imps-me, o asilo 
de sua alcova. Ela devia ter uns quarenta anos... Que diz da aliana entre esta esmeralda e a turquesa?
 Anglica no tinha palavras. Estava completamente aterrada.
 - Filipe! Oh! Filipe!
 - Sim, de fato no combina. Tem razo. O brilho e o verde da esmeralda prejudicam o azul da turquesa. Colocarei outro diamante perto da esmeralda.
 Ele lanou-lhe um olhar e teve um risinho de mofa.
 - Vamos, abandone essa expresso perplexa. Se minhas reflexes a confundem, por que pedir-me conselho? Voc ignora ou afeta ignorar em que consiste a educao completa 
de um gentil-homem? Deixe seus filhos crescerem entre honrarias.
 - Sou sua me. No so s as honrarias que contam. No posso abandon-los moralmente. Sua me jamais velou por voc?
 Filipe esboou um momo de desdm.
 -        Oh!  verdade, eu esquecia... No tivemos a mesma educao. Se minhas lembranas so exatas, voc cresceu de ps nus, entre a sopa de couve e as histrias 
de assombraes. Nessas condies  possvel ter me. Em Paris, na corte, no sucede o mesmo a uma criana.
 Retornara ao toucador e abria novos escrnios. Ela no lhe via o rosto inclinado, mas somente uma cabea loura que parecia vergar sob antigo fardo.
 - Nu e tiritante - murmurou -, por vezes faminto... confiado a lacaios e criadas que me pervertiam, tal era minha vida nesta mesma manso que herdaria um dia. Mas, 
quando deviam exibir-me, nada era belo demais para mim. Os mais ricos trajes, suaves veludos, golas delicadas. Horas inteiras meus cabelos eram confiados ao cabeleireiro. 
Terminada a ostentao, retornava a meu gabinete escuro e ao abandono dos corredores. Eu me aborrecia. Ningum se preocupou em ensinar-me a ler e escrever. Considerei 
uma vantagem entrar para o servio do Sr. de Coulmers, que minha linda aparncia havia seduzido.
 - Voc vinha por vezes ao Plessis...
 - Brevssimas estadas. Devia aparecer e gravitar ao redor do trono. S avana querfi aparece.. Meu pai, de quem era nico filho, no admitiria deixar-me no fundo 
de uma provncia. Ele felicitou-se por ver-me to rapidamente encaminhado... Eu era muito ignorante e sem esprito, mas era belo.
 - Eis por que voc jamais encontrou o amor - disse Anglica, como se falasse consigo mesma.
 - Mas sim! Parece-me que nesse campo minhas experincias foram numerosas e variadas.
 - No  amor, Filipe.
 Ela sentia-se gelada, triste, cheia de piedade como se diante de um infeliz privado do indispensvel. "A maior morte  a do corao!" Quem lho dissera um dia, com 
a melancolia desdenhosa dos eleitos? O Prncipe de Conde, um dos maiores senhores pela linhagem, fortuna e glria.
 -Jamais amou... uma vez sequer, com sentimento exclusivo... a uma mulher?
 -Sim... Minha ama-de-leite, sem dvida. Mas  coisa distante.
Anglica no sorriu. Olhou-o com gravidade, as mos sobre os joelhos.
 - Esse sentimento - murmurou - que transpe em um nico ser a grandeza do universo, a doura de todos os sonhos no formulados, o alento e a fora da vida...
 - Voc fala  maravilha dessas coisas. Por minha f, no creio que tenha algum dia conhecido semelhante exaltao... No entanto, vislumbro o que voc quer dizer. 
Uma vez estendi a mo, mas a miragem esvaiu-se...
 As plpebras velaram-lhe o olhar, e o rosto liso, num leve sorriso, vestiu a expresso enigmtica das esttuas jacentes em pedra que se vem no tmulo dos reis. 
Jamais parecera to distante como no momento em que talvez se aproximava dela.
 -        Era no Plessis... Eu completara dezesseis anos e meu pai comprara-me um regimento. Estvamos na provncia para o recrutamento. Em uma festa apresentaram-me 
uma adolescente. Tinha a minha idade, mas a meus olhos experimentados no era seno uma criana. Envergava um vestidinho cinza corn laos azuis no corpete. Tive 
vergonha quando ma designaram como prima. Mas, quando lhe tomei a mo para conduzi-la  dana, senti que tremia, e aquilo causou-me uma sensao nova e maravilhosa. 
At ento fora eu quem sempre tremera diante do desejo imperioso das mulheres maduras ou das impertinncias picantes dos jovens coquetes da corte. Aquela garota 
devolvia-me um poder que fora escarnecido. Seus olhos admirados foram um blsamo, um licor inebriante; senti que me tornava um homem e no mais um brinquedo; um 
mestre e no mais um criado... No entanto, mostrei-a zombeteiro a meus companheiros: "Apresento-lhes a Baronesa do Triste Vestido". Ento, ela fugiu! Olhei minha 
mo vazia e tomei-me de um sentimento intolervel. O mesmo que experimentara no dia em que um pssaro que capturara, e que fizera meu amigo, voara-me das mos. Tudo 
pareceu-me triste. Quis encontr-la para acalmar sua clera e rever seu olhar. No sabia que fazer, pois minhas iniciadoras no me haviam ensinado a seduzir uma 
jovem assustadia. De passagem, apanhei um fruto em uma taa, com a inteno de oferec-lo em conciliao... Era uma ma, creio, rsea e dourada como seu rosto. 
Procurei-a nos jardins. Mas no voltei a v-la naquela noite...
 "Que teria acontecido se voltssemos a nos ver naquela noite?", pensava Anglica. "Teramos nos olhado timidamente... Ele ter-me-ia oferecido uma ma, e caminharamos 
 luz da lua, de mos dadas..."
 Dois louros adolescentes, pelas alias murmurantes do parque onde vinham rondar as coras da floresta de Nieul... Dois adolescentes invadidos por uma felicidade 
inefvel, que s se pode fruir aos dezesseis anos, quando se tem vontade de morrer sobre o musgo beijando-se na penumbra... Anglica no teria surpreendido o segredo 
do cofrezinho de veneno... Sua vida talvez seguisse outro destino...
 - E a jovem, jamais tornou a v:Ia? - perguntou em voz alta, com um suspiro.        
 - Sim. Bem mais tarde. E veja o estranho fenmeno e as iluses com que a juventude pode ornar as primeiras paixes. Pois ela se tornara mais m, e endurecida, ou, 
numa palavra, mais perigosa que todas as outras reunidas.
 Estendeu as mos abertas diante de si, pensativo.
 - Que acha dos anis? Agora, parece-me perfeito.
 - Sim, de fato... Mas um nico anel no dedo mnimo  mais discreto, Filipe.
 - Tem razo.       .-    r*.
 Tirou os anis suprfluos, devolveu-os aos escrnios e, vibrando uma sineta, ordenou ao criado que buscasse o jovem Cantor.
 Quando a criana se apresentou, Anglica e-Filipe estavam em silncio, face a face.
 Cantor vinha a passo decidido. Voltava do manejo e procurava estalar as esporas.
 -        Com que ento, senhor - disse Filipe, alegremente -, parte para a guerra?...
 O rosto sempre um pouco taciturno do garotinho iluminou-se.
 - O Sr. de Vivonne falou-lhe de nossos projetos?...
 - Vejo que voc os subscreve.
 - Oh! Senhor, ser magnfico bater-me cm os turcos!
 - Acautele-se. Os turcos no so cordeiros. No se deixaro encantar por suas canes.
 - No quero acompanhar o Sr. de Vivonne para cantar. Desejo embarcar num navio. H muito penso nisso. Quero ir para o mar!
 Anglica estremeceu e suas mos crisparam-se. Reviu seu irmo Josselino, com a mesma chama no olhar", cochichando com paixo: "Quanto a mim, vou para o mar".
 Chegara, pois, a hora da separao!... As pessoas lutam pelos filhos, protegem-nos, trabalham pensando que um dia desfrutaro de sua companhia e aprendero a conhec-los.
 E quando chega o dia!... J esto grandes. E as abandonam.
 Os olhos do pequeno Cantor estavam claros e serenos. Ele sabia aonde queria ir.
 "Cantor no mais me necessita", pensou ela. "Eu o sei. Parece-se tanto a mim! Algum dia precisei de minha me? Corria os campos, agarrava-me  vida com unhas e 
dentes. Aos doze anos parti para a Amrica sem sequer olhar para trs..."
 Filipe pousou a mo nos cabelos de Cantor.
 - Sua me e eu decidiremos se lhe convm o batismo de fogo. Poucos garotos na sua idade tm a honra de ouvir o estrondo do canho. E preciso ser forte para isso!
 - Sou forte e no tenho medo.
 - Veremos e comunicar-lhe-emos nossa deciso.
 O garotinho inclinou-se diante do padrasto e saiu, muito grave, cnscio de sua importncia.
 O marqus tomou das mos de La Violette um chapu de veludo cinza, dando um piparote numa poeirinha.
 - Falarei ao Sr. de Vvonne - disse -, e verei se suas intenes so puras com relao  criana. Seno...
 - Preferia v-lo morto! - disse Anglica, feroz.
 - No fale como uma me antiquada. No assenta no mundo em que vivemos. No que me concerne, penso que o Sr. de Vivon-ne  um esteta que se entusiasmou pelo pequeno 
artista como por um pssaro domstico. Para ele,  um bom comeo. Seu cargo no custar um centavo. Vamos, pense bem e alegre-se.
 Ele beijou-lhe a mo.
 -        Devo deix-la, senhora. O servio do rei me solicita, e os cavalos devem correr a todo galope para recuperar meu atraso.
 Como na noite da festa em que ele lhe oferecera um fruto colhido nos jardins do rei, ela procurou-lhe o olhar bao e impenetrvel.
 -        Filipe, a garotinha de outrora ainda est aqui, voc o sabe.
 Mais tarde, rodando os campos avermelhados pelo entardecer, na carruagem que a conduzia a Saint-Germain, ela pensava nele.
 Agora sabia o que a comprometera junto de Filipe: sua experincia com os homens. Sabia muito sobre eles. Conhecia-lhes os pontos fracos. E quisera atac-lo com 
armas j provadas, quando s poderiam encontrar-se na virgindade de seus coraes adolescentes. Haviam sido feitos para se encontrar aos dezesseis anos,
 quando ambos viviam o tempo das curiosidades inconfessveis e devoradoras, a prescincia dos mistrios em sua pureza imaculada, tempo em que os corpos jovehs, subjugados 
por um desejo novo, no o abeiram, no entanto, seno com medo e pudor, satisfazendo-se com pouco, um roar de mos, um sorriso, e descobrindo o paraso num beijo. 
Seria muito tarde para reencontrar a felicidade perdida? Filipe se extraviara em caminhos perniciosos. Anglica tornara-se mulher. Mas o poder da vida  to grande 
que tudo pode reflorir, pensava, como para alm das estaes glaciais de uma terra enrijecida floresce a primavera.
 E uma fagulha brilhou. No momento mais inesperado, o fogo abafado reanimou-se.
 Naquele dia, Anglica achava-se no salo da Manso do Plessis. Descera para examinar a pea, em vista da grande recepo que daria em breve  alta sociedade dla 
capital. Recepo que deveria ser faustosa, pois no s exclua que o rei estivesse presente.
 Anglica, com um momo e numerosos suspiros, correu o imenso salo, escuro como um poo, guarnecido com um mobilirio severo do tempo de Henrique IV, que em vo 
iluminavam dois enormes espelhos de fundo glauco. Era glido em todas as estaes. Para combater o frio, desde sua chegada Anglica fizera dispor sobre o lajedo 
espessos tapetes persas tirados dos sales do Beautreillis, mas a branca suavidade da l guarnecida de rosas ainda mais acentuava a austeridade dos pesados mveis 
de bano. Continuava a inspeo quando Filipe entrou, buscando condecoraes, que guardava em escrnios, a uma das secretrias de mltiplas gavetas.
 - Estou preocupada, Filipe - explicou-lhe. - Receber aqui me deprime. No quero mal a seus ancestrais, mas  raro encontrar morada to mal-ajeitada como a sua.
 - Queixa-se de seus aposentos? - perguntou o jovem na defensiva.
 - No, meus aposentos so encantadores.
 - Ficou bastante cara a forrao - disse ele, arrogante. - Tive que vender meus ltimos cavalos para faz-la.
 - Voc a fez para mim?
 - Para quem, ento? - resmoneou Filipe, fechando bruscamente a gaveta. - Eu a desposava... contra a vontade, mas, enfim, a desposava. Diziam-na refinada, difcil. 
No me sujeitaria a seu desdm de mercadora opulenta.
 - Pensava aqui instalar-me, aps o casamento?
 - Parecia-me normal.
 - Ento por que nunca me convidou?
 Filipe aproximou-se dela. Seu rosto era um misto indefinvel de confusos sentimentos; Anglica, no entanto, teve a surpreendente impresso de que ele enrubescia.
 - As coisas haviam comeado to mal entre ns que me parecia que um convite de minha parte sofreria uma recusa.
 - Que quer dizer?
 - No podia ter-me seno horror, depois do que sucedera no Plessis... Jamais temi o inimigo, o rei o testemunha... Mas creio que preferiria o fogo de cem canhes 
espanhis a ter que reencontr-la naquela manh, ao acordar... depois... Ah! e ademais, era tudo sua culpa... Eu havia bebido... Como possvel exasperar um homem 
que bebeu, como voc o fez... Por prazer... Voc me enfurecia. Comia - gritou, sacudindo-a -, comia naquela noite com apetite vergonhoso, anormal, quando sabia que 
me aprestava a estrangul-la!
 - Mas, Filipe - disse ela, petrificada -, juro-lhe que morria de medo. No  minha culpa se as emoes sempre me deram fome... voc tinha ento interesse por mim?
 - Como  possvel no lhe ter interesse? - gritou, furioso. - Quanto voc no inventaria para fazer-se notar! Apresentar-se ao rei sem convite... fazer-se atacar 
pelos lobos... Ter filhos... am-los... que sei eu? Ah! no lhe falta imaginao... Bom Deus! quando vi seu cavalo voltar com a sela vazia, em FontainebleauL.
 Foi bruscamente para trs dela e agarrou-a pelos ombros, a ponto de esmag-los. Perguntou  queima-roupa:
 - Voc tinha amor a Lauzun?
 - A Lauzun? No, por qu?
 Ela enrubesceu, recordando o incidente em Fontainebleau.
 -        Ainda pensa no caso, Filipe? Eu no, confesso-lhe, e suponho que Pguilin no mais se importa. Como podem ocorrer tais disparates? Pergunto-me, encolerizada 
comigo mesma.  o acaso da festa, a bebida, o ambiente, um assomo de despeito. Voc era to duro comigo, to indiferente. Parecia recordar-me como sua iriulher apenas 
para injuriar-me ou ameaar-me. Em vo fazia-me bela... No sou seno uma mulher, Filipe! O desdm  a nica prova que uma mulher no pode vencer. Ele corri o corao. 
O corpo se enfada, enlanguesce por falta de carcias. Fica  merc Je um bom conversador como Pguilin. Tudo o que disse da beleza de meus olhos e de minha pele 
pareeeu-me-ento refrescante como uma fonte no deserto. E ademais, queria vingar-me de voc.
 - Vingar-se? Oh! Voc inverte os papis. Eu  que devia vingar-me, no voc. No partiu de voc forar-me a despos-la?
 - Mas pedi-lhe perdo.
 - Assim so as mulheres! Porque pedem perdo, pensam estar tudo apagado. No impedia que continuasse seu esposo. Acredita que para apagar to grande dano bastava 
pedir perdo?...
 - Que mais podia fazer?
 -        Expi-lo! - gritou, erguendo a mo como para lhe bater.
Mas, como houvesse um-brilho alegre no fundo de seus olhos azuis, ela sorriu.
 - Por vezes a expiao "doce- disse. - Esto longe o cavalete e o ferro em brasa sob os ps.
 - No me provoque. Manobrei-a,  verdade. Foi um erro. Sinto que, com a cincia inimaginvel de seu sexo, voc me imobiliza em seus laos como um caador furtivo 
o faria com um simples coelho.
 Ela riu, pendendo a cabea suavemente para trs, para apoi-la ao ombro de Filipe. Bastaria um movimento imperceptvel para pousar os lbios em sua fronte ou suas 
plpebras. Ele no o fez, mas ela sentiu-lhe as mos que se crispavam a sua cintura e o flego acelerado.
 -        Minha indiferena pesava, voc disse. Tinha contudo a impresso de que nossos encontros lhe eram penosos, para no dizer odiosos.
 Anglica desatou a rir.
 -        Oh! Filipe. Com um mnimo de amabilidade de sua parte, acharia nossos encontros encantadores. Era um sonho to belo que guardava no fundo do corao, desde 
o dia em que voc me tomou pela mo, dizendo: "Apresento-lhes a Baronesa do Triste Vesttdo". J o amava, ento.
 - A vida... e meu chicote encarregaram-se de destruir o sonho.
 - A vida pode reconstruir... e voc poderia pr o chicote de lado. Jamais renunciei a meu sonho. E, mesmo separados, no fundo do corao eu...
 -        Esperou alguma vez por mim?
 As plpebras cerradas de Anglica faziam-lhe uma suave sombra malva nas faces plidas.
 -        Ainda o espero.
 Sentia as mos de Filipe em seus seios tornarem-se febris e impacientes.
 Ele resmungou e praguejou baixinho e ela conteve-se para no rir. Ento ele inclinou-se bruscamente para beijar-lhe o pescoo flexvel e fremente.
 - Voc  to extraordinariamente bela, to extraordinariamente mulher! - murmurou. - E eu... no sou seno um velho soldado desajeitado.
 - Filipe!
 Ela olhou-o, surpresa.
 - Que tolice voc diz! Mau, cruel, brutal, sim, voc o . Mas desajeitado? No. No, tal reprimenda no me ocorreria. Infelizmente, voc no me deu a oportunidade 
de medir uma fraqueza comum aos amantes muito apaixonados.
 - No entanto,  uma reprimenda que as belas fizeram-me com frequncia. Decepcionava-as, ao que parece. A crer no que diziam, um homem dotado da perfeio fsica 
de Apolo deveria atingir marcas... sobrenaturais.
 Anglica riu com vontade, inebriada por uma loucura que parecia abater-se sobre eles como um gavio, vindo de um cu de luz. H alguns segundos no eram seno contendores. 
Agora os dedos do gentil-homem impacientavam-se no decote do corpete.
 - Docemente, Filipe, por piedade. No v despedaar um plastro de prolas que custou dois mil escudos. Dir-se-ia que voc jamais despiu uma mulher.
 - Precauo v, com efeito! Quando bastaria erguer uma saia para...
 Ela pousou-lhe dois dedos na boca.
 - No recomece a ser grosseiro, Filipe. Voc nada sabe do amor e da felicidade.
 - Ento guie-me, bela dama. Ensine-me o que suas companheiras esperam de um amante belo como um deus.
 Havia amargor em sua voz. Ela lanou os braos ao redor de seu pescoo, abandonando-se, pesada, as pernas lassas, e ele docemente a trouxe at a maciez do tapete 
de alta l.
 - Filipe, Filipe - murmurou. - Acha a hora e o local azados para a lio?
 - Por que no?
 - Sobre o tapete?
 - Certamente, sobre o tapete. Soldado sou, soldado serei. Se no tenho direito de tomar minha prpria mulher em minha prpria casa, ento recuso-me a interessar-me 
pelo brevirio do amor.
 - Mas pode entrar algum!
 - Que importa! Quero-a agora. Sinto-a.quente, disposta, acessvel. Seus olhos brilham como estrelas, seus lbios esto molhados...
 Ele espreitava aquele rosto pendido, as faces rseas de ardor.
 -Vamos, jovem prima, folguemos juntos um pouco, e melhor que em nossa juventude...
 Anglica teve um gritinho -vencido e estendeu os braos. No estava mais em estado de resistir nem de escapar ao domnio do desejo. Foi ela quen o atraiu.
 -No seja to afoito, meu belo amante - sussurrou. - D-me tempo para ser feliz.
 Com paixo ele tomou-a e possuiu-a, penetrado de uma curiosidade nova que o fazia atento  mulher, e surpreso por ver os olhos verdes de Anglica, de que temia 
a dureza, velarem-se aos poucos de uma ansiedade devaneadora. Ela esquecia de se enrijecer; no mais havia no canto da boca o desafio que ele ali lera com tanta 
frequncia, mas os lbios entreabertos fremiam ao sopro de seu esforo. No era mais sua inimiga. Tinha confiana nele. Isso o encorajava a procur-la com doura, 
e, em lampejos de deslumbrantes revelaes, ele compreendia que ela o conduzia a sendas novas e misteriosas. Uma esperana surgia, crescia nele, com o fluxo regular 
da voluptuosidade. Chegara a hora de um encontro embriagador, de fazer vibrar aquela feminilidade deliciosa que tanto se furtara. Tarefa delicada, que reclamava 
pacientes cuidados. Toda a mestria e virilidade despertadas, ele avanava para uma presa que no mais se escondia. Lembrava que ela o humilhara e que ele a odiara 
at a dor. Mas, ao fit-la, sentia o corao romper-se com o brotar de um sentimento desconhecido. Onde estaria a orgulhosa jovem que enfrentara?
 Via-a de sbito render-se como um ferido assustado e ter pequenos gestos inacabados que pareciam pedir clemncia.
 Ora fremente, ora enlouquecida de langor, rolando a cabea para os lados, com um movimento suave e maquinal sobre os Cabelos dourados espalhados pelo cho, desprendia-se 
lentamente de si mesma, atingia o ponto imaterial e escuro onde dois seres se encontram a ss com o prazer.
 No longo frmito que bruscamente a sacudiu, ele sentiu aproximar-se o momento em que seria seu: dono. Cada segundo mais o exaltava, incutindo-lhe um sentimento 
de vitria jamais experimentado, uma fora conquistadora que se projetava, segura de si, para a recompensa. Era o vencedor de um difcil torneio, que por vrias 
vezes arriscou-se a perder, mas que vencia por sua vigilncia e valor. No necessitava mais conduzi-la. Ela esticava-se em seus braos como um arco vivo. Tenazmente 
solicitada, no limite de sua resistncia, no era seno espera, angstia e felicidade.
 Cedeu, por fim, e ele percebeu a resposta secreta daquela carne, que ele despertara e deliciara. Ento ele se abandonou. Sabia que era o que lhe faltara toda a 
vida; a alegria dela, a confisso de seu corpo dcil e vido, a que satisfazia com vagar, enquanto ela cobrava vida com grandes suspiros apaixonados.
 -        Filipe!
 Ele abateu-se sobre ela, escondendo o rosto em seu corpo. Diante da realidade que voltava com a decorao austera do velho salo dos Du Plessis, Anglica comeou 
a inquietar-se com seu mutismo. To breves os instantes de abandono.
 No ousava crer no prprio delrio, na embriaguez que a deixava quase trmula e frgil at as lgrimas.
 -        Filipe!
 No ousava dizer-lhe o quanto estava grata por seus cuidados para com ela. T-lo-ia decepcionado?
 -        Filipe!
 Ele ergueu a cabea. Seu rosto permanecia enigmtico, mas Anglica no podia se enganar. Entreabriu os lbios num suavssimo sorriso e pousou um dedo no fino bigode 
perolado de suor.
 -        Meu primo importante...
 Naturalmente, aconteceu o que devia acontecer. Algum entrou.
 Era um lacaio, introduzindo dois visitantes: o Sr. de Louvois e seu pai, o velho e terrvel Michel Le Tellier. O velho perdeu o lornho. Louvois ficou carmesim. 
Ultrajados, ambos se retiraram.
 No dia seguinte, Louvois contaria a anedota  corte inteira.
 -        Em pleno dia!... com um marido!
 Os amantes e apaixonados da bela marquesa suportariam tal insulto? Um marido! Um rival domsticoLA voluptuosidade a domiclio!...        
 A Sra. de Choisy repetia, indignada, pela Galeria de Versalhes:
 - Em pleno dia!... Em pleno dia!... Fizeram-se pilhrias, ao lever do rei.
 - O rei no riu o quanto se esperava - observou Pguilin. E no fora o nico a adivinhar o secreto despeito do soberano.
 - Ele  sensvel a tudo o que lhe diz respeito - explicou a Sra. de Svign a Anglica. - Reconciliava-a de bom grado com um esposo irascvel. Mas no se- devia 
exagerar a devoo. O Sr. du Plessis ps muito zelo em contentar o soberano. Talvez pague com uma desgraa por no ter compreendido que certas ordens no pedem execuo 
to  risca.
 - Acautele-se com a Companhia do Santo Sacramento, minha cara - disse Atenas com expresso maldosa. - O assunto pode irrit-los.
 Anglica defendeu-se, afogueada.
 -        No vejo que rplicas possa ter a Companhia do Santo Sacramento. Se no posso receber as homenagens de meu marido, sob meu teto...
 Atenas casquinou por trs do leque.
 -        Em pleno dia... e sobre o tapete! Mas  o cmulo do vcio minha cara! Isso no se perdoa seno com um amante.
 Filipe, indiferente  troa e ao sarcasmo, e talvez ignorando-os, passava, soberbo. O rei teve-lhe palavras speras; ele pareceu no perceber. Na febre das ltimas 
festas que o rei dava antes das campanhas de vero, Anglica no pde aproximar-se dele.
 Era estranho. Filipe voltara a ser glacial, e quando ela lhe falara, ao acaso, no baile, ele respondera em tom arrogante. Ela acabou por dizer a si mesma que sonhara 
o suave e perfeito instante que trazia no mago das lembranas como uma rosa prpura desabrochada. Mas os dedos do mundo encarniaram-se em massacrar a flor delicada, 
a ponto de ainda faz-la enrubescer. E Filipe era bem a imagem desse mundo cruel e brutal. Ela ignorava que Filipe achava-se presa de sentimentos complexos, inusitados 
para ele, em que as crticas de seu orgulho mesclavam-se a uma espcie de medo pnico de Anglica. Sentia no poder domin-la seno pelo dio. Se essa muralha cedesse, 
seria o servilismo. Ora, ele jurara que jamais se submeteria a uma mulher. E agora acontecia-lhe evocando certas nuanas de seu sorriso, alguns de seus olhares, 
sentir-se doente como um adolescente. Voltavam antigos temores. Obnubilado por uma vida libertina, em que conhecera mais desgostos que satisfaes, duvidava ter 
frudo instantes de harmonia sobrenatural numa unio fsica com um desses seres execrveis e desprezveis, como se lhe apresentavam as mulheres. Devia reconhecer 
que era quilo que chamavam amor? Ou no seria seno uma miragem? O medo de nova decepo o torturava. Morria de despeito, dizia a si mesmo, e de tristeza, tambm. 
Mais valiam o cinismo e a violao!...
 Anglica, que jamais imaginaria tais tormentos por trs daquele rosto insensvel, experimentava aos poucos uma cruel decepo. As brilhantes festas no conseguiam 
distra-la. As atenes do rei irritavam-na e seus olhares insistentes faziam correr em suas veias um mal-estar. Por que Filipe a abandonava?
 Numa tarde em que a corte inteira aplaudia Molire no teatro de verdura, ela sentiu-se invadir por uma grande melancolia. Parecia-lhe que voltava a ser a garotinha 
pobre e feroz entre os pajens zombeteiros que, no Castelo do Plessis, fugira pela noite, o corao cheio de desgosto e de ternura escarnecida. Igual desejo de fugir 
invadiu-a. "Odeio-os, a todos", pensou. E sem rudo deixou o palcio e fez chamar sua carruagem. Mais tarde deveria recordar esse movimento impulsivo que a arrancara 
de Versalhes e nome-lo "pressentimento". Pois quando chegou,  tarde, diante da manso do Faubourg Saint-Antoine, reinava ali grande bulcio, e La Violette preveniu-a 
de que o senhor era enviado para a frente do Franco-Condado e devia partir com a aurora.
 Filipe ceava, sozinho diante de dois castiais de prata, na sala de jantar de lambris negros. Ao ver Anglica, num amplo manto de tafet rosa, franziu o cenho.
 - Que veio fazer aqui?
 - No tenho o direito de voltar quando bem quiser?
 - Voc foi requisitada em Versalhes por vrios dias.
 - Pareceu-me que acabaria por morrer de tdio; ento deixei aquelas pessoas insuportveis.
 - Espero que sua desculpa seja falsa, pois seria inadmissvel e se arriscaria a desagradar ao rei... Quem a preveniu de minha partida?
 - Ningum, estou lhe dizendo. Surpreendim-me esses preparativos. Com que ento partiria sem-mesmo dizer-me adeus?
 - O rei pediu-me que cercasse a ^partida da maior discrio e, particularmente, que a ocultasse de voc.  sabido que as mulheres so incapazes de controlar a lngua.
 "O rei tem cime", quase gritou Anglica. Filipe no via mesmo nada, nada compreendia, a menos que afetasse ignorncia.
 Anglica sentou-se  outra extremidade da mesa e tirou as luvas de fino couro marcadas por prolas.
 -        E estranho. A campranha de vero ainda no comeou. As tropas continuam nos quartis. No sei de ningum que o rei tenha feito partir sob pretexto de guerra. 
Sua convocao semelha em muito uma desgraa,-Filipe.
 O rapaz olhou-a em silncio, to longamente que ela acreditou que ele no a ouvira.
 -        O rei  senhor - disse, por fim.
Ergueu-se, rgido.
 -        Devo retirar-me, pois j se faz tarde,. Cuide de sua sade em minha ausncia, senhora. Apresento-lhe minhas despedidas.
 Anglica ergueu para ele os olhos transtornados. "No haveria melhor maneira de nos despedirmos?", parecia implorar-lhe.
 Ele no quis compreender. Inclinou-se e apenas beijou a mo que ela lhe estendia.
 No recesso do quarto, a priminha pobre ps-se a chorar.
 Vertia as lgrimas que contivera outrora em seu orgulho de adolescente. Lgrimas de desencorajamento, de desespero.
 -        Jamais compreenderei esse homem! Jamais o conseguirei.
Ele partiria para a guerra. E se no voltasse?... Oh! ele voltaria.
 No era o que temia. Mas os momentos de graa teriam passado. A lua entrava pela janela, aberta sobre or jardins tranquilos, e um rouxinol cantava. Anglica ergueu 
o rosto molhado. Disse consigo que amava aquela casa onde os rudos se abafavam, porque ali vivera com Filipe. Bizarra intimidade, a deles, que mais semelhava uma 
frustrante brincadeira de esconde-esconde, cada qual correndo para experimentar seus adornos entre duas obrigaes na corte, duas viagens, duas caadas...
 Mas tambm houvera os momentos fugidios, roubados  avidez mundana, os instantes em que Filipe sentara-se junta dela para contempl-la amamentando o pequeno Carlos 
Henrique, as conversas em que se olharam, rindo, a manh em que Filipe colocava os anis ouvindo-a falar de Cantor, e o dia to prximo em que se abandonaram  paixo 
de seus corpos, quando ele a tomara com um ardor e um desvelo que semelhavam o amor.
 Sbito, no pde mais se conter. Vestiu-se, envolvendo-se no vaporoso penhoar de cambraia branca, e correu, os ps nus, pela pequena galeria at o quarto de Filipe.
 Entrou sem bater. Ele dormia, nu, atravessado no leito. Os pesados lenis de renda, que haviam deslizado em parte para o cho, descobriam-lhe o peito musculoso, 
a que o luar esmaecido conferia o brilho e a palidez do mrmore. Seu rosto era diferente no sono. A cabeleira curta e anelada que trazia sob a peruca, os longos 
clios, a boca intumescida davam-lhe o ar de inocncia e serenidade que se encontra nas esttuas gregas. Com a cabea levemente pendida para o ombro, as mos abandonadas, 
parecia sem defesa.
 Anglica, ao p da cama, reteve o flego para melhor observ-lo. Tinha o corao compungido diante de tanta beleza, de detalhes que lhe eram desconhecidos e que 
descobria pela primeira vez: uma correntinha de ouro com uma pequena cruz no pescoo de gladiador, um sinal no peito,  esquerda, cicatrizes, aqui e ali, como lembranas 
da guerra e dos duelos. Pousou a mo em seu peito, para surpreender as batidas do corao. Ele teve um leve movimento. Deslizando para fora do penhoar, encolheu-se 
suavemente junto dele. Seu calor de homem saudvel, o contato da pele lisa inebriaram-na. Ela ps-se a beijar seus lbios, tomou-lhe a cabea para apoi-la, pesada 
e abandonada, contra o peito. Ele moveu-se, encontrando-a na semi-inconscincia.
 -        Minha bela - murmurou, enquanto lhe roava o seio com a boca, num movimento de criana esfomeada.
 Quase imediatamente ergueu-se, com olhar maligno.
 - Voc?... Voc aqui! Que insolncia! Que...
 - Vim despedir-me, Filipe, a meu modo.
 - A mulher deve aguardar a vontade do marido e no impor-se a ele. Safe-se daqui!
 Segurou-a pelos punhos para expuls-la do leito, mas ela agarrou-se a ele, suplicando baixinho:
 - Filipe! Filipe, deixe-me ficar! Deixe-me ficar esta noite com voc.
 - No.
 Desenroscava seus braos com furor", masjla tornava a enla-lo: tinha bastante perspiccia para adivinhar, por muitos indcios, que ele no deixava de se emocionar 
com sua presena.
 - Filipe, eu o amo... deixe-me ficar entre seus braos!
 - Que busca aqui, com os diabos?
 - Voc o sabe.
 - Pequena impudica! No tem amantes suficientes para acalmar seu ardor?
 - No, Filipe. No tenho amantes. No tenho seno a voc. E voc estar fora muitos meses!
 - Ento  isso que. lhe falta, pequena vagabunda. Sem mais dignidade que uma cadela no cio!
 Por um bom tempo continuou a praguejar, tratando-a por todos os nomes, mas no mais a repelia, e ela encolhia-se bem junto dele, escutando os insultos como a mais 
terna declarao de amor. Por fim, ele deu um profundo suspiro e tomou-a pelos cabelos, levando-lhe a cabea para trs. Ela sorria e o fitava. No tinha medo. Jamais 
tivera medo. Fora o que o vencera. Ento, com uma ltima imprecao, ele enlaou-a.
 Foi uma unio silenciosa que encobria em Filipe o temor de fraquejar. Mas a paixo de Anglica, a alegria quase ingnua que sentia por estar em seus braos, sua 
habilidade de mulher amorosa, boa serva de um prazer que partilhava, venceram suas dvidas. A fagulha brilhou, tornou-se braseiro, consumiu em Filipe as antigas 
obsesses. Com um grito surdo que traa a violncia de seu prazer, Anglica soube ench-lo de orgulho.
 Ele nada confessou. O tempo dos arrufos, dos rancores da guerra sorrateira, que os erguera um contra o outro, ainda estava muito prximo. Ele ainda se esforaria 
por mentir. No a queria segura. E, como ela se demorasse, estendida a seu lado, no emaranhado de seus longos cabelos soltos, disse brutalmente:
 -        V embora!
 Dessa vez ela obedeceu com uma docilidade solcita e carinhosa que lhe deu vontade de bater-lhe ou de abra-la com paixo. Ele cerrou os dentes, lutou contra o 
pesar de v-la desaparecer e o desejo de ret-la, de t-la junto de si at a aurora, em seus braos, na sombra quente de seu corpo, como um animalzinho palpitante 
e sonhador. Loucura! Futilidades. Fraqueza perigosa. Queo vento das batalhas e as balas de canho dispersassem rpido aquilo tudo!
 Pouco aps a partida do Marechal du Plessis-Bellire, foi a vez de Cantor juntar-se ao exrcito. No ltimo momento, Anglica quis desistir. Sentia-se terrivelmente 
triste e assaltada por sombrios pressentimentos. Passara a escrever com frequncia para o Franco-Condado, mas Filipe jamais respondia. Esse silncio, embora quisesse 
neg-lo, a deprimia. Quando Filipe confessaria que a amava? Talvez nunca. Talvez fosse incapaz de amar. Ou de perceber que a amava. No era um filsofo, mas um guerreiro. 
Acreditando piamente que a detestava, ainda tentava prov-lo. Mas no poderia apagar o que brotara entre eles, a cumplicidade no confessada do gozo que os traria 
de volta, um para o outro, fracos, e assustados. A isso, nem os devotos aborrecidos, nem os libertinos trocistas, nem o rei, nem mesmo Filipe, teriam como se opor.
 Anglica esforou-se por se ocupar da partida de Cantor. O tempo de que dispunha era pouco.
 Cantor partiu.
 Anglica, arrastada por inmeras recepes, no teve tempo de se deter sobre a emoo da manh brumosa em que o garotinho, corado de prazer, iou-se na carruagem 
do Duque de Vivonne, acompanhado por seu preceptor, Gaspar de Racan.
 A criana envergava um traje de chamalote verde que combinava com seus olhos, com muitas rendas e rosetas de cetim. Os cabelos crespos estavam cobertos por um grande 
chapu de veludo negro guarnecido de plumas brancas.
 A guitarra enfitada atrapalhava-o. Trazia-a preciosamente junto ao corpo, como uma criana com o brinquedo predileto. Fora o ltimo presente de Anglica. Uma guitarra 
em madeira das ilhas, incrustada de ncar e que o maior violeiro da capital desenhara e montara para ele.
 Brbara soluava  sombra da porta-cocheira. Anglica no queria emocionar-se. Era a vida! Mas cada etapa arranca laos insuspeita-dos no corao das mes...
 Informou-se, ento, com acrescido interesse dos negcios no Mediterrneo. Ao partir em apoio dos venezianos contra os turcos que queriam apossar-se do ltimo baluarte 
da cristandade no Mediterrneo, as galeras francesas cumpriam uma misso celeste e o Duque de Vivonne e suas tropas, mereciam o nome de cruzados. Anglica sorria 
com doura ao pensar jio pequeno Cantor, engrenagem minscula e inocente na santa expedio. Imaginava-o sentado na proa de um navio, as fitas tia guitarra flutuando 
no azul do cu.
 Ela aproveitou os raros momentos de lazer em Paris para retomar contato com Florimond. Estaria ele sofrendo com a separao de Cantor? No sentiria cime por ver 
o irmo mais novo to brilhantemente encaminhado e j honrado com o convite para as batalhas? Ela logo se deu conta de que, se Florimond comportava-se com bastante 
polidez diante dela, custava-lhe permanecer tranquilo,- dez-minutos que fosse. Mltiplas ocupaes o esperavam: montar a cavalo, alimentar seu falco, tratar de 
seu dogue, polir sua espada, preparar-se para acompanhar Monseigneur, o delfim, no manejo ou na caa. No se mostrava paciente seno quando uma aula de latim com 
o Abade de Lesdiguires estivesse em vista.
 -        Minha me e eu estamos conversando - dizia ao preceptor,
que se retirava, no ousando insistir.
 A conversao consumia-se sobretudo na demonstrao dos talentos de duelista de Messire Florimond. Sob o exterior sensvel e frgil, tinha terrveis vontades de 
"rapaz". No sonhava seno em golpear, vencer, matar e defender sua honra. No se sentia feliz seno com uma espada na mo e j se exercitava em atirar com mosquete. 
Achava Monseigneur, o delfim, bastante desajeitado.
 - Tento faz-lo perder um pouco o acanhamento, porm, pobre de mim! - suspirava. - Digo-o entre ns, minha me, mas minha reflexo no deve chegar a outros ouvidos. 
Poderia prejudicar minha carreira.
 - Eu sei, eu sei, meu filho - aprovava Anglica, rindo, embora um tanto inquieta com aquela sagacidade precoce.
 Sabia tambm que o pequeno delfim seguiria Florimond at o fim do mundo, subjugado por seus olhos negros cheios de fogo e por sua vitalidade militar. Sim, Florimond 
era encantador. Agradava e era bem-sucedido em tudo. Ela suspeitava-o profundamente egosta... como todas as crianas, sem dvida. Mas avaliava, com sutil melancolia, 
que ele tambm se distanciara dela. Ele dava voltas, a espada em punho.
 - Olhe... Olhe, minha me. Um golpe, uma finta... e um passo  frente... Agora, bem no corao... Meu adversrio jaz por terra... Morto!
 Ele era belo. A paixo de viver acendera nele sua chama. Mas, se sofresse, continuaria a chorar em seu ombro? Os coraes infantis logo amadurecem sob o sol brilhante 
da corte...
 A notcia da derrota em cabo Passero chegou no meio do ms de junho, em plena festa, a ltima que o rei oferecia antes da campanha da Lorena.
 As pessoas tomaram conhecimento de que as galeras do Sr. de Vivonne haviam sido atacadas ao largo da Siclia por uma flotilha barbaresca comandada por um renegado 
argelino, cujas incurses eram clebres no Mediterrneo, conhecido como o Resgatador.
 Vivonne tivera que se refugiar numa baa ao abrigo do cabo Passero.
 Mostrava-se bastante abatido. No entanto, tudo no passara de uma escaramua. Somente duas galeras, entre as vinte que comandava, haviam afundado.
  verdade que uma delas levava uma grande parte das pessoas de sua casa, e o Sr. de Vivonne tivera o dissabor de ver desaparecer no fundo das guas seus trs gentis-homens, 
os dez oficiais-de-boca, seus quatro criados, os vinte coristas de sua capela, o confessor, o mordomo, o escudeiro, e seu pajenzinho com sua guitarra.
 CAPITULO XXV
 
 Filipe confessa-se vencido
 
 No se apresentaram condolncias  Sra. du Plessis, pois o filho que perdera em Passero no era seno uma criana. Ser que uma criana conta?        
 A calma do vero, trazendo uma trgua aos prazeres da corte, permitiu-lhe amargar sua dor em Paris.
 No podia crer na terrvel notcia. Era impensvel. Cantor no podia morrer. Era filho do milagre! Muito antes de nascer, enfrentara o veneno com que queriam eliminar 
sua me. Viera  luz sob as abbadas ptridas do Htel-Dieu, entre os ltimos dos deserdados. Passara os seis primeiros meses de vida num estbulo, abandonado, coberto 
de crostas, sugando com a boquinha um farrapo sujo para acalmar a fome. Fora comprado pelos ciganos por sete sis.
 Sobrevivera ao pior!... E agora ousavam dizer que o corpinho robusto, indomvel, fora privado de vida... Loucura! Os que assim falavam no conheciam o pequeno Cantor!
 Anglica recusava-se terminantemente a aceitar a atroz realidade dos fatos.
 Brbara sufocava de dor noite e dia; Anglica, preocupada com sua sade, acabou por sacudir-lhe um pouco o nimo.
 -' Claro, senhora, claro - murmurou a criada entre soluos. - A senhora no pode compreender. No o amou como eu.
 Anglica, aterrada, deixou-a e retornou ao quarto, sentando-se junto  janela aberta.
 O outono estava a caminho. Era uma tarde de chuva fina em que reverberava a luz do dia que findava.
 Anglica levou as mos ao rosto. Tinha o corao pesado. Pesado por um remorso que nada poderia apagar: o de ter muito raramente atrado o pequeno Cantor a seus 
joelhos, para beijar suas faces redondas.
 O semblante do filho permanecia para ela um mistrio. Por assemelhar-se a ela, e a todos os irmozinhos De Sanc que vira nascer a seu redor, no entendia com clareza 
que Joffrey de Pey-rac tambm era pai de Cantor. O esprito positivo, aventureiro e irredutvel do grande conde tolosano achava-se nele...
 Revia-o partindo para a guerra, grave e cheio de alegria sob o grande chapu.
 Revia-o cantando para a rainha, ouvia sua voz de anjo:
 "Adeus, corao, minha vida,
 Adeus esperana minha!"
 E o revia ainda, pequenino, leve fardo que carregava no distante dia de inverno, quando o levara ao Temple, por uma Paris embalsamada pelo cheiro das panquecas 
da Chandeleur.
 O passo cansado de um cavalo, embaixo, nos paraleleppedos do ptio, arrancou-a s lembranas. Lanou um olhar maquinal para fora e pensou reconhecer a silhueta 
de Filipe no cavaleiro que apeara e subia a escadaria de fora. Mas Filipe estava com o exrcito, na frente do Franco-Condado, para onde o rei se dirigia.
 Um segundo cavaleiro penetrava sob a abbada da entrada principal da manso. Dessa vez reconheceu sem erro a alta estatura do criado La Violette, curvado sob o 
aguaceiro. Ento era mesmo Filipe quem acabava de chegar. Antes de poder ordenar os sofridos pensamentos, ouviu-lhe os passos na galeria e ele apresentou-se, coberto 
de lama at a cintura e, pela primeira vez, em lastimvel estado, com o chapu e as bandas do casaco transformados em goteiras.
 - Filipe! - disse, levantando-se. - Mas voc est ensopado!
 - Chove desde a manh e galopei sem descanso. Ela vibrou uma sineta.
 -        Pedirei uma colao quente e talvez seja necessrio acender o fogo. Por que voc no se fez anunciar, Filipe? Seus aposentos esto nas mos dos tapeceiros. 
Pensei que seu retorno no se previa para antes do outono e imaginei... que o momento seria oportuno para... fazer algumas reformas.
 Ele escutava com certa indiferena, plantado nas pernas afastadas, como j se apresentara tantas vezes.
 -        Soube que seu filho havia morrido - disse por fim. - A notcia s me chegou na semana passada... "
 Fez-se um silncio, durante o qual o dia pareceu morrer bruscamente, as nuvens de chuva velando as ltimas luzes do poente.
 -        Ele sonhara em embarcar para o mar - retomou Filipe - e teve tempo de realizar seu sonho. Conheo o Mediterrneo. E um mar completamente azul e bordado 
de ouro, como o estandarte do rei. Uma bela mortalha para um pajenzinho que cantava...
 Anglica ps-se a chorar, os olhos arregalados sobre Filipe, a quem no mais via. Ele avanou a mo e pousou-a em seus cabelos.
 - Voc desejava que ele no fosse corrompido. A morte poupou-lhe as lgrimas de vergonha que vertem em segredo as crianas pegas de surpresa. Cada qual com seu 
destino. O dele no foi seno alegria e canes. Tinha uma me que o amava.
 - No tive muito tempo para ocupar-me dele - fez ela, enxugando as faces.
 - Voc o amava - repetiu -, lutava por ele. Deu-lhe o necessrio para a sua felicidade: a segurana de seu amor.
 Anglica escutava-o com uma perplexidade que aos poucos cedia lugar a uma grande estupefao.
 - Filipe - exclamou por fim -, no me far crer que deixou o exrcito e cobriu oitenta lguas por estradas inundadas pela chuva apenas para... para trazer-me palavras 
de consolo!
 - No seria o primeiro disparate que voc me faria cometer - disse -, mas no vim apenas para isso. Trago-lhe tambm um presente.
 Ele ergueu-se, pegando do bolso uma espcie de estojo em couro velho e endurecido, e o abriu. Dali tirou um colar bizarro composto de uma corrente de ouro verde 
e trs placas de ouro rosa sustendo os grandes caboches de dois rubis e uma esmeralda. O conjunto era suntuoso, mas de gosto brbaro e antigo, feito para ser carregado 
por slidas belezas de tranas louras, como eram as rainhas dos tempos dos primeiros Capetos.
 -         o pendente das mulheres De Bellire - disse. - Aquele que lhes infundiu durante sculos a virtude da coragem.  digno de ser usado por uma me que deu 
um filho-pelo reino. Foi para trs dela, para coloc-lo em seu pescoo.
 - Filipe - murmurou Anglica, ofegante -, que quer dizer isso? Que significa isso? Recorda-se da aposta que fizemos um dia nos degraus de Versalhes?
 - Recordo-me, minha cara, e voc a ganhou.
 Ele afastou os cachos louros e inclinou-se para beijar-lhe longamente a alva nuca. Anglica permanecia imvel. O jovem f-la voltar-se para ver-lhe o rosto. Ela 
chorava.
 -        No chore mais - disse, estreitando-a. - Vim para enxugar suas lgrimas, e no para faz-la verter outras. Jamais suportei v-la chorar. Voc  uma grande 
dama, que diabo!
 "Loucamente apaixonado! Loucamente apaixonado!", repetia-se Anglica, "eis o que significa o oferecimento do colar."
 Amava-a, ento, e o confessara com uma delicadeza que vertera um blsamo em seu corao magoado.
 Ela tomou-lhe o rosto com ambas as mos, contemplando-o com ternura.
 - Como podia saber que sob sua terrvel maldade escondia-se tanta bondade? No fundo voc  um poeta, Filipe.
 - J no sei mais o que sou - resmungou. - O certo  que voc est com o colar dos Plessis-Bellire, o que no deixa de me inquietar. Nenhuma de minhas antepassadas 
o colocou sem logo pensar em guerras e revoltas. Minha me, com esses caboches ao peito, recrutava exrcitos no Poitou, por conta do Prncipe de Conde, voc o lembra, 
como eu. E agora, que no inventar voc? Como se necessitasse uma dose suplementar de coragem.
 Cingiu-a de novo, apoiando a face em seu rosto.
 -        E voc sempre me fitou com seus olhos verdes - murmurou. - Eu a atormentava, batia, ameaava, e voc sempre erguia novamente a cabea como uma flor aps 
a tempestade. Deixava-a ofegante, vencida, e via-a ressurgir mais bela que nunca. Sim, era exasperante, mas, com o tempo, isso acabou por inspirar-me um sentimento 
de... de confiana. Tanta constncia numa mulher! Aquilo me surpreendia. Passei a contar os pontos: ser que ela resistir?, dizia comigo. No dia da caada real, 
quando a vi afrontar com um sorriso a clera do rei e a minha, compreendi que no teria escapatria. No fundo estava orgulhoso de t-la por mulher.
 Dava-lhe pequenos beijos. Seus lbios pareciam tmidos. Desacostumado  ternura, desdenhara at ento as manifestaes de que agora sentia falta. Hesitou em tocar 
seus lbios. Foi ela quem suavemente procurou os seus.
 Ela refletiu que aqueles lbios de guerreiro eram de uma simplicidade fresca, quase ignorante, e tambnvque peio mais estranho dos casos, aps terem ambos passado 
pela vida e sido maculados por muita lama, trocavam agora o beijo casto e doce que lhes faltara outrora, na adolescncia, no parque do Plessis.
 -        Devo partir - disse de repente, com a brusquido costumeira. - J foi consagrado muito tempo ao corao. Posso ver meu filho?
 Anglica chamou a ama-de-leite, que chegou trazendo a um brao o pequeno Carlos Henrique, em suas roupas de veludo branco, como um falco ao punho do caador. Com 
os cachos louros escapando-se da touca de prolas, a tez rsea e os grandes olhos azuis, era uma criana soberba.
 Filipe tomou-o nos braos, f-lo saltar no ar e balanou-o em todas as direes, mas no conseguiu arrancar-lhe um sorriso.
 -        Jamais vi beb to srio - explicou Anglica. - Olha a todos com ar intimidante. O que no o impede de fazer toda sorte de travessuras, agora que comea 
a andar. Acharam-no girando a roca da camareira, a l completamente emaranhada...
 Filipe aproximou-se dela e estendeu-lhe a criana.
 -        Eu o deixo. Confio-o a voc. Guarde-o bem.
 -        Este  o filho que voc me deu, Filipe. Ele me  caro.
Debruada  janela, com sua bela boneca nos braos, ela viu-o saltar sobre o cavalo, na sombra do ptio, e desaparecer. Filipe viera. Criara, em torno de sua dor 
amarga, uma felicidade viva. Era o ltimo de quem esperaria conforto. Mas a vida  frtil em surpresas. E ela maravilhava-se ao pensar que aquele soldado intratvel, 
que invadira cidades inteiras a ferro e fogo, galopara quatro dias sob a chuva e o vento, porque ouvira no corao o eco de seus soluos.
 CAPITULO XXVI
 
 Tragicomdia entre a Sra. de Montespan e o marido
 
 Versalhes, na ausncia do rei e da corte, achava-se mais que nunca entregue aos arquitetos, operrios e artistas. Anglica, abrindo caminho entre os andaimes e 
o entulho, acabou por descobrir seu irmo Gontran, ocupado em decorar um pequeno gabinete que dava para o canteiro do Midi. Ali preparavam-se aposentos sem designao 
precisa, e usaram-se mrmore e ouro em profuso, e tudo o que havia de mais precioso, para fazer do local uma encantadora morada. Como a Sra. de Montespan viesse 
repetidas vezes acompanhar o andamento dos trabalhos, estava entendido, at nova ordem, que os aposentos destinavam-se  favorita.
 Anglica lanou um olhar distrado a todas aquelas maravilhas, s molduras em trs tipos de ouro representando canios e ervas entrelaadas, entre as quais o pintor 
colocava encantadoras miniaturas em tonalidades rosa e azuis. Perguntou ao irmo se ele poderia ir num dia prximo a sua casa para fazer os retratos de Florimond 
e do pequeno Carlos Henrique. No tendo nenhum retrato de Cantor, o pungente remorso que sentia levava-a a fixar na tela os traos daqueles que ainda viviam. Por 
que no pensara nisso antes?
 Gontran resmungou que no era fcil.
 - Pagar-lhe-ei bem.
 - No  esse o problema, minha filha! Far-lhe-ei presente, na ocasio. Mas onde achar tempo para escapar-me daqui? Desde que estou em Versalhes, no vejo minha 
mulher e meus filhos seno uma vez por semana, aos domingos. Aqui, comeamos com a aurora. Temos meia hora para jantar, s dez horas, e fazer colao s onze, e 
os prprios mestres-de-obras cuidam que no passe de cinco minutos o tempo para satisfazermos nossas necessidades. Oh! isso d trabalho aos mestres-de-obras, com 
todos esses rapazes do pntano com disenteria!
 - Mas... onde voc dorme? Onde come?
 - H dormitrio por l - disse Gontran, com o pincel num gesto vago, na direo da janela - e as tascas organizadas pela corporao. Quanto a folgar um ta na semana, 
ouat algumas horas, nem pensar!
 - Isso  inadmissvel! Voc  meu irmo e comprometo-me a obter autorizao para liber-lo em parte... contanto que voc consinta em usufruir de uma concesso especial, 
cabea de asno!
 O artista deu de ombros.
 - Faa o que quiser. O capricho das grandes damas  sagrado. Farei o que me disserem. S peo que no tomem as ausncias como pretexto para pr-me na rua!
 - Comigo, vocjamais estar na rua.
 - J lhe disse que no quero viver de esmolas nem de favores.
 - Que quer ento, eterno descontente?!
 - O que me  de direito,  tudo!
 - Est bem, no vamos discutir mais. Posso contar com voc?
 - Sim....
 - Gontran, queria ver o teto que voc pintava no outro dia. Pareceu-me esplndido. "
 -        Eu pintava o deus da guerra. E a guerra veio a galope.
Ele pousou a palheta e acompanhou-a pela galeria, at o salo
 de ngulo que acabavam de aprontar. Lanou um olhar desconfiado a sua volta.
 - Espero que no me repreendam por ter-me ausentado por alguns instantes. Sua companhia me absolver.
 - Voc exagera, Gontran. V-s perseguido por todo lado.
 - Aprendi a temer os golpes da vida.
 - Voc devia antes aprender a evit-los. 
 - No  fcil.
 - Eu o consegui - disse Anglica com orgulho. - Parti do ponto mais baixo e posso dizer, sem vangloriar-me, que cheguei ao ponto mais alto.
 - Porque voc lutou sozinha e em proveito prprio. Eu no estou s. Quisera arrastar ao combate e  vitria a massa dos condenados, mas  um peso enorme a ser levantado... 
Somos esmigalhados um a um. E o fermento da revolta morrer antes mesmo de ter proliferado.
 Impressionada pelo tom triste e cansado, mais que pelas palavras, ela no soube o que responder.
 - Voc tem visto Raimundo? - perguntou.
 - O jesuta? Ora... Ele no compreenderia. Ningum pode compreender. Nem mesmo voc... mas olhe!
 Haviam chegado ao centro da sala e erguiam os olhos para as abbadas de vastas praias multicores entre as divisrias de estuque dourado. O deus Marte lanava-se 
na apoteose do sol nascente e a luminosidade de seu corpo e rosto contrastava com as longas silhuetas negras dos lobos que puxavam seu carro.
 -        Oh! Gontran! - exclamou Anglica, emocionada. - Oh! Ele assemelha-se a Filipe.
 O pintor teve um sorriso displicente.
 -        E verdade. Pareceu-me que nenhum gentil-homem da corte serviria de melhor modelo. Essa beleza imbatvel - gritou com sbito ardor -, a perfeio do corpo 
e dos gestos, que jbilo acompanhar-lhe a passagem harmoniosa pela grandeza de Versalhes!
 Devaneou por um instante. Depois, ps-se a rir.
 - No precisa inchar como uma perua. No estou procurando lisonje-la, por ser ele seu marido. Voc nada tem a ver com isso. E bela tambm. Mas ele  como que intemporal. 
Tem a majestade melanclica das esttuas da Grcia...
 - Voc o pinta de memria?
 - Por vezes a memria do pintor recria a realidade de modo ainda mais vivo. Se voc quiser, farei tambm o retrato de seu filho Cantor.
 Os olhos de Anglica tornaram a encher-se de lgrimas.
 - Seria possvel? Voc o conheceu to pouco! Mal o viu uma ou duas vezes.
 - Creio que me recordarei.
 Ele semicerrou as plpebras para recompor uma imagem distante.
 - Parecia com voc, tinha olhos verdes. E ademais, voc me guiar. Um homem de marrom aproximava-se, as mos s costas.
 - O contramestre - sussurrou Gontran.
 Anglica assumiu seu ar mais altivo para explicar que o arteso com o qual conversava a interessava, que desejava contar com ele para trabalhos em sua manso e 
aludiu abundantemente ao Sr. Colbert e ao Sr. Perrault, inspetor de construo do rei.
 O contramestre dobrou-se em dois-repetidas vezes e asseverou ser devotado s ordens do Sr. Colbert e do Sr. Perrault. Ela reconheceu em seus traos porcinos a expresso 
dura e sem inteligncia de um comitre.
 Aps deixar Versalhes, ela se fez conduzir a Saint-Germain. Queria perguntar aos Montausier se Florimond poderia ser dispensado um ou dois dias por semana de seu 
servio junto a Monseigneur, o delfim. Revia sempre com grande prazer a Sra. de Montausier, que outrora, quando ainda era Julie d'Argennes, Marquesa de Rambouillet, 
fora a preciosa mais em evidncia e a mais procurada por todos os grandes senhores da corte. Comentavam que a Srta. de Scudry, em seu romance Le Grana Cyrus, pintara-a 
sob os traos de Cleomira, e que inspirara incontveis versos a Godeau, Voiture, Benserade e muitos outros.
 Igualmente notvel por sua beleza, gosto e virtudes, ainda era, malgrado as marcas da idade, muito encantadora e cheia de suavidade. O que tinha de menos simptico 
era com certeza o marido, o Duque de Montausier, severo e austero, que professava um amor descabido pela verdade, qualidade bastante embaraosa num mundo onde um 
pouco de hipocrisiase fazia necessrio.. Nascido na religio reformada, abjurara em 1645 para desposar a bela Julie d'Argennes.
 "Esses so, em geral, os mais intransigentes", pensou Anglica, ao recordar aquele detalhe.
 -        Minha pobre querida-disse-lhe a Sra. de Montausier, abraando-a -, vejo-a de luto e sei por qu. Sua dor  das que acabam por acalmar-se, mas que no tm 
consolo. Eu mesma fiquei bastante sensibilizada com a notcia. Aquele garotinho possua todas as qualidades.
 Falaram de Cantor um momento e Anglica exps a requisio quanto a Florimond. A Sra. de Montausier asseverou que o duque no lhe veria inconveniente. A viagem 
do delfim, que deveria juntar-se ao pai no Franco-Condado, fora cancelada.
 -        Prev-se que Sua Majestade no tenha em mente uma longa campanha este ano. As damas no foram convidadas a acompanh-lo.
 A corte no se embaraara com a estranha situao criada pela ascenso da Sra. de Montespan junto da Srta. de La Vallire. Diziam simplesmente "as damas", juntando-se-lhes 
a rainha quando necessrio.
 - A Sra. de Montespan mostrou-se bastante contristada com a deciso. Esperava ser designada sozinha. Mas o rei jamais repudiar abertamente La Vallire. Ao menos 
enquanto a situao da Sra. de Montespan correr o risco de um escndalo...
 - Um escndalo se abafa.
 -        Nem sempre, minha pequena.  que o marido  intratvel. Ningum esperava, mas  um fato. Falta pouco para que o rei se esconda em um armrio quando o Sr. 
de Montespan vem  corte. No outro dia, esse gasco louco percorreu toda a grande galeria de Versalhes, abordando a uns e outros e repetindo com seu acento inenarrvel: 
"Sou um corno, sim, amigos, sou um corno, corno e corno, com C maisculo..." Voc est rindo e fico contente por alegr-la um pouco. Mas a Sra. de Montespan veio 
ter comigo e chorou o dia inteiro. Disse que o rei escapou-se para o Franco-Condado diante do acontecido... e talvez no esteja errada.
 Nesse meio tempo, aquela de quem falavam surgiu acompanhada pela Srta. de Desoeillet e pelo negrinho Naaman com a arara.
 A Sra. de Montespan sequer saudou as amigas. Pela primeira vez, a tez resplandecente estava baa. E tinha, ademais, um ar assustado.
 - Parece que meu marido est  minha procura - disse. - Vim refugiar-me com vocs.
 - Vamos, no se afobe, pobre amiga - disse a Sra. de Montau-sier. - Isso est se tornando uma obsesso.
 - No durmo mais - gemeu Atenas, desmoronando no canap. - No sei at onde ele poder chegar.
 - Acalme-se. Faz calor e isso a deixa nervosa. Farei vir refrescos. Depois voc se sentir melhor.
 A Sra. de Montespan, com pequenos suspiros, consentiu em molhar os lbios num xarope de orchata. Mas permanecia atenta.
 -        No esto ouvindo algo?
 As quatro se calaram e aplicaram o ouvido.
 - Por minha f,  nosso Pardaillan, sem dvida - disse Anglica, enquanto uma voz de fanfarra reboava pelos corredores.
 - Fechem a porta, suplico-lhes - gritou Atenas.
 Mas a Sra. de Montausier no teve tempo de concluir o gesto. O Sr. de Montespan irrompeu, empurrando brutalmente a porta e o negrinho Naaman, e precipitou-se para 
a mulher.
 - Ah! c est, essa tratante, essa p... No conte continuar a escapar-me. Tinha minhas razes se a deixava em paz. Agora minha vingana est pronta.
 - Sr. de Montespan, creio que esquece como se comportar - sublinhou a Sra. de Montausier com dignidade.
 O marqus f-la silenciar com grosseria:
 -        Cale-se... O assumo  com ela. Com ela e com o rei!
 A Sra. de Montespan, em caso de batalha, sabia como enfrent-lo.
 - Como ousa pronunciar o nome do rei sem corar de vergonha, insolente! - gritou.
 - Ah!... Porque sou eu que deveria ter vergonha?
 - Sim. O rei sempre mostrou-se generoso para com voc. No merece tratar com um sujeito de sua espcie^
 - O que ele merece, eu o direi! - urrou Pardaillan. - Merece que lhe passe a sfilis!
 Atenas deu um grito abafado:
 - Sfilis?... Mas no tenho sfilis!
 - Mas t-la- - tornou, num riso assustador - porque eu a tenho e vou pass-la a voc, como se deve entre bons esposos.
 - Socorro! Ele enlouqueceu! - gritou Atenas, refugiando-se atrs do canap.
 O marido corria-lhe atrs. A Sra. de Montausier cara, semides-maiada de pavor, numa poltrona. Os criados comprimiam-se  porta.
 Anglica agarrara-se aoibrao do marqus, tentando em vo det-lo e faz-lo cobrar a razo.
 - Deixe-me - rugia. - Essa meretriz deve pagar.
 - Mas afinal, Pardaillan, foi voc que o quis.
 - Como? - disse ele, interrompendo a perseguio. - Como?  minha culpa se sou corno?
 - Mas claro! Perfeitamente. Por que no permitiu que Atenas se afastasse da corte, quando ela lhe pedia? Voc, ao contrrio, a encorajava a ficar e agradar ao 
rei. E agora protesta. Isso no tem lgica!
 - Lgica! - fez num gesto trgico. - Lgica? Que  a lgica? Ah, minha cara, voc no conhece os gasces!
 - Graas a Deus!
 - H um mundo entre o que existe e o que poderia existir. E no posso suportar o que existe atuaimente entre o rei e minha mulher. Deixe-me, estou lhe dizendo. 
No fui procurar essa sfilis no fundo de uma espelunca da Rue du Vald'Amour para nada... Ah! vadia.
 Mas, aproveitando-se da trgua obtida por Anglica, a Sra. de Montespan fugira.
 -        Deixe a coisa para mais tarde, marqus - disse Anglica.
 Convenceu-o a acompanh-la, levou-o de volta a Paris, at o Palcio do Luxemburgo, onde a Grande Mademoiselle abrigou Pardaillan sob sua asa, jurando que o "repreenderia 
cruelmente".
 
 CAPTULO XXVII
 
 A paixo do rei
 
 De volta  manso, um pouco distrada pelo incidente, Anglica teve a surpresa de ali encontrar o Sr. de Saint-Aignan, que retornava do Franco-Condado com um bilhete 
da parte do rei.
 - Do rei?
 - Sim, senhora.
 Anglica isolou-se para ler a missiva.
 "Senhora", escrevia o rei, "a parte que tomamos na dor que a atingiu na pessoa de seu filho, morto a nosso servio malgrado sua pouca idade, incita-nos a voltar-nos 
com redobrado interesse para o futuro de seu filho mais velho, Florimond de Morens-Bellire. Em vista do qu, desejamos elev-lo a funes importantes e lig-lo 
a nossa casa como pajem-copeiro sob as ordens do Sr. Duchesne, primeiro oficial do copo. Ficaramos felizes por v-lo, sem tardar, assumir seu novo cargo no exrcito, 
e desejamos vivamente que o acompanhe na viagem.
 Lus."
 Mordiscando, perplexa, o lbio inferior, a jovem demorava-se na contemplao da assinatura, de traado imperioso: Lus. Florimond, copeiro do rei! Os jovens herdeiros 
das maiores casas de Frana disputavam o cargo, de preo elevado. A nomeao era uma honra sem precedente para o obscuro pequeno Florimond. Recus-la estava fora 
de questo. Mas Anglica hesitava em acompanh-lo. Hesitou por dois dias. Era ridculo no responder a um convite que lhe permitiria rever Filipe e que vinha a propsito, 
para arranc-la a seus tristes pensamentos.
 Dirigiu-se, por fim, a Saint-Germain,  procura de Florimond. A Sra. de Montausier no a recebeu. A pobre mulher estava de cama, realmente doente com as emoes 
causadas pelo Marqus de Montes-pan. Toda a corte troava do incidente. As poucas testemunhas no se mostravam avaras nos detalhes, e mesmo que se desejasse olvidar 
o caso, a arara da marquesa encarregarse-ia de espalh-lo aos quatro ventos.
 -        Corno! Corno! - gritava o pssaro, excitado. Seus resmungos estavam cheios de onomatopias de sentido inequvoco, e a todo momento distinguia-se claramente; 
"Sfilis! P...!"
 Os criados congestionavam-se  fora de reter a hilaridade em pblico.
 A Sra. de Montespan trazia com coragem a cabea erguida, e para reduzir ao mnimo os boatos afetava encarar a coisa com jovialidade. Mas ao ver Anglica ps-se 
a chorar, perguntando pelo marido.
 Anglica disse quMademoiselle conseguira acalm-lo e que por ora ele prometera manter-se calmo.  
 Atenas enxugou lgrimas de raiva.
 -        Ah! se voc soubesse! Sinto-me tio vexada por ver que ele e minha arara divertem a canalha... Escrevi ao rei. Espero que desta vez ele se mostre severo.
 Anglica teve um gesto de dvida. No julgou conveniente dizer que fora convidada por Sua Majestade para juntar-se ao exrcito.
 A carruagem chegou a Tabaux com a noite. Anglica fez-se conduzir a um albergue. Poderia ir ter ao acampamento, cujos biva-ques acendiam suas luzes pela plancie. 
Mas estava fatigada, depois de dois dias de viagem por estradas intransitveis. Florimond, que dormia com o queixo no jab de renda amarrotado, a grenha revolta, 
no estava apresentvel. As senhoritas de Gilandon dormiam de boca aberta, a cabea pendendo para trs. Malbrant Golpe de Espada ressonava como um rgo. Somente 
o Abade de Lesdiguires mantinha uma postura distinta, malgrado a poeira que lhe tingia as faces. O calor era terrvel e todos-estavam sujos de dar medo.
 O albergue mostrou-se lotado: a proximidade do exrcito real animava o pequeno burgo. Mas, diante da grande dama que se apresentou com seus acompanhantes e uma 
equipagem de seis cavalos, os hoteleiros se desdobraram. Encontraram dois quartos e uma mansarda, com que o mestre de armas se contentou. Florimond alojou-se com 
o abade e, na outra pea, o leito era bastante vasto para acolher Anglica e suas duas acompanhantes. Depois de abundantes ablues, uma refeio slida  moda da 
Lorena, cift torta de toucinho, chourio, couve na manteiga e compota de ameixa, cada qual procurou o repouso necessrio, para enfrentar no dia seguinte o rei e 
a vida da corte no exrcito.
 As senhoritas de Gilandon retomavam o sono, lado a lado por trs das cortinas, e Anglica, de penhoar, acabava de escovar os cabelos quando bateram levemente na 
porta. A resposta para que entrassem, teve a surpresa de ver esgueirar-se pela porta entreaberta a figura travessa de Pguilin de Lauzun.
 -        Minha bela, c estou!
 Entrou na ponta dos ps, um dedo erguido.
 - Com os diabos se esperava v-lo, Sr. de Lauzun - disse Anglica. - Mas de onde vem?
 - Do exrcito, cspite! Mal tive notcia de sua chegada, levada pelo rumor pblico e pelos padeiros da aldeia, peguei meu fiel corcel...
 - Pguilin, no v trazer-me novos aborrecimentos!
 - Aborrecimentos, eu? Que chama voc de aborrecimentos, ingrata? A propsito, voc est s?
 - No - disse Anglica, apontando com o queixo as cabeas inocentes das senhoritas de Gilandon, em touca de dormir. - E mesmo se estivesse, isso no mudaria nada.
 - Cesse de mostrar-se rabugenta. Minhas intenes so puras, ao menos no que me concerne.
 Ergueu um olhar de mrtir para o teto:
 -        No estou aqui por mim mesmo, infelizmente!... Bom, no percamos tempo. Voc deve despachar as duas donzelas para ou tro local.
 Cochichou a seu ouvido:
 - O rei est a e deseja v-la.
 - O rei?
 - No corredor.
 - Pguilin, seus gracejos esto passando dos limites. Assim acabarei por zangar-me.
 - Juro-lhe que...
 - Voc pretende que o rei...
 - Pst!... Calma, ora essa. Sua Majestade deseja v-la em segredo. Voc bem compreende que ele no pode arriscar-se a ser reconhecido por ningum.
 - Pguilin, no acredito em voc.
 - E demais! Despache-as, estou dizendo, e ver se estou mentindo.
 - Para onde quer que as despache? Para o" leito de Malbrant Golpe de Espada, talvez?
 Anglica ergueu-se e atou resolutamente o cordo do penhoar. 
 -        J que parece que o rei esta no corredor, ento receb-lo-ei no corredor.
 Ela saiu e ficou sem ao ao ver a silhueta do gentil-homem que se conservava junto  porta.
 -        Tem razo - disse a voz do rei por trs da mscara de veludo cinza. - Mesmo porque o corredor no  mal. Iluminado na medida exata e deserto. Pguilin, 
meu amigo, quer ir at o p da escada para afastar possveis importunos?
 Ele pousou as mos nos ombros da jovem. Depois, lembrando-se, tirou a mscara. Era mesmo o rei. Ele sorria.
 -        Sem reverncia;' minha cara.
 Afastou os braceletes para tomar-lhe os punhos e atraiu-a docemente para perto da lamparina, que brilhava diante de um nicho com uma esttua.
 - Tinha pressa em rev-la.
 - Sire - disse Anglica, resoluta -, j exprimi  Sra. de Montespan minha recusa em prestar-me ao papel de pra-vento que me havia to habilmente destinado, e desejava 
que Vossa Majestade compreendesse...
 - Voc repisa sempre o assunto, Bagatela. Voc  no entanto bastante inteligente para encontrar um outro tema.
 - Vamos, bem se v que esta noite no se trata de pra-vento... nem de comdia. Se a procurava com o objetivo que me atribui, por que me daria ao trabalho de mascarar-me 
e esconder-me para v-la?
 Ela percebeu a verdade do argumento e sentiu-se desamparada.
 - Ento?...
 - Ento  muito simples, Anglica. No acreditava am-la... mas voc me encantou com no sei que poder insidioso que voc mesma parece ignorar. E no consigo esquecer 
seus lbios, nem seus olhos... Nem que voc possui as mais belas pernas de Versalhes.
 - A Sra. de Montespan  bela, tambm. Talvez mais bela que eu. E ela o ama, sire. Est ligada a Vossa Majestade.
 -        Enquanto voc?...
 Um certo poder de fascnio emanava daquelas pupilas vidas onde velavam duas fascas douradas. Quando ele pousou a boca na sua, ela quis esquivar-se, mas no pde. 
O rei insistia, forava a-defesa que ofereciam os lbios fechados, os dentes cerrados. Quando conseguiu que cedesse, ela perdeu a pacincia, aoitada pela violncia 
de um desejo de senhor que no conhecia entraves. O beijo prolongou-se, ardente, devorador. Ele no a deixou enquanto ela no correspondeu a sua paixo. Por fim, 
ela viu-se livre, a cabea vazia. Sem foras, apoiou-se  divisria. Os lbios tremiam-lhe, brilhantes e magoados.
 O rei sentiu a garganta cerrar-se sob o imprio do desejo.
 - Sonhei com esse beijo - disse a meia voz - por dias e noites. V-la assim, a cabea pendida, as belas plpebras fechadas, o lindo pescoo palpitando na penumbra... 
Deix-la-ei esta noite?... No, no teria coragem. O albergue  discreto e...
 - Sire, por piedade - suplicou -, no me arraste a uma fraqueza que me causaria horror.
 - Horror? Mas a senti bastante acessvel, e h consentimentos sobre os quais no  possvel haver engano.
 - Que podia fazer? O senhor  o rei!
 - E se no fosse o rei?
 Anglica, recobrando a veemncia, enfrentou-o.
 -        Ministrar-lhe-ia um par de bofetadas.
 O rei, furioso, deu alguns passos de um lado para outro.
 - Voc me enraivece, palavra. Por que esse desdm? Serei um amante to imperfeito aos seus olhos?
 - Sire, jamais pensou que o Marqus du Plessis-Bellire  seu amigo?
 O jovem soberano baixou a cabea, um tanto embaraado.
 - Certamente,  um amigo fiel, mas no creio causar-lhe grande pena. Todos sabem que o belo deus Marte no tem seno uma amante: a guerra. Nada pede alm de exrcitos 
e ordens de conduzi-los aos campos de batalha. E indiferente no domnio do corao e j o provou muitas vezes.
 - Provou tambm que me ama.
 O rei lembrou-se dos comentrios na corte e caminhou em crculo como um animal enjaulado.
 -        Marte atingido pelas setas de Vnus!... No, no posso acreditar!...  bem verdade que voc  capaz de conseguir esse gnero de milagre.
 -        E se lhe dissesse: Sire, eu o amo, ele me ama. E um amor to novo e to puro. Teria coragem de destru-lo?...
 O rei observou-a com ateno; um combate se travava entre suas paixes autoritrias e sua conscincia de homem.
 -        No, eu no o destruirei - disse por fim com um profundo suspiro. - Se assim , inclinar-me-ei. Adeus, senhora. Durma em paz. V-la-ei amanh, no exrcito, 
com seu filho.
 
 CAPTULO XXVIII
 
 Fim de um perfeito corteso
 
 Filipe aguardava-a no limiar da tenda real. Grave, num traje de veludo azul com sutache de ouro, ele inclinou-se, tomou-lhe a mo e conduziu-a pelos grupos at 
a mesa coberta de rendas e objetos de ourivesaria, onde o rei tomaria lugar.
 - Saudaes, meu marido - disse Anglica a meia voz.
 - Saudaes, querida.
 - V-lo-ei esta noite?
 - Se o servio do rei o permitir.
 O rosto permanecia frio, mas seus dedos estreitaram os dela num gesto cmplice. O rei via-os avanar.
 - Haver mais belo casal que o Marqus e a Marquesa du Plessis-Bellire? - disse ao camarista-mor.
 - Com efeito, sire.
 - So tambm ambos amveis e servidores fiis - disse o rei tristemente.
 O Sr. de Gesvres mirou-o com o canto do olho.
 Anglica mergulhava numa grande reverncia. O rei tomou-lhe a mo para ergu-la. Ela encontrou o olhar sombrio que a fitava, do cabelo louro entremeado de pedrarias.ao 
fino sapato de cetim branco, passando pelo vestido de brocado guarnecido de guirlandas de acianto. Era a nica mulher convidada para a ceia do rei e, entre os senhores 
que ali se comprimiam, muitos havia que depois de longos meses de campanha no tinham o prazer de contemplar mulher to linda.
 -        Marqus, voc  um afortunado - disse o rei - por possuir semelhante tesouro. No h um homem nesta noite, e seu soberano est entre eles, que no inveje 
sua sorte. Esperamos ao menos que no a desdenhe. A fumaa dos combates, o odor da plvora e a euforia das vitrias por vezes deixaram-no cego, ningum o ignora, 
aos encantos do belo sexo.
 - Sire, existem certas luzes que podem-devolver a viso aos cegos e despertar o gosto por outras vitrias.
 - A resposta  boa - disse  rei, rindo. - Senhora, recolha seus lauris.
 Ele continuava a segurar a mo de Anglica, mas com um daqueles gestos cheios de seduo, de que possua o segredo e que se permitia na atmosfera familiar dos campos, 
e passou um brao ao redor dos ombros de Filipe.
 - Marte, meu amigo - disse, a meia voz -, a sorte lhe sorri, mas no terei cime. Seu mrito e fidelidade me so caros. Recorda-se do primeiro combate, e ento 
andvamos pelos quinze anos, quando o deslocamento de uma bala arrancou-me o chapu? Voc correu sob a metralha para apanh-lo.        
 - Recordo-me, sire.
 - Era loucura de sua parte. E muitas mais voc fez depois, a meu servio.
 O rei era pouco mais baixo que Filipe, trigueiro perto de seu tipo claro, mas ambos assemelhavam-se na harmonia proporo dos corpos flexveis e musculosos, adestrados, 
como os jovens da poca, pelos exerccios de academia, equitao e o precoce aprendizado da guerra.
 - A glria nas armas pode fazer olvidar o amor, mas pode o amor fazer olvidar a amizade nas armas?
 - No, sire, eu no o creio.
 -  minha opinio tambm... Bom, senhor marechal, j  bastante filosofia para ns, soldados. Tome seu lugar  mesa, senhora.
 Filipe permanecia em p, assistindo o camarista-mor. nica mulher na assembleia, Anglica,  direita do rei, fazia figura de rainha. O olhar ardente do rei espreitava-lhe 
o perfil inclinado e os reflexos dos pesados brincos que lhe acariciavam a face aveludada, a cada um de seus movimentos.    
 - Seus escrpulos se acalmaram, senhora?
 - Sire, a bondade de Vossa Majestade me confunde.
 - No  questo de bondade. Minha cara Bagatela, que podemos, pobres de ns, contra o amor? - disse o rei num tom triste.
 -  um sentimento que desconhece meias medidas. Se no posso agir com baixeza, vejo-me constrangido a agir com grandeza, e qualquer homem na minha situao ver-se-ia 
obrigado a fazer o mesmo... Notou como seu filho cumpre bem seu ofcio?
 Apontou Florimond, que assistia o copeiro-mor. Quando o rei pedia de beber, o copeiro-mor, prevenido pelo inspetor, pegava de um bufe uma bandeja contendo uma garrafa 
cheia de gua, outra de vinho e um clice e dirigia-se ao camarista-mor, precedido pelo pajen-zinho trazendo o essai. Eva. uma taa de prata na qual o camarista-mor 
vertia um pouco de gua e de vinho, que o chefe de copa bebia. Com a prova de que a bebida do rei no estava envenenada, enchiam seu copo, carregado piedosamente 
por Florimond. O garotinho desempenhava o ritual com a gravidade de um menino de coro.
 O rei dirigiu-lhe duas palavras de cumprimento por sua destreza, e Florimond agradeceu inclinando a cabea encaracolada.
 -        Seu filho no a semelha, com seus olhos e cabelos negros.
Ele tem a graa trigueira da gente do sul.
 Anglica empalideceu e corou. O corao ps-se a bater desordenadamente. O rei pousou a mo na dela.
 -        Como voc  emotiva! Quando ento cessar de temer? Ain da no compreendeu que no lhe farei nenhum mal?
 Ao levantar-se, a mo que lhe pousou na cintura, para faz-la passar diante dele, perturbou-a como no o faria um gesto ousado.
 Voltou com Filipe pelo campo, onde o fogo dos bivaques misturava reflexos vermelhos ao halo dourado das velas que se acendiam nas tendas dos prncipes e oficiais.
 A do Marechal du Plessis era em cetim amarelo bordado a ouro. Uma maravilha de elegncia guerreira que abrigava duas poltronas de madeira preciosa, uma mesa baixa, 
 turca, e almofades de lam dourado. O cho estava coberto por um suntuoso tapete, e uma espcie de div, igualmente guarnecido de tapearia, conferia ao conjunto 
um luxo oriental. Luxo que mais de uma vez censuraram ao belo marqus. O rei, em campanha, no se alojava to bem, mas o corao de Anglica enterneceu-se com sbita 
revelao. No se fazia necessrio mais fora de nimo, de vontade intransigente, para atacar o inimigo em gola de renda e apresentar-se  noite, depois da batalha, 
com anis nos dedos, bigode perfumado, botas resplandecentes, que para aceitar o suor, a imundcie e os piolhos como inevitveis companheiros das campanhas militares?
 Filipe desatou o boldri. La Violette entrou, seguido de um adolescente a servio do marechal. Dispuseram sobre a mesa uma colao i de frutas, vinhos e doces. 
O criado aproximou-se do mestre para ajud-lo a despir-se, mas este, com um gesto de impacincia, dispensou-o.
 - Devo chamar suas damas? - perguntou Anglica.
 - No creio que seja preciso.
 Ela deixara as senhoritas de Gilandon e Javotte sob a guarda do albergueiro, trazendo apenas Teresa, que era menos arisca. Alis, depois de ter ajudado sua senhora 
a ataviar-se, ela desaparecera, e certamente seria vo partir a sua procura.
 -        Voc me ajudar, Filipe - disse Anglica com um sorriso.
- Creio que ainda tenho muito que lhe ensinar a esse respeito.
 Ela aproximou-se dele e pousou a cabea em seu ombro num gesto terno.
 - Contente em rever-me?
 - Sim, infelizmente. 
 - Por que infelizmente?
 - Voc est se apoderando de meu pensamento. Tenho travado conhecimento com os tormentos do cime.
 - Por que se atormentar? Eu o amo.
 Ele pousou a fronte em seu ombro sem responder. Anglica revia na penumbra os olhos-ardentes do rei.
 Fora, um soldado ps-se a tocar no pfaro um ritornelo melanclico. Anglica estremeceu. Seria preciso ir embora, deixar Versalhes e suas festas, no mais ver o 
rei.
 -Filipe - disse -, quando voc estar de volta? Quando apren
deremos a viver juntos?
 Ele afastou-a, para olh-la com ironia.
 - Viver juntos - repetiu -, seria isso compatvel com a posio de marechal dos exrcitos do rei e de grande dama da corte?
 - Mas gostaria de deixar a corte e recolher-me ao Plessis.
 - Que raa! Quando lhe suplicava aos brados que retornasse ao Plessis, voc preferiria ser trucidada a atender-me. Agora  tarde demais!
 - Que quer dizer?
 - Voc detm cargos importantes. O rei concedeu-lhe um deles graciosamente. Demitir-se seria desagradar-lhe demais.
 - E devido ao rei que desejo afastar-me, Filipe, o rei...
 Ela ergueu os olhos e viu-lhe o olhar glido, como se subitamente se afastasse dela.
 -O rei - repetiu com ansiedade.
 Ela no ousou ir adiante e maquinalmente comecfu a se despir. Filipe parecia distante.
 "Depois do que o rei disse esta noite, ele compreender", pensou ela. "Se j no o compreendeu... h muito... Talvez bem antes que eu..."
 Ele aproximou-se, no entanto, do leito onde a jovem se ajoelhara enquanto soltava os cabelos e no repeliu os braos que ela levou a seus ombros.
 As mos do jovem procuraram as formas flexveis do belo corpo que ela lhe oferecia, nu sob uma leve coberta. Acariciou-lhe o talhe, arqueado para trs, o sulco 
morno das costas macias, e veio ter aos seios tmidos, um pouco pesados da ltima maternidade, mas rijos e firmes.
 - Bocado de rei, na verdade - disse.
 - Filipe! Filipe!
 Permaneceram um longo momento em silncio, como se tomados de indizvel temor. Algum l fora chamou:
 -        Senhor marechal! Senhor marechal!
Filipe foi at o limiar da tenda.
 - Acabam de deter um espio - explicou o enviado. - Sua Majestade o chama.
 - No atenda, Filipe - suplicou ela.
 - Como ficaria por no atender ao chamado do rei - protestou rindo. - A guerra  a guerra, minha linda. Minha primeira obrigao  para com os inimigos de Sua Majestade.
 Debruado sobre um espelho, alisou o bigode louro e recolocou a espada.
 -        Como era mesmo o refro que cantava seu filho Cantor?...
Ah! sim:
 "Adeus, corao, minha vida.
 Adeus, esperana minha.
 Se temos que servir ao rei,
 Devemos ento separar-nos..."
 Ela esperou em vo na tenda bordada a ouro, e acabou por adormecer no espesso div coberto de sedas. Quando acordou, a claridade do dia, que se irradiava pelas 
paredes de cetim amarelo espalhando uma luz intensa, f-la pensar que o sol brilhava. Mas ao sair deparou com a manh brumosa e triste, de nuvens cinza refletindo-se 
em grandes poas. Chovera. O campo enlameado estava quase deserto. Ouvia-se ao longe o toque de alvorada e o rudo incessante do canhoneio. Por ordem sua, Malbrant 
Golpe de Espada trouxe-lhe a montaria. Um militar indicou-lhe o caminho do plat.
 -        L do alto, a senhora poder seguir as operaes.
 Ela ali encontrou o Sr. de Salnove, que dispusera suas tropas na borda da falsia. A direita, perfilando-se no cu nublado onde emergia um sol tmido, um moinho 
de vento girava lentamente as ps.
 Ao aproximar-se, Anglica divisou o panorama familiar do burgo sitiado, com a cinta de muralhas agrupando os tetos de ardsia, os campanrios pontiagudos e as torres 
gticas. Um lindo rio ornava-o como uma "charpe branca.
 As baterias francesas ordenvam-se rio acima do vale; podiam-se avistar trs alas de canhes protegendo as formaes da infantaria, cujos capacetes eiltas lanas 
refletiam em mil fascas a luz do sol. Um estafeta atravessava a plancie a toda a brida. Um grupo cintilante ia e vinha na vanguarda das linhas. O Sr. de Salnove 
indicou-o a Anglica com a ponta do rebenque.
 - O prprio rei dirigiu-se aos postos avanados logo cedo. Est convicto de que a guarnio lorenense no tardar a render-se. Durante a noite Sua Majestade e os 
oficiais do estado-maior no tiveram um instante de repouso. Ontem  noite um espio detido deu a entender que a guarnio tentaria atacar com a noite mesmo. Houve, 
de fato, algumas tentativas, mas ns velvamos, e eles tiveram que desistir. No vo demorar a se render.
 - No entanto, o bombardeio me parece intenso.
 - So os ltimos fogos. O governador de Dole no pode depor as armas sem ter esgotado a munio.
 - Meu marido pensava o mesmo, ontem  noite - disse Anglica.
 - Alegra-me que partilhe minha opinio. O marechal tem o faro da guerra. Creio firmemente que podemos preparar-nos para cear vitoriosamente em Dole, esta noitet..
 O estafeta que haviam visto h pouco surgiu na curva do caminho. O homem gritou  passagem:
 -        O Sr. du Plessis-Bellire est.:.
 Interrompeu-se ao ver Anglica, puxou as rdeas e veio para trs.
 - Que houve? Que est se passando? - perguntou, aterrada. - Aconteceu algo a meu marido?
 - Sim.
 - Que est se passando? - insistiu Salnove. - Que aconteceu ao marechal? Mas fale, senhor. O marechal est ferido?
 - Sim - disse o alferes, ofegante -, mas no  grave... tranqiiilize-se. O rei est junto dele... O senhor marechal exps-se com grande imprudncia e...
 J Anglica lanava a montaria pela senda da colina. Arriscou-se vinte vezes a quebrar o pescoo antes de chegar embaixo e, quando ali se achou, lanou o cavalo 
a toda a brida pela plancie.
 Filipe ferido!... Uma voz gritava dentro dela: "Eu sabia... Eu sabia que isso aconteceria". Acercava-se da cidade e dos canhes e lanas da infantaria dispostos 
numa malha de quadrados imveis. S tinha olhos para o grupo de uniformes recamados, aglomerados l embaixo, junto aos primeiros canhes.
 Como se aproximasse, um cavaleiro destacou-se do grupo e veio a seu encontro. Ela reconheceu Pguilin de Lauzun. Gritou-lhe ofegante:
 -        Filipe est ferido?
 Ao chegar at ela, ele explicou:
 - Seu marido exps-se de modo insano! Como o rei quisesse saber se uma investida simulada apressaria a rendio dos sitiados, o Sr. du Plessis disse que desejava 
reconhecer o terreno. E lanou-se para o talude que o fogo dos canhes inimigos varria desde a aurora.
 - E...  grave?
 - Sim.
 Anglica percebeu que Pguilin colocara o cavalo atravessado para impedi-la de avanar. Uma capa de chumbo desceu sobre seus ombros. Um grito mortal invadiu-a, 
e seu corao se partiu.
 -' Est morto, no  verdade?
 Pguilin inclinou a cabea.
 -        Deixe-me passar - disse com voz sem timbre. - Quero v-lo.
O gentil-homem no se movia.
 -        Deixe-me passar! - gritou Anglica. -  meu marido! Tenho o direito! Quero v-lo.
 Ele aproximou-se e com um brao trouxe-lhe suavemente a fronte contra seu ombro, num gesto apiedado.
 -        Melhor no, minha pequena, melhor no - murmurou. - Pobres de ns! nosso belo marqus! Teve a cabea arrancada por uma bala de canho!
 Ela chorava. Chorava desesperadamente, prostrada no div em que, naquela noite, o aguardara em vo.
 Recusava os consolos, recusava que;a cercassem de palavras simplrias e estpidas. Suas acompanhantes, os serviais, Malbrant Golpe de Espada, o Abade de Lesdiguires, 
seu filho permaneciam diante da tenda, assustados com seus lamentos. Ela dizia a si mesma que era impossvel, mas sabia que o desaparecimento era irremedivel. E 
no mais poderia, por uma vez que fosse, aconchegar ao seio, no gesto maternal com que tanto sonhara, uma fronte plida e fria que jamais conhecera a ternura, beijr-lhe 
as plpebras de longos clios, cerradas para sempre, e murmurar baixinho: "Eu o amei... o primeiro no frescor de meu corao adolescente..."
 Filipe! Filipe de* rosa:, Filipe jde azul. Vestido de neve e ouro. Peruca loura. Taces vjermelhos. Filipe com a mo pousada nos cabelos do pequeno Cantor...
 Filipe de adaga em punho e a mo na garganta do lobo.
 Filipe du Plessis-Bellire, to belo que o rei lhe chamava Marte e a quem o pintor imortalizara nos tetos de Versalhes em seu carro puxado pelos lobos.
 Por que no mais existia? Por que se fora? "Num sopro de vento", como dizia Ninon. No sopro terrvel e ardente da guerra. Por que se expusera daquele modo?
 Os mesmos termos de que se serviram o estafeta e o Marqus de Lauzun vieram-lhe  memria. Ela ergueu-se um pouco.
 -        Por qu, Filipe... - murmurou. - Por que o fez?...
 O pano sedoso da entrada foi afastado, e ela viu o camarista-mor, Sr. de Gesvres, inclinar-se diante dela.
 - Senhora, o rei est a e deseja manifestar-lhe o quanto lamenta o acontecido e seu imenso pesar.
 - No desejo ver ningum...
 - Senhora,  o rei.
 - No quero saber do rei - gritou -, nem principalmente desse bando de patos bamboleantes e tagarelas que arrasta atrs de si e que vo me olhar perguntando-se 
quem suceder ao marechal.
 - Senhora... - disse ele, sufocado.
 - Saia daqui! Saia daqui!
 Jogou-se para trs, com o rosto mergulhado nas almofadas, esgotada pela tristeza, desligada de tudo, incapaz de refletir e de ter um pouco de domnio para enfrentar 
a vida que continuava.
 Duas mos ergueram-na com firmeza pelos ombros, trazendo-lhe uma reconfortante sensao de paz em meio  vertigem na qual mergulhara. Jamais haveria para Anglica 
melhor consolo que um slido e reconfortante ombro de homem. Acreditou tratar-se de Lauzun e soluou entre as dobras do gibo de veludo castanho que recendia a ris.
 Por fim, a violncia de seu desespero se acalmou. Ela ergueu os olhos vermelhos e encontrou um olhar castanho e profundo, habituado a despedir reflexos menos suaves.
 -        Deixei os... senhores l fora - disse o rei. - Peo-lhe, senhora, domine sua dor. No se deixe levar pelo desespero. Abala-me v-la sofrer...
 Anglica desprendeu-se lentamente. Retesou-se e recuou alguns passos, permanecendo encostada  parede de cetim dourado. Assim nimbada de ouro, com o vestido escuro, 
o rosto plido e sofrido, ela parecia uma iluminura antiga em que as rijas personagens choram ao p da cruz.
 Mas seus olhos, fixos no rei, tornavam-se mais e mais brilhantes, como carbnculos, e assumiam uma expresso dura. No entanto, quando falou, o tom era comedido:
 -        Sire, suplico a Vossa Majestade que me d a permisso de retirar-me para minhas terras... no Plessis.
 O rei hesitou, sem o demonstrar.
 -        A permisso est dada, senhora. Compreendo seu desejo de solido e de retiro. Parta, pois, para o Plessis. Poder ali permanecer at o outono.
 -        Sire, desejava desfazer-me de meus cargos.
Ele balanou a cabea com suavidade.
 -        No deve agir levada pelo desalento. O tempo acalma muitas feridas. No porei seus cargos em vacncia.
 Anglica teve um leve gesto de protesto. Mas o brilho de seus olhos se apagara sob as plpebras fechadas e lgrimas corriam-lhe novamente, em fios brilhantes, pelas 
faces.
 -        Diga-me que concorda em retornar - insistiu o rei.
 Ela permaneceu em silncio, sem um movimento. Somente a garganta agitava-se em soluos mudos e convulsivos.
 O rei achou-a maravilhosamente bela. Teve medo de perd-la para sempre e recuou, renunciando a arrancar-lhe uma promessa.
 -        Versalhes a esperar - disse com doura.
 
 Anglica parecia destinada  fatalidade. A felicidade to sonhada, ao lado dos filhos e do homem amado, fora-lhe definitivamente subtrada. Agora s lhe restava 
chorar a perda irreparvel de Filipe e do pequeno Cantor.
 Contudo, poderia uma mulher to requisitada, amada e invejada viver afastada da corte? Cercada de amigos e admiradores, incluindo-se entre eles o prprio rei, no 
deveria ficar para sempre encerrada em seu retiro solitrio no castelo do Plessis.
 "Versalhes a esperar", prometera-lhe Lus XIV, com doura, Mas por quanto tempo?
 No prximo volume, Anglica, a Favorita do Rei, veremos a Mossa infeliz Marquesa dos Anjos s voltas com o irresistvel apelo da corte, bem como estimulada por 
novas e surpreendentes revelaes sobre a morte de seu verdadeiro amor, o primeiro marido, o misterioso Conde Joffrey de Peyrac.
 Mas sobretudo ela ter de se decidir sobre as promessas de amor de nada menos que o prprio Rei-Sol, cativado por seu encanto...
 ANNE E SERGE GOLON
  
  
  OS AUTORES:
  ANNE E SERGE GOLON
  Serge Golonbikoff nasceu em Bukhara (URSS) em 1903 e Simone (Anne) Changeuse, em Toulon (Fiana), em 1928. onheceiam-se e casaram-se na frica, para onde Arme, 
com o dinheiro de um prmio literrio, viajara como jornalista. Serge era uma celebridade na poca: formado em geologia, mineralogia e qumica, cruzara o misterioso 
continente em busca de ouro e diamantes, acabando por participar da descoberta de estanho em Katanga (Zaire). Atrada por sua fama, Anne resolveu entrevist-lo.
  De volta  Frana, em 1952, j casados, tiveram a idia de escrever uma novela histrica ambientada no sculo XVII: Serge colhendo as informaes no Arquivo de 
Versalhes e Anne exercitando um talento para as letras manifestado j na infncia.
  O sucesso de Anglica, Marquesa dos Anjos, lanado em 1959, foi imediato, animando os autores a produzirem novos volumes. Estes, traduzidos para vrios idiomas 
e transpostos para o cinema, fizeram da herona uma das personagens mais famosas do mundo.
 




1
